Catequese do Papa sobre o diálogo inter-religioso – 28/10/15

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Nas audiências gerais sempre há muitas pessoas ou grupos pertencentes a outras religiões; mas hoje essa presença é de tudo particular, para recordar juntos o 50º aniversário da Declaração do Concílio Vaticano II Nostra aetate, sobre as relações da Igreja católica com as religiões não cristãs. Este tema estava fortemente no coração do beato Papa Paulo VI, que já na festa de Pentecostes do ano precedente ao fim do Concílio tinha instituído o Secretariado para os não cristãs, hoje Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Exprimo por isso a minha gratidão e as minhas calorosas boas vindas a pessoas e grupos de diversas religiões, que hoje quiseram estar presentes, especialmente aos que vieram de longe.

O Concílio Vaticano II foi um tempo extraordinário de reflexão, diálogo e oração para renovar o olhar da Igreja católica sobre si mesma e sobre o mundo. Uma leitura dos sinais dos tempos em vista de uma atualização orientada por uma dupla fidelidade: fidelidade à tradição eclesial e fidelidade à história dos homens e das mulheres do nosso tempo. De fato, Deus, que se revelou na criação e na história, que falou por meio dos profetas e totalmente no seu Filho feito homem (cfr Eb 1, 1) se dirige ao coração e ao espírito de todo ser humano, que busca a verdade e os meios de praticá-la.

A mensagem da Declaração Nostra aetate é sempre atual. Retomamos brevemente alguns pontos:
– a crescente inter-dependência dos povos (cfr n.1);
– a busca humana de um sentido da vida, do sofrimento, da morte, interrogações que sempre acompanham o nosso caminho (cfr n.1);
– a comum origem e o comum destino da humanidade (cfr n.1);
– a unicidade da família humana (cfr n. 1);
– as religiões como busca de Deus e do Absoluto, dentro das várias etnias e culturas (cfr n. 1);
– o olhar benevolente e atento da Igreja sobre religiões: essa não rejeita nada nelas que é de belo e verdadeiro (cfr n. 2);
– a Igreja olha com estima os crentes de todas as religiões, apreciando o seu empenho espiritual e moral (cfr n. 3);
– a Igreja, aberta ao diálogo com todos, é ao mesmo tempo fiel à verdade em que acredita, a começar por aquela de que a salvação oferecida a todos tem a sua origem em Jesus, único salvador e que o Espírito Santo está em ação, como fonte de paz e amor.

São tantos os eventos, as iniciativas, as relações institucionais ou pessoais com as religiões não cristãs destes últimos 50 anos que é difícil recordar todos. Um acontecimento particularmente significativo foi o Encontro de Assis em 27 de outubro de 1986. Esse foi desejado e promovido por São João Paulo II, que um ano antes, então há 30 anos, dirigindo-se aos jovens muçulmanos em Casablanca desejava que todos os crentes em Deus favorecessem a amizade e a união entre os homens e os povos (19 de agosto de 1985). A chama, acesa por Assis, estendeu-se em todo o mundo e constitui um permanente sinal de esperança.

Uma especial gratidão a Deus merece a verdade e a própria transformação que teve nesses 50 anos a relação entre cristãos e judeus. Indiferença e oposição se transformaram em colaboração e benevolência. De inimigos e estranhos, nos tornamos amigos e irmãos. O Concílio, com a Declaração Nostra aetate, traçou o caminho: “sim” à redescoberta das raízes judaicas do cristianismo; “não” a toda forma de antissemitismo e condenação de toda injúria, discriminação e perseguição que delas derivam. O conhecimento, o respeito e a estima mútua constituem o caminho que, se vale de modo peculiar para a relação com os judeus, vale analogamente também para as relações com as outras religiões. Penso em particular nos muçulmanos, que – como recorda o Concílio – “adoram o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e onipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens” (Nostra aetate, 5). Esses se referem à paternidade de Abraão, veneram Jesus como profeta, honram a sua Mãe virgem, Maria, esperam o dia do julgamento e praticam a oração, a esmola e o jejum (cfr ibid).

O diálogo do qual precisamos não pode ser nada a não ser aberto e respeitoso, e então se revela frutuoso. O respeito recíproco é condição e, ao mesmo tempo, finalidade do diálogo inter-religioso: respeitar o direito dos outros à vida, à integridade física, às liberdades fundamentais, isso é, liberdade de consciência, de pensamento, de expressão e de religião.

