Catequese do Papa reflete sobre pecado e perdão

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 30 de março de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Terminamos hoje as catequeses sobre misericórdia no Antigo Testamento e o fazemos meditando sobre o Salmo 51, também chamado Miserere. Trata-se de uma oração penitencial em que o pedido de perdão é precedido pela confissão da culpa e em que o orante, deixando-se purificar pelo amor do Senhor, torna-se uma nova criatura, capaz de obediência, de firmeza no espírito e de louvor sincero.

O “título” que a antiga tradição hebraica colocou a este Salmo faz referência ao rei Davi e ao seu pecado com Betsabea, a mulher de Urias, o hitita. Conhecemos bem a história. O rei Davi, chamado por Deus a apascentar o povo e a guiá-lo nos caminhos da obediência à lei divina, trai a própria missão e, depois de ter cometido adultério com Betsabea, faz seu marido morrer. Bruto pecado! O profeta Natã diz a ele sua culpa e o ajuda a reconhecê-la. É o momento da reconciliação com Deus, na confissão do próprio pecado. E aqui Davi foi humilde, foi grande!

Quem reza com esse Salmo é convidado a ter os mesmos sentimentos de arrependimento e de confiança em Deus que teve Davi que, mesmo sendo rei, humilhou-se sem ter medo de confessar a culpa e mostrar a própria miséria ao Senhor, convencido, porém, da certeza da sua misericórdia. E não era um pecado pequeno, uma pequena mentira, aquilo que ele tinha feito: tinha cometido adultério e um assassinato!

O Salmo começa com essas palavras de súplica:
“Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade.
E conforme a imensidade de vossa misericórdia,
apagai a minha iniquidade.
Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado” (v. 3-4).

A invocação é dirigida ao Deus de misericórdia para que, movido por um amor grande como aquele de um pai ou de uma mãe, tenha piedade, isso é, dê graças, mostre o seu favor com benevolência e compreensão. É um apelo apaixonado a Deus, o único que pode libertar do pecado. São usadas imagens muito plásticas: apaga, lava-me, torna-me puro. Manifesta-se, nessa oração, a verdadeira necessidade do homem: a única coisa de que realmente precisamos na nossa vida é sermos perdoados, livres do mal e das suas consequências de morte. Infelizmente, a vida no faz experimentar, tantas vezes, essas situações; e antes de tudo nessas devemos confiar na misericórdia. Deus é maior que o nosso pecado. Não esqueçamos isso: Deus é maior que o nosso pecado! “Padre, eu não sei dizer isso, fiz tantas coisas ruins!”. Deus é maior que todos os pecados que nós podemos cometer. Deus é maior que o nosso pecado. Vamos dizer juntos? Todos juntos: “Deus é maior que o nosso pecado!”. Mais uma vez: “Deus é maior que o nosso pecado!”. Mais uma vez: “Deus é maior que o nosso pecado!”. E o seu amor é um oceano em que podemos mergulhar sem medo de sermos oprimidos: perdoar, para Deus, significa dar-nos a certeza de que Ele nunca nos abandona. Qualquer coisa pela qual possamos nos censurar, Ele é ainda e sempre maior que tudo (cfr Jo 3, 20), porque Deus é maior que o nosso pecado.

Nesse sentido, quem reza com este Salmo procura o perdão, confessa a própria culpa, mas reconhecendo-a celebra a justiça e a santidade de Deus. E depois pede ainda graça e misericórdia. O salmista se confia à bondade de Deus, sabe que o perdão divino é muito mais eficaz, porque cria aquilo que diz. Não esconde o pecado, mas o destroi e o apaga; mas o apaga justamente da raiz, não como fazem na lavanderia quando levamos uma roupa e apagam a mancha. Não! Deus apaga o nosso pecado da raiz, tudo! Por isso o penitente se torna puro novamente, toda mancha é eliminada e ele, agora, é o mais branco da neve sem contaminação. Todos somos pecadores. É verdade isso? Se algum de vocês não se sente pecador que levante a mão…Ninguém! Todos somos.

Nós, pecadores, com o perdão, nos tornamos criaturas novas, cheias do espírito e cheios de alegria. Agora uma nova realidade começa por nós: um novo coração, um novo espírito, uma nova vida. Nós, pecadores perdoados, que acolhemos a graça divina, podemos até mesmo ensinar os outros a não pecar mais. “Mas, padre, eu sou fraco, eu caio, caio”. “Mas se cai, levanta-te! Levanta-te!”. Quando uma criança cai, o que faz? Estende a mão à mãe, ao pai, para que a faça levantar. Façamos o mesmo! Se você cai por fraqueza no pecado, levanta a tua mão: o Senhor a pega e te ajudará a se levantar. Essa é a dignidade do perdão de Deus! A dignidade que nos dá o perdão de Deus é aquela de nos levantarmos, colocarmo-nos de pé, porque Ele criou o homem e a mulher para que estejam de pé.

Diz o Salmista:
“Ó meu Deus, criai em mim um coração puro,
e renovai-me o espírito de firmeza.
[…]
Então aos maus ensinarei vossos caminhos,
e voltarão a vós os pecadores” (vv. 12-15).

