Catequese do ano jubilar – misericórdia concreta

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE DO ANO JUBILAR
Praça São Pedro – Vaticano
Quinta-feira, 30 de junho de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Quantas vezes, durante esses primeiros meses do Jubileu, ouvimos falar das obras de misericórdia! Hoje, o Senhor nos convida a fazer um sério exame de consciência. Quantas vezes, durante esses primeiros meses no Jubileu, ouvimos falar das obras de misericórdia! Hoje, o Senhor nos convida a fazer um sério exame de consciência. É bom, de fato, nunca esquecer que a misericórdia não é uma palavra abstrata, mas é um estilo de vida: uma pessoa pode ser misericordiosa ou pode ser não-misericordiosa; é um estilo de vida. Eu escolho viver como misericordioso ou escolho viver como não misericordioso. Uma coisa é falar de misericórdia, outra é viver a misericórdia. Parafraseando as palavras de São Tiago apóstolo (cfr 2, 14-17) poderemos dizer: a misericórdia sem as obras é morta em si mesma. É justamente assim! O que torna viva a misericórdia é o seu constante dinamismo para ir ao encontro aos necessitados e às necessidades de quanto estão em dificuldade espiritual e material. A misericórdia tem olhos para ver, orelhas para ouvir, mãos para levantar…

A vida cotidiana nos permite tocar com a mão tantas exigências que dizem respeito às pessoas mais pobres e necessitadas. A nós é pedido aquela atenção particular que nos leva a perceber o estado de sofrimento e necessidade de tantos irmãos e irmãs. Às vezes passamos diante de situações dramáticas de pobreza e parece que não nos tocam; tudo continua como se nada fosse, em uma indiferença que no fim nos torna hipócritas e, sem que nos demos conta, resulta em uma forma de inércia espiritual que torna a alma insensível e a vida estéril. As pessoas que passam, que vão adiante na vida sem perceber a necessidade dos outros, sem ver tantas necessidades espirituais e materiais, são pessoas que passam sem viver, são pessoas que não servem aos outros. Lembrem-se bem: quem não vive para servir, não serve para viver.

Quantos são os aspectos da misericórdia de Deus para nós! Do mesmo modo, quantas faces se dirigem a nós para obter misericórdia. Quem experimentou na própria vida a misericórdia do Pai não pode permanecer insensível diante da necessidade dos irmãos. O ensinamento de Jesus que ouvimos não permite vias de fuga: tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; estava nu, prófugo, doente, na prisão e me assististes (cfr Mt 25, 35-36). Não se pode vacilar diante de uma pessoa que tem fome: é preciso dar-lhe de comer. Jesus nos diz isso! As obras de misericórdia não são como teorias, mas são testemunhos concretos. Obrigam a arregaçar as mangas para aliviar o sofrimento.

Por causa das mudanças do nosso mundo globalizado, algumas pobrezas materiais e espirituais se multiplicaram: demos, portanto, espaço à criatividade da caridade para identificar novas modalidades de ação. Deste modo, a via da misericórdia se tornará sempre mas concreta. A nós, portanto, é pedido para permanecer vigilantes como sentinelas, para que não aconteça que, diante das pobrezas produzidas pela cultura do bem-estar, o olhar dos cristãos se enfraqueça e se torne incapaz de olhar para o essencial. Olhar ao essencial. O que significa? Olhar Jesus, ver Jesus naquele que tem fome, no preso, no doente, no nu, naquele que não tem trabalho e precisa levar adiante uma família. Olhar Jesus naqueles nossos irmãos e irmãs; ver Jesus naquele que está sozinho, triste, naquele que erra e precisa de conselho, naquele que tem necessidade de fazer caminho com Ele em silêncio, para que se sinta em companhia. Estas são as obras que Jesus pede a nós! Ver Jesus neles, nestas pessoas. Por que? Porque assim Jesus olha para mim, olha para todos nós.
***

Agora, passemos a uma outra coisa

Nos dias passados, o Senhor me permitiu visitar a Armênia, a primeira nação a ter abraçado o cristianismo, no início do quarto século. Um povo que, ao longo de sua história, testemunhou a fé cristã com o martírio. Dou graças a Deus por essa viagem e sou realmente grato ao presidente da República Armena, ao Catholicos Karekin II, ao Patriarca e aos bispos católicos e a todo o povo armênio por ter me acolhido como peregrino de fraternidade e de paz.

