Catequese do Papa: “o perdão na cruz” – 28/09/16

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

As palavras que Jesus pronuncia durante a sua paixão encontram o seu ápice no perdão. Jesus perdoa: “Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Não são apenas palavras, porque se tornam um ato concreto no perdão oferecido ao “bom ladrão”, que estava próximo a Ele. São Lucas fala de dois malfeitores crucificados com Jesus, que se dirigem a Ele com atitudes opostas.

O primeiro o insulta, como o insultava todo o povo, como fazem os chefes do povo, mas este pobre homem, movido pelo desespero, diz: “Não és tu o Cristo? Salva a ti mesmo e a nós!” (Lc 23, 39). Este grito testemunha a angústia do homem diante do mistério da morte e a trágica consciência de que somente Deus pode ser a resposta libertadora: por isso é impensável que o Messias, o enviado de Deus, possa estar na cruz sem nada fazer para salvar-se. E não entendiam isso. Não entendiam o mistério do sacrifício de Jesus. E em vez disso Jesus nos salvou permanecendo na cruz. Todos nós sabemos que não é fácil “permanecer na cruz”, nas nossas pequenas cruzes de cada dia. Ele, nessa grande cruz, nesse grande sofrimento, permaneceu assim e ali nos salvou; ali nos mostrou a sua onipotência e ali nos perdoou. Ali se cumpre a sua doação de amor e surge para sempre a nossa salvação. Morrendo na cruz, inocente entre dois criminosos, Ele atesta que a salvação de Deus pode alcançar qualquer homem em qualquer condição, mesmo na mais negativa e dolorosa. A salvação de Deus é para todos, ninguém excluído. É oferecida a todos. Por isso o Jubileu é tempo de graça e de misericórdia para todos, bons e maus, aqueles que estão com saúde e aqueles que sofrem. Recordem-se daquela parábola que Jesus conta na festa do casamento de um filho de um poderoso da terra: quando os convidados não quiseram ir, diz a seus servos: “Ide às encruzilhadas e convidai para as bodas todos quantos achardes” (Mt 22, 9). Todos somos chamados: bons e maus. A Igreja não é somente para os bons ou para aqueles que parecem bons ou acreditam ser bons; a Igreja é para todos, também preferivelmente para os maus, porque a Igreja é misericórdia. E este tempo de graça e de misericórdia nos faz recordar que nada pode nos separar do amor de Cristo! (cfr Rm 8, 39). A quem está acamado em um leito de hospital, a quem vive fechado em uma prisão, a quantos estão presos pelas guerras, eu digo: olhem para o Crucifixo; Deus está convosco, permanece com vocês na cruz e a todos se oferece como Salvador a todos nós. A vocês que sofrem tanto digo, Jesus foi crucificado por vocês, por nós, por todos. Deixem que a força do Evangelho penetre no vosso coração e vos console, vos dê esperança e a íntima certeza de que ninguém está excluído do seu perdão. Mas vocês podem me perguntar: “Mas, me diga, padre, aquele que fez as coisas mais terríveis na vida, tem possibilidade de ser perdoado?” – “Sim! Sim: ninguém está excluído do perdão de Deus. Somente deve se aproximar arrependido de Jesus e com a vontade de ser por Ele abraçado”.

Este era o primeiro malfeitor. O outro é considerado o “bom ladrão”. As suas palavras são um maravilhoso modelo de arrependimento, uma catequese concentrada para aprender a pedir perdão a Jesus. Primeiro, ele se dirige ao seu companheiro: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?”( Lc 23, 40). Assim coloca em destaque o ponto de partida do arrependimento: o temor de Deus. Mas não o medo de Deus, não: o temor filial de Deus. Não é o medo, mas aquele respeito que se deve a Deus porque Ele é Deus. É um respeito filial porque Ele é Pai. O bom ladrão recorda a atitude fundamental que abre à confiança em Deus: a consciência da sua onipotência e da sua infinita bondade. E este respeito confiante que ajuda a dar espaço a Deus e a confiar em sua misericórdia.

Depois, o bom ladrão declara a inocência de Jesus e confessa abertamente a própria culpa: “Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum” (Lc 23, 41). Portanto, Jesus está ali na cruz para estar com os culpados: através desta proximidade, Ele oferece a eles a salvação. Isso que é escândalo para os chefes e para o primeiro ladrão, para aqueles que estavam ali e zombavam de Jesus, em vez disso, é fundamento da sua fé. E assim o bom ladrão se torna testemunho da Graça; o impensável aconteceu: Deus me amou a tal ponto que morreu na cruz por mim. A própria fé desse homem é fruto da graça de Cristo: os seus olhos contemplam no Crucificado o amor de Deus por ele, pobre pecador. É verdade, era ladrão, tinha roubado toda a vida. Mas no fim, arrependido do que tinha feito, olhando para Jesus tão bom e misericordioso, conseguiu roubar para si o céu: este é um bravo ladrão!

O bom ladrão se dirige enfim diretamente a Jesus, invocando a sua ajuda: “Jesus, lembra-te de mim quando tiverdes entrado no teu Reino!” (Lc 23, 42). Chama-o pelo nome, “Jesus”, com confiança, e assim confessa aquilo que no nome indica: “o Senhor salva”: isso significa o nome “Jesus”. Aquele homem pede a Jesus para se lembrar dele. Quanta ternura nesta expressão, quanta humanidade! É a necessidade do ser humano de não ser abandonado, que Deus lhe seja sempre próximo. Deste modo, um condenado à morte se torna modelo de cristão que se confia a Jesus. Um condenado à morte é um modelo para nós, um modelo para um homem, para um cristão que se confia a Jesus; e também modelo da Igreja que na liturgia tantas vezes invoca o Senhor dizendo: “Recorda-te…recorda-te do teu amor…”.

