Catequese do Papa sobre duas obras de misericórdia espirituais

brasão do Papa Francisco

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Sala Paulo VI – Vaticano
Quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Terminado o Jubileu, hoje voltamos ao normal, mas permanecem ainda algumas reflexões sobre obras de misericórdia, e assim continuamos sobre isso.

A reflexão sobre obras de misericórdia espirituais diz respeito hoje a duas ações fortemente ligadas entre si: aconselhar os que estão em dúvida e ensinar os ignorantes, isso é, aqueles que não sabem. A palavra ignorante é muito forte, mas quer dizer aqueles que não sabem algo e a quem se deve ensinar. São obras que podem ser vividas seja em uma dimensão simples, familiar, a todos, seja – especialmente a segunda, aquela de ensinar – em um plano mais institucional, organizado. Pensemos, por exemplo, em quantas crianças sofrem ainda de analfabetismo. Não se pode entender isso: em um mundo onde o progresso técnico-científico tenha chegado tão alto, há crianças analfabetas! É uma injustiça. Quantas crianças sofrem de falta de instrução. É uma condição de grande injustiça que afeta a dignidade da pessoa. Sem instrução, depois, torna-se fácil presa da exploração e de várias formas de mal-estar social.

A Igreja, ao longo dos séculos, sentiu a necessidade de se empenhar no âmbito da instrução, porque a sua missão de evangelizar comporta o empenho de restituir dignidade aos mais pobres. Do primeiro exemplo de uma “escola” fundada justamente aqui em Roma por São Justino, no segundo século, para que os cristãos conhecessem melhor a Sagrada Escritura, até São José Calasnanzio, que abriu as primeiras escolas populares gratuitas da Europa, temos um longo elenco de santos e santas que em várias épocas levaram instrução aos mais desfavorecidos, sabendo que através deste caminho poderiam superar a miséria e as discriminações. Quantos cristãos, leigos, irmãos e irmãs consagradas, sacerdotes, deram a própria vida na instrução, na educação das crianças e dos jovens. Isso é grande: eu vos convido a fazer uma homenagem a eles com um belo aplauso! [aplauso dos fiéis] Estes pioneiros da instrução tinham compreendido a fundo a obra de misericórdia e tinham feito um estilo de vida tal a transformar a mesma sociedade. Através de um trabalho simples e poucas estruturas, souberam restituir dignidade a tantas pessoas! E a instrução que davam era muitas vezes orientada também ao trabalho. Mas pensemos em São João Bosco, que preparava ao trabalho jovens de rua, com o oratório e depois com as escolas, os escritórios. Foi assim que surgiram muitas e diversas escolas profissionais, que habilitavam ao trabalho enquanto educavam aos valores humanos e cristãos. A instrução, portanto, é realmente uma peculiar forma de evangelização.

Mais cresce a instrução e mais as pessoas conquistam certezas e consciência de que todos temos necessidades na vida. Uma boa instrução nos ensina o método crítico, que compreende também um certo tipo de dúvida, útil a propor perguntas e verificar os resultados alcançados, em vista de um conhecimento maior. Mas a obra de misericórdia de aconselhar pessoas em dúvida não diz respeito a esse tipo de dúvida. Exprimir a misericórdia para os que estão em dúvida equivale, em vez disso, a aliviar aquele sofrimento que provém do medo e da angústia que são consequências da dúvida. É, portanto, um ato de verdadeiro amor com o qual se pretende apoiar uma pessoa na fraqueza provocada pela incerteza.

Penso que alguém poderia me perguntar: “Padre, mas eu tenho tantas dúvidas de fé, o que devo fazer? O senhor nunca tem dúvidas?” Tenho tantas… Certo que em alguns momentos a todos vêm as dúvidas! As dúvidas que tocam a fé, em sentido positivo, são um sinal de que queremos conhecer melhor e mais profundamente Deus, Jesus, e o mistério do seu amor por nós. “Mas, eu tenho esta dúvida: procuro, estudo, vejo ou peço conselho sobre como fazer”. Estas são dúvidas que fazem crescer! É um bem, portanto, que nos coloquemos perguntas sobre nossa fé, porque deste modo somos levados a aprofundá-la. As dúvidas, no entanto, devem também ser superadas. É necessário, para isso, escutar a Palavra de Deus e compreender quanto nos ensina. Um caminho importante que ajuda muito nisto é aquele da catequese, com a qual o anúncio da fé vem nos encontrar no concreto da vida pessoal e comunitária. E há, ao mesmo tempo, outro caminho igualmente importante, aquele de viver o mais possível a fé. Não façamos da fé uma teoria abstrata onde as dúvidas se multiplicam. Façamos, em vez disso, da fé a nossa vida. Procuremos praticá-la no serviço aos irmãos, especialmente os mais necessitados. E então tantas dúvidas desaparecem, porque sentimos a presença de Deus e a verdade do Evangelho no amor que, sem mérito nosso, habita em nós e partilhamos com os outros.