Daqui a três meses farei, se Deus quiser, outra viagem à Geórgia e Azerbaijão, outros dois países da região do cáucaso. Acolhi o convite para visitar esses países por um duplo motivo: por um lado, valorizar as antigas raízes cristãs presentes naquelas terras – sempre em espírito de diálogo com outras religiões e culturas – e por outro lado encorajar esperanças e sentimentos de paz. A história nos ensina que o caminho da paz requer uma grande perseverança e passos contínuos, começando por aqueles pequenos e mão a mão fazendo-os crescer, indo um ao encontro do outro. Justamente por isso o meu desejo é que todos e cada um deem a própria contribuição para a paz e a reconciliação.

Como cristãos, somos chamados a reforçar entre nós a comunhão fraterna, para dar testemunho do Evangelho de Cristo e para sermos fermento de uma sociedade mais justa e solidária. Por isso, toda a visita foi partilhada com o Supremo Patriarca da Igreja Apostólica Armênia, que fraternamente me hospedou por três dias na sua casa.

Renovo o meu abraço aos bispos, aos sacerdotes, às religiosas e aos religiosos e a todos os fiéis na Armênia. A Virgem Maria, nossa Mãe, os ajude a permanecer firmes na fé, abertos ao encontro e generosos nas obras de misericórdia. Obrigado.

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Homilia do Papa na festa dos santos apóstolos Pedro e Paulo 2016

brasão do Papa Francisco

HOMILIA
Bênção dos pálios e celebração eucarística na solenidade dos santos apóstolos Pedro e Paulo  
Basílica Vaticana
Quarta-feira, 29 de junho de 2016

Nesta liturgia, a Palavra de Deus contém um binômio central: fechamento/abertura. E, relacionado com esta imagem, está também o símbolo das chaves, que Jesus promete a Simão Pedro para que ele possa, sem dúvida, abrir às pessoas a entrada no Reino dos Céus, e não fechá-la como faziam alguns escribas e fariseus hipócritas que Jesus censura (cf. Mt 23,13).

A leitura dos Atos dos Apóstolos (12,1-11) apresenta-nos três fechamentos: o de Pedro na prisão; o da comunidade reunida em oração; e – no contexto próximo da nossa perícope – o da casa de Maria, mãe de João chamado Marcos, a cuja porta foi bater Pedro depois de ter sido libertado.

Vemos que a principal via de saída dos fechamentos é a oração: via de saída para a comunidade, que corre o risco de se fechar em si mesma por causa da perseguição e do medo; via de saída para Pedro que, já no início da missão que o Senhor lhe confiara, é lançado na prisão por Herodes e corre o risco de ser condenado à morte. E enquanto Pedro estava na prisão, «a Igreja orava a Deus, instantemente, por ele» (At 12, 5). E o Senhor responde à oração com o envio do seu anjo para o libertar, «arrancando-o das mãos de Herodes» (cf. v. 11). A oração, como humilde entrega a Deus e à sua santa vontade, é sempre a via de saída dos nossos fechamentos pessoais e comunitários. É a grande via de saída dos fechamentos.

O próprio Paulo, ao escrever a Timóteo, fala da sua experiência de libertação, de saída do perigo de ser ele também condenado à morte; mas o Senhor esteve ao seu lado e deu-lhe força para poder levar a bom termo a sua obra de evangelização dos gentios (cf. 2 Tm 4, 17). Entretanto Paulo fala duma «abertura» muito maior, para um horizonte infinitamente mais amplo: o da vida eterna, que o espera depois de ter concluído a «corrida» terrena. Assim é belo ver a vida do Apóstolo toda «em saída» por causa do Evangelho: toda projetada para a frente, primeiro, para levar Cristo àqueles que não O conhecem e, depois, para se lançar, por assim dizer, nos seus braços e ser levado por Ele «a salvo para o seu Reino celeste» (v. 18).

