Catequese do Papa: parábola do Bom Samaritano

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 27 de abril de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje refletimos sobre a Parábola do Bom Samaritano (cfr Lc 10, 25-37). Um doutor da Lei coloca Jesus à prova com esta pergunta: “Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?” (v. 25). Jesus lhe pede que dê ele mesmo a resposta, e ele a dá perfeitamente: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a sua alma, com toda a tua força e com toda a tua mente, e o teu próximo como a si mesmo” (v.27). Jesus então conclui: “Faça isso e viverás” (v. 28).

Então aquele homem faz outra pergunta, que se torna muito preciosa para nós: “Quem é o meu próximo?” (v. 29) e implica: “os meus parentes? Os meus compatriotas? Aqueles da minha religião?”. Em suma, quer uma regra clara que lhe permita classificar os outros de “próximo” e “não-próximo”, naqueles que possam se tornar próximos e naqueles que não possam se tornar próximos.

E Jesus responde com uma parábola, que coloca em cena um sacerdote, um levita e um samaritano. Os dois primeiros são figuras ligadas ao culto do templo; o terceiro é um judeu cismático, considerado como um estrangeiro, pagão e impuro, isso é, o samaritano. No caminho de Jerusalém a Jericó, o sacerdote e o levita se deparam com um homem moribundo, que os assaltantes assaltaram, derrubaram e abandonaram. A Lei do Senhor em situações similares previa a obrigação de socorrê-lo, mas ambos passam além sem parar. Estavam com pressa… O sacerdote, talvez, olhou para o relógio e disse: “Mas, chego tarde à Missa…Devo dizer Missa”. E o outro disse: “Mas, não sei se a Lei me permite, porque há sangue ali e ficarei impuro…”. Vão por outro caminho e não se aproximam. E aqui a parábola nos oferece um primeiro ensinamento: não é automático que quem frequenta a casa de Deus e conhece a sua misericórdia saiba amar o próximo. Não é automático! Você pode conhecer toda a Bíblia, você pode conhecer todas as rubricas litúrgicas, você pode conhecer toda a teologia, mas do conhecer não é automático o amar: o amar tem outro caminho, é preciso inteligência, mas também algo a mais… O sacerdote e o levita veem, mas o ignoram; olham, mas não providenciam. No entanto, não existe verdadeiro culto se esse não se traduz em serviço ao próximo. Não esqueçamos isso nunca: diante do sofrimento de tanta gente esgotada pela fome, pela violência e pelas injustiças, não podemos permanecer espectadores. Ignorar o sofrimento do homem, o que significa? Significa ignorar Deus! Se eu não me aproximo daquele homem, daquela mulher, daquela criança, daquele idoso ou daquela idosa que sofre, não me aproximo de Deus.

Mas venhamos ao centro da parábola: o samaritano, isso é, justamente aquele desprezado, aquele em quem ninguém apostaria nada e que também tinha os seus compromissos e as suas coisas a fazer, quando vê o homem ferido, não passou além como os outros dois, que eram ligados ao Templo, mas “teve compaixão” (v. 33). Assim diz o Evangelho: “Teve compaixão”, isso é, o coração, as vísceras, se comoveu! Eis a diferença. Os outros dois “viram”, mas seus corações permaneceram fechados, frios. Em vez disso, o coração do samaritano estava sintonizado com o próprio coração de Deus. De fato, a “compaixão” é uma característica essencial da misericórdia de Deus. Deus tem compaixão de nós. O que quer dizer? Sofre conosco, sente nossos sofrimentos. Compaixão significa “compartilhar com”. O verbo indica que as vísceras se movam e tremem diante do mal do homem. E nos gestos e nas ações do bom samaritano reconhecemos o agir misericordioso de Deus em toda a história da salvação. É a mesma compaixão com que o Senhor vem ao encontro de cada um de nós: Ele não nos ignora, conhece as nossas dores, sabe quanto precisamos de ajuda e de consolação. É próximo a nós e nunca nos abandona. Cada um de nós, faça-se a pergunta e responda no coração: “Eu acredito nisso? Eu acredito que o Senhor tem compaixão de mim, assim como sou, pecador, com tantos problemas e tantas coisas?”. Pensar nisso e a resposta é: “Sim!”. Mas cada um deve olhar no coração se tem a fé nessa compaixão de Deus, de Deus bom que se aproxima, nos cura, nos acaricia. E se nós o rejeitamos, Ele espera: é paciente e está sempre próximo a nós.

