Catequese do Papa: parábola do juiz iníquo

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Catequese do Papa Francisco
Quarta-feira, 25 de maio de 2016
Parábola do juiz iníquo (Lc 18,1-8)

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

A parábola evangélica que acabamos de ouvir (cfr Lc 18,1-8) contém um ensinamento importante: «A necessidade de rezar sempre, sem jamais se cansar» (v. 1). Portanto, não se trata apenas de rezar algumas vezes, quando sinto vontade. Não, Jesus diz que é preciso «rezar sempre, sem jamais se cansar». E apresenta o exemplo da viúva e do juiz.

O juiz é um personagem poderoso, chamado a emitir sentenças baseadas na Lei de Moisés. Por isso a tradição bíblica recomendava que os juízes fossem pessoas tementes a Deus, dignas de fé, imparciais e incorruptíveis (cfr Ex 18,21). Ao contrário, este juiz «não temia a Deus, nem respeitava homem algum» (v. 2). Era um juiz iníquo, sem escrúpulos, que não observava a Lei mas fazia o que queria, segundo seu interesse. A ele se dirige uma viúva para ter justiça. As viúvas, junto com os órfãos e os estrangeiros, eram as categorias mais frágeis da sociedade. Os direitos assegurados a eles pela Lei podiam ser pisados com facilidade porque, sendo pessoas sozinhas e sem defesa, dificilmente recebiam apoio: uma viúva, ali, sozinha, ninguém a defendia, podiam ignorá-la, não eram justos com ela. Assim também o órfão, assim o estrangeiro, o migrante: naquele tempo era muito forte esta problemática. Diante da indiferença do juiz, a viúva recorre à sua única arma: continuar insistentemente a importuná-lo, apresentando-lhe seu pedido de justiça. E justamente com esta perseverança alcança o objetivo. O juiz, de fato, em um certo ponto a escuta, não porque é movido por misericórdia, nem porque a consciência o impõe; simplesmente admite: «Mas esta viúva já está me importunando. Vou fazer-lhe justiça, para que ela não venha, por fim, a me agredir!» (v. 5). Desta parábola Jesus tira duas conclusões: se a viúva conseguiu dobrar o juiz desonesto com seus pedidos insistentes, quanto mais Deus, que é Pai bom e justo, «não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por ele?»; e além disso, não «vai fazê-los esperar», mas agirá «bem depressa» (vv. 7-8).

Por isso, Jesus exorta a rezar “sem jamais se cansar”. Todos experimentamos momentos de cansaço e desânimo, principalmente quando nossa oração parece ineficaz. Mas Jesus nos garante: diferente do juiz desonesto, Deus ouve prontamente seus filhos, mesmo que isso não signifique que o faça nos tempos e nas maneiras que nós queremos. A oração não é uma varinha mágica! Ela ajuda a conservar a fé em Deus e a confiar n’Ele mesmo quando não compreendemos a Sua vontade. Neste sentido, o próprio Jesus – que rezava muito! – é um exemplo para nós.

A Carta aos Hebreus recorda que «Ele, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que tinha poder de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua piedosa submissão» (5,7). À primeira vista, esta afirmação parece improvável, porque Jesus morreu na cruz. A Carta aos Hebreus não erra: Deus verdadeiramente salvou Jesus da morte dando-lhe sobre ela a completa vitória, mas o caminho percorrido para obtê-la passou através da própria morte! A referência à súplica que Deus ouviu diz respeito à oração de Jesus no Getsêmani. Tomado por uma angústia profunda, Jesus reza ao Pai para que o liberte do cálice amargo da paixão, mas a sua oração é permeada pela confiança no Pai e se confia sem reservas à sua vontade: «Porém – diz Jesus – não seja feito como eu quero, mas como tu queres» (Mt 26,39). O objeto da oração passa em segundo plano; o que importa antes de tudo é a relação com o Pai. É isso que a oração faz: transforma o desejo e o modela segundo a vontade de Deus, qualquer que seja, porque quem reza aspira antes de tudo a união com Deus, que é Amor misericordioso.

