Catequese do Papa sobre duas obras de misericórdia espirituais

brasão do Papa Francisco

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Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Terminado o Jubileu, hoje voltamos ao normal, mas permanecem ainda algumas reflexões sobre obras de misericórdia, e assim continuamos sobre isso.

A reflexão sobre obras de misericórdia espirituais diz respeito hoje a duas ações fortemente ligadas entre si: aconselhar os que estão em dúvida e ensinar os ignorantes, isso é, aqueles que não sabem. A palavra ignorante é muito forte, mas quer dizer aqueles que não sabem algo e a quem se deve ensinar. São obras que podem ser vividas seja em uma dimensão simples, familiar, a todos, seja – especialmente a segunda, aquela de ensinar – em um plano mais institucional, organizado. Pensemos, por exemplo, em quantas crianças sofrem ainda de analfabetismo. Não se pode entender isso: em um mundo onde o progresso técnico-científico tenha chegado tão alto, há crianças analfabetas! É uma injustiça. Quantas crianças sofrem de falta de instrução. É uma condição de grande injustiça que afeta a dignidade da pessoa. Sem instrução, depois, torna-se fácil presa da exploração e de várias formas de mal-estar social.

A Igreja, ao longo dos séculos, sentiu a necessidade de se empenhar no âmbito da instrução, porque a sua missão de evangelizar comporta o empenho de restituir dignidade aos mais pobres. Do primeiro exemplo de uma “escola” fundada justamente aqui em Roma por São Justino, no segundo século, para que os cristãos conhecessem melhor a Sagrada Escritura, até São José Calasnanzio, que abriu as primeiras escolas populares gratuitas da Europa, temos um longo elenco de santos e santas que em várias épocas levaram instrução aos mais desfavorecidos, sabendo que através deste caminho poderiam superar a miséria e as discriminações. Quantos cristãos, leigos, irmãos e irmãs consagradas, sacerdotes, deram a própria vida na instrução, na educação das crianças e dos jovens. Isso é grande: eu vos convido a fazer uma homenagem a eles com um belo aplauso! [aplauso dos fiéis] Estes pioneiros da instrução tinham compreendido a fundo a obra de misericórdia e tinham feito um estilo de vida tal a transformar a mesma sociedade. Através de um trabalho simples e poucas estruturas, souberam restituir dignidade a tantas pessoas! E a instrução que davam era muitas vezes orientada também ao trabalho. Mas pensemos em São João Bosco, que preparava ao trabalho jovens de rua, com o oratório e depois com as escolas, os escritórios. Foi assim que surgiram muitas e diversas escolas profissionais, que habilitavam ao trabalho enquanto educavam aos valores humanos e cristãos. A instrução, portanto, é realmente uma peculiar forma de evangelização.

Mais cresce a instrução e mais as pessoas conquistam certezas e consciência de que todos temos necessidades na vida. Uma boa instrução nos ensina o método crítico, que compreende também um certo tipo de dúvida, útil a propor perguntas e verificar os resultados alcançados, em vista de um conhecimento maior. Mas a obra de misericórdia de aconselhar pessoas em dúvida não diz respeito a esse tipo de dúvida. Exprimir a misericórdia para os que estão em dúvida equivale, em vez disso, a aliviar aquele sofrimento que provém do medo e da angústia que são consequências da dúvida. É, portanto, um ato de verdadeiro amor com o qual se pretende apoiar uma pessoa na fraqueza provocada pela incerteza.

Penso que alguém poderia me perguntar: “Padre, mas eu tenho tantas dúvidas de fé, o que devo fazer? O senhor nunca tem dúvidas?” Tenho tantas… Certo que em alguns momentos a todos vêm as dúvidas! As dúvidas que tocam a fé, em sentido positivo, são um sinal de que queremos conhecer melhor e mais profundamente Deus, Jesus, e o mistério do seu amor por nós. “Mas, eu tenho esta dúvida: procuro, estudo, vejo ou peço conselho sobre como fazer”. Estas são dúvidas que fazem crescer! É um bem, portanto, que nos coloquemos perguntas sobre nossa fé, porque deste modo somos levados a aprofundá-la. As dúvidas, no entanto, devem também ser superadas. É necessário, para isso, escutar a Palavra de Deus e compreender quanto nos ensina. Um caminho importante que ajuda muito nisto é aquele da catequese, com a qual o anúncio da fé vem nos encontrar no concreto da vida pessoal e comunitária. E há, ao mesmo tempo, outro caminho igualmente importante, aquele de viver o mais possível a fé. Não façamos da fé uma teoria abstrata onde as dúvidas se multiplicam. Façamos, em vez disso, da fé a nossa vida. Procuremos praticá-la no serviço aos irmãos, especialmente os mais necessitados. E então tantas dúvidas desaparecem, porque sentimos a presença de Deus e a verdade do Evangelho no amor que, sem mérito nosso, habita em nós e partilhamos com os outros.