Queridos irmãos e irmãs, o perdão de Deus é aquilo de que temos necessidade e é o maior sinal da sua misericórdia. Um dom que cada pecador perdoado é chamado a partilhar com cada irmão e irmã que encontra. Todos aqueles que o Senhor colocou próximo a nós, os familiares, os amigos, os colegas, os paroquianos…todos são, como nós, necessitados da misericórdia de Deus. É belo ser perdoado, mas também você, se quer ser perdoado, perdoa, por sua vez. Perdoa! Conceda-nos, o Senhor, por intercessão de Maria, Mãe de misericórdia, sermos testemunhas do seu perdão, que purifica o coração e transforma a vida. Obrigado.

Oração do Papa durante a Via-Sacra

 

 

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ORAÇÃO DO PAPA FRANCISCO DURANTE A REALIZAZAÇÃO DA VIA-SACRA

Ó Cruz de Cristo!

Ó Cruz de Cristo, símbolo do amor divino e da injustiça humana, ícone do sacrifício supremo por amor e do egoísmo extremo por insensatez, instrumento de morte e caminho de ressurreição, sinal da obediência e emblema da traição, patíbulo da perseguição e estandarte da vitória.

Ó Cruz de Cristo, ainda hoje te vemos erguida nas nossas irmãs e nos nossos irmãos assassinados, queimados vivos, degolados e decapitados com as espadas barbáricas e com o silêncio velhaco.

O Cruz de Cristo, ainda hoje te vemos nos rostos exaustos e assustados das crianças, das mulheres e das pessoas que fogem das guerras e das violências e, muitas vezes, não encontram senão a morte e muitos Pilatos com as mãos lavadas.

Ó Cruz de Cristo, ainda hoje te vemos nos doutores da letra e não do espírito, da morte e não da vida, que, em vez de ensinar a misericórdia e a vida, ameaçam com a punição e a morte e condenam o justo.

Ó Cruz de Cristo, ainda hoje te vemos nos ministros infiéis que, em vez de se despojarem das suas vãs ambições, despojam mesmo os inocentes da sua dignidade.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos corações empedernidos daqueles que julgam comodamente os outros, corações prontos a condená-los até mesmo à lapidação, sem nunca se darem conta dos seus pecados e culpas.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos fundamentalismos e no terrorismo dos seguidores de alguma religião que profanam o nome de Deus e o utilizam para justificar as suas inauditas violências.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje naqueles que querem tirar-te dos lugares públicos e excluir-te da vida pública, em nome de certo paganismo laicista ou mesmo em nome da igualdade que tu própria nos ensinaste.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos poderosos e nos vendedores de armas que alimentam a fornalha das guerras com o sangue inocente dos irmãos.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos traidores que, por trinta dinheiros, entregam à morte qualquer um.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos ladrões e corruptos que, em vez de salvaguardar o bem comum e a ética, vendem-se no miserável mercado da imoralidade.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos insensatos que constroem depósitos para armazenar tesouros que perecem, deixando Lázaro morrer de fome às suas portas.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos destruidores da nossa «casa comum» que, egoisticamente, arruínam o futuro das próximas gerações.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos idosos abandonados pelos seus familiares, nas pessoas com deficiência e nas crianças desnutridas e descartadas pela nossa sociedade egoísta e hipócrita.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje no nosso Mediterrâneo e no Mar Egeu feitos um cemitério insaciável, imagem da nossa consciência insensível e narcotizada.

Ó Cruz de Cristo, imagem do amor sem fim e caminho da Ressurreição, vemos-te ainda hoje nas pessoas boas e justas que fazem o bem sem procurar aplausos nem a admiração dos outros.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos ministros fiéis e humildes que iluminam a escuridão da nossa vida como velas que se consumam gratuitamente para iluminar a vida dos últimos.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos rostos das religiosas e dos consagrados – os bons samaritanos – que abandonam tudo para faixar, no silêncio evangélico, as feridas das pobrezas e da injustiça.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos misericordiosos que encontram na misericórdia a expressão mais alta da justiça e da fé.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nas pessoas simples que vivem jubilosamente a sua fé no dia-a-dia e na filial observância dos mandamentos.

O Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos arrependidos que, a partir das profundezas da miséria dos seus pecados, sabem gritar: Senhor, lembra-Te de mim no teu reino!

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos Beatos e nos Santos que sabem atravessar a noite escura da fé sem perder a confiança em ti e sem a pretensão de compreender o teu silêncio misterioso.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nas famílias que vivem com fidelidade e fecundidade a sua vocação matrimonial.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos voluntários que generosamente socorrem os necessitados e os feridos.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos perseguidos pela sua fé que, no sofrimento, continuam a dar testemunho autêntico de Jesus e do Evangelho.

Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos que sonham com um coração de criança e que trabalham cada dia para tornar o mundo um lugar melhor, mais humana e mais justo.

Em ti, Santa Cruz, vemos Deus que ama até ao fim, e vemos o ódio que domina e cega os corações e as mentes daqueles que preferem as trevas à luz.

Ó Cruz de Cristo, Arca de Noé que salvou a humanidade do dilúvio do pecado, salva-nos do mal e do maligno! Ó Trono de David e selo da Aliança divina e eterna, desperta-nos das seduções da vaidade! Ó grito de amor, suscita em nós o desejo de Deus, do bem e da luz.

Ó Cruz de Cristo, ensina-nos que o amanhecer do sol é mais forte do que a escuridão da noite. Ó Cruz de Cristo, ensina-nos que a aparente vitória do mal se dissipa diante do túmulo vazio e perante a certeza da Ressurreição e do amor de Deus que nada pode derrotar, obscurecer ou enfraquecer. Amém!