A parábola termina com uma pergunta: «Mas o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar fé sobre a terra?» (v. 8). E com esta pergunta todos nos colocamos em vigilância: não devemos desistir da oração mesmo que ela não seja correspondida. É a oração que conserva a fé, sem ela a fé vacila! Peçamos ao Senhor uma fé que se faz oração incessante, perseverante, como aquela da viúva da parábola, uma fé que se nutre do desejo da sua vinda. E na oração experimentamos a compaixão de Deus, que como um Pai vem ao encontro de seus filhos pleno de amor misericordioso.

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Catequese do Papa: Parábola do rico e Lázaro

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Catequese do Papa Francisco
   18 de maio de 2015
Parábola do Rico e Lázaro (Lc 16, 10-31)

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Eu gostaria de refletir com vocês hoje sobre a parábola do homem rico e do pobre Lázaro. A vida dessas duas pessoas parece se desenrolar em vias paralelas: as suas condições de vida são opostas e totalmente sem comunicação. A porta da casa do rico está sempre fechada aos pobres, que está lá fora tentando comer alguma sobra da mesa do rico. Esse veste roupas de luxo, enquanto Lázaro estava coberto de feridas; o rico todos os dias tem um banquete luxuoso,enquanto Lázaro está morrendo de fome. Somente os cachorros cuidavam dele e vinhamlamber-lhe as feridas. Esta cena lembra a repreensão dura do Filho no juízo final: “Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, eu estava […] nu e não me vestistes” (Mt. 25,42 a 43). Lázaro representa bem o grito silencioso dos pobres de todos os tempos e a contradição de um mundo onde imensa riqueza e recursos estão nas mãos de poucos.

Jesus diz que um dia aquele homem rico morreu: os pobres e os ricos morrem, têm o mesmo destino, como todos nós, não há exceções a esta regra. E então aquele homem se volta a Abraão, pedindo-lhe com o título de “pai” (vv. 24,27). Portanto, ele afirma ser seu filho, pertencente ao povo de Deus. Mas na vida não mostrou nenhuma consideração por Deus, mas tornou-se o centro de tudo, trancado em seu próprio mundo de luxo e desperdício. ExcluindoLázaro, não teve qualquer consideração nem ao Senhor nem à sua lei. Ignorar o pobre é ignorarDeus! Isto devemos aprender bem: ignorar o pobre é desprezar Deus. Há uma particularidadeque deve ser observada nessa parábola: o rico não tem nome, apenas o adjetivo: “o rico”; enquanto o nome do pobre é repetido cinco vezes e “Lázaro” significa “Deus ajuda”. Lázaro, encontrando-se na frente da porta, é um chamado vivo para que o rico se lembre de Deus, mas o rico não acolhe esse chamado. Será condenado, portanto, não por sua riqueza, mas por serincapaz de sentir compaixão de Lázaro e socorrê-lo.

Na segunda parte da parábola, encontramos Lázaro e o homem rico após a morte (vv. 22-31). Daqui em diante a situação se inverte: Lázaro foi levado pelos anjos ao céu a Abraão, o rico se precipita em meio aos tormentos. Em seguida, o rico “olhou para cima e viu ao longe Abraão, e Lázaro ao seu lado.” Ele parece ver Lázaro pela primeira vez, mas suas palavras o contradizem:“Pai Abraão, diz – tenha misericórdia de mim e envia Lázaro para molhar a ponta do seu dedo e me refrescar a língua, porque estou atormentado nesta chama”. Agora o rico reconhece Lázaro e pede ajuda, enquanto em vida, fingia não vê-lo. Quantas vezes as pessoas fingem não ver os pobres! Para eles, os pobres não existem. Antes negou-lhe até mesmo as sobras de sua mesa e agora pede o que beber! Ainda assim, ele acredita que pode reivindicar direitos por sua condição social. Declarando impossível atender seu pedido, o próprio Abraão fornece a chavede toda a história: ele explica que o bem e o mal foram distribuídos para compensar a injustiça terrena, e a porta que separava em vida o rico e o pobre, é transformada em “um grande abismo.” Enquanto Lázaro estava em sua casa, para o rico havia uma chance de salvação, abrir a porta, ajudar Lázaro, mas agora que estão mortos, a situação se tornou irreparável. Deus não foi nunca chamado diretamente, mas a parábola adverte claramente: a misericórdia de Deus para conosco é proporcional à nossa misericórdia para com o próximo. Quando esta falta,quando não tem lugar no nosso coração fechado, ela não pode entrar. Se eu não escancarar a porta do meu coração aos pobres, a porta está fechada. Mesmo para Deus. E isso é terrível.