O samaritano se comporta com verdadeira misericórdia: acaba com as feridas daquele homem, leva-o para um albergue, cuida dele pessoalmente e providencia sua assistência. Tudo isso nos ensina que a compaixão, o amor, não é um sentimento vago, mas significa cuidar do outro até pagar pessoalmente. Significa comprometer-se realizando todos os passos necessários para “aproximar-se” do outro até identificar-se com ele: “amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Eis o mandamento do Senhor.

Concluída a parábola, Jesus toma a pergunta do doutor da Lei e lhe pergunta: “Quem destes três te parece que tenha sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos assaltantes?” (v. 36). A resposta é, finalmente, inequivocável: “Quem teve compaixão dele” (v. 27). No início da parábola, para o sacerdote e o levita o próximo era o moribundo; ao término, o próximo é o samaritano que se fez próximo. Jesus toma a perspectiva: não classificar os outros para ver quem é o próximo e quem não é. Você pode se tornar o próximo de quem quer que esteja em necessidade, e o será se tiver compaixão no teu coração, isso é, se tiver aquela capacidade de sofrer com o outro.

Esta parábola é um presente maravilhoso para todos nós e também um compromisso! A cada um de nós Jesus repete isso que disse ao doutor da Lei: “Vá e faça assim” (v. 37). Somos todos chamados a percorrer o mesmo caminho do bom samaritano, que é figura de Cristo: Jesus se inclinou sobre nós, se fez nosso servo, e assim nos salvou, para que também nós possamos amar como Ele nos amou, do mesmo modo.

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Catequese do Papa: distinguir entre pecado e pecador

brasão do Papa Francisco

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 20 de abril de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje queremos nos concentrar em um aspecto da misericórdia bem representado pelo trecho do Evangelho de Lucas que ouvimos. Trata-se de um fato acontecido a Jesus enquanto era hóspede de um fariseu de nome Simão. Este quis convidar Jesus à sua casa porque tinha ouvido falar bem Dele como de um grande profeta. E enquanto se encontram sentados à mesa, entra uma mulher conhecida por todos na cidade como uma pecadora. Esta, sem dizer uma palavra, coloca-se aos pés de Jesus e cai aos prantos; as suas lágrimas banham os pés de Jesus e ela as enxuga com os seus cabelos, depois lhe beija e lhe unge com um óleo perfumado que levou consigo.

Ressalta o confronto entre as duas figuras: aquela de Simão, o zeloso servidor da lei, e aquela da pecadora anônima. Enquanto o primeiro julga os outros com base nas aparências, a segunda, com os seus gestos, exprime com sinceridade o seu coração. Simão, mesmo tendo convidado Jesus, não quer se comprometer nem envolver a sua vida com o Mestre; a mulher, ao contrário, se confia plenamente a Ele com amor e com veneração.

O fariseu não concebe que Jesus se deixe “contaminar” pelos pecadores. Ele pensa que se fosse realmente um profeta deveria reconhecê-los e manter-se distante para não ser manchado, como se fossem leprosos. Essa atitude é típica de um certo modo de entender a religião e é motivado pelo fato de que Deus e o pecado se opõem radicalmente. Mas a Palavra de Deus nos ensina a distinguir entre o pecado e o pecador: com o pecado não se deve ter compromisso, enquanto os pecadores – isso é, todos nós! – são como os doentes, que precisam ser curados, e para curá-los é preciso que o médico se aproxime deles, visite-os, toque-os. E, naturalmente, o doente, para ser curado, deve reconhecer ter necessidade do médico!