Como se pode ver, queridos irmãos e irmãs, também essas duas obras de misericórdia não estão distantes da nossa vida. Cada um de nós pode se empenhar em vivê-las para colocar em prática a palavra do Senhor quando diz que o mistério do amor de Deus não foi revelado aos sábios e aos inteligentes, mas aos pequenos (cfr Lc 10, 21; Mt 11, 25-26). Portanto, o ensinamento mais profundo que somos chamados a transmitir e a certeza mais segura para sair da dúvida é o amor de Deus com o qual fomos amados (cfr 1 Jo, 4, 10). Um amor grande, gratuito e dado para sempre. Deus nunca volta atrás com o seu amor! Vai sempre adiante e espera; doa para sempre o seu amor, do qual devemos sentir forte a responsabilidade, para sermos testemunhas oferecendo misericórdia aos nossos irmãos. Obrigado.

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Catequese do Papa: acolher os estrangeiros e vestir os nus

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Prosseguimos na reflexão sobre as obras de misericórdias corporais, que o Senhor Jesus nos entregou para manter sempre viva a dinâmica da nossa fé. Essas obras, de fato, deixam evidente que os cristãos não estão cansados ou preguiçosos à espera do encontro final com o Senhor, mas todos os dias vão ao seu encontro, reconhecendo a sua face naquela de tantas pessoas que pedem ajuda. Hoje nos concentramos nesta palavra de Jesus: “Era estrangeiro e me acolhestes, nu e me vestistes” (Mt 25, 35-36). Nos nossos tempos, é mais do que nunca atual a obra que diz respeito aos estrangeiros. A crise econômica, os conflitos armados e as mudanças climáticas levam tantas pessoas a emigrar. Todavia, as migrações não são um fenômeno novo, mas pertencem à história da humanidade. É falta de memória histórica pensar que essas são próprias dos nossos anos.

A Bíblia nos oferece tantos exemplos concretos de migrações. Basta pensar em Abraão. O chamado de Deus o leva a deixar o seu país para ir a outro: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar” (Gen 12, 1). E assim foi também para o povo de Israel, que do Egito, onde era escravo, seguiu marchando por 40 anos no deserto até que chegou à terra prometida por Deus. A própria Sagrada Família – Maria, José e o pequeno Jesus – foi obrigada a emigrar para fugir da ameaça de Herodes: “José se levantou, à noite, pegou o menino e sua mãe e se refugiou no Egito, onde permaneceu até a morte de Herodes” (Mt 2, 14-15). A história da humanidade é história de migrações: em todo lugar, não há povo que não tenha conhecido o fenômeno migratório.

Ao longo dos séculos, assistimos a grandes expressões de solidariedade, mesmo que não tenham faltado tensões sociais. Hoje, o contexto de crise econômica favorece, infelizmente, o emergir de atitudes de fechamento e não de acolhimento. Em algumas partes do mundo surgem muros e barreiras. Parece, às vezes, que a obra silenciosa de muitos homens e mulheres que, de diversos modos, estão fazendo o melhor para ajudar e assistir os refugiados e os migrantes é obscurecida pelo ruído de outros que dão voz a um instintivo egoísmo. Mas o fechamento não é a solução, antes, acaba por favorecer o tráfico criminoso. O único caminho de solução é aquele da solidariedade. Solidariedade com o migrante, solidariedade com o estrangeiro.

O empenho dos cristãos nesse campo é urgente hoje como no passado. Para olhar apenas ao século passado, recordamos a estupenda figura de Santa Francesca Cabrini, que dedicou a sua vida junto às suas companheiras aos migrantes rumo aos Estados Unidos da América. Também hoje precisamos destes testemunhos para que a misericórdia possa atingir tantos que estão na necessidade. É um empenho que envolve todos, ninguém excluído. As dioceses, as paróquias, os institutos de vida consagrada, as associações e os movimentos, como os cristãos em individual, todos somos chamados a acolher os irmãos e as irmãs que fogem da guerra, da fome, da violência e das condições de vida desumanas. Todos juntos somos uma grande força de apoio para quantos perderam casa, família, trabalho e dignidade. Há alguns dias, aconteceu uma pequena história, de cidade. Havia um refugiado que procurava um caminho e uma senhora se aproximou a ele e lhe disse: “O senhor procura algo?”. Estava sem sapatos aquele refugiado. E ele disse: “eu gostaria de ir a São Pedro para passar na Porta Santa”. E a senhora pensou: “Mas, não tem sapatos, como fará para caminhar?”. E chamou um táxi. Mas aquele migrante, aquele refugiado cheirava mal e o motorista do táxi quase não queria que fosse, mas no fim deixou que partisse no táxi. E a senhora, próxima a ele, lhe perguntou um pouco de sua história de refugiado e de migrante, ao longo da viagem: dez minutos para chegar até aqui. Este homem contou a sua história de dor, de guerra, de fome e porque havia fugido da sua pátria para migrar para cá. Quando chegaram, a mulher abriu a bolsa para pagar o taxista e o taxista, que no início não queria que esse migrante entrasse porque cheirava mal, disse à senhora: “Não, senhora, sou eu quem deve lhe pagar porque me fez ouvir uma história que mudou o meu coração”. Esta senhora sabia o que era a dor de um migrante, porque tinha sangue armênio e conhecia o sofrimento do seu povo. Quando fazemos algo parecido, no início recusamos porque é um pouco incômodo, “mas, cheira mal…”. Mas no fim, a história nos perfuma a alma e nos faz mudar. Pensem nessa história e pensemos o que podemos fazer pelos refugiados.