Como se pode ver, queridos irmãos e irmãs, também essas duas obras de misericórdia não estão distantes da nossa vida. Cada um de nós pode se empenhar em vivê-las para colocar em prática a palavra do Senhor quando diz que o mistério do amor de Deus não foi revelado aos sábios e aos inteligentes, mas aos pequenos (cfr Lc 10, 21; Mt 11, 25-26). Portanto, o ensinamento mais profundo que somos chamados a transmitir e a certeza mais segura para sair da dúvida é o amor de Deus com o qual fomos amados (cfr 1 Jo, 4, 10). Um amor grande, gratuito e dado para sempre. Deus nunca volta atrás com o seu amor! Vai sempre adiante e espera; doa para sempre o seu amor, do qual devemos sentir forte a responsabilidade, para sermos testemunhas oferecendo misericórdia aos nossos irmãos. Obrigado.

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Catequese do Papa: acolher os estrangeiros e vestir os nus

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Prosseguimos na reflexão sobre as obras de misericórdias corporais, que o Senhor Jesus nos entregou para manter sempre viva a dinâmica da nossa fé. Essas obras, de fato, deixam evidente que os cristãos não estão cansados ou preguiçosos à espera do encontro final com o Senhor, mas todos os dias vão ao seu encontro, reconhecendo a sua face naquela de tantas pessoas que pedem ajuda. Hoje nos concentramos nesta palavra de Jesus: “Era estrangeiro e me acolhestes, nu e me vestistes” (Mt 25, 35-36). Nos nossos tempos, é mais do que nunca atual a obra que diz respeito aos estrangeiros. A crise econômica, os conflitos armados e as mudanças climáticas levam tantas pessoas a emigrar. Todavia, as migrações não são um fenômeno novo, mas pertencem à história da humanidade. É falta de memória histórica pensar que essas são próprias dos nossos anos.

A Bíblia nos oferece tantos exemplos concretos de migrações. Basta pensar em Abraão. O chamado de Deus o leva a deixar o seu país para ir a outro: “Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrar” (Gen 12, 1). E assim foi também para o povo de Israel, que do Egito, onde era escravo, seguiu marchando por 40 anos no deserto até que chegou à terra prometida por Deus. A própria Sagrada Família – Maria, José e o pequeno Jesus – foi obrigada a emigrar para fugir da ameaça de Herodes: “José se levantou, à noite, pegou o menino e sua mãe e se refugiou no Egito, onde permaneceu até a morte de Herodes” (Mt 2, 14-15). A história da humanidade é história de migrações: em todo lugar, não há povo que não tenha conhecido o fenômeno migratório.

Ao longo dos séculos, assistimos a grandes expressões de solidariedade, mesmo que não tenham faltado tensões sociais. Hoje, o contexto de crise econômica favorece, infelizmente, o emergir de atitudes de fechamento e não de acolhimento. Em algumas partes do mundo surgem muros e barreiras. Parece, às vezes, que a obra silenciosa de muitos homens e mulheres que, de diversos modos, estão fazendo o melhor para ajudar e assistir os refugiados e os migrantes é obscurecida pelo ruído de outros que dão voz a um instintivo egoísmo. Mas o fechamento não é a solução, antes, acaba por favorecer o tráfico criminoso. O único caminho de solução é aquele da solidariedade. Solidariedade com o migrante, solidariedade com o estrangeiro.

O empenho dos cristãos nesse campo é urgente hoje como no passado. Para olhar apenas ao século passado, recordamos a estupenda figura de Santa Francesca Cabrini, que dedicou a sua vida junto às suas companheiras aos migrantes rumo aos Estados Unidos da América. Também hoje precisamos destes testemunhos para que a misericórdia possa atingir tantos que estão na necessidade. É um empenho que envolve todos, ninguém excluído. As dioceses, as paróquias, os institutos de vida consagrada, as associações e os movimentos, como os cristãos em individual, todos somos chamados a acolher os irmãos e as irmãs que fogem da guerra, da fome, da violência e das condições de vida desumanas. Todos juntos somos uma grande força de apoio para quantos perderam casa, família, trabalho e dignidade. Há alguns dias, aconteceu uma pequena história, de cidade. Havia um refugiado que procurava um caminho e uma senhora se aproximou a ele e lhe disse: “O senhor procura algo?”. Estava sem sapatos aquele refugiado. E ele disse: “eu gostaria de ir a São Pedro para passar na Porta Santa”. E a senhora pensou: “Mas, não tem sapatos, como fará para caminhar?”. E chamou um táxi. Mas aquele migrante, aquele refugiado cheirava mal e o motorista do táxi quase não queria que fosse, mas no fim deixou que partisse no táxi. E a senhora, próxima a ele, lhe perguntou um pouco de sua história de refugiado e de migrante, ao longo da viagem: dez minutos para chegar até aqui. Este homem contou a sua história de dor, de guerra, de fome e porque havia fugido da sua pátria para migrar para cá. Quando chegaram, a mulher abriu a bolsa para pagar o taxista e o taxista, que no início não queria que esse migrante entrasse porque cheirava mal, disse à senhora: “Não, senhora, sou eu quem deve lhe pagar porque me fez ouvir uma história que mudou o meu coração”. Esta senhora sabia o que era a dor de um migrante, porque tinha sangue armênio e conhecia o sofrimento do seu povo. Quando fazemos algo parecido, no início recusamos porque é um pouco incômodo, “mas, cheira mal…”. Mas no fim, a história nos perfuma a alma e nos faz mudar. Pensem nessa história e pensemos o que podemos fazer pelos refugiados.

