24 horas para o Senhor: homilia do Papa na celebração penitencial

brasão do Papa Francisco

HOMILIA
Celebração penitencial – “24 horas para o Senhor”
Basílica Vaticana
Sexta-feira, 4 de março de 2016

«Que eu veja de novo» (Mc 10, 51): este é o pedido que queremos fazer hoje ao Senhor. Ver de novo, depois de os nossos pecados nos terem feito perder de vista o bem e desviar da beleza da nossa vocação, levando-nos a vagar longe da meta.

Este trecho do Evangelho possui um grande valor simbólico e existencial, porque cada um de nós se encontra na situação de Bartimeu. A sua cegueira levara-o à pobreza e a viver na periferia da cidade, dependendo em tudo dos outros. Também o pecado tem este efeito: empobrece-nos e isola-nos. É uma cegueira do espírito que impede de ver o essencial, fixar o olhar no amor que dá a vida; e, aos poucos, leva a deter-se no que é superficial até deixar insensíveis aos outros e ao bem. Quantas tentações têm a força de anuviar a vista do coração e torná-lo míope! Como é fácil e errado crer que a vida dependa do que se possui, do sucesso ou do aplauso que se recebe; que a economia seja feita apenas de lucro e consumo; que as pretensões próprias devam prevalecer sobre a responsabilidade social! Olhando apenas para o nosso eu, tornamo-nos cegos, amortecidos e fechados em nós mesmos, sem alegria nem verdadeira liberdade.

Mas Jesus passa; passa, mas detém o passo: «parou», diz o Evangelho (v. 49). Então um frémito atravessa o coração, porque nos damos conta de ser contemplados pela Luz, por aquela Luz gentil que nos convida a não ficar fechados nas nossas cegueiras tenebrosas. A presença de Jesus perto de nós faz sentir que, longe d’Ele, falta-nos qualquer coisa importante: faz-nos sentir necessitados de salvação; e isto é o princípio da cura do coração. Depois, quando o desejo de ser curado ganha audácia, leva a rezar, a gritar, com força e insistência, por ajuda, como faz Bartimeu: «Jesus, Filho de David, tem misericórdia de mim!» (v. 47).

Infelizmente, há sempre alguém (o Evangelho fala de «muitos») que não quer parar, não quer ser incomodado por quem grita a sua aflição, preferindo mandar calar e repreender o pobre que chateia (cf. v. 48). É a tentação de prosseguir como se nada tivesse acontecido; mas, assim, afastamo-nos do Senhor e deixamos afastados de Jesus também os outros. Reconheçamos todos que somos mendigos do amor de Deus, e não deixemos escapar o Senhor que passa. «Timeo transeuntem Dominum – temo que o Senhor passe» (Santo Agostinho). Demos voz ao nosso desejo mais verdadeiro: «[Jesus], que eu veja de novo!» (v. 51). Este Jubileu da Misericórdia é tempo favorável para acolher a presença de Deus, experimentar o seu amor e voltar a Ele de todo o coração. Como Bartimeu, joguemos fora a capa e ponhamo-nos de pé (cf. v 50), ou seja, joguemos fora aquilo que nos impede de caminhar rapidamente para Ele, sem medo de deixar aquilo que nos dá segurança e a que estamos presos; não fiquemos sentados, ergamo-nos, recuperemos a nossa estatura espiritual, a dignidade de filhos amados que estão diante do Senhor para que Ele nos fixe nos olhos, nos perdoe e recrie. A palavra que, talvez, hoje chega ao nosso coração é a mesma da criação do homem: levante-te, Deus te criou em pé. Levanta-te!