Voltemos a Pedro… A narração evangélica (Mt 16, 13-19) da sua confissão de fé e consequente missão a ele confiada por Jesus mostra-nos que a vida do pescador galileu Simão – como a vida de cada um de nós – se abre, desabrocha plenamente quando acolhe, de Deus Pai, a graça da fé. E Simão põe-se a caminhar – um caminho longo e duro – que o levará a sair de si mesmo, das suas seguranças humanas, sobretudo do seu orgulho misturado com uma certa coragem e altruísmo generoso. Decisiva neste seu percurso de libertação é a oração de Jesus: «Eu roguei por ti [Simão], para que a tua fé não desapareça» (Lc 22, 32). E igualmente decisivo é o olhar cheio de compaixão do Senhor depois que Pedro O negou três vezes: um olhar que toca o coração e liberta as lágrimas do arrependimento (cf. Lc 22, 61-62). Então Simão Pedro foi liberto da prisão do seu eu orgulhoso, do seu eu medroso, e superou a tentação de se fechar à chamada de Jesus para O seguir no caminho da cruz.

Como já aludi, no contexto próximo da passagem lida dos Atos dos Apóstolos, há um detalhe que pode fazer-nos bem considerar (cf. 12, 12-17). Quando Pedro, miraculosamente liberto, se vê fora da prisão de Herodes, vai ter à casa da mãe de João chamado Marcos. Bate à porta e, de dentro, vem atender uma empregada chamada Rode, que, tendo reconhecido a voz de Pedro, em vez de abrir a porta, incrédula e conjuntamente cheia de alegria corre a informar a patroa. A narração, que pode parecer cômica – e pode ter dado início ao chamado «complexo de Rode» –, deixa intuir o clima de medo em que estava a comunidade cristã, fechada em casa e fechada também às surpresas de Deus. Pedro bate à porta. – «Vai ver quem é!» Há alegria, há medo… «Abrimos ou não?» Entretanto ele corre perigo, porque a polícia pode prendê-lo. Mas o medo paralisa-nos, sempre nos paralisa; fecha-nos, fecha-nos às surpresas de Deus. Este detalhe fala-nos duma tentação que sempre existe na Igreja: a tentação de fechar-se em si mesma, à vista dos perigos. Mas mesmo aqui há uma brecha por onde pode passar a ação de Deus: Lucas diz que, naquela casa, «numerosos fiéis estavam reunidos a orar» (v. 12). A oração permite que a graça abra uma via de saída: do fechamento à abertura, do medo à coragem, da tristeza à alegria. E podemos acrescentar: da divisão à unidade. Sim, digamo-lo hoje com confiança, juntamente com os nossos irmãos da Delegação enviada pelo amado Patriarca Ecumênico Bartolomeu para participar na festa dos Santos Padroeiros de Roma. Uma festa de comunhão para toda a Igreja, como põe em evidência também a presença dos Arcebispos Metropolitas que vieram para a bênção dos Pálios, que lhes serão impostos pelos meus Representantes nas respetivas Sedes.

Os Santos Pedro e Paulo intercedam por nós para podermos realizar com alegria este caminho, experimentar a ação libertadora de Deus e a todos dar testemunho dela.

Catequese do Papa: a cura do leproso – 22/06/16

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 22 de junho de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

“Senhor, se queres, podes purificar-me!” (Lc 5, 12): é o pedido que ouvimos um leproso dirigir a Jesus. Este homem não pede somente para ser curado, mas para ser purificado, isso é, curado integralmente, no corpo e no coração. De fato, a lepra era considerada uma forma de maldição de Deus, de impureza profunda. O leproso devia ficar longe de todos; não podia ir ao templo e nem a nenhum serviço divino. Longe de Deus e longe dos homens. Triste vida tinha esse povo!

Apesar disso, aquele leproso não se resigna nem à doença nem às disposições que fazem dele um excluído. Para alcançar Jesus, não teve medo de infligir a lei e entrou na cidade – o que não devia fazer, era-lhe vedado – e quando o encontrou “jogou-se diante dele rezando: Senhor, se queres, podes purificar-me” (v. 12). Tudo aquilo que este homem considerado impuro faz e diz é expressão da sua fé! Reconhece o poder de Jesus: está seguro que tenha o poder de curá-lo e que tudo depende da sua vontade. Esta fé é a força que lhe permitiu romper toda convenção e procurar o encontro com Jesus e, ajoelhando-se diante Dele, o chama “Senhor”. A súplica do leproso mostra que quando nos apresentamos a Jesus não é necessário fazer longos discursos. Bastam poucas palavras, mas que sejam acompanhadas da plena confiança na sua onipotência e na sua bondade. Confiar-nos à vontade de Deus significa de fato confiar na sua infinita misericórdia. Também eu farei uma confidência pessoal. À noite, antes de ir pra cama, rezo esta breve oração: “Senhor, se queres, podes purificar-me!”. E rezo cinco “Pai Nosso”, um por cada chaga de Jesus, porque Jesus nos purificou com as chagas. Mas se eu faço isso, vocês também podem fazer, na casa de vocês, e dizer: “Senhor, se queres, podes purificar-me!” e pensar nas chagas de Jesus e rezar um “Pai Nosso” para cada uma delas. E Jesus nos escuta sempre.