Neste ponto, o homem rico pensa nos seus irmãos, que estão suscetíveis de ter o mesmo destino, e pede que Lázaro retorne ao mundo para avisá-los. Mas Abraão responde: ‘Eles têm Moisés e os profetas, ouçam-nos.’ Para converter a nós mesmos, não devemos esperar acontecimentos milagrosos, mas abrir o coração à Palavra de Deus, que nos chama a amar Deus e o próximo. A Palavra de Deus pode reviver um coração murcho e curá-lo de sua cegueira. O rico conhecia a Palavra de Deus, mas não deixou que ela entrasse em seu coração, não a escutou, então foi incapaz de abrir os olhos e ter compaixão pelo pobre. Nenhum mensageiro e nenhuma mensagem pode substituir o pobre que encontramos na estrada, porque neles encontramos o próprio Jesus: “Tudo o que você fizer ao menor destes meus irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25: 40), diz Jesus. Então na reversão das fortunas que a parábola descreve está escondido o mistério da nossa salvação, em que Cristo une a pobreza à misericórdia.Queridos irmãos e irmãs, ouvindo esse Evangelho, todos nós, junto aos pobres da terra, podemos cantar com Maria: “Depôs poderosos de seus tronos e exaltou os humildes; Ele encheu os famintos com coisas boas, despediu os ricos de mãos vazias “(Lc 1,52-53).

Catequese do Papa: Parábola do Filho Pródigo

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 11 de maio de 2016

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje, esta audiência acontece em dois lugares: como risco de perigo da chuva, os enfermos participam na Sala Paulo VI e nos acompanham por meio de telões; dois lugares mas uma só audiência. Vamos saudar os enfermos que estão na Sala Paulo Paulo VI. Queremos refletir hoje sobre a parábola do Pai Misericordioso. Ela nos fala de um pai e de seus dois filhos, e nos apresenta a misericórdia infinita de Deus.

Vamos partir do fim, isto é, da alegria do coração do Pai, que diz: “Façamos festa, porque este meu filho estava morto e voltou a viver, estava perdido e foi encontrado” (vv. 23-24). Com estas palavras, o pai interrompeu o filho menor no momento em que estava confessando sua culpa: “Não sou mais digno de ser chamado de teu filho…” (v. 19). Mas. Esta expressão é insuportável para o coração do pai, que se apressa em restituir ao filho os sinais de sua dignidade: a bela roupa, o anel, os calçados. Jesus não descreve um pai ofendido e ressentido, um pai que, por exemplo, diz ao filho: “Você vai me pagar”: não, o pai o abraça, o espera com amor.

Ao contrário, a única coisa que o pai tem no coração é que este filho está diante dele são e salvo e isto o faz feliz e faz festa. O acolhimento do filho que retorna é descrito de maneira comovente: “Quando ainda estava distante, seu pai o viu, teve compaixão, correu-lhe ao encontro, abraçou-o e beijou-o” (v. 20). Quanta ternura; viu-o ao longe: o que isso significa? Que o pai subia continuamente sobre o terraço para observar a estrada e ver se o filho voltava; aquele filho que tinha aprontado de tudo, mas o pai o aguardava. Que coisa mais bela a ternura do pai!