E a outra coisa é vestir quem está nu: o que quer dizer isso se não restituir dignidade a quem a perdeu? Certamente dando as roupas a quem não tem; mas pensemos também nas mulheres vítimas do tráfico jogadas às ruas, ou aos outros, muitos modos de usar o corpo humano como mercadoria, até mesmo menores. E assim, também não ter um trabalho, uma casa, um salário justo é uma forma de nudez, o ser discriminado pela raça, pela fé, são todas formas de “nudez”, diante das quais, como cristãos, somos chamados a estar atentos, vigilantes e prontos a agir.

Queridos irmãos e irmãs, não caiamos na armadilha de nos fecharmos em nós mesmos, indiferentes às necessidades dos irmãos e preocupados somente com os nossos interesses. É justamente na medida em que nos abrimos aos outros que a vida se torna fecunda, as sociedades conquistam a paz e as pessoas recuperam a sua plena dignidade. E não se esqueçam daquela senhora, não se esqueçam daquele migrante que cheirava mal e não se esqueçam do motorista de quem o migrante mudou a alma.

Catequese do Papa: visitar os doentes e os presos

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

A vida de Jesus, sobretudo nos três anos do seu ministério público, foi um incessante encontro com as pessoas. Entre essas, os doentes tiveram um lugar especial. Quantas páginas dos Evangelhos narram estes encontros! O paralítico, o cego, o leproso, o endemoniado, o epilético e inumeráveis doentes de todo tipo… Jesus se fez próximo a cada um deles e os curou com a sua presença e o poder da sua força de cura. Portanto, não pode faltar, entre as obras de misericórdia, aquela de visitar e assistir as pessoas doentes.

Junto a essas podemos inserir também aquela de estar próximo às pessoas que se encontram na prisão. De fato, seja os doentes seja os presos vivem uma condição que limita sua liberdade. E justamente quando nos falta, nos damos conta do quanto é preciosa! Jesus nos deu a possibilidade de sermos livres apesar dos limites da doença e das restrições. Ele nos oferece a liberdade que vem do encontro com Ele e do sentido novo que este encontro leva à nossa condição pessoal.

Com essas obras de misericórdia o Senhor nos convida a um gesto de grande humanidade: a partilha. Recordemos esta palavra: a partilha. Quem está doente, muitas vezes se sente sozinho. Não podemos esconder que, sobretudo nos nossos dias, justamente na doença se faz experiência mais profunda da solidão que atravessa grande parte da vida. Uma visita pode fazer a pessoa doente se sentir menos sozinha e um pouco de companhia é um ótimo remédio! Um sorriso, um carinho, um aperto de mão são gestos simples, mas tão importantes para quem sente estar abandonado em si mesmo. Quantas pessoas se dedicam a visitar os doentes nos hospitais ou em suas casas! É uma obra de voluntariado inestimável. Quando é feita no nome do Senhor, então se torna também expressão eloquente e eficaz de misericórdia. Não deixemos as pessoas doentes sozinhas! Não impeçamos que encontrem alívio e que nós sejamos enriquecidos pela proximidade a quem sofre. Os hospitais são verdadeiras “catedrais da dor”, onde, porém, se torna evidente também a força da caridade que sustenta e prova compaixão.

Da mesma forma, penso em quantos estão presos nos cárceres. Jesus não esqueceu nem mesmo eles. Colocando a visita aos presos entre as obras de misericórdia, convidou-nos, antes de tudo, a não nos fazermos juízes de ninguém. Certo, se alguém está na prisão é porque errou, não respeitou a lei e a convivência civil. Por isso está na prisão, está cumprindo a sua pena. Mas qualquer coisa que um preso possa ter feito, mesmo assim ele permanece sendo amado por Deus. Quem pode entrar no íntimo da sua consciência para entender o que passa? Quem pode compreender a dor e o remorso? É muito fácil lavar as mãos afirmando que errou. Um cristão é chamado a se encarregar disso, para que quem errou compreenda o mal feito e retorne a si mesmo. A falta de liberdade é, sem dúvida, uma das maiores privações para o ser humano. Se a isso se soma a degradação pelas condições muitas vezes privadas de humanidade em que essas pessoas se encontram a viver, então é realmente o caso em que o cristão se sente provocado a fazer de tudo para restituir a sua dignidade.