Enquanto o bom ladrão fala ao futuro: “quando entrares no teu reino”, a resposta de Jesus não se faz esperar; fala no presente: “hoje estarás comigo no paraíso” (v. 43). Na hora da cruz, a salvação de Cristo alcança o seu ápice; e a sua promessa ao bom ladrão revela o cumprimento da sua missão: isso é salvar os pecadores. No início do seu ministério, na sinagoga de Nazaré, Jesus tinha proclamado: “a libertação aos prisioneiros” (Lc 4, 18); em Jericó, na casa do público pecador Zaqueu, tinha declarado que “o Filho do homem – isso é, Ele – veio procurar e salvar quem estava perdido” (Lc 19, 9). Na cruz, o último ato confirma o realizar-se deste desígnio salvífico. Do início ao fim Ele se revelou Misericórdia, se revelou encarnação definitiva e irrepetível do amor do Pai. Jesus é realmente a face da misericórdia do Pai. E o bom ladrão chamou-o pelo nome: “Jesus”. É uma invocação breve e todos podemos fazê-la durante o dia tantas vezes: “Jesus”. “Jesus”, simplesmente. E assim fazê-lo todo o dia.

Discurso do Papa no encontro com autoridades da Geórgia

brasão do Papa Francisco

DISCURSO
Viagem do Papa Francisco a Geórgia e Azerbaijão
Encontro com as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático 
Pátio do Palácio Presidencial
Sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Senhor Presidente,
Distintas Autoridades,
Ilustres membros do Corpo Diplomático,
Senhoras e Senhores!

Agradeço a Deus Todo-Poderoso por me ter dado a oportunidade de visitar esta terra abençoada, local de encontro e intercâmbio vital entre culturas e civilizações, que achou no cristianismo, desde a pregação de Santa Nino no início do século IV, a sua identidade mais profunda e o fundamento seguro dos seus valores. Como afirmou São João Paulo II ao visitar a vossa pátria, «o cristianismo tornou-se a semente do sucessivo florescimento da cultura georgiana» [Discurso na cerimônia de boas-vindas, 8 de novembro de 1999, 2: Insegnamenti XXII/2 (1999), 841], e esta semente continua a dar os seus frutos. Recordando com gratidão o nosso encontro do ano passado no Vaticano e as boas relações que a Geórgia sempre manteve com a Santa Sé, agradeço-lhe sentidamente, Senhor Presidente, o seu aprazível convite e as palavras cordiais de boas-vindas que me dirigiu em nome das autoridades do Estado e de todo o povo georgiano.

A história plurissecular da vossa pátria manifesta o enraizamento nos valores expressos pela sua cultura, língua e tradições, inserindo o país a pleno título e de modo fecundo e peculiar no álveo da civilização europeia; ao mesmo tempo, como evidencia a sua posição geográfica, é quase uma ponte natural entre a Europa e a Ásia, um gonzo que facilita as comunicações e as relações entre os povos, tendo possibilitado ao longo dos séculos tanto o comércio como o diálogo e a troca de ideias e experiências entre mundos diversos. Como se diz com pundonor no vosso hino nacional, «o meu ícone é a minha pátria, (…) montanhas e vales esplendorosos são partilhados com Deus». A pátria é como um ícone que define a identidade, delineia as características e a história, enquanto as montanhas, erguendo-se livres para o céu, longe de ser uma muralha insuperável, enchem de esplendor os vales, distinguem-nos e relacionam-nos, tornando cada um deles diferente dos outros e todos solidários com o céu comum que os cobre e protege.

Senhor Presidente, já se passaram vinte e cinco anos desde a proclamação da independência da Geórgia, que durante este período, recuperando a sua plena liberdade, construiu e consolidou as suas instituições democráticas e procurou os caminhos para garantir um desenvolvimento o mais possível inclusivo e autêntico. Tudo isto com grandes sacrifícios, que o povo enfrentou corajosamente para se assegurar a tão suspirada liberdade. Almejo que o caminho de paz e desenvolvimento prossiga com o esforço solidário de todas as componentes da sociedade, para criar as condições de estabilidade, equidade e respeito da legalidade suscetíveis de favorecer o crescimento e aumentar as oportunidades para todos.

Tal progresso autêntico e duradouro tem como indispensável condição prévia a coexistência pacífica entre todos os povos e Estados da região. Isto requer que cresçam sentimentos de mútua estima e consideração, que não podem ignorar o respeito das prerrogativas soberanas de cada país no quadro do direito internacional. Para abrir sendas que conduzam a uma paz duradoura e a uma verdadeira colaboração, é preciso estar ciente de que os princípios relevantes para um relacionamento équo e estável entre os Estados estão ao serviço da convivência concreta, ordenada e pacífica entre as nações. De fato, em demasiados lugares da terra, parece prevalecer uma lógica que torna difícil sustentar as legítimas diferenças e as disputas – que sempre podem surgir – num contexto de verificação e diálogo civil onde prevaleça a razão, a moderação e a responsabilidade. Isto revela-se muito necessário no momento histórico atual, em que não faltam também extremismos violentos que manipulam e distorcem os princípios de natureza civil e religiosa, pondo-os ao serviço de obscuros desígnios de domínio e morte.