Jesus é profundamente atingido por esse homem. O Evangelho de Marcos destaca que “teve compaixão, tomou-o pela mão, tocou-o e lhe disse: ‘Eu quero, seja purificado!’” (1, 41). O gesto de Jesus acompanha as suas palavras e torna mais explícito o ensinamento. Contra as disposições da Lei de Moisés, que proibia aproximar-se de um leproso (cfr Lv 13, 45-46), Jesus estende a mão e o toca. Quantas vezes nós encontramos um pobre que vem ao nosso encontro! Podemos também ser generosos, podemos ter compaixão, porém muitas vezes não os tocamos. Nós oferecemos a eles a moeda, a colocamos ali, mas evitamos tocar a mão. E esquecemos que aquilo é o corpo de Cristo! Jesus nos ensina a não ter medo de tocar o pobre e excluído, porque Ele está neles. Tocar o pobre pode purificar-nos da hipocrisia e nos tornar inquietos pela sua condição. Tocas os excluídos. Hoje me acompanham estes rapazes. Tantos pensam que seria melhor que eles tivessem permanecido em suas terras, mas ali sofriam tanto. São os nossos refugiados, mas tantos os consideram excluídos. Por favor, são os nossos irmãos! O cristão não exclui ninguém, dá lugar a todos, deixa vir todos.

Depois de ter curado o leproso, Jesus manda que não contem a ninguém, mas lhe diz: “Vá mostrar-te ao sacerdote e faz a oferta pela tua purificação como Moisés prescreveu, como testemunho para eles” (v. 14). Esta disposição de Jesus mostra ao menos três coisas. A primeira: a graça que age em nós não busca o sensacionalismo. Ela se move com discrição e sem clamor. Para medicar as nossas feridas e nos curar no caminho da santidade essa trabalha modelando pacientemente o nosso coração sobre o Coração do Senhor, de forma a assumir-lhes sempre mais os pensamentos e os sentimentos. A segunda: fazendo verificar oficialmente a cura ocorrida aos sacerdotes e celebrando um sacrifício expiatório, o leproso é reinserido na comunidade dos crentes e na vida social. A sua reintegração completa a cura. Como ele mesmo tinha suplicado, agora está completamente purificado! Enfim, apresentando-se aos sacerdotes, o leproso dá a eles testemunho a respeito de Jesus e à sua autoridade messiânica. A força da compaixão com que Jesus curou o leproso levou a fé deste homem a abrir-se à missão. Era um excluído, agora é um de nós.

Pensemos em nós, em nossas misérias…Cada um tem as próprias. Pensemos com sinceridade. Quantas vezes as cobrimos com a hipocrisia das “boas maneiras”. E justamente então é necessário estar sozinhos, colocar-se de joelho diante de Deus e rezar: “Senhor, se queres, podes purificar-me!”. E fazê-lo antes de ir pra cama, todas as noites. E agora digamos juntos esta bela oração: “Senhor, se queres, podes purificar-me”.

Catequese do Papa: a luz da misericórdia – 15/06/16

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 15 de junho de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Um dia, Jesus, aproximando-se da cidade de Jericó, realizou o milagre de restituir a visão a um cego que mendigava ao longo do caminho (cfr Lc 18, 35-43). Hoje queremos colher o significado deste sinal porque toca também a nós diretamente. O evangelista Lucas diz que aquele cego estava sentado à margem do caminho a mendigar (cfr v. 35). Um cego naquela época – mas também há pouco tempo – não podia viver de nada que não de esmola. A figura deste cego representa tantas pessoas que, também hoje, se encontram marginalizadas por causa de uma deficiência física ou de outro gênero. Está separado da multidão, está ali sentado enquanto as pessoas passam ocupadas, entretidas nos próprios pensamentos e em tantas coisas…E o caminho, que pode ser um lugar de encontro, para ele, em vez disso, é o lugar da solidão. Tanta gente que passa…E ele é sozinho.