Visitar as pessoas no cárcere é uma obra de misericórdia que sobretudo hoje assume um valor particular pelas diversas formas de justicialismo a que estamos submetidos. Portanto, ninguém aponte o dedo para ninguém. Todos, em vez disso, nos tornemos instrumentos de misericórdia, com atitudes de partilha e de respeito. Penso muitas vezes nos presos… penso muitas vezes, os levo no coração. Pergunto-me o que os levaram a cometer crimes e como puderam ceder às diversas formas de mal. No entanto, juntamente com esses pensamentos, sinto que todos precisam de proximidade e de ternura, porque a misericórdia de Deus realiza prodígios. Quantas lágrimas vi escorrer nas faces dos prisioneiros que talvez nunca na vida tinham chorado; e isso somente porque se sentiram acolhidos e amados.

E não esqueçamos que também Jesus e os apóstolos fizeram experiência da prisão. Nos relatos da Paixão conhecemos os sofrimentos aos quais o Senhor foi submetido: capturado, arrastado como um criminoso, escarnecido, flagelado, coroado de espinhos… Ele, o único Inocente! E também São Pedro e São Paulo estiveram na prisão (cfr At 12,5; Fil 1, 12-17). Domingo passado – que foi o domingo do Jubileu dos Presos – à tarde veio me encontrar um grupo de prisioneiros de Pádua. Perguntei a eles o que fariam no dia seguinte, antes de retornar a Pádua. Disseram-me: “Iremos ao cárcere Mamertino para partilhar a experiência de São Paulo”. É belo, ouvir isso me fez bem. Estes prisioneiros queriam encontrar Paulo prisioneiro. É uma coisa bela, a mim fez bem. E também ali, na prisão, rezaram e evangelizaram. É comovente o trecho dos Atos dos Apóstolos em que é relatada a prisão de Paulo: se sentia só e desejava que algum dos amigos fosse lhe fazer uma visita (cfr 2 Tm 4, 9-15). Sentia-se sozinho porque a grande maioria tinha deixado-o sozinho… o grande Paulo.

Estas obras de misericórdia, como se vê, são antigas, mas sempre atuais. Jesus deixou o que estava fazendo para ir visitar a sogra de Pedro; uma obra antiga de caridade. Jesus a fez. Não caiamos na indiferença, mas nos tornemos instrumentos da misericórdia de Deus. Todos nós podemos ser instrumentos da misericórdia de Deus e isso fará mais bem a nós que aos outros, porque a misericórdia passa através de um gesto, uma palavra, uma visita e essa misericórdia é um ato para restituir alegria e dignidade a quem a perdeu.

  

 

 

Catequese do Papa – balanço da viagem a Geórgia e Azerbaijão

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

No fim de semana passado, fiz uma viagem apostólica a Georgia e Azerbaijão. Dou graças ao Senhor que me concedeu isso e renovo a expressão do meu reconhecimento às autoridades civis e religiosas desses dois países, em particular ao Patriarca de toda a Geórgia, Elias II – seu testemunho me fez tão bem ao coração e à alma – e ao xeque dos muçulmanos do Cáucaso. Um obrigado fraterno aos bispos, aos sacerdotes, aos religiosos e a todos os fiéis que me fizeram sentir seu caloroso afeto.

Essa viagem foi a continuação e a conclusão daquela realizada à Armênia, no mês de junho. De tal modo, pude – graças a Deus – realizar o projeto de visitar todos os três países caucasianos, para confirmar a Igreja católica que neles vive e para encorajar o caminho daquelas populações para a paz e a fraternidade. Evidenciavam também os dois motes desta última viagem: para a Geórgia “Pax vobis” e para o Azerbaijão “Somos todos irmãos”.

Ambos os países têm raízes históricas, culturais e religiosas muito antigas, mas ao mesmo tempo estão vivendo uma fase nova: de fato, todos os dois celebram neste ano o 25º da sua independência, tendo sido boa parte do século XX sob o regime soviético. E nessa fase esses encontram muitas dificuldades nos diversos âmbitos da vida social. A Igreja Católica é chamada a ser sempre presente, a ser próxima, especialmente no sinal da caridade e da promoção humana; e essa procura fazê-lo em comunhão com as outras Igrejas e Comunidades cristãs em diálogo com as outras comunidades religiosas, na certeza de que Deus é Pai de todos e nós somos irmãos e irmãs.