Homilia de Frei Cantalamessa na Celebração da Paixão do Senhor

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HOMILIA
Frei Raniero Cantalamessa na Celebração da Paixão do Senhor
Basílica de São Pedro
Sexta-feira, 25 de março de 2016

“DEIXAI-VOS RECONCILIAR COM DEUS”
“Deus nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação […] Suplicamo-vos em nome de Cristo: deixai-vos reconciliar com Deus. Aquele que não tinha conhecido o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus. Posto que somos seus colaboradores, exortamo-vos a não negligenciar a graça de Deus. Ele, com efeito, diz: ‘No tempo favorável te ouvi e no dia da salvação te socorri’. Eis agora o tempo favorável; eis agora o dia da salvação!” (2 Cor 5, 18; 6,2).

Estas são palavras de São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios. O apelo do apóstolo a reconciliar-se com Deus não se refere à reconciliação histórica entre Deus e a humanidade (esta, ele acaba de dizer, já se realizou através de Cristo na cruz); tampouco se refere à reconciliação sacramental que acontece no batismo e no sacramento da reconciliação; refere-se a uma reconciliação existencial e pessoal, a ser vivida no presente. O apelo é dirigido aos cristãos de Corinto que são batizados e vivem há tempo na Igreja; é dirigido, por isso, também a nós, aqui e agora. “O tempo favorável, o dia da salvação” é, para nós, o ano da misericórdia que estamos vivendo.

Mas o que significa, em sentido existencial e psicológico, reconciliar-se com Deus? Uma das razões, talvez a principal, da alienação do homem moderno da religião e da fé é a imagem distorcida que ele tem de Deus. Qual é, de fato, a imagem “predefinida” de Deus no inconsciente humano coletivo? Para descobrir, basta fazer-se esta pergunta: “Que associação de ideias, que sentimentos e reações surgem em mim, antes de qualquer reflexão, quando, na oração do pai-nosso, chego às palavras ‘seja feita a vossa vontade’”?

Quem as diz é como se inclinasse interiormente a cabeça em resignação, preparando-se para o pior. Inconscientemente, vincula-se a vontade de Deus com tudo o que é desagradável, doloroso, com aquilo que, de uma forma ou de outra, pode ser visto como mutilação da liberdade e do desenvolvimento individual. É um pouco como se Deus fosse o inimigo de toda festa, alegria, prazer. Um Deus ranzinza e inquisidor.

Deus é visto como o Ser Supremo, o Onipotente, o Senhor do tempo e da história, isto é, como uma entidade que, de fora, se impõe ao indivíduo; nenhum particular da vida humana lhe escapa. A transgressão da Sua lei introduz inexoravelmente uma desordem que exige uma reparação adequada, que o homem sabe ser incapaz de lhe dar. Daí o medo e, às vezes, um surdo rancor contra Deus. É um resquício da ideia pagã de Deus, nunca erradicada de todo, e talvez inerradicável, do coração humano. É nela que se baseia a tragédia grega; Deus é aquele que intervém, através da punição divina, para restaurar a ordem perturbada pelo mal.

É claro que nunca foi ignorada, no cristianismo, a misericórdia de Deus! Mas a ela foi confiada apenas a incumbência de moderar os rigores irrenunciáveis ​​da justiça. A misericórdia era o expoente, não a base; a exceção, não a regra. O ano da misericórdia é a oportunidade de ouro para trazer de volta à luz a verdadeira imagem do Deus bíblico, que não somente tem misericórdia, mas é misericórdia.

Esta afirmação ousada se baseia no fato de que “Deus é amor” (1 Jo 4, 8.16). Só na Trindade Deus é amor sem ser misericórdia. Que o Pai ame o Filho não é graça ou concessão; é necessidade: Ele precisa amar para existir como Pai. Que o Filho ame o Pai não é misericórdia ou graça; é necessidade, mesmo queliberíssima: Ele precisa ser amado e amar para ser Filho. O mesmo deve ser dito do Espírito Santo, que é o amor feito pessoa.

É quando cria o mundo e, nele, as criaturas livres que o amor de Deus deixa de ser natureza e se torna graça. Este amor é uma livre concessão: poderia não existir; é hesed, graça e misericórdia. O pecado do homem não muda a natureza deste amor, mas provoca nele um salto de qualidade: da misericórdia como dom se passa à misericórdia como perdão. Do amor de simples doação se passa para um amor de sofrimento, porque Deus sofre diante da rejeição ao seu amor. “Eu nutri e criei filhos, diz o Senhor, mas eles se rebelaram contra mim” (Is 1, 2). Perguntemos aos muitos pais e mães que tiveram essa experiência se isto não é sofrimento, e dos mais amargos da vida.

* * *

E o que é da justiça de Deus? É esquecida ou desvalorizada? A esta pergunta quem respondeu de uma vez por todas foi São Paulo. Ele começa a sua exposição, na Carta aos Romanos, com uma notícia: “Manifestou-se a justiça de Deus” (Rm 3, 21). Nós nos perguntamos: qual justiça? Aquela que dá “unicuique suum”, a cada um o que é seu, distribuindo prêmios e castigos de acordo com o mérito? Haverá, é verdade, um tempo em que se manifestará também essa justiça de Deus, que consiste em dar a cada um segundo os seus méritos. Deus, de fato, como escreveu pouco antes o Apóstolo,

“retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que, perseverando nas obras de bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade; ira e indignação contra aqueles que, por rebelião, desobedecem à verdade e obedecem à injustiça” (Rom 2, 6-8).