É preciso que todos tenham a peito primariamente as sortes do ser humano na sua situação concreta e realizem, com paciência, toda e qualquer tentativa para evitar que as divergências descambem em violências, fadadas a provocar enormes ruínas para o homem e a sociedade. Qualquer distinção de caráter étnico, linguístico, político ou religioso, longe de ser utilizada como pretexto para transformar as divergências em conflitos e estes em tragédias sem fim, pode e deve ser, para todos, fonte de enriquecimento recíproco em benefício do bem comum. Isto exige que cada um possa fazer pleno uso das especificidades próprias, a começar pela possibilidade de viver em paz na sua terra ou de retornar a ela livremente se, por qualquer motivo, foi forçado a abandoná-la. Espero que os responsáveis públicos continuem a ter a peito a situação destas pessoas, empenhando-se na busca de soluções concretas, mesmo fora das questões políticas ainda por resolver. Requerem-se clarividência e coragem para reconhecer o bem autêntico dos povos e demandá-lo com determinação e prudência, sendo indispensável ter sempre diante dos olhos os sofrimentos das pessoas para prosseguir com convicção no caminho, paciente e árduo mas também emocionante e libertador, da construção da paz.

A Igreja Católica – há séculos presente neste país, distinguindo-se particularmente pelo seu empenho na promoção humana e nas obras socio-caritativas – compartilha as alegrias e preocupações do povo georgiano e deseja prestar o seu contributo para o bem-estar e a paz da nação, colaborando ativamente com as autoridades e a sociedade civil. Faço sentidos votos de que ela continue a dar o seu contributo genuíno para o crescimento da sociedade georgiana, através do testemunho comum da tradição cristã que nos une, do seu compromisso a favor dos mais necessitados e mediante um diálogo renovado e mais intenso com a Igreja Ortodoxa Georgiana antiga e as outras comunidades religiosas do país.

Deus abençoe a Geórgia e lhe conceda paz e prosperidade!

Discurso do Papa no encontro com o Patriarca de toda a Geórgia

brasão do Papa Francisco

DISCURSO
Viagem do Papa Francisco a Geórgia e Azerbaijão
Encontro com Sua Santidade e Beatitude Elias II, Catholicos e Patriarca de toda a Geórgia
Palácio do Patriarcado
Sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Constitui para mim uma grande alegria e uma graça particular encontrar Vossa Santidade e Beatitude e os veneráveis Metropolitas, Arcebispos e Bispos, membros do Santo Sínodo. Saúdo ao senhor Primeiro-Ministro e a vós, ilustres Representantes do mundo académico e da cultura.Vossa Santidade inaugurou uma página nova nas relações entre a Igreja Ortodoxa da Geórgia e a Igreja Católica, ao realizar a primeira visita histórica ao Vaticano dum Patriarca georgiano. Naquela ocasião, trocou com o Bispo de Roma o ósculo da paz e a promessa de rezarmos um pelo outro. Assim foi possível revigorar os laços de grande significado que existem entre nós desde os primeiros séculos do cristianismo. Tais laços incrementaram-se mantendo-se respeitosos e cordiais, como atestam a receção calorosa aqui reservada aos meus enviados e representantes, as atividades de estudo e pesquisa nos Arquivos do Vaticano e nas Universidades Pontifícias feitas por fiéis ortodoxos georgianos, a presença em Roma duma vossa comunidade alojada numa igreja da minha diocese, e a colaboração, sobretudo de caráter cultural, com a comunidade católica local. Cheguei como peregrino e amigo a esta terra abençoada, quando, para os católicos, está no seu ponto alto o Ano      Jubilar da Misericórdia. Também o santo Papa João Paulo II viera aqui – o primeiro dos Sucessores de Pedro que o fez – num momento muito importante, ou seja, no limiar do Jubileu do ano 2000: viera reforçar os «vínculos profundos e fortes» com a Sé de Roma [Discurso na cerimónia de boas-vindas, Tbilissi, 8 de novembro de 1999: Insegnamenti XXII/2 (1999), 843] e lembrar a grande necessidade que havia, no limiar do terceiro milénio, do «contributo da Geórgia, esta antiga encruzilhada de culturas e tradições, para a edificação (…) duma civilização do amor» [Discurso no Palácio Patriarcal, Tbilissi, 8 de novembro de 1999: Insegnamenti XXII/2 (1999), 848].

Agora, a Providência divina faz-nos encontrar novamente e, face a um mundo sedento de misericórdia, unidade e paz, pede-nos que os vínculos entre nós recebam novo impulso, renovado ardor, de que o ósculo da paz e o nosso abraço fraterno já são um sinal eloquente. Assim a Igreja Ortodoxa da Geórgia, enraizada na pregação apostólica e de modo especial na figura do apóstolo André, e a Igreja de Roma, fundada sobre o martírio do apóstolo Pedro, têm a graça de renovar hoje, em nome de Cristo e da sua glória, a beleza da fraternidade apostólica. De facto, Pedro e André eram irmãos: Jesus convidou-os a deixar as redes e tornar-se, juntos, pescadores de homens (cf. Mc 1, 16-17). Caríssimo Irmão, deixemo-nos de novo olhar pelo Senhor Jesus, deixemo-nos ainda atrair pelo seu convite a pôr de lado tudo o que nos impede de ser, juntos, anunciadores da sua presença.

Nisto temos o apoio do amor que transformou a vida dos Apóstolos. É aquele amor sem igual que o Senhor encarnou – «ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15, 13) – e no-lo deu, para nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (cf. Jo 15, 12). A propósito, parecem dirigidas a nós algumas das famosas palavras do grande poeta desta terra: «Leste como os apóstolos escrevem acerca do amor, como o descrevem, como o louvam? Conhece-o, fixa a tua mente naquelas palavras. É que o amor eleva-nos» (S. Rustaveli, O Cavaleiro na pele de tigre, Tbilissi, 1988, morada 785). Verdadeiramente o amor do Senhor eleva-nos, porque nos permite subir acima das incompreensões do passado, dos cálculos do presente e dos medos do futuro.