E a outra coisa é vestir quem está nu: o que quer dizer isso se não restituir dignidade a quem a perdeu? Certamente dando as roupas a quem não tem; mas pensemos também nas mulheres vítimas do tráfico jogadas às ruas, ou aos outros, muitos modos de usar o corpo humano como mercadoria, até mesmo menores. E assim, também não ter um trabalho, uma casa, um salário justo é uma forma de nudez, o ser discriminado pela raça, pela fé, são todas formas de “nudez”, diante das quais, como cristãos, somos chamados a estar atentos, vigilantes e prontos a agir.

Queridos irmãos e irmãs, não caiamos na armadilha de nos fecharmos em nós mesmos, indiferentes às necessidades dos irmãos e preocupados somente com os nossos interesses. É justamente na medida em que nos abrimos aos outros que a vida se torna fecunda, as sociedades conquistam a paz e as pessoas recuperam a sua plena dignidade. E não se esqueçam daquela senhora, não se esqueçam daquele migrante que cheirava mal e não se esqueçam do motorista de quem o migrante mudou a alma.

Catequese do Papa: visitar os doentes e os presos

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

A vida de Jesus, sobretudo nos três anos do seu ministério público, foi um incessante encontro com as pessoas. Entre essas, os doentes tiveram um lugar especial. Quantas páginas dos Evangelhos narram estes encontros! O paralítico, o cego, o leproso, o endemoniado, o epilético e inumeráveis doentes de todo tipo… Jesus se fez próximo a cada um deles e os curou com a sua presença e o poder da sua força de cura. Portanto, não pode faltar, entre as obras de misericórdia, aquela de visitar e assistir as pessoas doentes.

Junto a essas podemos inserir também aquela de estar próximo às pessoas que se encontram na prisão. De fato, seja os doentes seja os presos vivem uma condição que limita sua liberdade. E justamente quando nos falta, nos damos conta do quanto é preciosa! Jesus nos deu a possibilidade de sermos livres apesar dos limites da doença e das restrições. Ele nos oferece a liberdade que vem do encontro com Ele e do sentido novo que este encontro leva à nossa condição pessoal.

Com essas obras de misericórdia o Senhor nos convida a um gesto de grande humanidade: a partilha. Recordemos esta palavra: a partilha. Quem está doente, muitas vezes se sente sozinho. Não podemos esconder que, sobretudo nos nossos dias, justamente na doença se faz experiência mais profunda da solidão que atravessa grande parte da vida. Uma visita pode fazer a pessoa doente se sentir menos sozinha e um pouco de companhia é um ótimo remédio! Um sorriso, um carinho, um aperto de mão são gestos simples, mas tão importantes para quem sente estar abandonado em si mesmo. Quantas pessoas se dedicam a visitar os doentes nos hospitais ou em suas casas! É uma obra de voluntariado inestimável. Quando é feita no nome do Senhor, então se torna também expressão eloquente e eficaz de misericórdia. Não deixemos as pessoas doentes sozinhas! Não impeçamos que encontrem alívio e que nós sejamos enriquecidos pela proximidade a quem sofre. Os hospitais são verdadeiras “catedrais da dor”, onde, porém, se torna evidente também a força da caridade que sustenta e prova compaixão.

Da mesma forma, penso em quantos estão presos nos cárceres. Jesus não esqueceu nem mesmo eles. Colocando a visita aos presos entre as obras de misericórdia, convidou-nos, antes de tudo, a não nos fazermos juízes de ninguém. Certo, se alguém está na prisão é porque errou, não respeitou a lei e a convivência civil. Por isso está na prisão, está cumprindo a sua pena. Mas qualquer coisa que um preso possa ter feito, mesmo assim ele permanece sendo amado por Deus. Quem pode entrar no íntimo da sua consciência para entender o que passa? Quem pode compreender a dor e o remorso? É muito fácil lavar as mãos afirmando que errou. Um cristão é chamado a se encarregar disso, para que quem errou compreenda o mal feito e retorne a si mesmo. A falta de liberdade é, sem dúvida, uma das maiores privações para o ser humano. Se a isso se soma a degradação pelas condições muitas vezes privadas de humanidade em que essas pessoas se encontram a viver, então é realmente o caso em que o cristão se sente provocado a fazer de tudo para restituir a sua dignidade.

Visitar as pessoas no cárcere é uma obra de misericórdia que sobretudo hoje assume um valor particular pelas diversas formas de justicialismo a que estamos submetidos. Portanto, ninguém aponte o dedo para ninguém. Todos, em vez disso, nos tornemos instrumentos de misericórdia, com atitudes de partilha e de respeito. Penso muitas vezes nos presos… penso muitas vezes, os levo no coração. Pergunto-me o que os levaram a cometer crimes e como puderam ceder às diversas formas de mal. No entanto, juntamente com esses pensamentos, sinto que todos precisam de proximidade e de ternura, porque a misericórdia de Deus realiza prodígios. Quantas lágrimas vi escorrer nas faces dos prisioneiros que talvez nunca na vida tinham chorado; e isso somente porque se sentiram acolhidos e amados.

