As palavras de Francisco em discursos e homilias

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Em quase 160 discursos e mais de 200 homilias, Papa Francisco usou linguagem simples para abordar temas essenciais

Em um ano de pontificado, várias foram as mensagens de fé deixadas pelo Papa Francisco em seus quase 160 discursos e mais de 200 homilias. Em destaque, temas como a paz, diálogo inter-religioso, situação dos refugiados, dos pobres, a transmissão da fé. Foram falas revestidas por aquilo que Francisco vem enfatizando desde que foi eleito Bispo de Roma: a cultura do encontro.

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Em meio a tantas reflexões, algumas se destacaram pela ênfase dada pelo Santo Padre. Quem não se lembra da homilia marcante de Francisco na visita a Lampedusa em julho do ano passado. A ilha italiana recebe contínuos desembarques de migrantes, sobretudo provenientes da África, e sofre com naufrágios e conseqüentes mortes. Na ocasião, o Papa fez uma dura crítica ao que chamou de “globalização da indiferença”:

“A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, nos torna insensíveis ao grito dos outros, nos faz viver em bolhas de sabão, que são belas, mas são nada, são uma ilusão de futilidade, do provisório, que leva à indiferença para com os outros, leva até mesmo à globalização da indiferença” (Acesse íntegra da homilia)

Dificuldades sociais

Francisco também apresentou palavras enfáticas em seu discurso no Centro de Refugiados Astalli, em Roma.  Ele lamentou a situação de tantos refugiados que, ao buscarem um futuro melhor, acabam se deparando com situações de vida degradantes.

Já na visita a Cagliari, em 22 de setembro, o Papa mostrou sua preocupação com as dificuldades sociais, em especial a falta de trabalho.

“Onde não há trabalho, falta a dignidade! E este não é um problema unicamente da Sardenha (…) mas é a consequência de uma escolha mundial, de um sistema econômico que leva a esta tragédia; de um sistema econômico que tem no centro um ídolo, que se chama dinheiro”, disse o Papa em seu discurso no encontro com trabalhadores.

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Papa saúda população de Cagliari, na região italiana de Sardenha. Foto: Canção Nova Roma

Em homilia nesta mesma cidade italiana, o Santo Padre recorreu à imagem figurada do olhar de Maria para mostrar como os fiéis devem olhar para seu irmão e saber acolhê-lo em suas necessidades.

“Olhemo-nos de modo mais fraterno! Maria nos ensina a ter aquele olhar que busca acolher, acompanhar, proteger. Aprendamos a olhar-nos uns aos outros sob o olhar materno de Maria!” (Acesse íntegra da homilia)

Na visita a Assis, em outubro, a atenção com os pobres e um apelo para que o homem se livre do mundanismo, que leva à vaidade, ao orgulho, à arrogância. “Mundanismo espiritual mata! Ele mata a alma! Mata a pessoa! Mata a Igreja” (Acesse íntegra do discurso)

Transmissão da fé

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Na festa do Batismo do Senhor, Francisco enfatizou que pais e padrinhos devem transmitirem a fé às crianças / Foto: Arquivo-Reprodução CTV

Às vezes, o Papa fala muito em poucas palavras. Em janeiro deste ano, na Festa do Batismo do Senhor, Francisco fez uma homilia breve, mas deixou uma mensagem profunda sobre a importância do Batismo. Em uma única frase, ele resumiu sua mensagem aos pais e padrinhos presentes na celebração:

“Eu gostaria de dizer-vos somente isso: vocês são aqueles que transmitem a fé; vocês têm o dever de transmitir a fé a estas crianças. É a mais bela herança que vocês deixarão para elas: a fé! Somente isto” (Acesse a íntegra da homilia)

Dom da unidade

Reunido pela primeira vez com o corpo diplomático creditado junto à Santa Sé, em março de 2013, Francisco falou da pessoa do Papa como o homem que constroi pontes – “o Pontífice”.