Na Geórgia, essa missão passa, naturalmente, pela colaboração com os irmãos ortodoxos, que formam a grande maioria da população. Por isso, foi um sinal muito importante o fato de que quando cheguei em Tbilisi foi me receber no aeroporto, junto com o presidente da República, também o venerado Patriarca Elias II. O encontro com ele naquela tarde foi comovente, bem como foi a seguida visita à Catedral Patriarcal, onde se venera a relíquia da túnica de Cristo, símbolo da unidade da Igreja. Esta unidade é corroborada pelo sangue de tantos mártires das diversas confissões cristãs. Entre as comunidades mais provadas, está a assiro-caldeia, com a qual vivi em Tbilisi um intenso momento de oração pela paz na Síria, no Iraque e em todo o Oriente Médio.

A Missa com os irmãos católicos da Geórgia – latinos, armênios e assiro-caldeus – foi celebrada na memória de Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira das missões: ela nos recorda que a verdadeira missão nunca é proselitismo, mas atração a Cristo a partir da forte união com Ele na oração, na adoração e na caridade concreta, que é serviço a Jesus presente nos pequeninos entre os irmãos. É aquilo que fazem os religiosos e as religiosas que encontrei em Tbilisi, bem como depois em Baku: fazem isso com a oração e com as obras caritativas e de promoção. Eu os encorajei a serem firmes na fé, com memória, coragem e esperança. E depois há as famílias cristãs: quão preciosa é sua presença de acolhimento, de acompanhamento, discernimento e integração na comunidade!

Esse estilo de presença evangélica como semente do Reino de Deus é, se possível, ainda mais necessária no Azerbaijão, onde a maioria da população é muçulmana e os católicos são poucas centenas, mas graças a Deus têm boas relações com todos, em particular mantêm vínculos fraternos com os cristãos ortodoxos. Por isso em Baku, capital do Azerbaijão, vivemos dois momentos que a fé sabe ter na justa relação: a Eucaristia e o encontro inter-religioso. A Eucaristia com a pequena comunidade católica, onde o Espírito harmoniza as diferentes línguas e dá a força do testemunho; e essa comunhão de Cristo não impede, antes, leva a procurar o encontro e o diálogo com todos aqueles que acreditam em Deus, para construir juntos um mundo mais justo e fraterno. Nesta perspectiva, dirigindo-me às autoridades azeris, fiz votos de que as questões abertas possam encontrar boas soluções e todas as populações caucásicas vivam na paz e no respeito recíproco.

Deus abençõe a Armênia, a Geórgia e o Azerbaijão e acompanhe o caminho do seu povo santo peregrino nesses países.

Catequese do Papa Francisco: misericordiosos como o Pai

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 21 de setembro de 2017

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Escutamos o trecho do Evangelho de Lucas (6, 36-38) do qual foi tirado o mote deste Ano Santo Extraordinário: Misericordiosos como o Pai. A expressão completa é: “Sejais misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (v. 36). Não se trata de um slogan de efeito, mas de um compromisso de vida. Para compreender bem esta expressão, podemos confrontá-la com aquela paralela do Evangelho de Mateus, onde Jesus diz: “Sede perfeitos assim como vosso Pai celeste é perfeito” (5, 48). No discurso da montanha, que se abre com as Bem Aventuranças, o Senhor ensina que a perfeição consiste no amor, cumprimento de todos os preceitos da Lei. Nesta mesma perspectiva, São Lucas explicita que a perfeição é o amor misericordioso: ser perfeito significa ser misericordioso. Uma pessoa que não é misericordiosa é perfeita? Não! Uma pessoa que não é misericordiosa é boa? Não! A bondade e a perfeição estão enraizadas na misericórdia. Certo, Deus é perfeito. Todavia, se o consideramos assim, torna-se impossível para os homens tender àquela absoluta perfeição. Em vez disso, tê-lo diante dos olhos como misericordioso nos permite compreender melhor em que consiste a sua perfeição e nos estimula a ser como Ele, plenos de amor, de compaixão, de misericórdia.

Mas me pergunto: as palavras de Jesus são realistas? É realmente possível amar como Deus ama e ser misericordioso como Ele?

Se olhamos a história da salvação, vemos que toda a revelação de Deus é um incessante e inesgotável amor pelos homens: Deus é como um pai ou como uma mãe que ama com insondável amor e o derrama com abundância sobre cada criatura. A morte de Jesus na cruz é o ápice da história do amor de Deus com o homem. Um amor tão grande que somente Deus pode realizar. É evidente que, comparado a este amor que não tem medida, o nosso amor sempre parecerá em falta. Mas quando Jesus nos pede para sermos misericordiosos como o Pai, não pensa na quantidade! Ele pede aos seus discípulos para se tornarem sinal, testemunhar da sua misericórdia.