Entre o fariseu e a mulher pecadora, Jesus se une a esta última. Jesus, livre de preconceitos que impedem a misericórdia de se exprimir, deixa-a fazer. Ele, o Santo de Deus, deixa-se tocar por ela sem temor de ser contaminado. Jesus é livre, porque próximo a Deus que é Pai misericordioso. E esta proximidade a Deus, Pai misericordioso, dá a Jesus a liberdade. Antes, entrando em relação com a pecadora, Jesus coloca fim àquela condição de isolamento a que o julgamento impiedoso do fariseu e dos seus concidadãos – que a exploravam – a condenava: “Os teus pecados estão perdoados” (v.48). A mulher agora pode seguir “em paz”. O Senhor viu a sinceridade da sua fé e da sua conversão; por isso, diante de todos, proclama: “A tua fé te salvou” (v. 50). Por um lado, aquela hipocrisia do doutor da lei, por outro lado, a sinceridade, a humildade e a fé da mulher. Todos nós somos pecadores, mas tantas vezes caímos na tentação da hipocrisia, de acreditarmos ser melhores que os outros e dizemos: “Olha o teu pecado…”. Todos nós devemos, em vez disso, olharmos para o nosso pecado, as nossas quedas, os nossos erros e olhar para o Senhor. Esta é a linha da salvação: a relação entre o “eu” pecador e o Senhor. Se eu me sinto justo, esta relação de salvação não se dá.

Nesse ponto, um espanto ainda maior atinge os que estão à mesa: “Quem é este que perdoa até os pecados?” (v. 49). Jesus não dá uma resposta explícita, mas a conversão da pecadora está diante dos olhos de todos e demonstra que Nele resplandece o poder da misericórdia de Deus, capaz de transformar os corações.

A mulher pecadora nos ensina a ligação entre fé, amor e reconhecimento. Foram-lhe perdoados “muitos pecados” e por isso ama muito; “em vez disso aquele ao qual se perdoa pouco, ama pouco” (v. 47). Também o próprio Simão deve admitir que ama mais aquele ao qual foi condenado mais. Deus inclui todos no mesmo mistério de misericórdia; e deste amor, que sempre nos precede, todos nós aprendemos a amar. Como recorda São Paulo: “Em Cristo, mediante o seu sangue, temos a redenção, o perdão das culpas, segundo a riqueza da sua graça. Ele a derramou em abundância sobre nós” (Ef 1, 7-8). Neste texto, o termo “graça” é praticamente sinônimo de misericórdia e é dita “abundante”, isso é, além da nossa expectativa, porque atua o projeto salvífico de Deus por cada um de nós.

Queridos irmãos, somos reconhecidos pelo dom da fé, agradeçamos ao Senhor pelo seu amor assim grande e imerecido! Deixemos que o amor de Cristo se derrame em nós: neste amor o discípulo se baseia e se funda; deste amor cada um pode se alimentar e alimentar. Assim, no amor reconhecido que derramamos sobre nossos irmãos, nas nossas casas, em família, na sociedade se comunica a todos a misericórdia do Senhor.

Íntegra da Declaração Conjunta assinada pelos três líderes religiosos

brasão do Papa Francisco

Declaração conjunta

Nós, Papa Francisco, Patriarca Ecumênico Bartolomeu e Arcebispo Ieronymos de Atenas e de toda a Grécia, reunimo-nos na Ilha grega de Lesbos para manifestar a nossa profunda preocupação pela situação trágica de numerosos refugiados, migrantes e requerentes asilo que têm chegado à Europa fugindo de situações de conflito e, em muitos casos, ameaças diárias à sua sobrevivência. A opinião mundial não pode ignorar a crise humanitária colossal, criada pelo incremento de violência e conflitos armados, a perseguição e deslocamento de minorias religiosas e étnicas e o desenraizamento de famílias dos seus lares, violando a sua dignidade humana, os seus direitos humanos fundamentais e liberdades.

A tragédia da migração e deslocamento forçados afeta milhões de pessoas e é, fundamentalmente, uma crise da humanidade, clamando por uma resposta feita de solidariedade, compaixão, generosidade e um compromisso econômico imediato e prático. Daqui, de Lesbos, fazemos apelo à comunidade internacional para responder com coragem a esta maciça crise humanitária e às causas que lhe estão subjacentes, por meio de iniciativas diplomáticas, políticas e caritativas e através de esforços de cooperação simultaneamente no Médio Oriente e na Europa.