A misericórdia do pai é transbordante, incondicional, e se manifesta ainda antes de o filho falar. Certo, o filho saber que errou e o reconhece: “Pequei… trata-me com um de teus empregados” (v. 19). Mas estas palavras se dissolvem diante do perdão do pai. O abraço e o beijo de seu papai os fazem entender que sempre foi considerado filho, apesar de tudo. É importante este ensinamento de Jesus: a nossa condição de filhos de Deus é fruto do amor do coração do Pai; não depende de nossos méritos ou de nossas ações, e portanto ninguém pode tirá-la, nem mesmo o diabo! Ninguém pode nos tirar esta dignidade.

Esta palavra de Jesus nos encoraja a não desesperar jamais. Penso nas mães e nos pais apreensivos quando veem os filhos distanciando-se e tomando caminhos perigosos. Penso nos párocos e catequistas que, às vezes, se perguntam se o trabalho deles está sendo em vão. Mas penso também em quem está preso, e lhe parece que a sua vida tenha terminado; a muitos que fizeram escolhas erradas e não conseguem olhar para o futuro; a todos aqueles que tem fome de misericórdia e de perdão e creem não merecê-lo… em qualquer situação da vida, não deve esquecer que não deixarei jamais de ser filho de um Pai que me ama e espera o meu retorno. Mesmo na situação mais feia da vida, Deus me espera, Deus quer me abraçar, Deus me espera.

Na parábola há um outro filho, o mais velho; também ele tem necessidade de descobrir a misericórdia do pai. Ele sempre permaneceu em casa, mas é tão diferente do pai! As suas palavras carecem de ternura: “‘Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua… mas quando chegou esse teu filho…” (vv. 29-30). Vejamos o desprezo: não diz nunca “pai”, não diz meu “irmão”, pensa só em si mesmo, se gaba de ter sempre ficado ao lado do pai e tê-lo servido; apesar de nunca ter vivido com alegria esta proximidade. E agora acusa o pai de não ter-lhe dado um cabrito para fazer festa. Pobre pai! Um filho que tinha ido embora, e outro nunca lhe foi próximo de verdade! O sofrimento do pai é como o sofrimento de Deus, o sofrimento de Jesus quando nos distanciamos ou porque fomos distante ou porque estamos perto mas sem ser próximos.

O filho mais velho, também ele tem necessidade de misericórdia. Os justos, aqueles que acreditam ser justos, também tem necessidade de misericórdia. Este filho representa nós quando nos perguntamos se vale a pena fadigar tanto se não recebemos nada em troca. Jesus nos recorda que na casa do Pai não se permanece para ter uma compensação, mas porque tem a dignidade dos filhos corresponsáveis. Não se trata de “permutar” com Deus, mas de estar no seguimento de Jesus que deu a si mesmo sobre a cruz sem medida.

“Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas era preciso festejar e alegrar- nos” (v. 31). Assim diz o Pai ao filho mais velho. Sua lógica é a da misericórdia! O filho mais novo pensava merecer um castigo por causa de seus próprios pecados, o filho mais velho esperava uma recompensa por seus serviços. Os dois irmãos não se falam, vivem histórias diferentes, mas pensam de acordo com uma lógica diferente da de Jesus: se faz o bem recebe um prêmio, se faz um mal é punido; esta não é a lógica de Jesus, não o é! Esta lógica é subvertida pelas palavras do pai: “era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado” (v. 31). O pai recuperou o filho perdido, e agora pode também restituir ao seu irmão! Sem o mais novo, também o filho mais velho deixa de ser um “irmão”. A alegria maior para o pai é ver que seus filhos se reconhecem irmãos.

Os filhos podem decidir unirem-se à alegria do pai ou rejeitá-la. Devem se interrogar sobre seus próprios desejos e sobre a visão que têm da vida. A parábola termina deixando o final suspenso: não sabemos o que tenha decidido fazer o filho mais velho. E isso é um estímulo para nós. Este Evangelho nos ensina que todos temos necessidade de entrar na casa do Pai e participar da sua alegria, da sua festa da misericórdia e da fraternidade. Irmãos e irmãs, abramos nosso coração, para sermos “misericordiosos como o Pai”!