E a Igreja não pode ser outra coisa que não sacramento da misericórdia de Deus no mundo, em todo tempo e para toda a humanidade. Cada cristão, portanto, é chamado a ser testemunha da misericórdia e isso acontece no caminho de santidade. Pensemos em quantos santos se tornaram misericordiosos porque deixara encher seu coração com a divina misericórdia. Deram corpo ao amor do Senhor derramando-o nas múltiplas necessidades da humanidade sofredora. Neste florescer de tantas formas de caridade é possível ver os reflexos da face misericordiosa de Cristo.

Perguntemo-nos: o que significa para os discípulos ser misericordiosos? É explicado por Jesus em dois verbos: “perdoar” (v. 37) e “doar” (v. 38).

A misericórdia se exprime, antes de tudo, no perdão: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (v. 37). Jesus não pretende subverter o curso da justiça humana, todavia recorda aos discípulos que para ter relações fraternas é necessário suspender julgamentos e condenações. É o perdão, de fato, o pilar que rege a vida da comunidade cristã, porque nisso se mostra a gratuidade do amor com que Deus nos amou primeiro. O cristão deve perdoar! Mas por que? Porque foi perdoado. Todos nós que estamos aqui hoje, na praça, fomos perdoados. Nenhum de nós, na própria vida, não teve necessidade do perdão de Deus. E porque nós fomos perdoados, devemos perdoar. Rezamos todos os dias no Pai Nosso: “Perdoai os nossos pecados; perdoai os nossos pecados assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Isso é, perdoar as ofensas, perdoar tantas coisas, porque nós fomos perdoados por tantas ofensas, por tantos pecados. E assim é fácil perdoar: se Deus me perdoou, por que não devo eu perdoar os outros? Sou maior que Deus? Esse pilar do perdão nos mostra a gratuidade do amor de Deus, que nos amou primeiro. Julgar e condenar o irmão que peca é errado. Não porque não se queira reconhecer o pecado, mas porque condenar o pecador quebra o laço de fraternidade com ele e despreza a misericórdia de Deus que, em vez disso, não quer renunciar a nenhum dos seus filhos. Não temos o poder de condenar o nosso irmão que erra, não somos mais que ele: temos, em vez disso, o dever de recuperá-lo à dignidade de filho do Pai e de acompanhá-lo no seu caminho de conversão.

À sua Igreja, a nós, Jesus indica também um segundo pilar: “doar”. Perdoar é o primeiro pilar; doar é o segundo pilar. “Dai e vos será dado […] com a mesma medida com que medirdes sereis medidos vós também” (v. 38). Deus dá bem além dos nossos méritos, mas será ainda mais generoso com quantos aqui na terra foram generosos. Jesus não diz o que acontecerá àqueles que não dão, mas a imagem da “medida” constitui um aviso: com a medida do amor que damos, somos nós mesmos a decidir como seremos julgados, como seremos amados. Se olharmos bem, há uma lógica coerente: na medida em que se recebe de Deus, se doa ao irmão, e na medida em que se doa ao irmão, se recebe de Deus!

O amor misericordioso é, por isso, a única via a percorrer. Quanta necessidade todos nós temos de ser um pouco mais misericordiosos, de não falar mal dos outros, de não julgar, de não falar mal com críticas, com inveja, com ciúmes. Devemos perdoar, ser misericordiosos, viver a vida no amor. Este amor permite aos discípulos de Jesus não perder a identidade recebida Dele e de reconhecer-se como filhos do mesmo Pai. No amor que esses praticam na vida se reflete assim aquela Misericórdia que nunca terá fim (cfr 1 Cor 13, 1-12). Mas não se esqueçam disso: a misericórdia e dom; perdão e dom. Assim, o coração se alarga, se alarga no amor. Em vez disso, o egoísmo, a raiva, tornam o coração pequeno, que se endurece como uma pedra. O que vocês preferem? Um coração de pedra ou um coração de amor? Se preferem um coração cheio de amor, sejam misericordiosos!

Catequese do ano jubilar – misericórdia concreta

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE DO ANO JUBILAR
Praça São Pedro – Vaticano
Quinta-feira, 30 de junho de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Quantas vezes, durante esses primeiros meses do Jubileu, ouvimos falar das obras de misericórdia! Hoje, o Senhor nos convida a fazer um sério exame de consciência. Quantas vezes, durante esses primeiros meses no Jubileu, ouvimos falar das obras de misericórdia! Hoje, o Senhor nos convida a fazer um sério exame de consciência. É bom, de fato, nunca esquecer que a misericórdia não é uma palavra abstrata, mas é um estilo de vida: uma pessoa pode ser misericordiosa ou pode ser não-misericordiosa; é um estilo de vida. Eu escolho viver como misericordioso ou escolho viver como não misericordioso. Uma coisa é falar de misericórdia, outra é viver a misericórdia. Parafraseando as palavras de São Tiago apóstolo (cfr 2, 14-17) poderemos dizer: a misericórdia sem as obras é morta em si mesma. É justamente assim! O que torna viva a misericórdia é o seu constante dinamismo para ir ao encontro aos necessitados e às necessidades de quanto estão em dificuldade espiritual e material. A misericórdia tem olhos para ver, orelhas para ouvir, mãos para levantar…