E não esqueçamos que também Jesus e os apóstolos fizeram experiência da prisão. Nos relatos da Paixão conhecemos os sofrimentos aos quais o Senhor foi submetido: capturado, arrastado como um criminoso, escarnecido, flagelado, coroado de espinhos… Ele, o único Inocente! E também São Pedro e São Paulo estiveram na prisão (cfr At 12,5; Fil 1, 12-17). Domingo passado – que foi o domingo do Jubileu dos Presos – à tarde veio me encontrar um grupo de prisioneiros de Pádua. Perguntei a eles o que fariam no dia seguinte, antes de retornar a Pádua. Disseram-me: “Iremos ao cárcere Mamertino para partilhar a experiência de São Paulo”. É belo, ouvir isso me fez bem. Estes prisioneiros queriam encontrar Paulo prisioneiro. É uma coisa bela, a mim fez bem. E também ali, na prisão, rezaram e evangelizaram. É comovente o trecho dos Atos dos Apóstolos em que é relatada a prisão de Paulo: se sentia só e desejava que algum dos amigos fosse lhe fazer uma visita (cfr 2 Tm 4, 9-15). Sentia-se sozinho porque a grande maioria tinha deixado-o sozinho… o grande Paulo.

Estas obras de misericórdia, como se vê, são antigas, mas sempre atuais. Jesus deixou o que estava fazendo para ir visitar a sogra de Pedro; uma obra antiga de caridade. Jesus a fez. Não caiamos na indiferença, mas nos tornemos instrumentos da misericórdia de Deus. Todos nós podemos ser instrumentos da misericórdia de Deus e isso fará mais bem a nós que aos outros, porque a misericórdia passa através de um gesto, uma palavra, uma visita e essa misericórdia é um ato para restituir alegria e dignidade a quem a perdeu.

  

 

 

Catequese do Papa – balanço da viagem a Geórgia e Azerbaijão

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

No fim de semana passado, fiz uma viagem apostólica a Georgia e Azerbaijão. Dou graças ao Senhor que me concedeu isso e renovo a expressão do meu reconhecimento às autoridades civis e religiosas desses dois países, em particular ao Patriarca de toda a Geórgia, Elias II – seu testemunho me fez tão bem ao coração e à alma – e ao xeque dos muçulmanos do Cáucaso. Um obrigado fraterno aos bispos, aos sacerdotes, aos religiosos e a todos os fiéis que me fizeram sentir seu caloroso afeto.

Essa viagem foi a continuação e a conclusão daquela realizada à Armênia, no mês de junho. De tal modo, pude – graças a Deus – realizar o projeto de visitar todos os três países caucasianos, para confirmar a Igreja católica que neles vive e para encorajar o caminho daquelas populações para a paz e a fraternidade. Evidenciavam também os dois motes desta última viagem: para a Geórgia “Pax vobis” e para o Azerbaijão “Somos todos irmãos”.

Ambos os países têm raízes históricas, culturais e religiosas muito antigas, mas ao mesmo tempo estão vivendo uma fase nova: de fato, todos os dois celebram neste ano o 25º da sua independência, tendo sido boa parte do século XX sob o regime soviético. E nessa fase esses encontram muitas dificuldades nos diversos âmbitos da vida social. A Igreja Católica é chamada a ser sempre presente, a ser próxima, especialmente no sinal da caridade e da promoção humana; e essa procura fazê-lo em comunhão com as outras Igrejas e Comunidades cristãs em diálogo com as outras comunidades religiosas, na certeza de que Deus é Pai de todos e nós somos irmãos e irmãs.

Na Geórgia, essa missão passa, naturalmente, pela colaboração com os irmãos ortodoxos, que formam a grande maioria da população. Por isso, foi um sinal muito importante o fato de que quando cheguei em Tbilisi foi me receber no aeroporto, junto com o presidente da República, também o venerado Patriarca Elias II. O encontro com ele naquela tarde foi comovente, bem como foi a seguida visita à Catedral Patriarcal, onde se venera a relíquia da túnica de Cristo, símbolo da unidade da Igreja. Esta unidade é corroborada pelo sangue de tantos mártires das diversas confissões cristãs. Entre as comunidades mais provadas, está a assiro-caldeia, com a qual vivi em Tbilisi um intenso momento de oração pela paz na Síria, no Iraque e em todo o Oriente Médio.

A Missa com os irmãos católicos da Geórgia – latinos, armênios e assiro-caldeus – foi celebrada na memória de Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira das missões: ela nos recorda que a verdadeira missão nunca é proselitismo, mas atração a Cristo a partir da forte união com Ele na oração, na adoração e na caridade concreta, que é serviço a Jesus presente nos pequeninos entre os irmãos. É aquilo que fazem os religiosos e as religiosas que encontrei em Tbilisi, bem como depois em Baku: fazem isso com a oração e com as obras caritativas e de promoção. Eu os encorajei a serem firmes na fé, com memória, coragem e esperança. E depois há as famílias cristãs: quão preciosa é sua presença de acolhimento, de acompanhamento, discernimento e integração na comunidade!