O povo georgiano testemunhou, ao longo dos séculos, a grandeza deste amor. Nele encontrou a força para se levantar de novo depois de inúmeras provações; nele se elevou até aos cumes duma beleza artística extraordinária. De facto sem amor, como escreveu outro grande poeta, «o sol não reina na cúpula do céu» e, para os homens, «não há beleza nem imortalidade» (Galaktion Tabidze, Sem amor, Tbilissi, 1982, 25). No amor, encontra-se a razão de ser imortal a beleza do vosso património cultural, que se expressa em múltiplas formas, como, por exemplo, a música, a pintura, a arquitetura e a dança. Irmão caríssimo, disto mesmo nos deu digna expressão Vossa Santidade, especialmente compondo preciosos hinos sacros, alguns mesmo em língua latina e particularmente estimados pela tradição católica. Eles enriquecem o vosso tesouro de fé e cultura, dom único oferecido à cristandade e à humanidade, que merece ser conhecido e apreciado por todos.

A gloriosa história do Evangelho nesta terra deve-se de modo especial a Santa Nino, que é comparada aos Apóstolos: ela espalhou a fé sob o sinal particular da cruz feita de lenho de videira. Não se trata duma cruz desnudada, porque a imagem da videira, para além do fruto que sobressai nesta terra, representa o Senhor Jesus. Na verdade, Ele é «a videira verdadeira» e pediu aos Apóstolos para permanecerem fortemente enxertados n’Ele, como ramos, para dar fruto (cf. Jo 15, 1-8). E para que o Evangelho dê fruto também hoje, é-nos pedido, caríssimo Irmão, que permaneçamos cada vez mais firmes no Senhor e unidos entre nós. A multidão de Santos, que conta este país, encoraja-nos a colocar o Evangelho em primeiro lugar, evangelizando como no passado, e mais do que no passado, livres das amarras dos preconceitos e abertos à perene novidade de Deus. Que as dificuldades não sejam impedimentos, mas estímulos para nos conhecermos melhor, compartilharmos a seiva vital da fé, intensificarmos a oração de uns pelos outros e colaborarmos com caridade apostólica no testemunho comum, para glória de Deus nos céus e ao serviço da paz na terra.

O povo georgiano gosta de comemorar os seus valores mais queridos, brindando com o fruto da videira. A par do amor que eleva, é reservada um papel particular à amizade. «Quem não procura um amigo, de si próprio é inimigo»: lembra ainda o poeta Rustaveli (O Cavaleiro na pele de tigre, morada 847). Desejo ser amigo sincero desta terra e deste povo querido, que não esquece o bem recebido e cujo tratamento hospitaleiro se alia com um estilo de vida genuinamente esperançoso, mesmo no meio das dificuldades que nunca faltam. Também este caráter positivo se enraíza na fé, que leva os georgianos, à volta da própria mesa, a implorar a paz para todos, lembrando até os inimigos.

Com a paz e o perdão, somos chamados a vencer os nossos verdadeiros inimigos, que não são de carne e sangue, mas os espíritos do mal fora e dentro de nós (cf. Ef 6, 12). Esta terra abençoada é rica de heróis valorosos segundo o Evangelho que souberam, como São Jorge, derrotar o mal. Penso em tantos monges e, de modo particular, nos numerosos mártires, cuja vida triunfou «com a fé e a paciência» (Ioane Sabanisze, Martírio de Abo, III): passou através da prensa do sofrimento, permanecendo unida ao Senhor e assim produziu um fruto pascal, irrigando o solo georgiano com sangue derramado por amor. A sua intercessão dê alívio a tantos cristãos que ainda hoje, no mundo, sofrem perseguições e ultrajes e reforce em nós o desejo bom de vivermos fraternalmente unidos para anunciar o Evangelho da paz.

Catequese do Papa Francisco: misericordiosos como o Pai

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 21 de setembro de 2017

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Escutamos o trecho do Evangelho de Lucas (6, 36-38) do qual foi tirado o mote deste Ano Santo Extraordinário: Misericordiosos como o Pai. A expressão completa é: “Sejais misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (v. 36). Não se trata de um slogan de efeito, mas de um compromisso de vida. Para compreender bem esta expressão, podemos confrontá-la com aquela paralela do Evangelho de Mateus, onde Jesus diz: “Sede perfeitos assim como vosso Pai celeste é perfeito” (5, 48). No discurso da montanha, que se abre com as Bem Aventuranças, o Senhor ensina que a perfeição consiste no amor, cumprimento de todos os preceitos da Lei. Nesta mesma perspectiva, São Lucas explicita que a perfeição é o amor misericordioso: ser perfeito significa ser misericordioso. Uma pessoa que não é misericordiosa é perfeita? Não! Uma pessoa que não é misericordiosa é boa? Não! A bondade e a perfeição estão enraizadas na misericórdia. Certo, Deus é perfeito. Todavia, se o consideramos assim, torna-se impossível para os homens tender àquela absoluta perfeição. Em vez disso, tê-lo diante dos olhos como misericordioso nos permite compreender melhor em que consiste a sua perfeição e nos estimula a ser como Ele, plenos de amor, de compaixão, de misericórdia.

Mas me pergunto: as palavras de Jesus são realistas? É realmente possível amar como Deus ama e ser misericordioso como Ele?

Se olhamos a história da salvação, vemos que toda a revelação de Deus é um incessante e inesgotável amor pelos homens: Deus é como um pai ou como uma mãe que ama com insondável amor e o derrama com abundância sobre cada criatura. A morte de Jesus na cruz é o ápice da história do amor de Deus com o homem. Um amor tão grande que somente Deus pode realizar. É evidente que, comparado a este amor que não tem medida, o nosso amor sempre parecerá em falta. Mas quando Jesus nos pede para sermos misericordiosos como o Pai, não pensa na quantidade! Ele pede aos seus discípulos para se tornarem sinal, testemunhar da sua misericórdia.