Como líderes das nossas respetivas Igrejas, estamos unidos no nosso desejo de paz e na nossa disponibilidade para promover a resolução de conflitos através do diálogo e da reconciliação. Enquanto reconhecemos os esforços que já se vão fazendo para fornecer ajuda e assistência aos refugiados, migrantes e requerentes asilo, apelamos a todos os líderes políticos para que usem todos os meios possíveis a fim de garantir que os indivíduos e as comunidades, incluindo os cristãos, permaneçam nos seus países de origem e gozem do direito fundamental de viver em paz e segurança.

Há necessidade urgente de um consenso internacional mais amplo e um programa de assistência para sustentar o Estado de direito, defender os direitos humanos fundamentais nesta situação insustentável, proteger minorias, combater o tráfico humano e o contrabando, eliminar rotas inseguras como as do Egeu e de todo o Mediterrâneo, e desenvolver procedimentos seguros de reinstalação.

Deste modo seremos capazes de ajudar os países diretamente envolvidos na resposta às necessidades de inúmeros irmãos e irmãs nossos que sofrem. De modo particular, afirmamos a nossa solidariedade ao povo da Grécia que, não obstante as suas próprias dificuldades econômicas, tem respondido generosamente a esta crise.

Juntos, solenemente, imploramos o fim da guerra e da violência no Médio Oriente, uma paz justa e duradoura e o regresso honroso daqueles que foram forçados a abandonar as suas casas. Pedimos às comunidades religiosas que aumentem os seus esforços para receber, assistir e proteger os refugiados de todas as crenças, e que os serviços religiosos e civis de assistência se empenhem por coordenar os seus esforços.

Enquanto perdurar a necessidade, pedimos a todos os países que alarguem o asilo temporário, ofereçam o estatuto de refugiado a quantos se apresentarem idôneos, ampliem os seus esforços de socorro e colaborem com todos os homens e mulheres de boa vontade para um rápido fim dos conflitos em curso.

Hoje, a Europa enfrenta uma das suas crises humanitárias mais sérias desde o fim da II Guerra Mundial. Para vencer este grave desafio, fazemos apelo a todos os seguidores de Cristo para que tenham em mente as palavras do Senhor, segundo as quais seremos um dia julgados: «Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo. (…) Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 35-36.40).

Da nossa parte, em obediência à vontade de nosso Senhor Jesus Cristo, estamos firme e sinceramente decididos a intensificar os nossos esforços para promover a plena unidade de todos os cristãos. Reafirmamos a nossa convicção de que, a reconciliação [entre os cristãos] envolve a promoção da justiça social dentro e entre todos os povos (…). Juntos, faremos a nossa parte para oferecer aos migrantes, refugiados e requerentes asilo uma recessão humana na Europa (Charta ecumênica, 2001). O nosso objetivo, ao defender os direitos humanos fundamentais dos refugiados, requerentes asilo e migrantes e de tantas pessoas marginalizadas nas nossas sociedades, é cumprir a missão de serviço das Igrejas ao mundo.

O nosso encontro de hoje pretende dar coragem e esperança a quantos procuram refúgio e a todos aqueles que os acolhem e assistem. Instamos a comunidade internacional a fazer da proteção das vidas humanas uma prioridade e a apoiar, em todos os níveis, políticas inclusivas que se estendam a todas as comunidades religiosas. A terrível situação de todas as pessoas afetadas pela atual crise humanitária, incluindo muitos dos nossos irmãos e irmãs cristãos, clama pela nossa oração constante.

Lesbos, 16 de abril de 2016.