Hoje mais do que nunca, sobretudo nós, pastores, somos chamados também a escutar o grito, talvez abafado, de quantos desejam encontrar o Senhor. Somos obrigados a rever comportamentos que, às vezes, não ajudam os outros a aproximar-se de Jesus; horários e programas que não atendem às reais necessidades daqueles que poderiam aproximar-se do confessionário; regras humanas, quando valem mais do que o desejo de perdão; nossa rigidez que poderia manter longe da ternura de Deus. Certamente não devemos diminuir as exigências do Evangelho, mas não podemos correr o risco de frustrar o desejo que tem o pecador de reconciliar-se com o Pai, porque o regresso do filho a casa é o que acima de tudo anseia o Pai (cf. Lc 15, 20-32).

Que as nossas palavras sejam as dos discípulos que, repetindo as próprias expressões de Jesus, dizem a Bartimeu: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te» (v. 49). Somos enviados para dar coragem, amparar e levar a Jesus. O nosso ministério é o ministério do acompanhamento, de modo que o encontro com o Senhor seja pessoal, íntimo, e o coração possa, com sinceridade e sem medo, abrir-se ao Salvador. Não esqueçamos jamais: o único que age em cada pessoa é Deus. No Evangelho, é Ele que pára e pergunta pelo cego; é Ele que ordena que Lho tragam; é Ele que o escuta e cura. Fomos escolhidos para suscitar o desejo da conversão, ser instrumentos que facilitam o encontro, estender a mão e absolver, tornando visível e operante a sua misericórdia. Que cada homem e mulher que se aproxime do confessionário encontre um pai, encontre um pai que lhe espera, que encontre o Pai que perdoa.

A conclusão do episódio evangélico é densa de significado: Bartimeu «logo recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho» (v. 52). Também nós, quando nos abeiramos de Jesus, vemos de novo a luz para olhar o futuro com confiança, encontramos a força e a coragem para nos pormos a caminho. Com efeito, «quem acredita, vê» (Enc. Lumen fidei, 1) e avança com esperança, porque sabe que o Senhor está presente, ampara e guia. Sigamo-Lo, como discípulos fiéis, para tornar participantes da alegria do seu amor misericordioso a quantos encontrarmos no nosso caminho. E depois do perdão do Pai, façamos festa no nosso coração, porque Ele faz festa.

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Discurso do Papa a biblistas italianos: o valor da exegese

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DISCURSO
Audiência com a Associação Bíblica Italiana
Sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Queridos amigos,

Encontro-vos ao término da Semana Bíblica Nacional, promovida pela Associação Bíblica Italiana. Esse vosso encontro inaugura as celebrações para o 50º aniversário da Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II. Devemos ser gratos pelas aberturas que, como fruto de um longo esforço de pesquisa, ofereceu-nos o Concílio, bem como pela abundância e facilidade de acesso à Sagrada Escritura. O cristão precisa dela hoje mais do que nunca, solicitado como é pelas contrastantes provocações culturais. A fé, para resplandecer, para não ser sufocada, deve ser alimentada constantemente pela Palavra de Deus.

Exprimo-vos a minha estima e o meu reconhecimento pelo trabalho precioso que vocês desenvolvem no vosso ministério de docentes e de estudiosos da Bíblia. Além disso, este encontro me oferece a oportunidade de confirmar, em continuidade com o Magistério da Igreja, a importância da exegese bíblica para o Povo de Deus. Podemos recordar o que foi afirmado pela Pontifícia Comissão Bíblica: “A exegese bíblica – cito – cumpre, na Igreja e no mundo, uma tarefa indispensável. Querer fazer menos dessa para compreender a Bíblia seria uma ilusão e demonstraria uma falta de respeito pela Escritura inspirada […] Para falar aos homens e às mulheres, deste o tempo do Antigo Testamento, Deus explorou todas as possibilidades da linguagem humana, mas ao mesmo tempo teve que submeter sua Palavra a todos os condicionamentos desta linguagem. O verdadeiro respeito pela Escritura inspirada exige que se realizem todos os esforços necessários para que se possa compreender bem o seu significado. Certo, não é possível que cada cristão faça pessoalmente as pesquisas de todo tipo que permitam compreender melhor os textos bíblicos. Esta tarefa é confiada aos exegetas, responsáveis, neste setor, pelo bem de todos” (A interpretação da Bíblia na Igreja, 15 de abril de 1993, Conclusão).

Justamente encontrando os membros da Pontifícia Comissão Bíblica, em ocasião da apresentação do Documento citado, São João Paulo II recordou que “para respeitar a coerência da fé da Igreja e da inspiração da Escritura, a exegese católica deve estar atenta a não se ater aos aspectos humanos dos textos bíblicos. É necessário que ela, também e sobretudo, ajude o povo cristão a perceber em um modo mais claro a palavra de Deus nesses textos, para melhor acolhê-la, para viver plenamente em comunhão com Deus” (L’Osservatore Romano, 25 de abril de 1993, p. 9). Para tal escopo, é necessário naturalmente que o mesmo exegeta saiba perceber nos textos a Palavra divina e isto é possível somente se a sua vida espiritual é férvida, rica de diálogo com o Senhor; do contrário a pesquisa exegética se torna incompleta, perde de vista o seu objetivo principal.

Na conclusão do Documento, há uma expressão muito eficaz: “A exegese católica não tem o direito de se assemelhar a um curso d’água que se perde nas areias de uma análise hipercrítica”

Por isso, além da competência acadêmica, ao exegeta católico é pedido também e sobretudo a fé, recebida e partilhada com todo o povo que crê, que na sua totalidade não pode errar. Refiro-me novamente às palavras de João Paulo II: “Para chegar a uma interpretação plenamente válida das palavras inspiradas pelo Espírito Santo, devemos nós mesmos sermos guiados pelo Espírito Santo, por isso é preciso rezar, rezar muito, pedir na oração a luz interior do Espírito e acolher docilmente esta luz, pedir o amor, que só nos torna capazes de compreender a linguagem de Deus, que é amor (1 Jo 4, 8.16)” (Oss. Romano, 25 de abril de 1993, p. 9).

O modelo é a Virgem Maria, da qual São Lucas nos refere que meditava no seu coração as palavras e os acontecimentos que se referiam ao seu Filho Jesus (cfr 2, 19). Nossa Senhora nos ensina a acolher plenamente a Palavra de Deus, não somente através da busca intelectual, mas em toda a nossa vida.

Queridos irmãos e irmãs, agradeço-vos mais uma vez, abençoo vocês e o vosso trabalho e vos peço o favor de rezarem por mim.

Encontro do Papa com jovens da Ásia – 15/08/2014

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Viagem apostólica à Coreia do Sul
Encontro com os jovens da Ásia
Santuário de Solmoe
Sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Queridos jovens amigos!

«É bom para nós estarmos aqui!» (Mt 17, 4). Estas palavras foram pronunciadas por São Pedro, no Monte Tabor, quando se viu na presença de Jesus transfigurado em glória. É verdadeiramente bom para nós estarmos aqui, juntos, neste Santuário dos Mártires Coreanos, nos quais se revelou a glória do Senhor na aurora da vida da Igreja neste país. Nesta grande assembleia, que reúne jovens cristãos da Ásia inteira, de certo modo podemos pressentir a glória de Jesus presente no meio de nós, presente na sua Igreja que abraça toda a nação, língua e povo, presente com a força do seu Santo Espírito que faz novas, jovens e vivas todas as coisas.

Agradeço a vossa calorosa recepção, o dom do vosso entusiasmo, os cânticos cheios de alegria, os testemunhos de fé e as lindas expressões da variedade e riqueza das vossas diferentes culturas. De modo particular, agradeço aos três jovens que partilharam comigo as vossas esperanças, inquietações e preocupações. Escutei-as atentamente e guardo-as no meu íntimo. Agradeço a Dom Lazzaro You Heung-sik as suas palavras de boas-vindas e vos saúdo a todos do fundo do coração.

Nesta tarde, quero deter-me a reflectir convosco sobre uma parte do tema desta VI Jornada Asiática da Juventude: «A glória dos Mártires resplandece sobre vós». Tal como o Senhor fez resplandecer a sua glória no testemunho heróico dos mártires, do mesmo modo deseja que a sua glória resplandeça na vossa vida e, por vosso intermédio, deseja iluminar a vida deste grande Continente. Hoje Cristo bate à porta do vosso coração; convida a levantar-vos, a permanecer bem despertos e atentos, a ver as coisas que verdadeiramente contam na vida. Mais ainda! Pede-vos para irdes pelas estradas e caminhos deste mundo e baterdes à porta do coração dos outros, convidando-os a recebê-Lo na sua vida.

Este grande encontro dos jovens da Ásia permite-nos vislumbrar algo daquilo que a própria Igreja é chamada a ser no projecto eterno de Deus. Juntamente com os jovens de toda a parte, quereis empenhar-vos na construção de um mundo onde todos vivam juntos em paz e amizade, superando as barreiras, recompondo as divisões, rejeitando a violência e os preconceitos. Isto é justamente o que Deus quer de nós. A Igreja é germe de unidade para a família humana inteira. Em Cristo, todas as nações e povos são chamados a uma unidade que não destrói a diversidade, mas a reconhece, harmoniza e enriquece.

Como está longe desta magnífica visão e deste projecto o espírito do mundo! Quantas vezes nos parece que as sementes de bem e de esperança que procuramos semear acabam sufocadas pelos cardos do egoísmo, da inimizade e da injustiça; e não só ao redor de nós, mas também nos nossos corações. Preocupa-nos o desnível crescente entre ricos e pobres nas nossas sociedades. Vemos sinais de idolatria da riqueza, do poder e do prazer, que se obtêm com custos altíssimos para a vida humana. Ao nosso lado, muitos dos nossos amigos e coetâneos, embora rodeados de grande prosperidade material, sofrem de pobreza espiritual, solidão e silencioso desespero. Parece quase que Deus fora removido deste horizonte; é como se um deserto espiritual se estivesse propagando em todo o mundo. Este deserto atinge também os jovens, roubando-lhes a esperança e, em demasiados casos, até a própria vida.

E, no entanto, este é o mundo aonde estais chamados a ir testemunhar o Evangelho da esperança, o Evangelho de Jesus Cristo e a promessa do seu Reino. Nas suas parábolas, Jesus ensina-nos que o Reino entra no mundo de forma humilde, e desenvolve-se silenciosa e constantemente onde é acolhido por corações abertos à sua mensagem de esperança e salvação. O Evangelho ensina-nos que o Espírito de Jesus pode trazer nova vida ao coração de todo o homem e transformar qualquer situação, mesmo aquela aparentemente sem esperança. Esta é a mensagem que sois chamados a partilhar com os vossos coetâneos: na escola, no mundo do trabalho, nas vossas famílias, nas universidades e nas vossas comunidades. Em virtude de Jesus ter ressuscitado dos mortos, sabemos que Ele tem «palavras da vida eterna» (Jo 6, 68) e que a sua palavra tem o poder de tocar todo o coração, vencer o mal com o bem, mudar e redimir o mundo.

Queridos jovens amigos, neste nosso tempo, o Senhor conta convosco! Ele entrou nos vossos corações no dia do vosso Baptismo; deu-vos o seu Espírito no dia da vossa Crisma; fortalece-vos constantemente através da sua presença na Eucaristia, para poderdes ser suas testemunhas diante do mundo. Estais prontos a dizer «sim» a Ele? Estais prontos?

Deixai-me oferecer-vos três sugestões sobre o modo como podereis ser testemunhas autênticas e jubilosas do Evangelho. Reflecti sobre as mesmas e procurai fazer delas a vossa regra de vida.

Em primeiro lugar, confiai na força que Cristo vos dá! Nunca percais a esperança na verdade da sua palavra e na força da sua graça. Fostes baptizados na sua passagem da morte para a vida e confirmados na força do Espírito Santo que habita nos vossos corações. Nunca duvideis desta força espiritual!

Em segundo lugar, permanecei junto do Senhor através da oração diária. Adorai a Deus. Não vos esqueçais de adorar o Senhor. O seu Espírito eleve os vossos corações e vos ajude a conhecer e fazer a vontade do Pai. Extraí alegria e força da Eucaristia. Os vossos corações mantenham-se puros e bem orientados mediante a recepção frequente do sacramento da Penitência. Desejo que a vossa participação na vida das vossas paróquias seja activa e generosa; e não esqueçais também o Evangelho do amor, da caridade, tomando parte, como melhor puderdes, nas iniciativas de caridade.

E por último, no meio de tantas luzes contrárias ao Evangelho, desejo que os vossos pensamentos, palavras e acções sempre sejam guiados pela sabedoria da palavra de Cristo e pela força da sua verdade. Ele vos ensinará a avaliar bem todas as coisas e a conhecer cada dia o seu projecto para vós. Se vos chamar a servi-Lo no sacerdócio ou na vida religiosa, dar-vos-á a graça para não terdes medo de Lhe dizer sim! Ele vos mostrará o caminho para a verdadeira felicidade e a plena realização.

Mas agora tenho de vos deixar. Ficarei feliz em vos rever nestes dias e de vos falar de novo no domingo, quando nos reunirmos para a Santa Missa. Entretanto agradeçamos ao Senhor pelos dons que nos concedeu neste tempo que passamos juntos e peçamos-Lhe a força para sermos fiéis e jubilosas testemunhas do seu amor por toda a parte da Ásia e do mundo inteiro.

Maria, nossa Mãe, vos proteja e nos mantenha sempre perto de Jesus, seu Filho. E, do Céu, vos acompanhe também São João Paulo II, o iniciador das Jornadas Mundiais da Juventude. Com grande afecto, concedo a todos vós a minha bênção.

Reflexão no encontro com religiosos na igreja do Getsêmani

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VIAGEM DO PAPA À TERRA SANTA
REFLEXÃO
Encontro com sacerdotes, religiosos, religiosas e seminaristas na igreja do Getsêmani
Segunda-feira, 26 de maio de 2014

«[Jesus] saiu então e foi (…) para o Monte das Oliveiras. E os discípulos seguiram também com Ele» (Lc 22, 39).

Quando chega a hora marcada por Deus para salvar a humanidade da escravidão do pecado, Jesus retira-Se aqui, no Getsémani, ao pé do Monte das Oliveiras. Encontramo-nos neste lugar santo, santificado pela oração de Jesus, pela sua angústia, pelo seu suor de sangue; santificado sobretudo pelo seu «sim» à vontade amorosa do Pai. Quase sentimos temor de abeirar-nos dos sentimentos que Jesus experimentou naquela hora; entramos, em pontas de pés, naquele espaço interior, onde se decidiu o drama do mundo.

Naquela hora, Jesus sentiu a necessidade de rezar e ter perto d’Ele os seus discípulos, os seus amigos, que O tinham seguido e partilhado mais de perto a sua missão. Mas o seguimento aqui, no Getsémani, torna-se difícil e incerto; prevalecem a dúvida, o cansaço e o pavor. Na rápida sucessão dos eventos da paixão de Jesus, os discípulos assumirão diferentes atitudes perante o Mestre: de proximidade, de distanciamento, de incerteza.

Será bom para todos nós – bispos, sacerdotes, pessoas consagradas, seminaristas – perguntarmo-nos neste lugar: Quem sou eu perante o meu Senhor que sofre?

Sou daqueles que, convidados por Jesus a velar com Ele, adormecem e, em vez de rezar, procuram evadir-se fechando os olhos frente à realidade?