E a Igreja não pode ser outra coisa que não sacramento da misericórdia de Deus no mundo, em todo tempo e para toda a humanidade. Cada cristão, portanto, é chamado a ser testemunha da misericórdia e isso acontece no caminho de santidade. Pensemos em quantos santos se tornaram misericordiosos porque deixara encher seu coração com a divina misericórdia. Deram corpo ao amor do Senhor derramando-o nas múltiplas necessidades da humanidade sofredora. Neste florescer de tantas formas de caridade é possível ver os reflexos da face misericordiosa de Cristo.

Perguntemo-nos: o que significa para os discípulos ser misericordiosos? É explicado por Jesus em dois verbos: “perdoar” (v. 37) e “doar” (v. 38).

A misericórdia se exprime, antes de tudo, no perdão: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (v. 37). Jesus não pretende subverter o curso da justiça humana, todavia recorda aos discípulos que para ter relações fraternas é necessário suspender julgamentos e condenações. É o perdão, de fato, o pilar que rege a vida da comunidade cristã, porque nisso se mostra a gratuidade do amor com que Deus nos amou primeiro. O cristão deve perdoar! Mas por que? Porque foi perdoado. Todos nós que estamos aqui hoje, na praça, fomos perdoados. Nenhum de nós, na própria vida, não teve necessidade do perdão de Deus. E porque nós fomos perdoados, devemos perdoar. Rezamos todos os dias no Pai Nosso: “Perdoai os nossos pecados; perdoai os nossos pecados assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Isso é, perdoar as ofensas, perdoar tantas coisas, porque nós fomos perdoados por tantas ofensas, por tantos pecados. E assim é fácil perdoar: se Deus me perdoou, por que não devo eu perdoar os outros? Sou maior que Deus? Esse pilar do perdão nos mostra a gratuidade do amor de Deus, que nos amou primeiro. Julgar e condenar o irmão que peca é errado. Não porque não se queira reconhecer o pecado, mas porque condenar o pecador quebra o laço de fraternidade com ele e despreza a misericórdia de Deus que, em vez disso, não quer renunciar a nenhum dos seus filhos. Não temos o poder de condenar o nosso irmão que erra, não somos mais que ele: temos, em vez disso, o dever de recuperá-lo à dignidade de filho do Pai e de acompanhá-lo no seu caminho de conversão.

À sua Igreja, a nós, Jesus indica também um segundo pilar: “doar”. Perdoar é o primeiro pilar; doar é o segundo pilar. “Dai e vos será dado […] com a mesma medida com que medirdes sereis medidos vós também” (v. 38). Deus dá bem além dos nossos méritos, mas será ainda mais generoso com quantos aqui na terra foram generosos. Jesus não diz o que acontecerá àqueles que não dão, mas a imagem da “medida” constitui um aviso: com a medida do amor que damos, somos nós mesmos a decidir como seremos julgados, como seremos amados. Se olharmos bem, há uma lógica coerente: na medida em que se recebe de Deus, se doa ao irmão, e na medida em que se doa ao irmão, se recebe de Deus!

O amor misericordioso é, por isso, a única via a percorrer. Quanta necessidade todos nós temos de ser um pouco mais misericordiosos, de não falar mal dos outros, de não julgar, de não falar mal com críticas, com inveja, com ciúmes. Devemos perdoar, ser misericordiosos, viver a vida no amor. Este amor permite aos discípulos de Jesus não perder a identidade recebida Dele e de reconhecer-se como filhos do mesmo Pai. No amor que esses praticam na vida se reflete assim aquela Misericórdia que nunca terá fim (cfr 1 Cor 13, 1-12). Mas não se esqueçam disso: a misericórdia e dom; perdão e dom. Assim, o coração se alarga, se alarga no amor. Em vez disso, o egoísmo, a raiva, tornam o coração pequeno, que se endurece como uma pedra. O que vocês preferem? Um coração de pedra ou um coração de amor? Se preferem um coração cheio de amor, sejam misericordiosos!

Discurso do Papa na conclusão do Dia Mundial de Oração pela Paz

brasão do Papa Francisco

Visita do Papa a Assis para o Dia Mundial de Oração pela Paz
Cerimônia conclusiva na Praça São Francisco 
Terça-feira, 20 de setembro de 2016

Santidades,
Ilustres Representantes das Igrejas, Comunidades cristãs e Religiões,
Amados irmãos e irmãs!

Com grande respeito e afeto vos saúdo e agradeço a vossa presença. Viemos a Assis como peregrinos à procura de paz. Trazemos connosco e colocamos diante de Deus os anseios e as angústias de muitos povos e pessoas. Temos sede de paz, temos o desejo de testemunhar a paz, temos sobretudo necessidade de rezar pela paz, porque a paz é dom de Deus e cabe a nós invocá-la, acolhê-la e construí-la cada dia com a sua ajuda.

«Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9). Muitos de vós percorreram um longo caminho para chegar a este lugar abençoado. Sair, pôr-se a caminho, encontrar-se em conjunto, trabalhar pela paz: não são movimentos apenas físicos, mas sobretudo da alma; são respostas espirituais concretas para superar os fechamentos, abrindo-se a Deus e aos irmãos. É Deus que no-lo pede, exortando-nos a enfrentar a grande doença do nosso tempo: a indiferença. É um vírus que paralisa, torna inertes e insensíveis, um morbo que afeta o próprio centro da religiosidade produzindo um novo e tristíssimo paganismo: o paganismo da indiferença.