Mas não é desta justiça que fala o Apóstolo quando escreve que “se manifestou a justiça de Deus”. O primeiro é um evento futuro; este, um evento em ato, que acontece “agora”. Se assim não fosse, a afirmação de Paulo seria absurda, negada pelos fatos. Do ponto de vista da justiça retributiva, nada mudou no mundo com a vinda de Cristo. Continuam, disseBossuet, a ver-se muitas vezes no trono os culpados e no patíbulo os inocentes[1]; mas para que não se creia que há no mundo alguma justiça e ordem fixa, ainda que invertida, eis que às vezes se vê o contrário, ou seja, o inocente no trono e o culpado no cadafalso. Não é nisto, portanto, que consiste a novidade trazida por Cristo. Ouçamos o que diz o Apóstolo:

“Todos pecaram e foram privados da glória de Deus, mas são justificados gratuitamente pela sua graça, em virtude da redenção realizada por Cristo Jesus. Deus o estabeleceu como instrumento de expiação por meio da fé, no seu sangue, a fim de manifestar a sua justiça, depois da tolerância usada para com os pecados passados no tempo da divina paciência. Ele manifesta a sua justiça no tempo presente, para ser justo e justificar quem tem fé em Jesus” (Rm 3, 23-26).

Deus faz justiça a si mesmo ao ter misericórdia! Eis a grande revelação. O Apóstolo diz que Deus é “justo e justificador”: justo consigo mesmo quando justifica o homem; Ele, de fato, é amor e misericórdia; por isso faz justiça a si mesmo – demonstrando-se verdadeiramente como o que é – quando tem misericórdia.

Mas nada disto se entende quando não se compreende o que quer dizer, exatamente, a expressão “justiça de Deus”. Existe o perigo de se ouvir falar de justiça de Deus e, ignorando o seu significado, ficar-se com medo em vez de encorajado. Santo Agostinho já tinha deixado claro: “A ‘justiça de Deus’ é aquela pela qual, por sua graça, nós nos tornamos justos, assim como a salvação do Senhor (Sl 3,9) é aquela pela qual Deus nos salva”[2]. Em outras palavras, a justiça de Deus é o ato pelo qual Deus faz justos, agradáveis a Si, aqueles que creem no Seu Filho. Não é um fazer-se justiça, mas um fazer justos.

Lutero teve o mérito de trazer de volta à luz esta verdade depois que, durante séculos, pelo menos na pregação cristã, o seu sentido tinha se perdido, e é isto, principalmente, que a Cristandade deve à Reforma, cujo quinto centenário ocorre no próximo ano. “Quando descobri isto, eu me senti renascer, e pareceu-me que se escancaravam para mim as portas do paraíso”[3], escreveu mais tarde o reformador. Mas não foram nem Agostinho nem Lutero os que assim explicaram o conceito de “justiça de Deus”; foi a Escritura que o fez antes deles:

“Quando se manifestaram a bondade de Deus e o seu amor pelos homens, Ele nos salvou, não por causa de obras de justiça por nós praticadas, mas por causa da sua misericórdia” (Tt 3, 4-5). “Deus, rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, fez-nos, de mortos que estávamos pelo pecado, reviver com Cristo. Pela graça fostes salvos” (cf. Ef 2, 4).

Dizer que “se manifestou a justiça de Deus”, portanto, é como dizer que se manifestou a bondade de Deus, o seu amor, a sua misericórdia. A justiça de Deus não só não contradiz a sua misericórdia como consiste precisamente nela!

* * *

O que aconteceu na cruz de tão importante a ponto de justificar esta mudança radical nos destinos da humanidade? Em seu livro sobre Jesus de Nazaré, Bento XVI escreveu:

“A injustiça, o mal como realidade, não pode ser simplesmente ignorada, deixada acontecer. Deve ser eliminada, derrotada. Esta é a verdadeira misericórdia. E que o faça Deus mesmo, já que os homens não são capazes – esta é a bondade incondicional de Deus”[4].

Deus não se contentou em perdoar os pecados do homem; Ele fez infinitamente mais: Ele os tomou sobre si mesmo. O Filho de Deus, diz São Paulo, “se fez pecado por nós”. Palavra terrível! Já na Idade Média havia quem achasse difícil acreditar que Deus exigira a morte do Filho para reconciliar consigo o mundo. São Bernardo lhe respondia: “Não foi a morte do Filho que aprouve a Deus, mas a sua vontade de morrer espontaneamente por nós”: “non mors placuit sed voluntas sponte morientis”[5]. Não foi a morte, portanto, mas o amor que nos salvou! O amor de Deus alcançou o homem no ponto mais distante a que ele tinha se expulsado ao fugir de Deus, ou seja, a morte.

A morte de Cristo devia ser para todos a prova suprema da misericórdia de Deus para com os pecadores. É por isso que ela não tem sequer a majestade de certa solidão, mas é enquadrada, antes, entre dois ladrões. Jesus quis ser amigo dos pecadores até o fim: por isso morreu como eles e com eles. O ódio e a ferocidade dos ataques terroristas desta semana  em Bruxelas nos ajudam a entender a força divina contida nas últimas palavras de Cristo: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). Não importa quão grande o ódio dos homens, o amor de Deus tem sido, e será, cada vez maior. Para nós, é dirigida, nas atuais circunstancias, a exortação do Apóstolo Paulo: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem”(Rm 12, 21).

* * *
É hora de perceber que o oposto da misericórdia não é a justiça, mas a vingança. Jesus não opôs a misericórdia à justiça, mas à lei de talião: “olho por olho, dente por dente”. Perdoando os pecados, Deus não renuncia à justiça, mas à vingança; Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf. Ez 18, 23). Jesus Cristo, na cruz, não pediu ao Pai que vingasse a sua causa; pediu-lhe que perdoasse os seus algozes.

Temos que desmitificar a vingança! Ela se tornou um mito penetrante, que contamina tudo e todos, começando pelas crianças. Grande parte das histórias levadas às tela e aos jogos eletrônicos são histórias de vingança. Metade, se não mais, do sofrimento que há no mundo (quando não se trata de males naturais) vem do desejo de vingança, seja nas relações entre as pessoas, seja nas relações entre países e povos.

Foi dito que “o mundo será salvo pela beleza”[6]; mas a beleza também pode levar à ruína. Há somente uma coisa que realmente pode salvar o mundo: a misericórdia! A misericórdia de Deus pelos homens e dos homens entre si. Ela pode salvar, em particular, a coisa mais preciosa e mais frágil que há no mundo neste momento: o matrimônio e a família.

Acontece no matrimônio algo semelhante ao que aconteceu na relação entre Deus e a humanidade, que a Bíblia descreve, precisamente, com a imagem de um casamento. No início de tudo, dizíamos, está o amor, não a misericórdia. A misericórdia só intervém depois do pecado do homem. Também no casamento, no início não há misericórdia, mas amor. As pessoas não se casam por misericórdia, mas por amor. Depois de anos, ou meses, de vida em comum, revelam-se os limites pessoais, os problemas de saúde, do dinheiro, dos filhos; intervém a rotina, que apaga toda alegria.

O que pode salvar um casamento de escorregar para um poço sem fundo, senão o divórcio, é a misericórdia, entendida no sentido completo da Bíblia, ou seja, não apenas como perdão recíproco, mas como um “revestir-se de sentimentos de ternura, de bondade, de humildade, de mansidão e de magnanimidade” (Col 3, 12). A misericórdia faz com que ao eros se junte o ágape; ao amor de busca, o de doação e de compaixão. Deus “se apieda” do homem (Sl 102, 13): não deveriam marido e mulher se apiedar um do outro? E não deveríamos, nós que vivemos em comunidade, apiedar-nos uns dos outros em vez de nos julgarmos?

Oremos. Pai Celestial, pelos méritos do teu Filho, que, na cruz, “se fez pecado” por nós, afasta do coração das pessoas, das famílias e dos povos o desejo de vingança e faz-nos enamorar da misericórdia. Faz que a intenção do Santo Padre ao proclamar este ano santo da misericórdia encontre resposta concreta em nosso coração e leve todos a experimentarem a alegria da reconciliação contigo. Assim seja!

[1] Jacques-Bénigne Bossuet, “Sermon sur la Providence” (1662), in Oeuvresde Bossuet, eds. B. Velat and Y. Champailler (Paris: Pléiade, 1961), pág. 1062.

[2] S. Agostinho, O Espírito e a letra, 32,56 (PL 44, 237).

[3] Martinho Lutero, Prefácio às obras em latim, ed . Weimar, 54, pág.186.

[4] Cf. J. Ratzinger – Bento XVI, Jesus de Nazaré, II Parte, Libreria Editrice Vaticana 2011, pág. 151.

[5] S. Bernardo de Claraval, Contra os erros de Abelardo, 8, 21-22 (PL 182, 1070).

[6] F. Dostoiévski, O Idiota, parte III, cap.5.

Catequese do Papa Francisco sobre o Tríduo Pascal

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 23 de março de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

A nossa reflexão sobre misericórdia de Deus nos introduz hoje ao Tríduo Pascal. Viveremos a Quinta, a Sexta e o Sábado santo como momentos fortes que nos permitem entrar sempre mais no grande mistério da nossa fé: a Ressurreição do nosso Senhor Jesus Cristo. Tudo, nestes três dias, fala de misericórdia, porque torna visível até onde pode chegar o amor de Deus. Escutaremos o relato dos últimos dias da vida de Jesus. O evangelista João nos oferece as chaves para compreender o sentido profundo disso: “Tendo amado os seus que estavam nesse mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1). O amor de Deus não tem limites. Como repetia muitas vezes Santo Agostinho, é um amor que vai “até o fim sem fim”. Deus se oferece verdadeiramente todo para cada um de nós e não economiza em nada. O mistério que adoramos nesta Semana Santa é uma grande história do amor que não conhece obstáculos. A Paixão de Jesus vai até o fim do mundo, porque é uma história de partilha com os sofrimentos de toda a humanidade e uma permanente presença nos acontecimentos da vida pessoal de cada um de nós. Em resumo, o Tríduo Pascal é memorial de um drama de amor que nos dá a certeza de que não seremos nunca abandonados nas provações da vida.

Na Quinta-feira Santa, Jesus institui a Eucaristia, antecipando no banquete pascal o seu sacrifício no Gólgota. Para fazer os discípulos compreenderem o amor que o anima, lava seus pés, oferecendo ainda uma vez mais o exemplo em primeira pessoa de como eles mesmos deveriam agir. A Eucaristia é o amor que se faz serviço. É a presença sublime de Cristo que deseja alimentar cada homem, sobretudo os mais frágeis, para torná-los capazes de um caminho de testemunho entre as dificuldades do mundo. Não somente. Em dar-se a nós como alimento, Jesus atesta que devemos aprender a dividir com os outros este alimento para que se torne uma verdadeira comunhão de vida com quantos estão em necessidade. Ele se doa a nós e nos pede para permanecermos Nele para fazermos o mesmo.

A Sexta-feira santa é o momento culminante do amor. A morte de Jesus, que na cruz se abandona ao Pai para oferecer a salvação ao mundo inteiro, exprime o amor dado até o fim, sem fim. Um amor que pretende abraçar todos, ninguém excluído. Um amor que se estende a todo tempo e a todo lugar: uma fonte inesgotável de salvação a que cada um de nós, pecadores, podemos chegar. Se Deus nos demonstrou o seu amor supremo na morte de Jesus, então também nós, regenerados pelo Espírito Santo, podemos e devemos nos amar uns aos outros.

E enfim, o Sábado Santo é o dia do silêncio de Deus. Deve ser um dia de silêncio e nós devemos fazer de tudo para que para nós seja justamente um dia de silêncio, como foi naquele tempo: o dia do silêncio de Deus. Jesus colocado no sepulcro partilha com toda a humanidade o drama da morte. É um silêncio que fala e exprime o amor como solidariedade com os abandonados de sempre, que o Filho de Deus vem para preencher o vazio que apenas a misericórdia infinita do Deus Pai pode preencher. Deus se cala, mas por amor. Neste dia, o amor – aquele amor silencioso – torna-se espera da vida na ressurreição. Pensemos, o Sábado Santo: nos fará bem pensar no silêncio de Nossa Senhora, a “crente”, que em silêncio estava à espera da Ressurreição. Nossa Senhora deverá ser o ícone, para nós, daquele Sábado Santo. Pensar tanto como Nossa Senhora viveu aquele Sábado Santo; à espera. É o amor que não duvida, mas que espera na palavra do Senhor, para que torne evidente e brilhante o dia da Páscoa.

É tudo um grande mistério de amor e de misericórdia. As nossas palavras são pobres e insuficientes para exprimi-lo em plenitude. Pode vir em nosso auxílio a experiência de uma jovem, não muito conhecida, que escreveu páginas sublimes sobre o amor de Cristo. Chamava-se Giuliana di Norwich; era analfabeta, esta menina que teve visões da paixão de Jesus e que depois, tornando-se reclusa, descreveu, com linguagem simples, mas profunda e intensa, o sentido do amor misericordioso. Dizia assim: “Então o nosso bom Senhor me perguntou: ‘Estás feliz que eu tenha sofrido por ti?’. Eu disse: ‘Sim, Senhor, e te agradeço muito; sim, bom Senhor, que tu sejas bendito’. Então Jesus, o nosso bom Senhor, disse: ‘Se tu estás feliz, também eu estou. Ter sofrido a paixão por ti é para mim uma alegria, uma felicidade, uma alegria eterna; e se pudesse sofrer ainda mais eu o faria’”.

Como são belas essas palavras! Permitem-nos entender realmente o amor imenso e sem limites que o Senhor tem por cada um de nós. Deixemo-nos envolver por essa misericórdia que vem ao nosso encontro e, nestes dias, enquanto temos fixo o olhar sobre a paixão e a morte do Senhor, acolhamos no nosso coração a grandeza do seu amor e, como Nossa Senhora, o Sábado, em silêncio, à espera da Ressurreição.

Jesus diante de Pilatos

A conclusão do interrogatório de Jesus no Sinédrio a que Caifás esperava: Jesus foi declarado réu de blasfêmia,delito para o qual se previa a pena de morte.Mas,dado que o poder de infligir a pena capital estava reservado aos romanos,o processo tinha de ser transferido para Pilatos para que,deste modo,aparecesse em primeiro plano o aspecto político da sentença de culpabilidade,Jesus tinha-se declarado Messias e,consequentemente,pretendera para si a dignidade real,embora de um modo completamente particular.A reivindicação da realeza messiânica era um delito político que devia ser punido pela justiça romana.Com o canto do galo,surgira o dia.Era costume do governador romano sentar-se no tribunal as primeiras horas de manhã.

E assim Jesus foi levado pelos seus acusadores ao pretório e apresentado a Pilatos como malfeitor que merecia a morte.É o dia da parasceve (preparação) para a festa da Páscoa; de trade seriam degolados os cordeiros para o banquete da noite.Para tomar parte nesse banquete,requer-se a pureza ritual;por isso,os sacerdotes acusadores não podiam entrar no pretório pagão.e trataram com o governador romano diante do edifício.Assim João,que nos transmite esta notícia (cf.18-28-29),deixa transparecer a contradição entre a correta observância das prescrições culturais de pureza e a questão da verdadeira pureza interior do homem:aos acusadores não lhes passa pela cabeça que aquilo que inquina não é entrar na casa pagã,mas o sentimento íntimo do coração.Ao dizê-lo,o evangelista sublinha ao mesmo tempo que a ceia pascal ainda não tivera lugar e que devia ainda verificar-se a matança dos cordeiros.

Texto Extraído do Livro Jesus de Nazaré da Entrada de Jerusalém até a Ressurreição,do Papa Emérito Bento XVI.

Catequese do Papa Francisco – misericórdia e consolação

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 16 de março de 2016

Queridos irmãos e irmãs, bom dia.

No livro do profeta Jeremias, os capítulos 30 e 31 são ditos “livro da consolação”, porque nesses a misericórdia de Deus se apresenta com toda a sua capacidade de confortar e abrir o coração dos aflitos à esperança. Hoje queremos também nós ouvir essa mensagem de consolação.

Jeremias se dirige aos israelitas que foram deportados à terra estrangeira e pré-anuncia o retorno à pátria. Este retorno é sinal do amor infinito de Deus Pai, que não abandona os seus filhos, mas cuida deles e os salva. O exílio foi uma experiência devastante para Israel. A fé havia vacilado porque em terra estrangeira, sem o templo, sem o culto, depois de ter visto o país destruído, era difícil continuar a acreditar na bondade do Senhor. Penso na vizinha Albânia e como, depois de tanta perseguição e destruição, conseguiu se reerguer na dignidade e na fé. Assim sofreram os israelitas no exílio.

Também nós podemos viver às vezes uma espécie de exílio, quando a solicitude, o sofrimento, a morte nos fazem pensar termos sido abandonados por Deus. Quantas vezes ouvimos essa palavra: “Deus se esqueceu de mim”: são pessoas que sofrem e se sentem abandonadas. E quantos nossos irmãos estão vivendo neste tempo uma real e dramática situação de exílio, distantes da sua pátria, tendo nos olhos os escombros de suas casas, no coração o medo e, muitas vezes, infelizmente, a dor pela perda de pessoas queridas! Nestes casos, alguém pode se perguntar: onde está Deus? Como é possível que tanto sofrimento possa se abater sobre os homens, mulheres e crianças inocentes? E quando procuram entrar em qualquer outra parte lhe fecham a porta. E estão ali, na fronteira porque tantas portas e tantos corações estão fechados. Os migrantes de hoje que sofrem o frio, sem comida e não podem entrar, não sentem a acolhida. Gosto tanto de ouvir quando vejo as nações, os governantes que abrem o coração e abrem as portas!

O profeta Jeremias nos dá uma primeira resposta. O povo exilado poderá voltar a ver sua terra e experimentar a misericórdia do Senhor. É o grande anúncio de consolação: Deus não está ausente nem hoje nestas dramáticas situações, Deus está próximo e faz obras grandes de salvação para quem confia Nele. Não se deve ceder ao desespero, mas continuar a ser seguro de que o bem vence o mal e que o Senhor enxugará cada lágrima e nos libertará de todo medo. Por isso Jeremias empresta a sua voz às palavras de amor de Deus pelo seu povo:

“De longe me aparecia o Senhor:
amo-te com eterno amor,
e por isso a ti estendi o meu favor.
Reconstruir-te-ei, e serás restaurada, ó virgem de Israel!
Virás, ornada de tamborins, participar de alegres danças” (31, 3-4)

O Senhor é fiel, não abandona à desolação. Deus ama com um amor sem fim, que nem mesmo o pecado pode frear, e graças a Ele o coração do homem se enche de alegria e de consolação.

O sonho consolante do retorno à pátria continua nas palavras do profeta, que dirigindo-se a quantos retornarão a Jerusalém, diz:

“Regressarão entre gritos de alegria às alturas de Sião
acorrendo aos bens do Senhor:
ao trigo, ao mosto e ao óleo,
ao gado menor e ao maior.
Sua alma se assemelha a jardim bem regado,
e sua fraqueza cessará” (31, 12).

Na alegria e no reconhecimento, os exilados voltarão a Sião, saindo sobre o monte santo rumo à casa de Deus e assim poderão de novo levantar hinos e orações ao Senhor que os libertou. Este retornar a Jerusalém e aos seus bens é descrito com um verbo que literalmente quer dizer “afluir, socorrer”. O povo é visto, em um movimento paradoxal, como um rio em cheia que flui rumo à altura de Sião, movendo em direção ao topo da montanha. Uma imagem corajosa para dizer quanto é grande a misericórdia do Senhor!

A terra, que o povo tinha sido obrigado a abandonar, tinha se tornado vítima de inimigos e desolados. Agora, em vez disso, retoma a vida e refloresce. E os exilados serão como um jardim irrigado, como uma terra fértil. Israel, levado novamente à pátria pelo seu Senhor, assiste à vitória da vida sobre a morte e da benção sobre a maldição.

É assim que o povo é fortificado e consolado por Deus. Esta palavra é importante: consolado! Os repatriados recebem vida de uma fonte que, gratuitamente, os irriga.

A este ponto, o profeta anuncia a plenitude da alegria e sempre, em nome de Deus, proclama:

“Transformar-lhes-ei o luto em regozijo,
e os consolarei após o sofrimento e os alegrarei” (31, 13).

O salmo nos diz que, quando voltaram à pátria, a boca se enche de sorriso; é uma alegria tão grande! É o dom que o Senhor quer dar também a cada um de nós, com o seu perdão que converte e reconcilia.

O profeta Jeremias nos deu o anúncio, apresentando o retorno dos exilados como um grande símbolo da consolação dada ao coração que se converte. O Senhor Jesus, por sua parte, levou a cumprimento esta mensagem do profeta. O verdadeiro e radical retorno do exílio e a confortante luz depois da escuridão da crise de fé se realiza na Páscoa, na experiência cheia e definitiva do amor de Deus, amor misericordioso que dá alegria, paz e vida eterna.

24 horas para o Senhor: homilia do Papa na celebração penitencial

brasão do Papa Francisco

HOMILIA
Celebração penitencial – “24 horas para o Senhor”
Basílica Vaticana
Sexta-feira, 4 de março de 2016

«Que eu veja de novo» (Mc 10, 51): este é o pedido que queremos fazer hoje ao Senhor. Ver de novo, depois de os nossos pecados nos terem feito perder de vista o bem e desviar da beleza da nossa vocação, levando-nos a vagar longe da meta.