É triste a imagem de um marginalizado, sobretudo no pano de fundo da cidade de Jericó, o esplêndido e exuberante oásis no deserto. Sabemos que justamente em Jericó chega o povo de Israel ao término do longo êxodo do Egito: aquela cidade representa a porta de ingresso na terra prometida. Recordemos as palavras que Moisés pronuncia naquela circunstância: “Se houver no meio de ti um pobre entre os teus irmãos, em uma de tuas cidades, na terra que te dá o Senhor, teu Deus, não endurecerás o teu coração e não fecharás a mão diante de teu irmão pobre; mas lhes abrirá a mão e lhes emprestará segundo as necessidades de sua indigência”.(Dt 15,7.11). É forte o contraste entre esta recomendação da Lei de Deus e a situação descrita pelo Evangelho: enquanto o cego grita invocando Jesus, o povo o repreende para fazê-lo calar, como se não tivesse o direito de falar. Não tem compaixão dele, ao contrário, fica cansado com os seus gritos. Quantas vezes nós, quando vemos tanta gente no caminho – gente necessitada, doente, que não tem o que comer – sentimos cansaço. É uma tentação que todos nós temos. Todos, também eu! É por isso que a Palavra de Deus nos adverte que a indiferença e a hostilidade tornam cegos e surdos, impedem de ver os irmãos e não permitem reconhecer neles o Senhor. Indiferença e hostilidade. E às vezes essa indiferença e hostilidade se tornam também agressão e insulto: “mas levem embora todos esses”, “coloquem-nos em outro canto!”. Essa agressão é aquilo que fazia o povo quando o cego gritava: “mas você, vá embora, vai, não fale, não grite”.

Notemos um particular interessante. O Evangelista diz que alguém da multidão explicou ao cego o motivo de toda aquela gente dizendo: “Passa Jesus, o Nazareno!” (v. 37). A passagem de Jesus é indicada com o mesmo verbo com que no livro do Êxodo se fala da passagem do anjo exterminador que salva os Israelitas na terra do Egito (cfr Ex 12, 23). É a “passagem” da páscoa, o início da libertação: quando Jesus passa, sempre há libertação, sempre há salvação! Ao cego, portanto, é como se fosse anunciada a sua páscoa. Sem deixar-se intimidar, o cego grita mais vezes por Jesus reconhecendo-o como o Filho de Davi, o Messias esperado que, segundo o profeta Isaías, teria aberto os olhos aos cegos (cfr Is 35, 5). Diferente da multidão, este cego vê com os olhos da fé. Graças a essa a sua súplica tem uma poderosa eficácia. De fato, ao ouvi-lo, “Jesus parou e ordenou que o levassem a ele” (v. 40). Assim fazendo, Jesus tira o cego da margem do caminho e o coloca no centro da atenção dos seus discípulos e da multidão. Pensemos também nós, quando estivemos em situações ruins, também situações de pecado, como foi o próprio Jesus a nos tomar pela mão e nos tirar da margem do caminho e nos dar a salvação. Realiza-se, assim, uma dupla passagem. Primeiro: o povo tinha anunciado a boa nova ao cego, mas não queria ter nada a ver com ele; agora, Jesus obriga todos a tomar consciência de que o bom anúncio implica colocar no centro do próprio caminho aquele que estava excluído. Segundo: por sua vez, o cego não via, mas a sua fé lhe abre o caminho da salvação, e ele se reencontra em meio a quantos tomaram as ruas para ver Jesus. Irmãos e irmãs, a passagem do Senhor é um encontro de misericórdia que une todos em volta Dele para permitir reconhecer quem tem necessidade de ajuda e de consolo. Também na nossa vida Jesus passa; e quando Jesus passa, e eu me dou conta, é um convite a me aproximar Dele, a ser melhor, a ser um cristão melhor, a seguir Jesus.