Reflexão do Papa na Vigília “Para enxugar as lágrimas”

Reflexão do Papa Francisco
Vigília “para enxugar as lágrimas”
5 de maio de 2016

Na sequência dos testemunhos comoventes que escutamos e à luz da Palavra do Senhor que clarifica a nossa situação de sofrimento, comecemos por invocar a presença do Espírito Santo, para que venha entre nós. Seja Ele a iluminar a nossa mente, a encontrar as palavras certas e capazes de proporcionar conforto; seja Ele a abrir o nosso coração, para ter a certeza da presença de Deus que não nos abandona na provação. O Senhor Jesus prometeu aos seus discípulos que nunca os deixaria sozinhos: em cada situação da vida,estaria junto deles com o envio do Espírito Consolador (cf. Jo 14,26) que havia de os ajudar, sustentar e confortar.

Nos momentos de tristeza, na tribulação da doença, na angústia da perseguição e na desolação do luto, cada um de nós procura uma palavra de consolação. Temos intensa necessidade de alguém que esteja ao nosso lado e sinta compaixão por nós. Experimentamos o que significa estar desorientados, confusos, feridos profundamente como nunca tínhamos pensado acontecer-nos. Incertos, olhamos em redor para ver se encontramos alguém que possa realmente compreender a nossa dor. A mente enche-se de interrogações, mas as respostas não chegam. A razão, sozinha, não é capaz de iluminar o nosso íntimo, compreender a dor que sentimos e dar a resposta que esperamos. Nestes momentos, temos mais necessidade das razões do coração, as únicas capazes de nos fazerem entender o mistério que envolve a nossa solidão.

Quanta tristeza nos acontece vislumbrar em tantos rostos que encontramos! Quantas lágrimas são derramadas,em cada instante, no mundo; uma diferente da outra; e, juntas, formam como que um oceano de desolação, que invoca piedade, compaixão, consolação. As mais amargas são as lágrimas causadas pela maldade humana: as lágrimas de quem viu arrancar-lhe violentamente uma pessoa querida; lágrimas de avós, de mães e pais, de crianças… Há olhos que muitas vezes param fixos no pôr-do-sol e têm dificuldade em ver a alvorada dum dia novo. Precisamos de misericórdia, da consolação que vem do Senhor. Todos nós precisamos dela; é a nossa pobreza, mas também a nossa grandeza: invocar a consolação de Deus, que, com a sua ternura,vem enxugar as lágrimas do nosso rosto (cf.Is 25,8; Ap 7,17; 21,4).

Nesta nossa dor, não estamos sozinhos. Também Jesus sabe o que significa chorar pela perda duma pessoa amada. Uma das páginas mais comoventes do Evangelho é esta: quando Jesus vê Maria a chorar pela morte do irmão Lázaro, também Ele não conseguiu conter as lágrimas. Emocionou-se profundamente e desatou a chorar (cf. Jo 11,33-35). Com esta descrição, o evangelista João quer mostrar como Jesus toma parte na tristeza dos seus amigos e Se solidariza com o seu desconforto. As lágrimas de Jesus embaralharam muitos teólogos ao longo dos séculos, mas sobretudo lavaram tantas almas, aliviaram tantas feridas! Também Jesus experimentou, em Si mesmo, o medo do sofrimento e da morte, a decepção e o desconforto pela traição de Judas e de Pedro, a dor pela morte do amigo Lázaro. Jesus «não abandona aqueles que ama» (Agostinho, Inevangelium Johannis 49,5). Se Deus chorou, também eu posso chorar, ciente de que sou compreendido. O pranto de Jesus é o antídoto contra a indiferença face ao sofrimento dos meus irmãos. Aquele pranto ensina-me a assumir a dor dos outros, a tornar-me participante do incômodo e do sofrimento de quantos vivem nas situações mais dolorosas. Mexe comigo para me fazer perceber a tristeza e o desespero de quantos viram até roubar-lhes o corpo dos seus entes queridos, e já não têm sequer um lugar onde possam encontrar consolação. O pranto de Jesus não pode ficar sem resposta por parte de quem acredita n’Ele. Como Ele consola, assim somos chamados nós a consolar.