Reconheço-me naqueles que fugiram por medo, abandonando o Mestre na hora mais trágica da sua vida terrena?

Porventura há em mim a hipocrisia, a falsidade daquele que O vendeu por trinta moedas, que fora chamado amigo e no entanto traiu Jesus?

Reconheço-me naqueles que foram fracos e O renegaram, como Pedro? Pouco antes, ele prometera a Jesus segui-Lo até à morte (cf. Lc 22, 33); depois, encurralado e dominado pelo medo, jura que não O conhece.

Assemelho-me àqueles que já organizavam a sua vida sem Ele, como os dois discípulos de Emaús, insensatos e de coração lento para acreditar nas palavras dos profetas (cf. Lc 24, 25)?

Ou então, graças a Deus, encontro-me entre aqueles que foram fiéis até ao fim, como a Virgem Maria e o apóstolo João? No Gólgota, quando tudo se torna escuro e toda a esperança parece extinta, somente o amor é mais forte que a morte. O amor de Mãe e do discípulo predilecto impele-os a permanecerem ao pé da cruz, para compartilhar até ao fundo o sofrimento de Jesus.

Reconheço-me naqueles que imitaram o seu Mestre e Senhor até ao martírio, dando testemunho que Ele era tudo para eles, a força incomparável da sua missão e o horizonte último da sua vida?

A amizade de Jesus por nós, a sua fidelidade e a sua misericórdia são o dom inestimável que nos encoraja a continuar, com confiança, a segui-Lo, apesar das nossas quedas, erros e traições.

Todavia esta bondade do Senhor não nos isenta da vigilância frente ao tentador, ao pecado, ao mal e à traição que podem atravessar também a vida sacerdotal e religiosa. Sentimos a desproporção entre a grandeza da chamada de Jesus e a nossa pequenez, entre a sublimidade da missão e a nossa fragilidade humana. Mas o Senhor, na sua grande bondade e infinita misericórdia, sempre nos toma pela mão, para não nos afogarmos no mar do acabrunhamento. Ele está sempre ao nosso lado, nunca nos deixa sozinhos. Portanto, não nos deixemos vencer pelo medo e o desalento, mas, com coragem e confiança, sigamos em frente no nosso caminho e na nossa missão.

Vós, amados irmãos e irmãs, sois chamados a seguir o Senhor com alegria nesta Terra bendita! É um dom e uma responsabilidade. A vossa presença aqui é muito importante; toda a Igreja vos está agradecida e apoia com a oração.

Deste lugar santo quero dirigir uma saudação a todos os cristãos de Jerusalém. Recordo-os com afeto e rezo por eles.

Imitemos a Virgem Maria e São João, permanecendo junto das muitas cruzes onde Jesus ainda está crucificado. Esta é a estrada pela qual o nosso Redentor nos chama a segui-Lo. Não há outra, é esta.

«Se alguém Me serve, que Me siga, e onde Eu estiver, aí estará também o meu servo» (Jo 12, 26).

Palavras do Papa no início do Consistório – 20/02/14

Palavras do Papa no início do Consistório - 20/02/14

PALAVRAS DO PAPA
Consistório Extraordinário do Colégio Cardinalício (20 a 21 de fevereiro de 2014)
Sala do Sínodo – Vaticano
Quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Caríssimos irmãos,

Saúdo-vos cordialmente e agradeço convosco ao Senhor que nos doa estes dias de encontro e de trabalho comum. Damos as boas vindas em particular aos irmãos que sábado serão criados cardeais e os acompanhamos com a oração e o afeto fraterno. Agradeço ao cardeal Sodano pelas suas palavras.

Nestes dias refletiremos em particular sobre a família, que é a célula fundamental da sociedade humana. Desde o início o Criador colocou sua benção sobre o homem e sobre a mulher a fim de que fossem fecundos e se multiplicassem sobre a terra, e assim a família representa no mundo como o reflexo de Deus, Uno e Trino.