Jesus se dirige ao cego e lhe pergunta: “O que queres que eu faça por ti?” (v. 41). Essas palavras de Jesus são impressionantes: o Filho de Deus agora está diante do cego como humilde servo. Ele, Jesus, diz: “Mas o que queres que eu te faça? Como tu queres que eu te sirva?”. Deus se faz servo do homem pecador. E o cego responde a Jesus não mais chamando-o “Filho de Davi”, mas “Senhor”, o título que a Igreja, desde o início, aplica a Jesus Ressuscitado. O cego pede para poder ver de novo e o seu desejo é concedido: “Tenha de novo a sua visão! A tua fé te salvou” (v. 42). Ele mostrou a sua fé invocando Jesus e querendo absolutamente encontrá-lo, e isso o levou o dom da salvação. Graças à fé agora pode ver e, sobretudo, se sente amado por Jesus. Por isso a passagem termina referindo que o cego “começou a segui-Lo glorificando a Deus” (v. 43): se faz discípulo. De mendigo a discípulo, também essa é o nosso caminho: todos nós somos mendigos, todos. Sempre precisamos de salvação. E todos nós, todos os dias, devemos dar esse passo: de mendigos a discípulos. E assim, o cego caminha atrás do Senhor e se torna parte da sua comunidade. Aquele que queria calar, agora testemunha em alta voz o seu encontro com Jesus de Nazaré e “todo o povo, vendo, louva a Deus” (v. 43). Acontece um segundo milagre: isso que aconteceu ao cego faz com que também o povo finalmente veja. A mesma luz ilumina todos unindo-os na oração de louvor. Assim Jesus infunde a sua misericórdia sobre todos aqueles que encontra: chama-os, faz com que venham a si, reúne-os, cura-os e os ilumina, criando um novo povo que celebra as maravilhas do seu amor misericordioso. Deixemos também nós chamar por Jesus e deixemo-nos curar por Jesus, perdoar por Jesus e vamos atrás de Jesus louvando a Deus. Assim seja!

Catequese do Papa sobre o primeiro milagre de Jesus

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 8 de junho de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Antes de começar a catequese, gostaria de saudar um grupo de casais que celebram 50 anos de casamento. Isso sim é “o vinho bom” da família! O testemunho de vocês é algo que os recém-casados – que saudarei depois – e os jovens devem aprender. É um belo testemunho. Obrigado pelo testemunho de vocês. Depois de ter comentado algumas parábolas da misericórdia, hoje nos concentramos sobre o primeiro dos milagres de Jesus, que o evangelista João chama de “sinais”, porque Jesus não os fez para suscitar maravilhas, mas para revelar o amor do Pai. O primeiro destes sinais prodigiosos é relatado justamente por João (2, 1-11) e se realiza em Caná da Galileia. Trata-se de uma espécie de “portal de ingresso”, em que são esculpidas palavras e expressões que iluminam todo o mistério de Cristo e abrem o coração dos discípulos. Vejamos algumas.

Na introdução encontramos a expressão “Jesus com os seus discípulos” (v. 2). Aqueles que Jesus chamou para segui-Lo ligou-os a si em uma comunidade e, agora, como uma única família, são convidados todos para as bodas. Dando início ao seu ministério público nas bodas de Caná, Jesus se manifesta como o esposo do povo de Deus, anunciado pelos profetas, e nos revela a profundidade da relação que nos une a Ele: é uma nova Aliança de amor. O que há no fundamento da nossa fé? Um ato de misericórdia com o qual Jesus nos ligou a si. E a vida cristã é a resposta a esse amor, é como a história de dois apaixonados. Deus e o homem se encontram, se buscam, se encontram, se celebram e se amam: justamente como o amado e a amada no Cântico dos Cânticos. Todo o resto é consequência dessa relação. A Igreja é a família de Jesus em que se derrama o seu amor; é este amor que a Igreja protege e quer dar a todos.