“Desejo precisamente que o diálogo entre nós ajude a construir pontes entre todos os homens, de tal modo que cada um possa encontrar no outro, não um inimigo nem um concorrente, mas um irmão que se deve acolher e abraçar” (Acesse a íntegra do discurso)

Ainda falando aos embaixadores, Francisco utilizou o tradicional encontro de início de ano, em 2014, com o corpo diplomático para destacar a preocupação com a violência e exortar, mais uma vez, à cultura do encontro. (Acesse a íntegra do discurso)

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Francisco tem clareza sobre sua missão

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Completa-se o primeiro ano de Pontificado do Papa Francisco. A fumaça branca da Capela Sistina, na noite chuvosa e fria de 13 de março de 2013, preparou à multidão ansiosa da praça de São Pedro uma bela surpresa: o novo Bispo de Roma e Sucessor do apóstolo Pedro, colocado no centro da Igreja Católica, era um cardeal que vinha “quase do fim do mundo”! Jorge Mário Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, que escolheu para si o nome de Francisco.

Passados os primeiros momentos de encantamento, o Papa Francisco começou logo a mostrar seu estilo, seu jeito latino-americano, seu desejo de servir a Igreja Católica e a humanidade de corpo e alma. Tantos detalhes chamaram a atenção, como a moradia na Casa Santa Marta, em vez do palácio apostólico; a dispensa de muitos protocolos; seu jeito de pastor de almas; a forma direta e simples de falar…

Mas tudo isso, embora significativo, ainda não diz tudo sobre a novidade do primeiro papa não europeu, depois de muitos séculos, primeiro latino-americano, primeiro papa jesuíta, com jeito de franciscano… Francisco tem clareza sobre sua missão mais urgente, na condição de Sucessor de Pedro: confirmar os irmãos na fé, reanimá-los, dar-lhes novamente certeza e segurança interior, superar certo desalento e baixa auto-estima na Igreja, restituir ao povo católico a alegria do Evangelho, a identificação com a própria Igreja e o senso de pertença a ela.

Sabe que sua missão é resgatar a credibilidade da Igreja, ferida por muitos escândalos decorrentes de pecados e fraquezas daqueles que deveriam ser reconhecidos como testemunhas fidedignas do Evangelho da vida e da esperança diante do mundo… Francisco sabe que esta credibilidade só é recuperada com a retidão de intenções e atitudes, amor à verdade e sincera humildade. E ele convidou todos os membros da Igreja a fazerem isso, empreendendo um verdadeiro caminho de conversão a Cristo e seu Evangelho.

Muitos, talvez, esperavam imediatas e até espetaculares reformas na Cúria Romana e nos organismos de governo, que ajudam o Papa em sua missão universal. Francisco começou pedindo reformas nas atitudes e nas disposições de todos os filhos da Igreja; as reformas administrativas da Santa Sé chegam aos poucos e as da Cúria romana ainda devem chegar.

Ninguém tenha a ilusão de que, na Igreja, tudo depende só da Cúria romana; Francisco tem falado mais vezes da necessária participação de todos e que cada membro da Igreja faça bem a sua parte, em vista da saúde do corpo inteiro.

Francisco quer uma Igreja que não seja auto-referencial, nem fechada sobre si mesma, mas discípula de Cristo e servidora do Evangelho para o mundo. Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (“A Alegria do Evangelho”), ele apresentou as prioridades da missão evangelizadora no mundo atual: católicos felizes e agradecidos pela fé, percebida como dom precioso a ser compartilhado generosamente; uma Igreja que se faz missionária e se coloca em estado permanente de missão; a conversão constante ao autêntico espírito do Evangelho e a superação do “espírito mundano”, constante tentação para os cristãos e a Igreja; a saída para as periferias humanas e sociais e a solidariedade concreta em relação aos pobres.

Há muito para se fazer! Coragem, Papa Francisco, coragem! Deus o ilumine e guarde! E nós, além da admiração pelo Papa vindo da América Latina, também o acompanhemos neste esforço. Coragem, povo de Deus, coragem!

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo