Jesus diante de Pilatos

A conclusão do interrogatório de Jesus no Sinédrio a que Caifás esperava: Jesus foi declarado réu de blasfêmia,delito para o qual se previa a pena de morte.Mas,dado que o poder de infligir a pena capital estava reservado aos romanos,o processo tinha de ser transferido para Pilatos para que,deste modo,aparecesse em primeiro plano o aspecto político da sentença de culpabilidade,Jesus tinha-se declarado Messias e,consequentemente,pretendera para si a dignidade real,embora de um modo completamente particular.A reivindicação da realeza messiânica era um delito político que devia ser punido pela justiça romana.Com o canto do galo,surgira o dia.Era costume do governador romano sentar-se no tribunal as primeiras horas de manhã.

E assim Jesus foi levado pelos seus acusadores ao pretório e apresentado a Pilatos como malfeitor que merecia a morte.É o dia da parasceve (preparação) para a festa da Páscoa; de trade seriam degolados os cordeiros para o banquete da noite.Para tomar parte nesse banquete,requer-se a pureza ritual;por isso,os sacerdotes acusadores não podiam entrar no pretório pagão.e trataram com o governador romano diante do edifício.Assim João,que nos transmite esta notícia (cf.18-28-29),deixa transparecer a contradição entre a correta observância das prescrições culturais de pureza e a questão da verdadeira pureza interior do homem:aos acusadores não lhes passa pela cabeça que aquilo que inquina não é entrar na casa pagã,mas o sentimento íntimo do coração.Ao dizê-lo,o evangelista sublinha ao mesmo tempo que a ceia pascal ainda não tivera lugar e que devia ainda verificar-se a matança dos cordeiros.

Texto Extraído do Livro Jesus de Nazaré da Entrada de Jerusalém até a Ressurreição,do Papa Emérito Bento XVI.

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Francisco tem clareza sobre sua missão

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Completa-se o primeiro ano de Pontificado do Papa Francisco. A fumaça branca da Capela Sistina, na noite chuvosa e fria de 13 de março de 2013, preparou à multidão ansiosa da praça de São Pedro uma bela surpresa: o novo Bispo de Roma e Sucessor do apóstolo Pedro, colocado no centro da Igreja Católica, era um cardeal que vinha “quase do fim do mundo”! Jorge Mário Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, que escolheu para si o nome de Francisco.

Passados os primeiros momentos de encantamento, o Papa Francisco começou logo a mostrar seu estilo, seu jeito latino-americano, seu desejo de servir a Igreja Católica e a humanidade de corpo e alma. Tantos detalhes chamaram a atenção, como a moradia na Casa Santa Marta, em vez do palácio apostólico; a dispensa de muitos protocolos; seu jeito de pastor de almas; a forma direta e simples de falar…

Mas tudo isso, embora significativo, ainda não diz tudo sobre a novidade do primeiro papa não europeu, depois de muitos séculos, primeiro latino-americano, primeiro papa jesuíta, com jeito de franciscano… Francisco tem clareza sobre sua missão mais urgente, na condição de Sucessor de Pedro: confirmar os irmãos na fé, reanimá-los, dar-lhes novamente certeza e segurança interior, superar certo desalento e baixa auto-estima na Igreja, restituir ao povo católico a alegria do Evangelho, a identificação com a própria Igreja e o senso de pertença a ela.

Sabe que sua missão é resgatar a credibilidade da Igreja, ferida por muitos escândalos decorrentes de pecados e fraquezas daqueles que deveriam ser reconhecidos como testemunhas fidedignas do Evangelho da vida e da esperança diante do mundo… Francisco sabe que esta credibilidade só é recuperada com a retidão de intenções e atitudes, amor à verdade e sincera humildade. E ele convidou todos os membros da Igreja a fazerem isso, empreendendo um verdadeiro caminho de conversão a Cristo e seu Evangelho.

Muitos, talvez, esperavam imediatas e até espetaculares reformas na Cúria Romana e nos organismos de governo, que ajudam o Papa em sua missão universal. Francisco começou pedindo reformas nas atitudes e nas disposições de todos os filhos da Igreja; as reformas administrativas da Santa Sé chegam aos poucos e as da Cúria romana ainda devem chegar.

Ninguém tenha a ilusão de que, na Igreja, tudo depende só da Cúria romana; Francisco tem falado mais vezes da necessária participação de todos e que cada membro da Igreja faça bem a sua parte, em vista da saúde do corpo inteiro.

Francisco quer uma Igreja que não seja auto-referencial, nem fechada sobre si mesma, mas discípula de Cristo e servidora do Evangelho para o mundo. Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (“A Alegria do Evangelho”), ele apresentou as prioridades da missão evangelizadora no mundo atual: católicos felizes e agradecidos pela fé, percebida como dom precioso a ser compartilhado generosamente; uma Igreja que se faz missionária e se coloca em estado permanente de missão; a conversão constante ao autêntico espírito do Evangelho e a superação do “espírito mundano”, constante tentação para os cristãos e a Igreja; a saída para as periferias humanas e sociais e a solidariedade concreta em relação aos pobres.

Há muito para se fazer! Coragem, Papa Francisco, coragem! Deus o ilumine e guarde! E nós, além da admiração pelo Papa vindo da América Latina, também o acompanhemos neste esforço. Coragem, povo de Deus, coragem!

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

Arcebispo de São Paulo

“A Luz da Fé”-Reflexões e formação sobre a Encíclica Lumen Fidei do Papa Francisco

Catequese com o Papa Francisco - 11/09/2013

INTRODUÇÃO

Luz da fé,expressão e tradição da Igreja

O Papa Francisco,publicou esse ano,a sua primeira carta encíclica sobre a fé,no qual tem a contribuição com o Papa Emérito Bento XVI,após escrever três encíclicas sobre Amor,Esperança e Caridade,agora chegou a vez do Papa Francisco,escrever a sua primeira encíclica sobre a fé cristã que tem como título Lumen Fidei,que significa a Luz da fé.O  Santo Padre,dirige-nos sobre essa expressão o quanto que é expressivo para nós estarmos ligados a luz da fé: “A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus.Eis como Ele nos apresenta no Evangelho de João: “Eu vim ao mundo como luz,para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas”.(Jo 12,46)”. (Lumen Fidei n.1).

O essencial da encíclica é em relação ao aspecto de que cada um de nós estejamos sempre atentos ao que a fé se faz presente em nosso coração,quando somos iluminados através da luz da fé que estamos participando de uma fé que contempla os nossos olhos a fé que nasce em um momento onde,somos “todos os que tinham abraçado a fé” (At 2,44).A fé em nossas vidas,transforma por inteiro,toda a nossa confiança em Deus,e nesse sentido todos nós,somos chamados a cumprir com toda a nossa fé,conduzidos pelo amor de Cristo Jesus,onde nós estamos completamente nos aproximando de sermos abraçados pela fé.O Papa Francisco nos lembra que “Estas considerações sobre a fé em continuidade com tudo o que o magistério da Igreja pronunciou acerca desta virtude teologal”.(cf.Lumen Fidei n.7).

O objetivo dessa formação sobre a encíclica do Papa Francisco,se torna cada vez mais um exemplo de vida para todos os fiéis onde cada um de nós estejamos atentos ao que queremos dar um novo passo definitivo para que as pessoas possam então entrar em uma nova forma de compreender o papel de que o magistério da Igreja,possa fazer com que todos estejam de fato “Todos os seres humanos são irmãos e irmãs.Os cristãos devem viver a solidariedade não apenas com os outros cristãos,mas com todos os seres humanos,opondo-se energicamente à desintegração da família humana,causada por motivos racistas,sexistas e economicistas”. (YOUCAT 61). E agora,precisamos entrar na dimensão espiritual da nossa fé,com o maior sentido de que todos nós acreditamos e lançando sempre o nosso desafio é transformar vidas,em um conteúdo formativo para experimentar com toda clareza,onde todos nós queremos ser todos firmes e edificados na fé em Jesus Cristo,para que todos sejamos com Ele “enraizados e firmes na fé” (cf.Col 2,7).Que essa leitura ,nos faça compreender melhor que a nossa fé precisa ser ativa,sem desanimar,sem olhar para trás,mas o importante é contribuir com a nossa vida,é manter sempre a nossa fé iluminados pelo caminho,onde todos nós,estamos vivendo a cada instante de nossas vidas.Que esta formação possa nos surpreender cada dia mais em nossas vidas o momento de oração e de estarmos entrando no processo de discernimento.

Joseph Charles D´Almada Batista

Fraternidade Pequena Via,Comunidade de Aliança,Campos dos Goytacazes,RJ 11 de Setembro de 2013

Texto inédito do Papa Bento XVI publicado por ocasião do 50º Aniversário do início do Concílio Vaticano II

Foi um dia maravilhoso aquele 11 de Outubro de 1962 quando, com a entrada solene de mais de dois mil Padres conciliares na Basílica de São Pedro em Roma, se abriu o Concílio Vaticano II. Em1931, Pio XI colocara no dia 11 de Outubro a festa da Maternidade Divina de Maria, em recordação do facto que mil e quinhentos anos antes, em 431, o Concílio de Éfeso tinha solenemente reconhecido a Maria esse título, para expressar assim a união indissolúvel de Deus e do homem em Cristo. O Papa João XXIII fixara o início do Concílio para tal dia com o fim de confiar a grande assembleia eclesial, por ele convocada, à bondade materna de Maria e ancorar firmemente o trabalho do Concílio no mistério de Jesus Cristo. Foi impressionante ver entrar os bispos provenientes de todo o mundo, de todos os povos e raças: uma imagem da Igreja de Jesus Cristo que abraça todo o mundo, na qual os povos da terra se sentem unidos na sua paz.

Foi um momento de expectativa extraordinária pelas grandes coisas que deviam acontecer. Os concílios anteriores tinham sido quase sempre convocados para uma questão concreta à qual deviam responder; desta vez, não havia um problema particular a resolver. Mas, por isso mesmo, pairava no ar um sentido de expectativa geral: o cristianismo, que construíra e plasmara o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força eficaz. Mostrava-se cansado e parecia que o futuro fosse determinado por outros poderes espirituais. Esta percepção do cristianismo ter perdido o presente e da tarefa que daí derivava estava bem resumida pela palavra «actualização»: o cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro. Para que pudesse voltar a ser uma força que modela o porvir, João XXIII convocara o Concílio sem lhe indicar problemas concretos ou programas. Foi esta a grandeza e ao mesmo tempo a dificuldade da tarefa que se apresentava à assembleia eclesial.

Obviamente, cada um dos episcopados aproximou-se do grande acontecimento com ideias diferentes. Alguns chegaram com uma atitude mais de expectativa em relação ao programa que devia ser desenvolvido. Foi o episcopado do centro da Europa – Bélgica, França e Alemanha – que se mostrou mais decidido nas ideias. Embora a ênfase no pormenor se desse sem dúvida a aspectos diversos, contudo havia algumas prioridades comuns. Um tema fundamental era a eclesiologia, que devia ser aprofundada sob os pontos de vista da história da salvação, trinitário e sacramental; a isto vinha juntar-se a exigência de completar a doutrina do primado do Concílio Vaticano I através duma valorização do ministério episcopal. Um tema importante para os episcopados do centro da Europa era a renovação litúrgica, que Pio XII já tinha começado a realizar. Outro ponto central posto em realce, especialmente pelo episcopado alemão, era o ecumenismo: o facto de terem suportado juntos a perseguição da parte do nazismo aproximara muito os cristãos protestantes e católicos; agora isto devia ser compreendido e levado por diante a nível de toda a Igreja. A isto acrescentava-se o ciclo temático Revelação-Escritura-Tradição-Magistério. Entre os franceses, foi sobressaindo cada vez mais o tema da relação entre a Igreja e o mundo moderno, isto é, o trabalho sobre o chamado «Esquema XIII», do qual nasceu depois aConstituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Atingia-se aqui o ponto da verdadeira expectativa suscitada pelo Concílio. A Igreja, que ainda na época barroca tinha em sentido lato plasmado o mundo, a partir do século XIX entrou de modo cada vez mais evidente numa relação negativa com a era moderna então plenamente iniciada. As coisas deviam continuar assim? Não podia a Igreja cumprir um passo positivo nos tempos novos? Por detrás da vaga expressão «mundo de hoje», encontra-se a questão da relação com a era moderna; para a esclarecer, teria sido necessário definir melhor o que era essencial e constitutivo da era moderna. Isto não foi conseguido no «Esquema XIII». Embora a Constituição pastoral exprima muitas elementos importantes para a compreensão do «mundo» e dê contribuições relevantes sobre a questão da ética cristã, no referido ponto não conseguiu oferecer um esclarecimento substancial.

Inesperadamente, o encontro com os grandes temas da era moderna não se dá na grande Constituição pastoral, mas em dois documentos menores, cuja importância só pouco a pouco se foi manifestando com a recepção do Concílio. Trata-se antes de tudo da Declaração sobre a liberdade religiosa, pedida e preparada com grande solicitude sobretudo pelo episcopado americano. A doutrina da tolerância, tal como fora pormenorizadamente elaborada por Pio XII, já não se mostrava suficiente face à evolução do pensamento filosófico e do modo se concebia como o Estado moderno. Tratava-se da liberdade de escolher e praticar a religião e também da liberdade de mudar de religião, enquanto direitos fundamentais na liberdade do homem. Pelas suas razões mais íntimas, tal concepção não podia ser alheia à fé cristã, que entrara no mundo com a pretensão de que o Estado não poderia decidir acerca da verdade nem exigir qualquer tipo de culto. A fé cristã reivindicava a liberdade para a convicção religiosa e a sua prática no culto, sem com isto violar o direito do Estado no seu próprio ordenamento: os cristãos rezavam pelo imperador, mas não o adoravam. Sob este ponto de vista, pode-se afirmar que o cristianismo, com o seu nascimento, trouxe ao mundo o princípio da liberdade de religião. Todavia a interpretação deste direito à liberdade no contexto do pensamento moderno ainda era difícil, porque podia parecer que a versão moderna da liberdade de religião pressupusesse a inacessibilidade da verdade ao homem e, consequentemente, deslocasse a religião do seu fundamento para a esfera do subjectivo. Certamente foi providencial que, treze anos depois da conclusão do Concílio, tivesse chegado o Papa João Paulo II de um país onde a liberdade de religião era contestada pelo marxismo, ou seja, a partir duma forma particular de filosofia estatal moderna. O Papa vinha quase duma situação que se parecia com a da Igreja antiga, de modo que se tornou de novo visível o íntimo ordenamento da fé ao tema da liberdade, sobretudo a liberdade de religião e de culto.

O segundo documento, que se havia de revelar depois importante para o encontro da Igreja com a era moderna, nasceu quase por acaso e cresceu com sucessivos estratos. Refiro-me à declaraçãoNostra aetate, sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs. Inicialmente havia a intenção de preparar uma declaração sobre as relações entre a Igreja e o judaísmo – um texto que se tornou intrinsecamente necessário depois dos horrores do Holocausto (shoah). Os Padres conciliares dos países árabes não se opuseram a tal texto, mas explicaram que se se queria falar do judaísmo, então era preciso dedicar também algumas palavras ao islamismo. Quanta razão tivessem a este respeito, só pouco a pouco o fomos compreendendo no ocidente. Por fim cresceu a intuição de que era justo falar também doutras duas grandes religiões – o hinduísmo e o budismo – bem como do tema da religião em geral. A isto se juntou depois espontaneamente uma breve instrução relativa ao diálogo e à colaboração com as religiões, cujos valores espirituais, morais e socioculturais deviam ser reconhecidos, conservados e promovidos (cf. n. 2). Assim, num documento específico e extraordinariamente denso, inaugurou-se um tema cuja importância na época ainda não era previsível. Vão-se tornando cada vez mais evidentes tanto a tarefa que o mesmo implica como a fadiga ainda necessária para tudo distinguir, esclarecer e compreender. No processo de recepção activa, foi pouco a pouco surgindo também uma debilidade deste texto em si extraordinário: só fala da religião na sua feição positiva e ignora as formas doentias e falsificadas de religião, que têm, do ponto de vista histórico e teológico um vasto alcance; por isso, desde o início, a fé cristã foi muito crítica em relação à religião, tanto no próprio seio como no mundo exterior.

Se, ao início do Concílio, tinham prevalecido os episcopados do centro da Europa com os seus teólogos, nas sucessivas fases conciliares o leque do trabalho e da responsabilidade comuns foi-se alargando cada vez mais. Os bispos reconheciam-se aprendizes na escola do Espírito Santo e na escola da colaboração recíproca, mas foi precisamente assim que se reconheceram servos da Palavra de Deus que vivem e trabalham na fé. Os Padres conciliares não podiam nem queriam criar uma Igreja nova, diversa. Não tinham o mandato nem o encargo para o fazer: eram Padres do Concílio com uma voz e um direito de decisão só enquanto bispos, quer dizer em virtude do sacramento e na Igreja sacramental. Então não podiam nem queriam criar uma fé diversa ou uma Igreja nova, mas compreendê-las a ambas de modo mais profundo e, consequentemente, «renová-las» de verdade. Por isso, uma hermenêutica da ruptura é absurda, contrária ao espírito e à vontade dos Padres conciliares.

No cardeal Frings, tive um «pai» que viveu de modo exemplar este espírito do Concílio. Era um homem de significativa abertura e grandeza, mas sabia também que só a fé guia para se fazer ao largo, para aquele horizonte amplo que resta impedido ao espírito positivista. É esta fé que queria servir com o mandato recebido através do sacramento da ordenação episcopal. Não posso deixar de lhe estar sempre grato por me ter trazido – a mim, o professor mais jovem da Faculdade teológica católica da universidade de Bonn – como seu consultor na grande assembleia da Igreja, permitindo que eu estivesse presente nesta escola e percorresse do interior o caminho do Concílio. Este livro reúne os diversos escritos, com os quais pedi a palavra naquela escola; trata-se de pedidos de palavra totalmente fragmentários, dos quais transparece o próprio processo de aprendizagem que o Concílio e a sua recepção significaram e ainda significam para mim. Em todo o caso espero que estes vários contributos, com todos os seus limites, possam no seu conjunto ajudar a compreender melhor o Concílio e a traduzi-lo numa justa vida eclesial. Agradeço sentidamente ao arcebispo Gerhard Ludwig Müller e aos colaboradores do Institut Papst Benedikt XVI pelo extraordinário compromisso que assumiram para realizar este livro.

Nova Evangelização: Sinal profético de Deus

“A evangelização de Jesus conduz naturalmente todo homem a uma experiência de conversão: cada homem é enviado a converter-se e a acreditar no amor misericordioso de Deus por ele.”(Instrumentum Laboris,24).

A conclusão do Sínodo dos Bispos foi uma experiência profunda marcada na Igreja,onde todos nós poderíamos compreender que a Nova Evangelização é um sinal profético de Deus,sabemos que precisamos formar os discípulos missionários para o seu envio missionário onde a cada momento de sua fé se faz presente em sua vida.“Numa sociedade em que já é quase infindável o repertório de religiões que se oferecem à livre escolha de adeptos desejosos de respostas imediatas.”(Estudos da CNBB 83,p.61).O Papa Bento XVI, em sua homilia da Missa de encerramento dos trabalhos do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização,ele diz que “A nova evangelização diz respeito a toda a vida da Igreja. Refere-se, em primeiro lugar, à pastoral ordinária que deve ser mais animada pelo fogo do Espírito a fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam regularmente a comunidade reunindo-se no dia do Senhor para se alimentarem da sua Palavra e do Pão de vida eterna. Aqui gostaria de sublinhar três linhas pastorais que emergiram do Sínodo. A primeira diz respeito aos Sacramentos da iniciação cristã. Foi reafirmada a necessidade de acompanhar, com uma catequese adequada, a preparação para o Baptismo, a Confirmação e a Eucaristia; e reiterou-se também a importância da Penitência, sacramento da misericórdia de Deus. É através deste itinerário sacramental que passa o chamamento do Senhor à santidade, que é dirigido a todos os cristãos. Na realidade, várias vezes se repetiu que os verdadeiros protagonistas da nova evangelização são os santos: eles falam, com o exemplo da vida e as obras da caridade, uma linguagem compreensível a todos”.(cf. Homilia da missa de encerramento do Sínodo dos Bispos).

No primeiro instante a Nova Evangelização tem percebido que a evangelização precisa de urgência na ação evangelizadora da Igreja,para que a missão continue sempre encaminhando novas formas de expressar e transmitir a fé cristã aos que ainda não tem a plena comunhão conosco (cf.Doc CNBB 94,25; GS 92).O objetivo da Nova Evangelização é transmitir a fé para aquelas pessoas que querem sentir uma experiência viva no amor de Deus,no aumento de nossa fé em preparação para um caminho mais simples de anunciar a Palavra de Deus,ensinando tudo o que foi explicado na Escritura Sagrada onde “torna-se mais uma vez visível a centralidade de Cristo,quando se admite que Ele é o perfeito “Sacramento do Encontro” entre Deus e o ser humano.” (cf. Doc.CNBB 97,n.25).A Palavra de Deus permanece em todo o nosso coração onde todos nós queremos levar o Evangelho a todas as nações receberem o batismo na Santíssima Trindade,onde também explica-se no ato mais importante da Nova Evangelização.

Continuando, a nova evangelização precisa de novos cenários dentro da Igreja para que possamos então levar a nossa missão e o trabalho da ação evangelizadora com mais urgência entretanto sabemos que o nosso contexto de transmissão da fé cristã,se baseia nos caminhos da vocação missionária onde os discípulos, sejam enviados para uma missão mais completa para caminhar diretamente ao envio de Jesus para a missão para fazer novos discípulos.(cf.Mt 28,19-20). Que a Nova Evangelização seja simplesmente esse novo sinal profético para a Igreja,onde possamos dar frutos e viver uma nova experiência de transmitir a fé.Amém!