Não podemos ficar indiferentes. Hoje o mundo tem uma sede ardente de paz. Em muitos países, sofre-se por guerras, tantas vezes esquecidas, mas sempre causa de sofrimento e pobreza. Em Lesbos, com o querido Irmão e Patriarca Ecumênico Bartolomeu, vimos nos olhos dos refugiados o sofrimento da guerra, a angústia de povos sedentos de paz. Penso em famílias, cuja vida foi transtornada; nas crianças, que na vida só conheceram violência; nos idosos, forçados a deixar as suas terras: todos eles têm uma grande sede de paz. Não queremos que estas tragédias caiam no esquecimento. Desejamos dar voz em conjunto a quantos sofrem, a quantos se encontram sem voz e sem escuta. Eles sabem bem – muitas vezes melhor do que os poderosos – que não há qualquer amanhã na guerra e que a violência das armas destrói a alegria da vida.

Nós não temos armas; mas acreditamos na força mansa e humilde da oração. Neste dia, a sede de paz fez-se imploração a Deus, para que cessem guerras, terrorismo e violências. A paz que invocamos, a partir de Assis, não é um simples protesto contra a guerra, nem é sequer «o resultado de negociações, de compromissos políticos ou de acordos econômicos, mas o resultado da oração» [João Paulo II, Discurso, Basílica de Santa Maria dos Anjos, 27 de outubro de 1986, 1: Insegnamenti IX/2 (1986), 1252]. Procuramos em Deus, fonte da comunhão, a água cristalina da paz, de que está sedenta a humanidade: essa água não pode brotar dos desertos do orgulho e dos interesses de parte, das terras áridas do lucro a todo o custo e do comércio das armas.

Diversas são as nossas tradições religiosas. Mas, para nós, a diferença não é motivo de conflito, de polêmica ou de frio distanciamento. Hoje não rezamos uns contra os outros, como às vezes infelizmente sucedeu na História. Ao contrário, sem sincretismos nem relativismos, rezamos uns ao lado dos outros, uns pelos outros. São João Paulo II disse neste mesmo lugar: «Talvez nunca antes na história da humanidade, como agora, o laço intrínseco que existe entre uma atitude autenticamente religiosa e o grande bem da paz se tenha tornado evidente a todos» (Discurso, Praça inferior da Basílica de São Francisco, 27 de outubro de 1986, 6: o. c., 1268). Continuando o caminho iniciado há trinta anos em Assis, onde permanece viva a memória daquele homem de Deus e de paz que foi São Francisco, «uma vez mais nós, aqui reunidos, afirmamos que quem recorre à religião para fomentar a violência contradiz a sua inspiração mais autêntica e profunda» [João Paulo II, Discurso aos Representantes das Religiões, Assis, 24 de janeiro de 2002, 4: Insegnamenti XXV/1 (2002), 104], que qualquer forma de violência não representa «a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição» [Bento XVI, Intervenção na jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo, Assis, 27 de outubro de 2011: Insegnamenti VII/2 (2011), 512]. Não nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca pode justificar a violência. Só a paz é santa; não a guerra!

Hoje imploramos o santo dom da paz. Rezamos para que as consciências se mobilizem para defender a sacralidade da vida humana, promover a paz entre os povos e salvaguardar a criação, nossa casa comum. A oração e a colaboração concreta ajudam a não ficar bloqueados nas lógicas do conflito e a rejeitar as atitudes rebeldes de quem sabe apenas protestar e irar-se. A oração e a vontade de colaborar comprometem a uma paz verdadeira, não ilusória: não a tranquilidade de quem esquiva as dificuldades e vira a cara para o lado, se os seus interesses não forem afetados; não o cinismo de quem se lava as mãos dos problemas alheios; não a abordagem virtual de quem julga tudo e todos no teclado dum computador, sem abrir os olhos às necessidades dos irmãos nem sujar as mãos em prol de quem passa necessidade. A nossa estrada é mergulhar nas situações e dar o primeiro lugar aos que sofrem; assumir os conflitos e saná-los a partir de dentro; percorrer com coerência caminhos de bem, recusando os atalhos do mal; empreender pacientemente, com a ajuda de Deus e a boa vontade, processos de paz.

Paz, um fio de esperança que liga a terra ao céu, uma palavra tão simples e ao mesmo tempo tão difícil. Paz quer dizer Perdão que, fruto da conversão e da oração, nasce de dentro e, em nome de Deus, torna possível curar as feridas do passado. Paz significa Acolhimento, disponibilidade para o diálogo, superação dos fechamentos, que não são estratégias de segurança, mas pontes sobre o vazio. Paz quer dizer Colaboração, intercâmbio vivo e concreto com o outro, que constitui um dom e não um problema, um irmão com quem tentar construir um mundo melhor. Paz significa Educação: uma chamada a aprender todos os dias a arte difícil da comunhão, a adquirir a cultura do encontro, purificando a consciência de qualquer tentação de violência e rigidez, contrárias ao nome de Deus e à dignidade do ser humano.

Nós aqui, juntos e em paz, cremos e esperamos num mundo fraterno. Desejamos que homens e mulheres de religiões diferentes se reúnam e criem concórdia em todo o lado, especialmente onde há conflitos. O nosso futuro é viver juntos. Por isso, somos chamados a libertar-nos dos fardos pesados da desconfiança, dos fundamentalismos e do ódio. Que os crentes sejam artesãos de paz na invocação a Deus e na ação em prol do ser humano! E nós, como Chefes religiosos, temos a obrigação de ser pontes sólidas de diálogo, mediadores criativos de paz. Dirigimo-nos também àqueles que detêm a responsabilidade mais alta no serviço dos povos, aos líderes das nações, pedindo-lhes que não se cansem de procurar e promover caminhos de paz, olhando para além dos interesses de parte e do momento: não caiam no vazio o apelo de Deus às consciências, o grito de paz dos pobres e os anseios bons das gerações jovens. Aqui, há trinta anos, São João Paulo II disse: «A paz é um canteiro de obras aberto a todos e não só aos especialistas, aos sábios e aos estrategistas. A paz é uma responsabilidade universal» (Discurso, Praça inferior da Basílica de São Francisco, 27 de outubro de 1986, 7: o. c., 1269). Assumamos esta responsabilidade, reafirmemos hoje o nosso sim a ser, juntos, construtores da paz que Deus quer e de que a humanidade está sedenta.