Hieronymos II               Francisco                  Bartolomeu I

 

Catequese do Papa Francisco – 13/04/16

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 13 de abril de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Ouvimos o Evangelho do chamado de Mateus. Mateus era um “publicano”, isso é, um cobrador de impostos do império romano e, por isso, considerado pecador público. Mas Jesus o chama a segui-Lo e a se tornar seu discípulo. Mateus aceita e o convida a jantar em sua casa junto com os discípulos. Então surge uma discussão entre os fariseus e os discípulos de Jesus pelo fato de que esses dividem a mesa com os publicanos e os pecadores. “Mas tu não podes ir à casa dessa gente!”, diziam eles. Jesus, de fato, não os afasta, antes, frequenta suas casas e senta próximo a eles; isso significa que também eles podem se tornar seus discípulos. E além disso é verdade que ser cristãos não nos torna impecáveis. Como o publicano Mateus, cada um de nós se confia à graça do Senhor apesar dos próprios pecados. Todos somos pecadores, todos temos pecados. Chamando Mateus, Jesus mostra aos pecadores que não olha para o passado deles, para a condição social, para as convenções exteriores, mas em vez disso abre a eles um futuro novo. Uma vez ouvi um ditado belo: “Não há santo sem passado e não há pecador sem futuro”. Isso é o que Jesus faz. Não há santo sem passado nem pecador sem futuro. Basta responder ao convite com o coração humilde e sincero. A Igreja não é uma comunidade de perfeitos, mas de discípulos em caminho, que seguem o Senhor porque se reconhecem pecadores e necessitados do seu perdão. A vida cristã, portanto, é escola de humildade que nos abre à graça.

Um tal comportamento não é compreendido por quem tem a presunção de acreditar ser “justo” ou melhor que os outros. Soberba e orgulho não permitem reconhecer-se necessitados de salvação, antes, impedem de ver a face misericordiosa de Deus e de agir com misericórdia. Esses são um muro. A soberba e o orgulho são um muro que impedem a relação com Deus. No entanto, a missão de Jesus é justamente essa: vir em busca de cada um de nós, para sanar as nossas feridas e nos chamar a segui-Lo com amor. Diz isso claramente: “Não são os sadios que têm necessidade do médico, mas os doentes” (v.12). Jesus se apresenta como um bom médico! Ele anuncia o Reino de Deus, e os sinais da sua vinda são evidentes: Ele cura das doenças, liberta do medo, da morte e do demônio. Diante de Jesus, nenhum pecador é excluído – nenhum pecador é excluído! – porque o poder restaurador de Deus não conhece enfermidades que não possam ser curadas; e isso deve nos dar confiança e abrir o nosso coração ao Senhor para que venha e nos restaure. Chamando os pecadores à sua mesa, Ele os restaura restabelecendo aquela vocação que esses acreditavam ter perdido e que os fariseus esqueceram: aquela de enviados ao banquete de Deus. Segundo a profecia de Isaías: “O Senhor dos exércitos preparou para todos os povos, nesse monte, um banquete de carnes gordas, um festim de vinhos velhos, de carnes gordas e medulosas, de vinhos velhos purificados. (…) Naquele dia dirão: ‘Eis nosso Deus do qual esperamos nossa libertação. Congratulemo-nos, rejubilemo-nos por seu socorro” (25, 6-9).

Se os fariseus veem nos enviados somente pecadores e rejeitam sentar-se com eles, Jesus, ao contrário, recorda a eles que também esses são comensais de Deus. Deste modo, sentar-se à mesa com Jesus significa ser por Ele transformado e salvo. Na comunidade cristã, a mesa de Jesus é dupla: há a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia (cfr Dei Verbum, 21). São esses os bálsamos com os quais o Médico Divino nos restaura e nos alimenta. Com o primeiro – a Palavra – Ele se revela e nos convida a um diálogo entre amigos. Jesus não tinha medo de dialogar com os pecadores, os publicamos, as prostitutas…Não, ele não tinha medo: amava todos! A sua Palavra penetra em nós e, como um bisturi, opera em profundidade para nos libertar do mal que se esconde em nossa vida. Às vezes essa Palavra é dolorosa, porque incide sobre hipocrisias, desmascara as falsas desculpas, coloca à luz as verdades escondidas; mas ao mesmo tempo ilumina e purifica, dá força e esperança, é um tônico precioso no nosso caminho de fé. A Eucaristia, da sua parte, nos alimenta da própria vida de Jesus e, como um poderosíssimo remédio, de modo misterioso renova continuamente a graça do nosso Batismo. Aproximando-se da Eucaristia nós nos alimentamos do Corpo e Sangue de Jesus, no entanto, vindo a nós, é Jesus que nos une ao seu Corpo!