No momento do pavor, da comoção e do pranto, surge no coração de Cristo a oração ao Pai. A oração é o verdadeiro remédio para o nosso sofrimento. Na oração, também nós podemos sentir a presença de Deus ao nosso lado. A ternura do seu olhar consola-nos, a força da sua palavra sustenta-nos, incutindo esperança. Junto do túmulo de Lázaro, Jesus rezou dizendo: «Pai, dou-te graças por Me teres atendido. Eu já sabia que sempre Me atendes» (Jo11,41-42). Precisamos de ter esta certeza: o Pai nos escuta e vem em nosso auxílio. O amor de Deus, derramado nos nossos corações, permite-nos dizer que, quando se ama, nada e ninguém poderá jamais separar-nos das pessoas que amamos. Assim no-lo recorda, com palavras de grande consolação, o apóstolo Paulo: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? (…) Mas em tudo isso saímos mais do que vencedores, graças Àquele que nos amou. Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso»(Rm 8,35.37-39). A força do amor transforma o sofrimento na certeza da vitória de Cristo e nossa, com Ele, e na esperança de que um dia estaremos juntos de novo e contemplaremos para sempre o rosto da Santíssima Trindade, fonte eterna da vida e do amor.

Junto de cada cruz, está sempre a Mãe de Jesus. Com o seu manto, Ela enxuga as nossas lágrimas. Com a sua mão, faz-nos levantar e acompanha-nos pelo caminho da esperança.

Catequese do Papa: A ovelha perdida

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Catequese do Papa Francisco
4 de maio de 2015
A ovelha perdida (Lc 15,1-7)

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Todos nós conhecemos a imagem do Bom Pastor que leva nos ombros a ovelha perdida. Este ícone sempre representou a preocupação de Jesus para com os pecadores e a misericórdia de Deus que não quer perder ninguém. A parábola é contada por Jesus para fazer as pessoas entenderem que sua proximidade com os pecadores não deve escandalizar, mas provocar em todos uma séria reflexão sobre a forma como vivemos a nossa fé. A história tem, de um lado, os pecadores que se aproximam de Jesus para ouvi-lo e, de outro, os doutores da lei, os escribas que se desviam Dele por causa de seu comportamento. Eles desviam porque Jesus se aproximou dos pecadores. Estes eram orgulhosos, soberbos, se achavam justos.

Nossa parábola se desenrola em torno de três personagens: o pastor, a ovelha perdida e o resto do rebanho. Mas quem age é só o pastor, não as ovelhas. O pastor, então, é o único protagonista e tudo depende dele. Uma pergunta introduz a parábola: “Qual de vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no deserto e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?” (V. 4). É um paradoxo que leva a duvidar da ação do pastor: é aconselhável deixar noventa e nova por causa de uma ovelha? E não seria no aprisco das ovelhas, mas no deserto.

Segundo a tradição bíblica, o deserto é um lugar de morte, onde é difícil encontrar comida e água, sem abrigo e à mercê das feras e ladrões. O que podem fazer noventa e nove ovelhas indefesas? O paradoxo continua, no entanto, dizendo que o pastor, quando encontra a ovelha”, coloca-a em seus ombros, vai para casa, convoca os amigos e vizinhos e lhes diz: Alegrai-vos comigo” (v. 6).

Parece, portanto, que o pastor não volta para o deserto para recuperar todo o rebanho! Esforçando-se para encontrar aquela ovelha parece esquecer as outras noventa e nove. Mas, na realidade não é assim. O ensinamento que Jesus quer nos dar é que nenhuma ovelha pode ser perdida. O Senhor não pode resignar-se ao fato de que mesmo uma pessoa possa se perder.