Este trecho do Evangelho possui um grande valor simbólico e existencial, porque cada um de nós se encontra na situação de Bartimeu. A sua cegueira levara-o à pobreza e a viver na periferia da cidade, dependendo em tudo dos outros. Também o pecado tem este efeito: empobrece-nos e isola-nos. É uma cegueira do espírito que impede de ver o essencial, fixar o olhar no amor que dá a vida; e, aos poucos, leva a deter-se no que é superficial até deixar insensíveis aos outros e ao bem. Quantas tentações têm a força de anuviar a vista do coração e torná-lo míope! Como é fácil e errado crer que a vida dependa do que se possui, do sucesso ou do aplauso que se recebe; que a economia seja feita apenas de lucro e consumo; que as pretensões próprias devam prevalecer sobre a responsabilidade social! Olhando apenas para o nosso eu, tornamo-nos cegos, amortecidos e fechados em nós mesmos, sem alegria nem verdadeira liberdade.

Mas Jesus passa; passa, mas detém o passo: «parou», diz o Evangelho (v. 49). Então um frémito atravessa o coração, porque nos damos conta de ser contemplados pela Luz, por aquela Luz gentil que nos convida a não ficar fechados nas nossas cegueiras tenebrosas. A presença de Jesus perto de nós faz sentir que, longe d’Ele, falta-nos qualquer coisa importante: faz-nos sentir necessitados de salvação; e isto é o princípio da cura do coração. Depois, quando o desejo de ser curado ganha audácia, leva a rezar, a gritar, com força e insistência, por ajuda, como faz Bartimeu: «Jesus, Filho de David, tem misericórdia de mim!» (v. 47).

Infelizmente, há sempre alguém (o Evangelho fala de «muitos») que não quer parar, não quer ser incomodado por quem grita a sua aflição, preferindo mandar calar e repreender o pobre que chateia (cf. v. 48). É a tentação de prosseguir como se nada tivesse acontecido; mas, assim, afastamo-nos do Senhor e deixamos afastados de Jesus também os outros. Reconheçamos todos que somos mendigos do amor de Deus, e não deixemos escapar o Senhor que passa. «Timeo transeuntem Dominum – temo que o Senhor passe» (Santo Agostinho). Demos voz ao nosso desejo mais verdadeiro: «[Jesus], que eu veja de novo!» (v. 51). Este Jubileu da Misericórdia é tempo favorável para acolher a presença de Deus, experimentar o seu amor e voltar a Ele de todo o coração. Como Bartimeu, joguemos fora a capa e ponhamo-nos de pé (cf. v 50), ou seja, joguemos fora aquilo que nos impede de caminhar rapidamente para Ele, sem medo de deixar aquilo que nos dá segurança e a que estamos presos; não fiquemos sentados, ergamo-nos, recuperemos a nossa estatura espiritual, a dignidade de filhos amados que estão diante do Senhor para que Ele nos fixe nos olhos, nos perdoe e recrie. A palavra que, talvez, hoje chega ao nosso coração é a mesma da criação do homem: levante-te, Deus te criou em pé. Levanta-te!

Hoje mais do que nunca, sobretudo nós, pastores, somos chamados também a escutar o grito, talvez abafado, de quantos desejam encontrar o Senhor. Somos obrigados a rever comportamentos que, às vezes, não ajudam os outros a aproximar-se de Jesus; horários e programas que não atendem às reais necessidades daqueles que poderiam aproximar-se do confessionário; regras humanas, quando valem mais do que o desejo de perdão; nossa rigidez que poderia manter longe da ternura de Deus. Certamente não devemos diminuir as exigências do Evangelho, mas não podemos correr o risco de frustrar o desejo que tem o pecador de reconciliar-se com o Pai, porque o regresso do filho a casa é o que acima de tudo anseia o Pai (cf. Lc 15, 20-32).

Que as nossas palavras sejam as dos discípulos que, repetindo as próprias expressões de Jesus, dizem a Bartimeu: «Coragem, levanta-te que Ele chama-te» (v. 49). Somos enviados para dar coragem, amparar e levar a Jesus. O nosso ministério é o ministério do acompanhamento, de modo que o encontro com o Senhor seja pessoal, íntimo, e o coração possa, com sinceridade e sem medo, abrir-se ao Salvador. Não esqueçamos jamais: o único que age em cada pessoa é Deus. No Evangelho, é Ele que pára e pergunta pelo cego; é Ele que ordena que Lho tragam; é Ele que o escuta e cura. Fomos escolhidos para suscitar o desejo da conversão, ser instrumentos que facilitam o encontro, estender a mão e absolver, tornando visível e operante a sua misericórdia. Que cada homem e mulher que se aproxime do confessionário encontre um pai, encontre um pai que lhe espera, que encontre o Pai que perdoa.

A conclusão do episódio evangélico é densa de significado: Bartimeu «logo recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho» (v. 52). Também nós, quando nos abeiramos de Jesus, vemos de novo a luz para olhar o futuro com confiança, encontramos a força e a coragem para nos pormos a caminho. Com efeito, «quem acredita, vê» (Enc. Lumen fidei, 1) e avança com esperança, porque sabe que o Senhor está presente, ampara e guia. Sigamo-Lo, como discípulos fiéis, para tornar participantes da alegria do seu amor misericordioso a quantos encontrarmos no nosso caminho. E depois do perdão do Pai, façamos festa no nosso coração, porque Ele faz festa.