Esse estilo de presença evangélica como semente do Reino de Deus é, se possível, ainda mais necessária no Azerbaijão, onde a maioria da população é muçulmana e os católicos são poucas centenas, mas graças a Deus têm boas relações com todos, em particular mantêm vínculos fraternos com os cristãos ortodoxos. Por isso em Baku, capital do Azerbaijão, vivemos dois momentos que a fé sabe ter na justa relação: a Eucaristia e o encontro inter-religioso. A Eucaristia com a pequena comunidade católica, onde o Espírito harmoniza as diferentes línguas e dá a força do testemunho; e essa comunhão de Cristo não impede, antes, leva a procurar o encontro e o diálogo com todos aqueles que acreditam em Deus, para construir juntos um mundo mais justo e fraterno. Nesta perspectiva, dirigindo-me às autoridades azeris, fiz votos de que as questões abertas possam encontrar boas soluções e todas as populações caucásicas vivam na paz e no respeito recíproco.

Deus abençõe a Armênia, a Geórgia e o Azerbaijão e acompanhe o caminho do seu povo santo peregrino nesses países.

Catequese do Papa: “o perdão na cruz” – 28/09/16

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

As palavras que Jesus pronuncia durante a sua paixão encontram o seu ápice no perdão. Jesus perdoa: “Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Não são apenas palavras, porque se tornam um ato concreto no perdão oferecido ao “bom ladrão”, que estava próximo a Ele. São Lucas fala de dois malfeitores crucificados com Jesus, que se dirigem a Ele com atitudes opostas.

O primeiro o insulta, como o insultava todo o povo, como fazem os chefes do povo, mas este pobre homem, movido pelo desespero, diz: “Não és tu o Cristo? Salva a ti mesmo e a nós!” (Lc 23, 39). Este grito testemunha a angústia do homem diante do mistério da morte e a trágica consciência de que somente Deus pode ser a resposta libertadora: por isso é impensável que o Messias, o enviado de Deus, possa estar na cruz sem nada fazer para salvar-se. E não entendiam isso. Não entendiam o mistério do sacrifício de Jesus. E em vez disso Jesus nos salvou permanecendo na cruz. Todos nós sabemos que não é fácil “permanecer na cruz”, nas nossas pequenas cruzes de cada dia. Ele, nessa grande cruz, nesse grande sofrimento, permaneceu assim e ali nos salvou; ali nos mostrou a sua onipotência e ali nos perdoou. Ali se cumpre a sua doação de amor e surge para sempre a nossa salvação. Morrendo na cruz, inocente entre dois criminosos, Ele atesta que a salvação de Deus pode alcançar qualquer homem em qualquer condição, mesmo na mais negativa e dolorosa. A salvação de Deus é para todos, ninguém excluído. É oferecida a todos. Por isso o Jubileu é tempo de graça e de misericórdia para todos, bons e maus, aqueles que estão com saúde e aqueles que sofrem. Recordem-se daquela parábola que Jesus conta na festa do casamento de um filho de um poderoso da terra: quando os convidados não quiseram ir, diz a seus servos: “Ide às encruzilhadas e convidai para as bodas todos quantos achardes” (Mt 22, 9). Todos somos chamados: bons e maus. A Igreja não é somente para os bons ou para aqueles que parecem bons ou acreditam ser bons; a Igreja é para todos, também preferivelmente para os maus, porque a Igreja é misericórdia. E este tempo de graça e de misericórdia nos faz recordar que nada pode nos separar do amor de Cristo! (cfr Rm 8, 39). A quem está acamado em um leito de hospital, a quem vive fechado em uma prisão, a quantos estão presos pelas guerras, eu digo: olhem para o Crucifixo; Deus está convosco, permanece com vocês na cruz e a todos se oferece como Salvador a todos nós. A vocês que sofrem tanto digo, Jesus foi crucificado por vocês, por nós, por todos. Deixem que a força do Evangelho penetre no vosso coração e vos console, vos dê esperança e a íntima certeza de que ninguém está excluído do seu perdão. Mas vocês podem me perguntar: “Mas, me diga, padre, aquele que fez as coisas mais terríveis na vida, tem possibilidade de ser perdoado?” – “Sim! Sim: ninguém está excluído do perdão de Deus. Somente deve se aproximar arrependido de Jesus e com a vontade de ser por Ele abraçado”.

Este era o primeiro malfeitor. O outro é considerado o “bom ladrão”. As suas palavras são um maravilhoso modelo de arrependimento, uma catequese concentrada para aprender a pedir perdão a Jesus. Primeiro, ele se dirige ao seu companheiro: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?”( Lc 23, 40). Assim coloca em destaque o ponto de partida do arrependimento: o temor de Deus. Mas não o medo de Deus, não: o temor filial de Deus. Não é o medo, mas aquele respeito que se deve a Deus porque Ele é Deus. É um respeito filial porque Ele é Pai. O bom ladrão recorda a atitude fundamental que abre à confiança em Deus: a consciência da sua onipotência e da sua infinita bondade. E este respeito confiante que ajuda a dar espaço a Deus e a confiar em sua misericórdia.