A ação de Deus é ir sempre em busca dos filhos perdidos e, em seguida, fazer festa e se alegrar com eles por tê-los encontrado. É um desejo ardente: nem mesmo noventa e nove ovelhas podem parar o pastor e mantê-lo fechado no redil. Ele pode raciocinar assim: “Eu faço o orçamento: noventa e nove, eu perdi uma, então não é uma grande perda”. Mas ele vai à procura daquela, porque cada uma é muito importante para ele e aquela é a mais necessitada, a mais abandonada, o mais rejeitada; e ele vai procurá-la.

Somos aconselhados: a misericórdia para com os pecadores é o estilo com o qual Deus age e que a misericórdia e Ele é absolutamente fiel. Ninguém e nada pode distraí-lo de sua vontade salvífica. Deus não conhece a nossa cultura atual do descarte, Deus não está envolvido nisso. Deus não descarta ninguém; Deus ama a todos, busca a todos: um por um! Ele não conhece essa palavra: “descartar as pessoas”, porque é todo amor e misericórdia.

O rebanho do Senhor está sempre a caminho: ele não possui o Senhor. Não podemos nos iludir que iremos aprisioná-lo em nossos planos e estratégias. O pastor será encontrado onde está a ovelha perdida. O Senhor, então, deve ser procurado onde Ele quer nos encontrar, não onde pretendemos encontrá-lo!

De nenhum outro modo você pode recobrar o rebanho senão seguindo o caminho traçado pela misericórdia do pastor. Enquanto procura a ovelha perdida, ele faz com que as noventa e nove participem da reunificação do rebanho. Então não só a ovelha carregada no ombro, mas todo o rebanho vai seguir o pastor à sua casa para comemorar com os “amigos e vizinhos.”

Devemos refletir muitas vezes nesta parábola, porque na comunidade cristã há sempre alguém que está faltando, que se foi, deixando o lugar vazio. Às vezes isso é difícil e nos leva a crer que é uma perda inevitável, uma doença incurável. E então corremos o perigo de nos fecharmos em um redil, onde haverá não o cheiro das ovelhas, mas cheiro de mofo!

E os cristãos? Nós não devemos ser fechados, porque vamos ter o cheiro de coisas fechadas. Nunca! Você tem que sair e não se fechar em si mesmos, em pequenas comunidades, nas paróquias, considerando-se “os justos”. Isso acontece quando falta o impulso missionário que nos leva ao encontro dos outros.

Na visão de Jesus não existem, definitivamente, ovelhas perdidas, mas ovelhas que serão encontradas. Isso devemos compreender bem: para Deus ninguém está perdido para sempre. Nunca! Até o último momento, Deus nos procura. Lembre do bom ladrão; mas apenas na visão de Jesus ninguém está perdido para sempre. A perspectiva, portanto, é dinâmica, aberta, estimulante e criativa.

Ele exorta-nos a sair em busca de um caminho de fraternidade. Nenhuma distância pode manter o pastor longe; e nenhum rebanho pode desistir de um irmão. Encontrar aquele que estava perdido é a alegria do pastor e de Deus, mas também a alegria de todo o rebanho! Somos todos ovelhas encontradas e recolhidas pela misericórdia do Senhor, chamados a reunir juntamente com Ele todo o rebanho!

Regina Coeli: Papa Francisco convida a rezar esta oração ao Espírito Santo

VATICANO, 01 Mai. 16 / 09:15 am (ACI).- Antes de rezar o Regina Coeli deste 1º de maio, sexto Domingo de Páscoa, o Papa Francisco explicou aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro a missão confiada ao Espírito Santo e, por isso, ensinou uma breve oração ao Paráclito para recitar todos os dias antes de ler o Evangelho.