A vida cotidiana nos permite tocar com a mão tantas exigências que dizem respeito às pessoas mais pobres e necessitadas. A nós é pedido aquela atenção particular que nos leva a perceber o estado de sofrimento e necessidade de tantos irmãos e irmãs. Às vezes passamos diante de situações dramáticas de pobreza e parece que não nos tocam; tudo continua como se nada fosse, em uma indiferença que no fim nos torna hipócritas e, sem que nos demos conta, resulta em uma forma de inércia espiritual que torna a alma insensível e a vida estéril. As pessoas que passam, que vão adiante na vida sem perceber a necessidade dos outros, sem ver tantas necessidades espirituais e materiais, são pessoas que passam sem viver, são pessoas que não servem aos outros. Lembrem-se bem: quem não vive para servir, não serve para viver.

Quantos são os aspectos da misericórdia de Deus para nós! Do mesmo modo, quantas faces se dirigem a nós para obter misericórdia. Quem experimentou na própria vida a misericórdia do Pai não pode permanecer insensível diante da necessidade dos irmãos. O ensinamento de Jesus que ouvimos não permite vias de fuga: tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; estava nu, prófugo, doente, na prisão e me assististes (cfr Mt 25, 35-36). Não se pode vacilar diante de uma pessoa que tem fome: é preciso dar-lhe de comer. Jesus nos diz isso! As obras de misericórdia não são como teorias, mas são testemunhos concretos. Obrigam a arregaçar as mangas para aliviar o sofrimento.

Por causa das mudanças do nosso mundo globalizado, algumas pobrezas materiais e espirituais se multiplicaram: demos, portanto, espaço à criatividade da caridade para identificar novas modalidades de ação. Deste modo, a via da misericórdia se tornará sempre mas concreta. A nós, portanto, é pedido para permanecer vigilantes como sentinelas, para que não aconteça que, diante das pobrezas produzidas pela cultura do bem-estar, o olhar dos cristãos se enfraqueça e se torne incapaz de olhar para o essencial. Olhar ao essencial. O que significa? Olhar Jesus, ver Jesus naquele que tem fome, no preso, no doente, no nu, naquele que não tem trabalho e precisa levar adiante uma família. Olhar Jesus naqueles nossos irmãos e irmãs; ver Jesus naquele que está sozinho, triste, naquele que erra e precisa de conselho, naquele que tem necessidade de fazer caminho com Ele em silêncio, para que se sinta em companhia. Estas são as obras que Jesus pede a nós! Ver Jesus neles, nestas pessoas. Por que? Porque assim Jesus olha para mim, olha para todos nós.
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Agora, passemos a uma outra coisa

Nos dias passados, o Senhor me permitiu visitar a Armênia, a primeira nação a ter abraçado o cristianismo, no início do quarto século. Um povo que, ao longo de sua história, testemunhou a fé cristã com o martírio. Dou graças a Deus por essa viagem e sou realmente grato ao presidente da República Armena, ao Catholicos Karekin II, ao Patriarca e aos bispos católicos e a todo o povo armênio por ter me acolhido como peregrino de fraternidade e de paz.

Daqui a três meses farei, se Deus quiser, outra viagem à Geórgia e Azerbaijão, outros dois países da região do cáucaso. Acolhi o convite para visitar esses países por um duplo motivo: por um lado, valorizar as antigas raízes cristãs presentes naquelas terras – sempre em espírito de diálogo com outras religiões e culturas – e por outro lado encorajar esperanças e sentimentos de paz. A história nos ensina que o caminho da paz requer uma grande perseverança e passos contínuos, começando por aqueles pequenos e mão a mão fazendo-os crescer, indo um ao encontro do outro. Justamente por isso o meu desejo é que todos e cada um deem a própria contribuição para a paz e a reconciliação.

Como cristãos, somos chamados a reforçar entre nós a comunhão fraterna, para dar testemunho do Evangelho de Cristo e para sermos fermento de uma sociedade mais justa e solidária. Por isso, toda a visita foi partilhada com o Supremo Patriarca da Igreja Apostólica Armênia, que fraternamente me hospedou por três dias na sua casa.

Renovo o meu abraço aos bispos, aos sacerdotes, às religiosas e aos religiosos e a todos os fiéis na Armênia. A Virgem Maria, nossa Mãe, os ajude a permanecer firmes na fé, abertos ao encontro e generosos nas obras de misericórdia. Obrigado.