Catequese com o Papa Francisco – 14/09/16

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Durante este Jubileu, refletimos várias vezes sobre o fato de que Jesus se exprime com uma ternura única, sinal da presença e da bondade de Deus. Hoje nos concentramos sobre um trecho comovente do Evangelho (cfr Mt 11, 28-30), no qual Jesus diz: “Vinde a mim, vós todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. […] Aprendei de mim, que sou brando e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa vida” (vv. 28-29). O convite do Senhor é surpreendente: chama para segui-lo pessoas simples e sobrecarregadas por uma vida difícil, chama a segui-lo pessoas que têm tantas necessidades e promete a elas que Nele encontrarão repouso e alívio. O convite é dirigido de forma imperativa: “vinde a mim”, “tomai o meu jugo”, “aprendei de mim”. Talvez todos os líderes do mundo pudessem dizer isso! Procuremos colher o significado dessas expressões.

O primeiro imperativo é “Vinde a mim”. Dirigindo-se àqueles que estão cansados e oprimidos, Jesus se apresenta como o Servo do Senhor descrito no livro do profeta Isaías. Assim diz o trecho de Isaías: “o Senhor me deu uma língua de discípulo, para que eu saiba reconfortar pela palavra o que está abatido” (50, 4). A estes desconfiados da vida, o Evangelho coloca ao lado também os pobres (cfr Mt 11,5) e os pequenos (cfr Mt 18, 6). Trata-se de quantos não podem contar com os próprios meios, nem com suas amizades importantes. Esses podem apenas confiar em Deus. Conscientes da própria humildade e mísera condição, sabem depender da misericórdia do Senhor, esperando Dele a única ajuda possível. No convite de Jesus encontram finalmente resposta à sua espera: tornando-se seus discípulos, recebem a promessa de encontrar restauração para toda a vida. Uma promessa que ao término do Evangelho vem expressa a todos os povos: “Ide – diz Jesus aos Apóstolos – e fazei discípulos todos os povos” (Mt 28, 19). Acolhendo o convite para celebrar este ano de graça do Jubileu, em todo o mundo os peregrinos atravessam a Porta da Misericórdia aberta nas catedrais, nos santuários, em tantas igrejas do mundo, nos hospitais, nos presídios. Por que atravessam esta Porta da Misericórdia? Para encontrar Jesus, para encontrar a amizade de Jesus, para encontrar a restauração que só Jesus dá. Este caminho exprime a conversão de cada discípulo que se coloca ao seguimento de Jesus. E a conversão consiste sempre em descobrir a misericórdia do Senhor. Essa é infinita e inesgotável: é grande a misericórdia do Senhor! Atravessando a Porta Santa, portanto, professamos “que o amor está presente no mundo e este amor é mais poderoso que todo tipo de mal, em que o homem, a humanidade, o mundo estão envolvidos” (João Paulo II, Enc. Dives in misericordia, 7).

O segundo imperativo diz: “Tomai o meu jugo”. No contexto da Aliança, a tradição bíblica utiliza a imagem do jugo para indicar o estreito vínculo que liga o povo a Deus e, por consequência, a submissão à sua vontade expressa na Lei. Em polêmica com os escribas e os doutores da lei, Jesus coloca sobre seus discípulos o seu jugo, no qual a Lei encontra o seu cumprimento. Quer ensinar a eles que descobrirão a vontade de Deus mediante a sua pessoa: mediante Jesus, não mediante leis e prescrições frias que o próprio Jesus condena. Basta ler o capítulo 23 de Mateus! Ele está no centro de sua relação com Deus, está no coração das relações entre os discípulos e se coloca como centro da vida de cada um. Recebendo o “jugo de Jesus”, cada discípulo entra assim em comunhão com Ele e se torna partícipe do mistério da sua cruz e do seu destino de salvação.

Segue-se o terceiro imperativo: “Aprendei de mim”. Aos seus discípulos, Jesus prospecta um caminho de conhecimento e imitação. Jesus não é um mestre que com severidade impõe aos outros os pesos que Ele não leva: esta era a acusação que fazia aos doutores da lei. Ele se dirige aos humildes, aos pequenos, aos pobres, aos necessitados porque Ele mesmo se fez pequeno e humilde. Compreende os pobres e os sofredores porque Ele mesmo é pobre e provado por dores. Para salvar a humanidade, Jesus não percorreu um caminho fácil; ao contrário, o seu caminho foi doloroso e difícil. Como recorda a Carta aos Filipenses: “Humilhou a si mesmo fazendo-se obediente até a morte e a uma morte de cruz” (2, 8). O jugo que os pobres e os oprimidos levam é o mesmo jugo que Ele levou antes deles: por isso é um jugo leve. Ele carregou nas costas as dores e os pecados de toda a humanidade. Para o discípulo, portanto, receber o jugo de Jesus significa receber a sua revelação e acolhê-la: Nele a misericórdia de Deus tomou a cargo a pobreza dos homens, doando, assim, a todos a possibilidade de salvação. Mas por que Jesus é capaz destas coisas? Porque Ele se fez tudo a todos, próximo a todos, aos mais pobres! Era um pastor entre o povo, entre os pobres: trabalhava todos os dias com eles. Jesus não era um príncipe. É ruim para a Igreja quando os pastores se tornam príncipes, distantes do povo, distantes dos mais pobres: esse não é o espírito de Jesus. Quantos pastores Jesus repreendia, e deles Jesus dizia ao povo: “fazei o que dizem, mas não o que fazem”.