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!

Joseph Charles D´Almada Batista

Fraternidade Pequena Via,Campos dos Goytacazes,RJ

Sínodo 2012: A questão está em jogo por Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

No domingo, 7 de outubro, o papa Bento 16 vai abrir a 13ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, em Roma. Até dia 28 de outubro, cerca de 170 bispos do mundo inteiro, representando as conferências episcopais, além de outros, especialmente convocados pelo Papa, estarão refletindo sobre o tema “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã”.

Também participarão, como convidados, representantes do clero, das organizações dos leigos, da Vida Consagrada Religiosa e de várias instituições da Igreja, além de peritos sobre os temas tratados. No final de três semanas de muito ouvir, de intensa união de esforços em vista de um caminho comum da Igreja (“sínodo” significa isso!), espera-se que a assembleia sinodal possa apontar caminhos para uma renovação da evangelização e da transmissão da fé.

De fato, duas são as questões postas pelo tema: a evangelização e a transmissão da fé cristã. Ambas são dependentes e relacionadas entre si. A Igreja tem consciência de que sua missão é evangelizar, ou seja, proclamar e testemunhar ao mundo o Evangelho do Reino de Deus. E isso, com o objetivo de despertar nas pessoas a atenção e o interesse pelo Evangelho e de ajudá-las a chegar ao ato de fé. Essa é a razão de ser da evangelização: ajudar a chegar à fé cristã, transmitir esta fé aos outros, com a ajuda da graça de Deus.

Nem sempre esse objetivo é alcançado. O semeador tem a consciência de que sua missão é lançar as sementes à terra; ele faltará para com sua tarefa se deixar de o fazer; ele sabe de antemão que muita semente preciosa cairá em terreno duro, entre espinhos, ou sobre as pedras; nem por isso ele não deixa de semear. E também vai animado pela esperança que muita semente cairá em terreno bom e acabará produzindo o fruto esperado…

Por qual motivo esse tema foi escolhido para a 13ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos? As explicações podem ser diversas; mas é certo que há uma séria crise na evangelização e na transmissão da fé em nossos dias, em várias partes do mundo. Há falhas na evangelização, por ser insuficiente, inadequada, ou desfocada; e quando a proclamação da Boa Nova não é feita bem, os frutos não aparecem.

Talvez os evangelizadores não estejam sendo bastante convincentes, por várias razões; ou os ouvintes não estão interessados e não conseguimos interessá-los; talvez o momento cultural (“mudança de época”…) não está sendo propício para o anúncio sério e frutuoso do Evangelho… Nada disso, porém, pode justificar a cessação do processo evangelizador. É preciso continuar a buscar uma saída, a contar com a graça de Deus, mais poderosa que nossos discursos e métodos. A evangelização não pode parar, pois seria a falência da missão que a Igreja recebeu de Cristo.

Além disso, a transmissão da fé está sendo fraca, ou está até mesmo sendo interrompida em muitas situações e lugares. É bem sabida a dificuldade que os pais, mesmo fervorosos, têm para transmitir a fé aos filhos; e quando as novas gerações não abraçam mais a fé, deixam de receber o sacramento do Matrimônio e de formar uma família cristã, constituída sobre as bases da fé e da vivência cristã, quando deixam de pedir o Batismo para os filhos e de os apresentar para a Catequese de iniciação à fé e à vida cristã, estamos diante do fato lamentável da interrupção do processo da transmissão da fé, de geração em geração; e os casos não são raros! Estamos diante de um “novo paganismo”, que nasce e se desenvolve, muitas vezes, dentro dos próprios ambientes católicos. Esta questão é muito grave e desafiadora para a missão da Igreja!Os motivos por que isso acontece são muitos e não devem ser atribuídos apressadamente à culpa de quem quer que seja. Não se trata de achar culpados, mas de agir adequadamente. A análise das causas ajuda a entender o fenômeno, que se passa debaixo de nossos olhos; mas a simples compreensão do fenômeno, por muito que seja importante, ainda não é a solução.

Não há mistérios nem fórmulas mágicas. Passou o tempo em que a fé era transmitida espontaneamente e vivida no ritmo da tradição e da pressão social. A questão toda é evangelizar de novo e fazê-lo bem. Ou a Igreja retoma com vigor a evangelização, feita de muitas maneiras; ou então, a fé deixa de ser transmitida. É como fechar um registro: a água não passa mais…

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo (SP)