No contexto da Aliança, compreende-se também a observação de Nossa Senhora: “Não tem vinho” (v. 3). Como é possível celebrar as núpcias e fazer festa se falta aquilo que os profetas indicavam como um elemento típico do banquete messiânico (cfr Am 9, 13-14; Gl 2, 24; Is 25, 6)? A água é necessária para viver, mas o vinho exprime a abundância do banquete e a alegria da festa. É uma festa de bodas na qual falta o vinho; os recém-casados se envergonham disso. Imaginem vocês terminar uma festa de casamento bebendo chá, seria uma vergonha. O vinho é necessário para a festa. Transformando em vinho a água das ânforas utilizadas “para a purificação ritual dos judeus” (v. 6), Jesus realiza um sinal eloquente: transforma a Lei de Moisés no Evangelho, portador de alegria. Como diz João: “A Lei foi dada por meio de Moisés, a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (1, 17).

As palavras que Maria dirige aos empregados veem coroar o quadro esponsal de Caná: “Façam o que Ele vos disser” (v. 5). É curioso: são as últimas suas palavras reportadas nos Evangelhos: são a sua herança que entrega a todos nós. Também hoje Nossa Senhora diz a todos nós: “Façam o que Ele vos disser”. É a herança que nos deixou: é belo! Trata-se de uma expressão que retoma a fórmula de fé utilizada pelo povo de Israel no Sinai em resposta às promessas da aliança: “Quanto o Senhor disse, nós o faremos!” (Es 19, 8). E de fato em Caná os empregados obedecem. “Jesus disse a eles: encham de água as ânforas. E os encham até a borda. Disse a eles de novo: agora peguem e levem àquele que dirige o banquete. E eles levaram” (vv. 7-8). Nestas bodas, de fato é estipulada uma Nova Aliança e aos servos do Senhor, isso é, a toda a Igreja, é confiada uma nova missão: “Qualquer coisa que vos diga, faça!”. Servir o Senhor significa ouvir e colocar em prática a sua Palavra. É a recomendação simples, mas essencial da Mãe de Jesus e é o programa de vida do cristão. Para cada um de nós, encher a ânfora equivale a confiar-se à Palavra de Deus para experimentar a sua eficácia na vida. Então, junto ao chefe do banquete que provou a água transformada em vinho, também nós podemos exclamar: “Tu guardastes a parte boa do vinho até agora” (v. 10). Sim, o Senhor continua a reservar aquele vinho bom para a nossa salvação, assim como continua a jorrar do lado transpassado do Senhor.

A conclusão do relato soa como uma sentença: “Isso, em Caná da Galileia, foi o início dos sinais realizados por Jesus; Ele manifestou a sua glória e os seus discípulos acreditaram Nele” (v. 11). As bodas de Caná são muito mais que o simples relato do primeiro milagre de Jesus. Como uma arca do tesouro, Ele protege o segredo da sua pessoa e o da sua vinda: o esperado Esposo dá início às bodas que se cumprem no Mistério pascal. Nestas bodas Jesus liga a si os seus discípulos com uma Aliança nova e definitiva. Em Caná os discípulos se tornam a sua família e em Caná nasce a fé da Igreja. Àquela boda todos nós somos convidados, porque o vinho não vem mais a faltar!

Catequese do Papa sobre o valor da humildade – 01/06/16

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 1º de junho de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Quarta-feira passada ouvimos a parábola do juiz e da viúva, sobre a necessidade de rezar com perseverança. Hoje, com outra parábola, Jesus quer nos ensinar qual é a atitude correta para rezar e invocar a misericórdia do Pai; como se deve rezar; a atitude correta para rezar. É a parábola do fariseu e do publicano (cfr Lc 18, 9-14).

Ambos os protagonistas vão ao templo para rezar, mas agem de modos muito diferentes, obtendo resultados opostos. O fariseu reza “estando de pé” (v.11), e usa muitas palavras. A sua é, sim, uma oração de agradecimento dirigida a Deus, mas na realidade é uma exposição dos próprios méritos, com sentido de superioridade para com os “outros homens”, qualificados como “ladrões, injustos, adúlteros”, como, por exemplo, – e aponta aquele outro que estava ali – “este publicano” (v. 11). Mas o problema está justamente aqui: aquele fariseu reza a Deus, mas na verdade olha para si mesmo. Reza para si mesmo! Em vez de ter diante dos olhos o Senhor, tem um espelho. Mesmo encontrando-se no templo, não sente a necessidade de se prostrar diante da majestade de Deus; está de pé, se sente seguro, como se fosse ele o patrão do templo! Ele elenca as boas obras realizadas: é irrepreensível, observador da lei além do devido, jejua “duas vezes na semana” e paga o dízimo de tudo aquilo que possui. Em suma, mais que rezar, o fariseu se congratula da própria observação dos preceitos. No entanto, a sua atitude e as suas palavras estão distantes do modo de agir do falar de Deus, que ama todos os homens e não despreza os pecadores. Ao contrário, aquele fariseu despreza os pecadores, também quando aponta o outro que está ali. Em resumo, o fariseu que se diz justo negligencia o mandamento mais importante: o amor por Deus e pelo próximo.