Concluindo aquele diálogo com os fariseus, Jesus recorda a eles uma palavra do profeta Oseas (6,6): “Ide e aprendei o que quer dizer: misericórdia eu quero e não sacrifício” (Mt 9,13). Dirigindo-se ao povo de Israel, o profeta o repreendeu porque as orações que elevava eram palavras vazias e incoerentes. Apesar da aliança de Deus e a misericórdia, o povo vivia muitas vezes uma religiosidade “de fachada”, sem viver em profundidade o mandamento do Senhor. Eis porque o profeta insiste: “Misericórdia eu quero”, isso é, a lealdade de um coração que reconhece os próprios pecados, que se arrepende e torna a ser fiel à aliança com Deus. “E não sacrifício”: sem um coração arrependido, toda ação religiosa é ineficaz! Jesus aplica essa frase profética também às relações humanas: aqueles fariseus eram muito religiosos na forma, mas não estavam dispostos a partilhar a mesa com os publicanos e os pecadores; não reconheciam a possibilidade de uma reforma e, por isso, de cura; não colocavam em primeiro lugar a misericórdia: mesmo sendo fiéis protetores da Lei, demonstravam não conhecer o coração de Deus! É como se te presenteassem com um pacote com um presente dentro e, em vez de ir e procurar o presente, você olhasse somente para o papel no qual veio embrulhado: somente as aparências, a forma, e não o cerne da graça, do dom que é dado!

Queridos irmãos e irmãs, todos nós somos enviados à mesa do Senhor. Façamos nosso o convite a sentarmo-nos próximo a Ele junto aos seus discípulos. Aprendamos a olhar com misericórdia e a reconhecer em cada um deles um comensal nosso. Somos todos discípulos que precisam experimentar e viver a palavra consoladora de Jesus. Todos temos necessidade de nos alimentarmos da misericórdia de Deus, porque é dessa fonte que emana a nossa salvação. Obrigado!

Catequese do Papa: a misericórdia em Jesus – 06/04/16

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 6 de abril de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Depois de ter refletido sobre a misericórdia de Deus no Antigo Testamento, hoje começamos a meditar sobre como o próprio Jesus a levou a seu cumprimento. Uma misericórdia que Ele expressou, realizou e comunicou sempre, em todo momento da sua vida terrena. Encontrando as multidões, anunciando o Evangelho, curando os doentes, aproximando-se dos últimos, perdoando os pecadores, Jesus torna visível um amor aberto a todos: ninguém excluído! Aberto a todos sem limites. Um amor puro, gratuito, absoluto. Um amor que alcança o seu ápice no sacrifício da cruz. Sim, o Evangelho é realmente o “Evangelho da Misericórdia”, porque Jesus é a Misericórdia!

Todos os quatro Evangelhos atestam que Jesus, antes de começar o seu ministério, quis receber o batismo de João Batista (Mt 3, 13-17; Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22; Jo 1, 29-34). Este acontecimento imprime uma orientação decisiva a toda a missão de Cristo. De fato, Ele não se apresentou ao mundo no esplendor do tempo: podia fazê-lo. Não se fez anunciar ao som da trombeta: podia fazê-lo. E nem mesmo veio nas vestes de um juiz: podia fazê-lo. Em vez disso, depois de trinta anos de vida escondida em Nazaré, Jesus foi ao rio Jordão, junto a tanta gente do seu povo, e se colocou em fila com os pecadores. Não teve vergonha: estava ali com todos, com os pecadores, para fazer-se batizar. Portanto, desde o início do seu ministério, Ele se manifestou como o Messias que assume a condição humana, movido pela solidariedade e pela compaixão. Como Ele mesmo afirma na sinagoga de Nazaré, identificando-se com a profecia de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim, por isso me consagrou com unção e me enviou para levar aos povos o anúncio, para proclamar aos prisioneiros a libertação e aos cegos a vista; para remeter em liberdade os oprimidos, para proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4, 18-19). Tudo o que Jesus realizou depois do batismo foi realizado pelo programa inicial: levar a todos o amor de Deus que salva. Jesus não levou o ódio, não levou a inimizade: levou-nos o amor! Um amor grande, um coração aberto para todos, para todos nós! Um amor que salva!

Ele se fez próximo aos últimos, comunicando a eles a misericórdia de Deus que é perdão, alegria e vida nova. Jesus, o Filho enviado pelo Pai, é realmente o início do tempo da misericórdia para toda a humanidade! Quantos estavam presentes às margens do Jordão não entenderam logo a extensão do gesto de Jesus. O próprio João Batista se surpreendeu com sua decisão (cfr Mt 3, 14). Mas o Pai celeste não! Ele fez ouvir a sua voz do alto: “Tu és o meu Filho muito amado; em ti ponho minha afeição” (Mc 1, 11). De tal modo, o Pai confirma a vida que o Filho assumiu como Messias, enquanto desceu sobre Ele como uma pomba o Espírito Santo. Assim o coração de Jesus bate, por assim dizer, em uníssono com o coração do Pai e do Espírito, mostrando a todos os homens que a salvação é fruto da misericórdia de Deus.

Podemos contemplar ainda mais claramente o grande mistério deste amor dirigindo o olhar a Jesus crucificado. Enquanto está para morrer inocente por nós pecadores, Ele suplica ao Pai: “Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). É na cruz que Jesus apresenta à misericórdia do Pai o pecado do mundo: o pecado de todos, os meus pecados, os teus pecados, os vossos pecados. E ali, na cruz, Ele os apresenta ao Pai. E com o pecado do mundo todos os nossos pecados são cancelados. Nada e ninguém fica excluído dessa oração de sacrifício de Jesus. Isso significa que não devemos ter medo de nos reconhecermos e de confessarmos sermos pecadores. Quantas vezes nós dizemos: “Mas, este é um pecador, fez isso e isso…”, e julgamos os outros. E você? Cada um de nós deveria se perguntar: “Sim, aquele é um pecador. E eu?”. Todos somos pecadores, mas todos somos perdoados: todos temos a possibilidade de receber este perdão que é a misericórdia de Deus. Não devemos ter medo, portanto, de nos reconhecermos pecadores, confessarmos ser pecadores, porque todo pecado foi levado pelo Filho na Cruz. E quando nós confessamos arrependidos confiando-nos a Ele, estamos certos de sermos perdoados. O sacramento da reconciliação torna atual para cada um a força do perdão que vem da cruz e renova na nossa vida a graça da misericórdia que Jesus conquistou para nós! Não devemos ter medo das nossas misérias: cada um de nós tem as próprias. O poder do amor do Crucificado não conhece obstáculos e nunca se esgota. E essa misericórdia cancela as nossas misérias.

Caríssimos, neste Ano Jubilar, peçamos a Deus a graça de fazer experiência do poder do Evangelho: Evangelho da misericórdia que transforma, que faz entrar no coração de Deus, que nos torna capazes de perdoar e de curar o mundo com mais bondade. Se acolhemos o Evangelho do Crucificado Ressuscitado, toda a nossa vida é moldada pela força do seu amor que renova.

Papa: “fé que não é capaz de ser misericordiosa não é fé, é ideologia”

12910082_1001551459935840_357044946_nPapa Francisco celebrou uma vigília de oração marcada por muita oração e reflexão sobre a Misericórdia de Deus

Neste sábado, 2, o Papa Francisco celebrou a vigília de oração por ocasião do Jubileu da Misericórdia, na Praça São Pedro, no Vaticano. O momento contou com a presença de devotos da Divina Misericórdia, leigos e religiosos, que ouviram atentamente as reflexões, que foram baseadas no profeta Isaías.

A assembleia foi dividida em cinco partes reflexivas, incluindo intenções de orações e cânticos relacionados à Misericórdia. Os textos foram lidos por participantes do evento, que pediram com clamor: “estendei ó Senhor a tua Misericórdia” e “envolve-nos com tua Misericórdia ó Senhor”.