Depois, o bom ladrão declara a inocência de Jesus e confessa abertamente a própria culpa: “Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum” (Lc 23, 41). Portanto, Jesus está ali na cruz para estar com os culpados: através desta proximidade, Ele oferece a eles a salvação. Isso que é escândalo para os chefes e para o primeiro ladrão, para aqueles que estavam ali e zombavam de Jesus, em vez disso, é fundamento da sua fé. E assim o bom ladrão se torna testemunho da Graça; o impensável aconteceu: Deus me amou a tal ponto que morreu na cruz por mim. A própria fé desse homem é fruto da graça de Cristo: os seus olhos contemplam no Crucificado o amor de Deus por ele, pobre pecador. É verdade, era ladrão, tinha roubado toda a vida. Mas no fim, arrependido do que tinha feito, olhando para Jesus tão bom e misericordioso, conseguiu roubar para si o céu: este é um bravo ladrão!

O bom ladrão se dirige enfim diretamente a Jesus, invocando a sua ajuda: “Jesus, lembra-te de mim quando tiverdes entrado no teu Reino!” (Lc 23, 42). Chama-o pelo nome, “Jesus”, com confiança, e assim confessa aquilo que no nome indica: “o Senhor salva”: isso significa o nome “Jesus”. Aquele homem pede a Jesus para se lembrar dele. Quanta ternura nesta expressão, quanta humanidade! É a necessidade do ser humano de não ser abandonado, que Deus lhe seja sempre próximo. Deste modo, um condenado à morte se torna modelo de cristão que se confia a Jesus. Um condenado à morte é um modelo para nós, um modelo para um homem, para um cristão que se confia a Jesus; e também modelo da Igreja que na liturgia tantas vezes invoca o Senhor dizendo: “Recorda-te…recorda-te do teu amor…”.

Enquanto o bom ladrão fala ao futuro: “quando entrares no teu reino”, a resposta de Jesus não se faz esperar; fala no presente: “hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). Na hora da cruz, a salvação de Cristo alcança o seu ápice; e a sua promessa ao bom ladrão revela o cumprimento da sua missão: isso é salvar os pecadores. No início do seu ministério, na sinagoga de Nazaré, Jesus tinha proclamado: “a libertação aos prisioneiros” (Lc 4, 18); em Jericó, na casa do público pecador Zaqueu, tinha declarado que “o Filho do homem – isso é, Ele – veio procurar e salvar quem estava perdido” (Lc 19, 9). Na cruz, o último ato confirma o realizar-se deste desígnio salvífico. Do início ao fim Ele se revelou Misericórdia, se revelou encarnação definitiva e irrepetível do amor do Pai. Jesus é realmente a face da misericórdia do Pai. E o bom ladrão chamou-o pelo nome: “Jesus”. É uma invocação breve e todos podemos fazê-la durante o dia tantas vezes: “Jesus”. “Jesus”, simplesmente. E assim fazê-lo todo o dia.

Catequese do Papa Francisco: misericordiosos como o Pai

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 21 de setembro de 2017

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Escutamos o trecho do Evangelho de Lucas (6, 36-38) do qual foi tirado o mote deste Ano Santo Extraordinário: Misericordiosos como o Pai. A expressão completa é: “Sejais misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (v. 36). Não se trata de um slogan de efeito, mas de um compromisso de vida. Para compreender bem esta expressão, podemos confrontá-la com aquela paralela do Evangelho de Mateus, onde Jesus diz: “Sede perfeitos assim como vosso Pai celeste é perfeito” (5, 48). No discurso da montanha, que se abre com as Bem Aventuranças, o Senhor ensina que a perfeição consiste no amor, cumprimento de todos os preceitos da Lei. Nesta mesma perspectiva, São Lucas explicita que a perfeição é o amor misericordioso: ser perfeito significa ser misericordioso. Uma pessoa que não é misericordiosa é perfeita? Não! Uma pessoa que não é misericordiosa é boa? Não! A bondade e a perfeição estão enraizadas na misericórdia. Certo, Deus é perfeito. Todavia, se o consideramos assim, torna-se impossível para os homens tender àquela absoluta perfeição. Em vez disso, tê-lo diante dos olhos como misericordioso nos permite compreender melhor em que consiste a sua perfeição e nos estimula a ser como Ele, plenos de amor, de compaixão, de misericórdia.

Mas me pergunto: as palavras de Jesus são realistas? É realmente possível amar como Deus ama e ser misericordioso como Ele?

Se olhamos a história da salvação, vemos que toda a revelação de Deus é um incessante e inesgotável amor pelos homens: Deus é como um pai ou como uma mãe que ama com insondável amor e o derrama com abundância sobre cada criatura. A morte de Jesus na cruz é o ápice da história do amor de Deus com o homem. Um amor tão grande que somente Deus pode realizar. É evidente que, comparado a este amor que não tem medida, o nosso amor sempre parecerá em falta. Mas quando Jesus nos pede para sermos misericordiosos como o Pai, não pensa na quantidade! Ele pede aos seus discípulos para se tornarem sinal, testemunhar da sua misericórdia.

E a Igreja não pode ser outra coisa que não sacramento da misericórdia de Deus no mundo, em todo tempo e para toda a humanidade. Cada cristão, portanto, é chamado a ser testemunha da misericórdia e isso acontece no caminho de santidade. Pensemos em quantos santos se tornaram misericordiosos porque deixara encher seu coração com a divina misericórdia. Deram corpo ao amor do Senhor derramando-o nas múltiplas necessidades da humanidade sofredora. Neste florescer de tantas formas de caridade é possível ver os reflexos da face misericordiosa de Cristo.