Da janela do Palácio Apostólico, o Santo Padre disse que um dos aspectos da missão do Espírito Santo é ajudar a recordar as palavras de Jesus para colocá-las m prática. Portanto, “quando lê todos os dias – como já vos aconselhei –uma passagem do Evangelho, peça ao Espírito Santo: ‘Que eu entenda e que eu recorde estas palavras de Jesus’. E depois ler a passagem, todos os dias… Mas antes aquela oração ao Espírito Santo, que está em nosso coração: ‘Que eu recorde e que eu entenda’”.

Francisco fez este convite à reflexão sobre o Evangelho no domingo em que “o Evangelho deste domingo nos conduz ao cenáculo”, onde Jesus, antes de enfrentar sua paixão e morte na cruz “promete aos Apóstolos o dom do Espírito Santo, que terá a tarefa de ensinar e recordar as suas palavras à comunidade dos discípulos”.

“Jesus mesmo diz: ‘O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele lhes ensinará todas as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu lhes disse. Ensinar e recordar. Isso é o que o Espírito Santo faz no nosso coração”, reiterou o Papa.

“No momento em que Ele está para retornar ao Pai, Jesus preanuncia a vinda do Espírito que primeiramente ensinará aos discípulos a compreender cada vez mais plenamente o Evangelho, a acolhê-lo em sua existência e a fazê-lo vivo e operante com o testemunho”.

“Enquanto está para confiar aos Apóstolos – que significa ‘enviados’ – a missão de levar o anúncio do Evangelho a todo o mundo, Jesus promete que não estarão sozinhos: estará com eles o Espírito Santo, o Paráclito, que ficará ao lado deles, aliás, estará neles, para defendê-los e sustentá-los. Jesus retorna ao Pai, mas continua acompanhando e ensinando os seus discípulos por meio do dom Espírito”, explicou.

Em seguida, disse que “o segundo aspecto da missão do Espírito Santo consiste em ajudar os apóstolos a recordar as palavras de Jesus. O Espírito tem a tarefa de despertar a memória, recordar as palavras de Jesus. O divino Mestre já comunicou tudo aquilo que pretendia confiar aos Apóstolos: com Ele, Verbo encarnado, a revelação é completa”.

“O Espírito recordará os ensinamentos de Jesus nas diversas circunstâncias concretas da vida para que sejam colocados em prática. Isto acontece ainda hoje na Igreja, guiada pela luz e pela forca do Espírito Santo, para que possa levar a todos o dom da salvação, isto é, o amor e a misericórdia de Deus”, assinalou.

“Nós não estamos sozinhos: Jesus esta perto de nós, no meio de nós, dentro de nós”, assegurou Francisco e explicou que a nova presença de Cristo “na história se realiza mediante o Espírito Santo, através do qual e possível instaurarem uma relação viva com Ele, o Senhor Ressuscitado”.

O Papa disse que “o Espírito, derramado em nós com os Sacramentos doBatismo e da Crisma, age na nossa vida. Ele nos guia no modo de pensar, de agir, de distinguir aquilo que é bem e o que e mal, nos ajuda a praticar a caridade de Jesus, o seu doar-se aos outros, especialmente aos mais necessitados”.

“Não estamos sós! E o sinal da presença do Espírito Santo é também a paz que Jesus doa aos seus discípulos: ‘Eu lhes dou a minha paz’”, assinalou o Pontífice.

Explicou que a paz de Jesus “é diferente daquela que os homens se desejam e tentam realizar. A paz de Jesus jorra da vitória sobre o pecado, sobre o egoísmo que nos impede de nos amar como irmãos. É dom de Deus e sinal da sua presença. Cada discípulo, chamado hoje a seguir Jesus levando a cruz, recebe em si a paz do Senhor Ressuscitado na certeza da sua vitória e na espera de sua vinda definitiva”.

Por fim, ele pediu à Virgem Maria que “nos ajude a acolher o Espírito Santo com docilidade, como Mestre interior e como Memória viva de Cristo no caminho cotidiano”.