Queridos irmãos e irmãs, também para nós há momentos de cansaço e de desilusão. Então nos lembremos destas palavras do Senhor, que nos dão tanto consolo e nos fazem entender se estamos colocando as nossas forças a serviço do bem. De fato, às vezes o nosso cansaço é causado por ter colocado confiança em coisas que não são essenciais, porque nos afastamos daquilo que realmente vale na vida. O Senhor nos ensina a não ter medo de segui-Lo, porque a esperança que colocamos Nele não será desiludida. Somos chamados, portanto, a aprender com Ele o que significa viver de misericórdia para ser instrumento de misericórdia. Viver de misericórdia para ser instrumento de misericórdia: viver de misericórdia é sentir-se necessitado da misericórdia de Jesus e quando nós nos sentimos necessitados do perdão, de consolo, aprendemos a ser misericordiosos com os outros. Ter o olhar fixo sobre o Filho de Deus nos faz entender quanto caminho devemos ainda percorrer; mas ao mesmo tempo nos infunde a alegria de saber que estamos caminhando com Ele e não estamos nunca sozinhos. Coragem, portanto, coragem! Não deixemo-nos tirar a alegria de ser discípulo do Senhor. “Mas, padre, eu sou pecador, como posso fazer?” – “Deixe-se olhar pelo Senhor, abra o teu coração, sinta sobre você o seu olhar, a sua misericórdia e o teu coração será preenchido de alegria, da alegria do perdão, se você se aproxima e pede o perdão”. Não deixemos nos roubarem a esperança de viver essa vida junto com Ele e com a força da sua consolação. Obrigado.

Papa lista 5 obstáculos que impedem de sentir a presença de Deus

O Papa comentou o Evangelho do dia e explicou a expressão de Jesus “bem-aventurado aquele que não vê em mim motivo de escândalo”

Ao presidir a Audiência Geral desta quarta-feira, 7, o Papa Francisco lembrou que é a misericórdia que salva, por meio de Jesus Cristo, que não veio para punir os pecadores, mas chamá-los à conversão.

“Deus não mandou seu Filho ao mundo para punir os pecadores muito mesmo para destruir os maus. A eles é feito o convite à conversão para que, vendo os sinais da bondade divina, possam reencontrar a estrada do retorno”.

Ao recordar novamente o Evangelho de Mateus, no trecho em que Jesus diz “bem-aventurado aquele que não vê em mim motivo de escândalo”, o Papa explicou que “escândalo significa obstáculo”.

“A advertência de Jesus é sempre atual: também hoje o homem constrói imagens de Deus que lhe impede de sentir a sua real presença”.

A partir desse aviso, Francisco elencou 5 destes obstáculos atuais que impedem de sentir a presença de Deus:

1.“Alguns tecem uma fé ‘faça você mesmo’ que reduz Deus ao espaço limitado dos próprios desejos e das próprias convicções. Mas esta fé não é conversão ao Senhor que se revela, ao contrário, impede-

“É a misericórdia que salva”. Inspirado nesta afirmação do Evangelho de Mateus, o Papa Francisco conduziu a Audiência Geral de quarta-feira (7/9) e citou a dúvida da “noite escura no coração” de João Batista, que não entendia o “estilo muito diferente” de agir de Cristo – “o instrumento concreto da misericórdia do Pai”.

“A justiça que João Batista colocava ao centro da sua pregação, em Jesus se manifesta em primeiro lugar como misericórdia. Esta passa a ser a síntese do agir de Jesus, que desta maneira torna visível e tangível o agir do próprio Deus”.

Uma mensagem muito clara também para a Igreja, afirmou o Papa:

“Deus não mandou seu Filho ao mundo para punir os pecadores tampouco para destruir os maus. A eles é feito o convite à conversão para que, vendo os sinais da bondade divina, possam reencontrar a estrada do retorno”.

Ao recordar novamente o Evangelho de Mateus, no trecho em que Jesus diz “bem-aventurado aquele que não vê em mim motivo de escândalo”, o Papa explicou que “escândalo significa obstáculo”.

“A advertência de Jesus é sempre atual: também hoje o homem constrói imagens de Deus que lhe impede de sentir a sua real presença”.

A partir desse aviso, Francisco elencou 5 destes obstáculos atuais:

1.“Alguns tecem uma fé ‘faça você mesmo’ que reduz Deus ao espaço limitado dos próprios desejos e das próprias convicções. Mas esta fé não é conversão ao Senhor que se revela, ao contrário, impede-O de provocar a nossa vida e a nossa consciência”.

2. “Outros reduzem Deus a um falso ídolo; usam seu santo nome para justificar os próprios interesses ou até mesmo o ódio e a violência”.

3. “Para outros, Deus é somente um refúgio psicológico no qual estar seguro nos momentos difíceis: trata-se de uma fé dobrada em si mesma, impermeável à força do amor misericordioso de Jesus que conduz em direção aos irmãos”.

4. “Outros ainda consideram Cristo somente um bom mestre de ensinamentos éticos, um entre tantos na história”.

5. “Finalmente, há quem sufoca a fé em uma relação puramente intimista com Jesus, anulando o seu impulso missionário capaz de transformar o mundo e a história. Nós cristãos acreditamos no Deus de Jesus Cristo, e o seu desejo é aquele de crescer na experiência viva do seu mistério de amor”, afirmou o Papa e concluiu:

“Tenhamos o compromisso de não colocar nenhum obstáculo ao agir misericordioso do Pai, e peçamos o dom de uma fé grande para que também nós sejamos sinais e instrumentos de misericórdia”.