A nossa reflexão terá sempre presente a beleza da família e do matrimônio, a grandeza desta realidade humana tão simples e ao mesmo tempo rica, feita de alegrias e esperanças, de cansaços e sofrimentos, como toda a vida. Procuraremos aprofundar a teologia da família e a pastoral que devemos atuar nas condições atuais. Façamo-lo com profundidade e sem cair na “casuística”, porque faria inevitavelmente abaixar o nível do nosso trabalho. A família hoje é desprezada, é maltratada, e o que nos é pedido é reconhecer como é belo, verdadeiro e bom formar uma família, ser família hoje; quanto é indispensável para a vida do mundo, para o futuro da humanidade. É pedido a nós colocar em evidência o luminoso plano de Deus sobre família e ajudar os esposos a vivê-lo com alegria em sua existência, acompanhando-os em tantas dificuldades, com uma pastoral inteligente, corajosa e cheia de amor.

Agradeço em nome de todos ao Cardeal Walter Kasper pela preciosa contribuição que nos oferece com a sua introdução.

Agradeço a todos e bom dia de trabalho.

Discurso do Papa aos fiéis greco-católicos ucranianos – 25/11/2013

Discurso do Papa aos fiéis greco-católicos ucranianos

DISCURSO
Audiência com peregrinos greco-católicos ucranianos em ocasião do 50º Aniversário da deposição das relíquias de São Josafá na Basílica Vaticana
Basílica Vaticana
Segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Queridos peregrinos vindos da Ucrânia,

Acolhi com muito prazer o convite de Sua Beatitude Sviatoslav Shevchuk, Arcebispo Maior de Kyiv-Halyč, e do Sínodo da Igreja greco-católica ucraniana a unir-me com vocês nesta peregrinação ao túmulo de São Josafá, Bispo e Mártir, no quinquagésimo aniversário do translado de suas relíquias nesta Basílica Vaticana. Acolho com alegria também a delegação dos Bizantinos de Bielorussia.

O Papa Paulo VI, em 22 de novembro de 1963, fez colocar o corpo de São Josafá sob o altar dedicado a São Basílio Magno, perto do túmulo de São Pedro. O santo mártir ucraniano, de fato, escolheu abraçar a vida monástica segundo a Regra basiliana. E o fez por todo o caminho, empenhando-se também para a reforma da própria Ordem de pertença, reforma que levou ao nascimento da Ordem Basiliana de São Josafá. Ao mesmo tempo, primeiro como simples fiel, depois como monge e por fim como arcebispo de Polotsk, ele empenhou todas as suas forças para a união da Igreja sob a orientação de Pedro, Príncipe dos Apóstolos.

Queridos irmãos e irmãs, a memória deste santo Mártir nos fala da comunhão dos santos, da comunhão de vida entre todos aqueles que pertencem a Cristo. É uma realidade que nos faz provar a vida eterna, porque um aspecto importante da vida eterna consiste na alegre fraternidade de todos os santos. “Cada um amará o outro como a si mesmo – ensina São Tomás de Aquino – e por isso apreciará o bem dos outros como próprio. Assim, a alegria de um só será tanto maior quanto maior for a alegria de todos os outros bem-aventurados” (Conferência sobre o Credo).

Se tal é a comunhão da Igreja, todo aspecto da nossa vida cristã pode ser animado pelo desejo de construir junto, de colaborar, de aprender uns com os outros, de testemunhar a fé juntos. Acompanha-nos neste caminho, e é o centro deste caminho, Jesus Cristo, o Senhor Ressuscitado. Este desejo de comunhão nos impele a procurar entender o outro, a respeitá-lo e também a acolhê-lo e oferecer a correção fraterna.

Queridos irmãos e irmãs, o melhor modo de celebrar São Josafá é amar-nos entre nós e amar e servir a unidade da Igreja. Apoia-nos nisto também o testemunho corajoso de tantos mártires dos tempos mais recentes, que constituem uma grande riqueza e um grande conforto para a vossa Igreja.