Não basta, portanto, nos perguntarmos quanto rezamos, devemos também nos perguntar como rezamos, ou melhor, como é o nosso coração: é importante examiná-lo para avaliar os pensamentos, os sentimentos, e erradicar arrogância e hipocrisia. Mas eu pergunto: pode-se rezar com arrogância? Não. Pode-se rezar com hipocrisia? Não. Somente devemos rezar colocando-nos diante de Deus assim como somos. Não como o fariseu que rezava com arrogância e hipocrisia. Somos todos tomados pelo frenesi do ritmo cotidiano, muitas vezes à mercê das sensações, atordoados, confusos. É necessário aprender a reencontrar o caminho rumo ao nosso coração, recuperar o valor da intimidade e do silêncio, porque é ali que Deus nos encontra e nos fala. Somente a partir dali podemos, por nossa vez, encontrar os outros e falar com eles. O fariseu se encaminhou ao templo, está seguro de si, mas não percebe ter perdido o caminho do seu coração.

O publicano, em vez disso – o outro – apresenta-se no templo com alma humilde e arrependido: “parado à distância, não ousava nem mesmo levantar os olhos ao céu, mas batia no peito” (v. 13). A sua oração é brevíssima, não é tão longa como aquela do fariseu: “Ó Deus, tenha piedade de mim pecador”. Nada mais. Bela oração! De fato, os coletores de impostos – dito apenas “publicanos” – eram considerados pessoas impuras, submetidos aos dominadores estrangeiros, eram mal vistos pelo povo e, em geral, associados aos “pecadores”. A parábola ensina que se é justo ou pecador não pela própria pertença social, mas pelo modo de se relacionar com Deus e pelo modo de se relacionar com os irmãos. Os gestos de arrependimento e as poucas e simples palavras do publicano testemunham a sua consciência acerca da sua mísera condição. A sua oração é essencial. Age com humildade, seguro somente de ser um pecador necessitado de piedade. Se o fariseu não pedia nada porque já tinha tudo, o publicano só pode implorar a misericórdia de Deus. E isso é belo: implorar a misericórdia de Deus! Apresentando-se de “mãos vazias”, com o coração nu e se reconhecendo pecador, o publicano mostra a todos nós a condição necessária para receber o perdão do Senhor. No fim, justamente ele, tão desprezado, se torna um ícone do verdadeiro crente.

Jesus conclui a parábola com uma sentença: “Eu vos digo: estes – isso é, o publicano – diferente do outro, voltou pra sua casa justificado, porque aquele que se exalta será humilhado, quem, em vez disso, se humilha será exaltado” (v. 14). Destes dois, quem é o corrupto? O fariseu. O fariseu é justamente o ícone do corrupto que finge rezar, mas só consegue se vangloriar diante de um espelho. É um corrupto e finge rezar. Assim, na vida, quem acredita ser justo e julga os outros e os despreza, é um corrupto e um hipócrita. A soberba compromete cada boa ação, esvazia a oração, afasta de Deus e dos outros. Se Deus prefere a humildade não é para nos lamentarmos: a humildade é, em vez disso, condição necessária para ser levantado por Ele, de forma a experimentar a misericórdia que vem encher os nossos vazios. Se a oração do soberbo não alcança o coração de Deus, a humildade do miserável o escancara. Deus tem uma fraqueza: a fraqueza pelos humildes. Diante de um coração humilde, Deus abre totalmente o seu coração. É esta humildade que a Virgem Maria exprime no cântico Magnificat: “Olhou para a humildade da sua serva […] de geração em geração a sua misericórdia para aqueles que o temem” (Lc 1, 48. 50). Que ela nos ajude, nossa Mãe, a rezar com coração humilde. E nós repitamos por três vezes, aquela bela oração: “Ó Deus, tenha piedade de mim pecador”.