A realidade atual dos cristãos perseguidos, trechos da carta encíclica de São João Paulo II, “Dives in Misericordia”, publicada em novembro de 1980, e partes do diário de Santa Faustina Kowalsk também foram citados durante a celebração.

Discurso do Papa

Na última parte da assembleia da vigília, os participantes foram contemplados com o discurso do Papa Francisco, que refletiu o Evangelho de São João. O Pontífice iniciou agradecendo pelas orações e recordou a morte de São João Paulo II, que hoje completa 11 anos.

“Com alegria partilhamos esse momento de oração, tão desejado por São João Paulo II, em um dia como hoje. Em 2005 ele foi embora, e queria fazer isso para dar um cumprimento no pedido de Santa Faustina.”

Francisco prosseguiu questionando: “com quantas faces da misericórdia Deus vem ao nosso encontro? Muitas. É impossível descrever todas, porque a misericórdia de Deus cresce sem parar. Deus não se cansa de exprimir e nós jamais deveríamos recebê-la, procurá-la e desejá-la só por hábito”.

Deus, a misericórdia

O Papa destacou ainda que Deus manifestou varias vezes o seu nome, que é misericórdia. “Como é grande e infinita a natureza de Deus, assim é grande e infinita a sua misericórdia”, reflete, e prossegue citando a Bíblia, que mostra que a misericórdia é antes de mais nada a proximidade de Deus ao seu povo.

O Santo Padre observa também que o mundo de hoje tem muita necessidade dessa misericórdia e reforça que “não temos um Deus que não sabe compreender e compadecer-se das nossas fragilidades, ao contrário, foi precisamente em virtude da sua misericórdia que Deus se fez um de nós”.

“Pela encarnação o filho de Deus uniu-se de certo modo a cada homem, trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com coração humano. Nascido da Virgem Maria, Ele se fez verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, com exceção do pecado.”

A todo momento, o Papa se dirigiu a Deus como misericórdia. “A Misericórdia não esta parada, vai a procura da ovelha perdida e quando a encontra, irradia uma alegria contagiosa. A Misericórdia sabe olhar cada pessoa nos olhos, cada uma delas é preciosa. Porque cada uma é única.”

Quantas faces tem a misericórdia de Deus?

Para o Pontífice, falar dessa misericórdia é fácil, difícil mesmo é tornar-se testemunha da vida concreta. “Esse é um percurso que dura por toda vida e que não deve ser interrompida. Jesus nos disse que devemos ser misericordioso como o Pai, toda a vida, toma isso. Quantas faces tem, portanto, a misericórdia de Deus?”

Os pobres são recordados pelo Santo Padre, que se comove ao citar que esses não são vistos pelos demais. “A misericórdia não pode nos deixar tranquilos. É o amor de Cristo que nos inquieta e enquanto não tivermos alcançado o objetivo, que nos impede de abraçar e envolver os que necessitam de misericórdia, para que todos sejam reconciliados com o Pai.”

Amor que alcança todos

Francisco afirma também que a misericórdia é um amor que alcança todos e os envolve de tal maneira que se antecipa e vai além si mesmo. “Se deixarmos conduzir por esse amor, assim nos tornaremos misericordiosos como o Pai.”

Segundo o Papa, uma fé que não é capaz de ser misericordiosa não é fé, é ideia, é ideologia. A fé é encarnada no Deus que se fez carne e foi chagado por todos. “Mas se queremos acreditar e realmente ter fé, devemos nos aproximar e tocar nas chagas de Jesus e também abaixar a cabeça e deixar que os outros apreciem as nossas chagas.”

Ao concluir sua reflexão, o Papa Francisco pediu ao Espírito Santo que guie os passos de todos, pois Ele é amor e misericórdia. “Não coloquemos obstáculos na sua ação (…) Permaneçamos com o coração aberto para que o Espírito possa transformá-lo, e assim, perdoados e reconciliados, dentro das chagas do Senhor sejamos testemunhas da alegria que brota de ter encontrado o Senhor ressuscitado, Vivo no meio de nós”, e assim concedeu a bênção apostólica.

Logo após, Francisco improvisou um apelo para que Dioceses de todo o mundo pensem em deixar uma recordação viva desse Ano da Misericórdia.