Perguntemo-nos: o que significa para os discípulos ser misericordiosos? É explicado por Jesus em dois verbos: “perdoar” (v. 37) e “doar” (v. 38).

A misericórdia se exprime, antes de tudo, no perdão: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (v. 37). Jesus não pretende subverter o curso da justiça humana, todavia recorda aos discípulos que para ter relações fraternas é necessário suspender julgamentos e condenações. É o perdão, de fato, o pilar que rege a vida da comunidade cristã, porque nisso se mostra a gratuidade do amor com que Deus nos amou primeiro. O cristão deve perdoar! Mas por que? Porque foi perdoado. Todos nós que estamos aqui hoje, na praça, fomos perdoados. Nenhum de nós, na própria vida, não teve necessidade do perdão de Deus. E porque nós fomos perdoados, devemos perdoar. Rezamos todos os dias no Pai Nosso: “Perdoai os nossos pecados; perdoai os nossos pecados assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Isso é, perdoar as ofensas, perdoar tantas coisas, porque nós fomos perdoados por tantas ofensas, por tantos pecados. E assim é fácil perdoar: se Deus me perdoou, por que não devo eu perdoar os outros? Sou maior que Deus? Esse pilar do perdão nos mostra a gratuidade do amor de Deus, que nos amou primeiro. Julgar e condenar o irmão que peca é errado. Não porque não se queira reconhecer o pecado, mas porque condenar o pecador quebra o laço de fraternidade com ele e despreza a misericórdia de Deus que, em vez disso, não quer renunciar a nenhum dos seus filhos. Não temos o poder de condenar o nosso irmão que erra, não somos mais que ele: temos, em vez disso, o dever de recuperá-lo à dignidade de filho do Pai e de acompanhá-lo no seu caminho de conversão.

À sua Igreja, a nós, Jesus indica também um segundo pilar: “doar”. Perdoar é o primeiro pilar; doar é o segundo pilar. “Dai e vos será dado […] com a mesma medida com que medirdes sereis medidos vós também” (v. 38). Deus dá bem além dos nossos méritos, mas será ainda mais generoso com quantos aqui na terra foram generosos. Jesus não diz o que acontecerá àqueles que não dão, mas a imagem da “medida” constitui um aviso: com a medida do amor que damos, somos nós mesmos a decidir como seremos julgados, como seremos amados. Se olharmos bem, há uma lógica coerente: na medida em que se recebe de Deus, se doa ao irmão, e na medida em que se doa ao irmão, se recebe de Deus!

O amor misericordioso é, por isso, a única via a percorrer. Quanta necessidade todos nós temos de ser um pouco mais misericordiosos, de não falar mal dos outros, de não julgar, de não falar mal com críticas, com inveja, com ciúmes. Devemos perdoar, ser misericordiosos, viver a vida no amor. Este amor permite aos discípulos de Jesus não perder a identidade recebida Dele e de reconhecer-se como filhos do mesmo Pai. No amor que esses praticam na vida se reflete assim aquela Misericórdia que nunca terá fim (cfr 1 Cor 13, 1-12). Mas não se esqueçam disso: a misericórdia e dom; perdão e dom. Assim, o coração se alarga, se alarga no amor. Em vez disso, o egoísmo, a raiva, tornam o coração pequeno, que se endurece como uma pedra. O que vocês preferem? Um coração de pedra ou um coração de amor? Se preferem um coração cheio de amor, sejam misericordiosos!

Catequese com o Papa Francisco – 14/09/16

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Durante este Jubileu, refletimos várias vezes sobre o fato de que Jesus se exprime com uma ternura única, sinal da presença e da bondade de Deus. Hoje nos concentramos sobre um trecho comovente do Evangelho (cfr Mt 11, 28-30), no qual Jesus diz: “Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. […] Aprendei de mim, que sou brando e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa vida” (vv. 28-29). O convite do Senhor é surpreendente: chama para segui-lo pessoas simples e sobrecarregadas por uma vida difícil, chama a segui-lo pessoas que têm tantas necessidades e promete a elas que Nele encontrarão repouso e alívio. O convite é dirigido de forma imperativa: “vinde a mim”, “tomai o meu jugo”, “aprendei de mim”. Talvez todos os líderes do mundo pudessem dizer isso! Procuremos colher o significado dessas expressões.