Catequese do Papa: a cura do leproso – 22/06/16

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 22 de junho de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

“Senhor, se queres, podes purificar-me!” (Lc 5, 12): é o pedido que ouvimos um leproso dirigir a Jesus. Este homem não pede somente para ser curado, mas para ser purificado, isso é, curado integralmente, no corpo e no coração. De fato, a lepra era considerada uma forma de maldição de Deus, de impureza profunda. O leproso devia ficar longe de todos; não podia ir ao templo e nem a nenhum serviço divino. Longe de Deus e longe dos homens. Triste vida tinha esse povo!

Apesar disso, aquele leproso não se resigna nem à doença nem às disposições que fazem dele um excluído. Para alcançar Jesus, não teve medo de infligir a lei e entrou na cidade – o que não devia fazer, era-lhe vedado – e quando o encontrou “jogou-se diante dele rezando: Senhor, se queres, podes purificar-me” (v. 12). Tudo aquilo que este homem considerado impuro faz e diz é expressão da sua fé! Reconhece o poder de Jesus: está seguro que tenha o poder de curá-lo e que tudo depende da sua vontade. Esta fé é a força que lhe permitiu romper toda convenção e procurar o encontro com Jesus e, ajoelhando-se diante Dele, o chama “Senhor”. A súplica do leproso mostra que quando nos apresentamos a Jesus não é necessário fazer longos discursos. Bastam poucas palavras, mas que sejam acompanhadas da plena confiança na sua onipotência e na sua bondade. Confiar-nos à vontade de Deus significa de fato confiar na sua infinita misericórdia. Também eu farei uma confidência pessoal. À noite, antes de ir pra cama, rezo esta breve oração: “Senhor, se queres, podes purificar-me!”. E rezo cinco “Pai Nosso”, um por cada chaga de Jesus, porque Jesus nos purificou com as chagas. Mas se eu faço isso, vocês também podem fazer, na casa de vocês, e dizer: “Senhor, se queres, podes purificar-me!” e pensar nas chagas de Jesus e rezar um “Pai Nosso” para cada uma delas. E Jesus nos escuta sempre.

Jesus é profundamente atingido por esse homem. O Evangelho de Marcos destaca que “teve compaixão, tomou-o pela mão, tocou-o e lhe disse: ‘Eu quero, seja purificado!’” (1, 41). O gesto de Jesus acompanha as suas palavras e torna mais explícito o ensinamento. Contra as disposições da Lei de Moisés, que proibia aproximar-se de um leproso (cfr Lv 13, 45-46), Jesus estende a mão e o toca. Quantas vezes nós encontramos um pobre que vem ao nosso encontro! Podemos também ser generosos, podemos ter compaixão, porém muitas vezes não os tocamos. Nós oferecemos a eles a moeda, a colocamos ali, mas evitamos tocar a mão. E esquecemos que aquilo é o corpo de Cristo! Jesus nos ensina a não ter medo de tocar o pobre e excluído, porque Ele está neles. Tocar o pobre pode purificar-nos da hipocrisia e nos tornar inquietos pela sua condição. Tocas os excluídos. Hoje me acompanham estes rapazes. Tantos pensam que seria melhor que eles tivessem permanecido em suas terras, mas ali sofriam tanto. São os nossos refugiados, mas tantos os consideram excluídos. Por favor, são os nossos irmãos! O cristão não exclui ninguém, dá lugar a todos, deixa vir todos.

Depois de ter curado o leproso, Jesus manda que não contem a ninguém, mas lhe diz: “Vá mostrar-te ao sacerdote e faz a oferta pela tua purificação como Moisés prescreveu, como testemunho para eles” (v. 14). Esta disposição de Jesus mostra ao menos três coisas. A primeira: a graça que age em nós não busca o sensacionalismo. Ela se move com discrição e sem clamor. Para medicar as nossas feridas e nos curar no caminho da santidade essa trabalha modelando pacientemente o nosso coração sobre o Coração do Senhor, de forma a assumir-lhes sempre mais os pensamentos e os sentimentos. A segunda: fazendo verificar oficialmente a cura ocorrida aos sacerdotes e celebrando um sacrifício expiatório, o leproso é reinserido na comunidade dos crentes e na vida social. A sua reintegração completa a cura. Como ele mesmo tinha suplicado, agora está completamente purificado! Enfim, apresentando-se aos sacerdotes, o leproso dá a eles testemunho a respeito de Jesus e à sua autoridade messiânica. A força da compaixão com que Jesus curou o leproso levou a fé deste homem a abrir-se à missão. Era um excluído, agora é um de nós.

Pensemos em nós, em nossas misérias…Cada um tem as próprias. Pensemos com sinceridade. Quantas vezes as cobrimos com a hipocrisia das “boas maneiras”. E justamente então é necessário estar sozinhos, colocar-se de joelho diante de Deus e rezar: “Senhor, se queres, podes purificar-me!”. E fazê-lo antes de ir pra cama, todas as noites. E agora digamos juntos esta bela oração: “Senhor, se queres, podes purificar-me”.