Desejo que a comunhão profunda que vocês desejam aprofundar a cada dia dentro da Igreja católica ajude vocês a construir pontes de fraternidade também com outras Igrejas e Comunidades eclesiais em terra ucraniana e em outros lugares, onde as vossas comunidades estão presentes. Com a intercessão da Beata Virgem Maria e de São Josafá, o Senhor vos acompanhe sempre e vos abençõe!

Benção

E, por favor, não se esqueçam de rezar por mim. Obrigado!

Palavras do Papa aos voluntários do Ano da Fé – 25/11/13

Palavras do Papa aos voluntários do Ano da Fé - 25/11/13

PALAVRAS DO PAPA
Audiência com voluntários que prestaram serviço na organização do Ano da Fé
Sala Clementina – Palácio Apostólico Vaticano
Segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

O Ano da Fé, que se concluiu ontem, foi para os crentes uma ocasião providencial para reavivar a chama da fé, aquela chama que nos foi confiada no dia do Batismo, para que fosse por nós protegida e partilhada. Durante este Ano, Ano especial, vocês gastaram com generosidade parte do vosso tempo e das vossas capacidades, especialmente a serviço dos percursos espirituais propostos aos vários grupos de fiéis com apropriadas iniciativas pastorais. Em nome da Igreja, agradeço-vos e, juntos, agradeçamos ao Senhor por todo o bem que nos dá para cumprir.

Neste tempo de graça, pudemos redescobrir o essencial do caminho cristão, no qual a fé, junto com a caridade, ocupa o primeiro lugar. A fé, de fato, é a pedra fundamental da experiência cristã, porque motiva as escolhas e os atos da nossa vida cotidiana. Esta é a veia inevitável de todo o nosso agir, em família, no trabalho, na paróquia, com os amigos, nos vários ambientes sociais. E esta fé sadia, genuína, se vê especialmente nos momentos de dificuldade e de prova: então o cristão se deixa levar pelos braços de Deus e se apega a Ele, com a segurança de confiar em um amor forte como rocha indestrutível. Propriamente nas situações de sofrimento, se nos abandonamos a Deus com humildade, podemos dar um bom testemunho.

Queridos amigos e amigas, o vosso precioso trabalho de voluntariado, para os vários eventos do Ano da Fé, deu a vocês a oportunidade de colher melhor que outros o entusiasmo das diversas categorias de pessoas envolvidas. Juntos devemos realmente louvar o Senhor pela intensidade espiritual e o ardor apostólico suscitados por tantas iniciativas pastorais promovidas nestes meses, em Roma e em toda parte do mundo. Somos testemunhas de que a fé em Cristo é capaz de aquecer os corações, tornando-se realmente a força motriz da nova evangelização. Uma fé vivida em profundidade e com convicção tende a abrir-se a vasto alcance ao anúncio do Evangelho. É esta fé que torna missionárias as nossas comunidades! E de fato há necessidade de comunidades cristãs empenhadas em um apostolado corajoso, que alcança as pessoas em seus ambientes, mesmo naqueles mais difíceis.

Esta experiência que vocês adquiriram no Ano da Fé ajuda antes de tudo vocês a abrir vocês mesmos e as vossas comunidades ao encontro com os outros. Isto é importante, eu diria essencial! Sobretudo abrir-se a quantos são pobres de fé e de esperança em suas vidas. Falamos tanto de pobreza, mas nem sempre pensamos nos pobres de fé: há tantos. São tantas as pessoas que precisam de um gesto humano, de um sorriso, de uma palavra verdadeira, de um testemunho através do qual colher a proximidade de Jesus Cristo. Não falte a ninguém este sinal de amor e de ternura que nasce da fé.

Agradeço-vos e invoco sobre vocês e suas famílias a benção do Senhor.