O primeiro imperativo é “Vinde a mim”. Dirigindo-se àqueles que estão cansados e oprimidos, Jesus se apresenta como o Servo do Senhor descrito no livro do profeta Isaías. Assim diz o trecho de Isaías: “o Senhor me deu uma língua de discípulo, para que eu saiba reconfortar pela palavra o que está abatido” (50, 4). A estes desconfiados da vida, o Evangelho coloca ao lado também os pobres (cfr Mt 11,5) e os pequenos (cfr Mt 18, 6). Trata-se de quantos não podem contar com os próprios meios, nem com suas amizades importantes. Esses podem apenas confiar em Deus. Conscientes da própria humildade e mísera condição, sabem depender da misericórdia do Senhor, esperando Dele a única ajuda possível. No convite de Jesus encontram finalmente resposta à sua espera: tornando-se seus discípulos, recebem a promessa de encontrar restauração para toda a vida. Uma promessa que ao término do Evangelho vem expressa a todos os povos: “Ide – diz Jesus aos Apóstolos – e fazei discípulos todos os povos” (Mt 28, 19). Acolhendo o convite para celebrar este ano de graça do Jubileu, em todo o mundo os peregrinos atravessam a Porta da Misericórdia aberta nas catedrais, nos santuários, em tantas igrejas do mundo, nos hospitais, nos presídios. Por que atravessam esta Porta da Misericórdia? Para encontrar Jesus, para encontrar a amizade de Jesus, para encontrar a restauração que só Jesus dá. Este caminho exprime a conversão de cada discípulo que se coloca ao seguimento de Jesus. E a conversão consiste sempre em descobrir a misericórdia do Senhor. Essa é infinita e inesgotável: é grande a misericórdia do Senhor! Atravessando a Porta Santa, portanto, professamos “que o amor está presente no mundo e este amor é mais poderoso que todo tipo de mal, em que o homem, a humanidade, o mundo estão envolvidos” (João Paulo II, Enc. Dives in misericordia, 7).

O segundo imperativo diz: “Tomai o meu jugo”. No contexto da Aliança, a tradição bíblica utiliza a imagem do jugo para indicar o estreito vínculo que liga o povo a Deus e, por consequência, a submissão à sua vontade expressa na Lei. Em polêmica com os escribas e os doutores da lei, Jesus coloca sobre seus discípulos o seu jugo, no qual a Lei encontra o seu cumprimento. Quer ensinar a eles que descobrirão a vontade de Deus mediante a sua pessoa: mediante Jesus, não mediante leis e prescrições frias que o próprio Jesus condena. Basta ler o capítulo 23 de Mateus! Ele está no centro de sua relação com Deus, está no coração das relações entre os discípulos e se coloca como centro da vida de cada um. Recebendo o “jugo de Jesus”, cada discípulo entra assim em comunhão com Ele e se torna partícipe do mistério da sua cruz e do seu destino de salvação.

Segue-se o terceiro imperativo: “Aprendei de mim”. Aos seus discípulos, Jesus prospecta um caminho de conhecimento e imitação. Jesus não é um mestre que com severidade impõe aos outros os pesos que Ele não leva: esta era a acusação que fazia aos doutores da lei. Ele se dirige aos humildes, aos pequenos, aos pobres, aos necessitados porque Ele mesmo se fez pequeno e humilde. Compreende os pobres e os sofredores porque Ele mesmo é pobre e provado por dores. Para salvar a humanidade, Jesus não percorreu um caminho fácil; ao contrário, o seu caminho foi doloroso e difícil. Como recorda a Carta aos Filipenses: “Humilhou a si mesmo fazendo-se obediente até a morte e a uma morte de cruz” (2, 8). O jugo que os pobres e os oprimidos levam é o mesmo jugo que Ele levou antes deles: por isso é um jugo leve. Ele carregou nas costas as dores e os pecados de toda a humanidade. Para o discípulo, portanto, receber o jugo de Jesus significa receber a sua revelação e acolhê-la: Nele a misericórdia de Deus tomou a cargo a pobreza dos homens, doando, assim, a todos a possibilidade de salvação. Mas por que Jesus é capaz destas coisas? Porque Ele se fez tudo a todos, próximo a todos, aos mais pobres! Era um pastor entre o povo, entre os pobres: trabalhava todos os dias com eles. Jesus não era um príncipe. É ruim para a Igreja quando os pastores se tornam príncipes, distantes do povo, distantes dos mais pobres: esse não é o espírito de Jesus. Quantos pastores Jesus repreendia, e deles Jesus dizia ao povo: “fazei o que dizem, mas não o que fazem”.

Queridos irmãos e irmãs, também para nós há momentos de cansaço e de desilusão. Então nos lembremos destas palavras do Senhor, que nos dão tanto consolo e nos fazem entender se estamos colocando as nossas forças a serviço do bem. De fato, às vezes o nosso cansaço é causado por ter colocado confiança em coisas que não são essenciais, porque nos afastamos daquilo que realmente vale na vida. O Senhor nos ensina a não ter medo de segui-Lo, porque a esperança que colocamos Nele não será desiludida. Somos chamados, portanto, a aprender com Ele o que significa viver de misericórdia para ser instrumento de misericórdia. Viver de misericórdia para ser instrumento de misericórdia: viver de misericórdia é sentir-se necessitado da misericórdia de Jesus e quando nós nos sentimos necessitados do perdão, de consolo, aprendemos a ser misericordiosos com os outros. Ter o olhar fixo sobre o Filho de Deus nos faz entender quanto caminho devemos ainda percorrer; mas ao mesmo tempo nos infunde a alegria de saber que estamos caminhando com Ele e não estamos nunca sozinhos. Coragem, portanto, coragem! Não deixemo-nos tirar a alegria de ser discípulo do Senhor. “Mas, padre, eu sou pecador, como posso fazer?” – “Deixe-se olhar pelo Senhor, abra o teu coração, sinta sobre você o seu olhar, a sua misericórdia e o teu coração será preenchido de alegria, da alegria do perdão, se você se aproxima e pede o perdão”. Não deixemos nos roubarem a esperança de viver essa vida junto com Ele e com a força da sua consolação. Obrigado.