O mundo olha para nós crentes, convida-nos a colaborar entre nós e com os homens e as mulheres de boa vontade que não professam religião alguma, pede-nos respostas efetivas sobre numerosos temas: a paz, a fome, a miséria que aflige milhões de pessoas, a crise ambiental, a violência, em particular aquela cometida em nome da religião, a corrupção, a degradação moral, as crises da família, da economia, das finanças e, sobretudo, da esperança. Nós crentes não temos receitas para esses problemas, mas temos um grande recurso: a oração. E nós crentes rezamos. Devemos rezar. A oração é o nosso tesouro, à qual chegamos segundo as respectivas tradições, para pedir os dons que a humanidade anseia.

Por causa da violência e do terrorismo, difundiu-se uma atitude de suspeita e até mesmo de condenação das religiões. Na verdade, embora nenhuma religião esteja imune do risco de desvios fundamentalistas ou extremistas em indivíduos ou grupos (cfr Discurso ao Congresso dos EUA, 24 de setembro de 2015), é necessário olhar para os valores positivos que elas vivem e propagam e que são fonte de esperança. Trata-se de elevar o olhar para ir além. O diálogo baseado no confiante respeito pode levar a sementes de bem que, por sua vez, se tornam brotos de amizade e de colaboração em tantos campos e, sobretudo, no serviço aos pobres, aos pequenos, aos idosos, no acolhimento aos migrantes, na atenção a quem está excluído. Podemos caminhar juntos cuidando uns dos outros e da criação. Todos os crentes, de todas as religiões. Juntos podemos louvar ao Criador por ter nos dado o jardim do mundo para cultivar e proteger como um bem comum e podemos realizar projetos partilhados para combater a pobreza e assegurar a cada homem e mulher condições de vida digna.

O Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que está diante de nós, é uma ocasião propícia para trabalhar juntos no campo das obras de caridade. E neste campo, onde conta sobretudo a compaixão, podem se unir a nós tantas pessoas que não se sentem crentes ou que ainda estão em busca de Deus e da verdade, pessoas que colocam no centro a face do outro, em particular do irmão ou da irmã necessitados. Mas a misericórdia ao qual somos chamados abraça toda a criação, que Deus nos confiou para que sejamos protetores, e não exploradores ou, pior ainda, destruidores. Devemos sempre nos propor a deixar o mundo melhor do que como o encontramos (cfr Enc. Laudato si’, 194), a partir do ambiente em que vivemos, por pequenos gestos da nossa vida cotidiana.

Queridos irmãos e irmãs, quanto ao futuro do diálogo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer é rezar. E rezar uns pelos outros: somos irmãos! Sem o Senhor, nada é possível; com Ele, tudo se torna possível! Possa a nossa oração – cada um segundo a própria tradição – possa aderir plenamente à vontade de Deus, que deseja que todos os homens se reconheçam como irmãos e vivam como tal, formando a grande família humana na harmonia da diversidade.

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Catequese do Papa Francisco sobre a fidelidade do amor

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Na reflexão passada, refletimos sobre as promessas importantes que os pais fazem às crianças, desde quando elas são pensadas no amor e concebidas no ventre.

Podemos acrescentar que, olhando mais de perto, toda a realidade familiar é fundada sobre a promessa – pensar bem nisso: a identidade familiar é fundada sobre promessas – pode-se dizer que a família vive da promessa de amor e de fidelidade que o homem e a mulher fazem um ao outro. Essa comporta o empenho de acolher e educar os filhos; mas inclui também o cuidado com os pais idosos, em proteger e socorrer os membros mais frágeis da família, em ajudar-se de perto para realizar as próprias qualidades e aceitar os próprios limites. E a promessa conjugal se alarga a partilhar as alegrias e os sofrimentos de todos os pais, as mães, as crianças, com generosa abertura nos confrontos da convivência humana e do bem comum. Uma família que se fecha em si mesma é como uma contradição, uma mortificação da promessa que a fez nascer e a faz viver. Não esquecer nunca: a identidade da família é sempre uma promessa que se alarga e se alarga a toda a família e também a toda a humanidade.

Nos nossos dias, a honra da fidelidade à promessa da vida familiar parece muito enfraquecida. Por um lado, porque um mal entendido direito de buscar a própria satisfação, a todo custo em qualquer relação, é exaltado como um princípio não negociável de liberdade. Por outro lado, porque se confia exclusivamente à constrição da lei os vínculos da vida de relação e do compromisso pelo bem comum. Mas, na verdade, ninguém quer ser amada só pelos próprios bens ou por obrigação. O amor, bem como a amizade, devem a sua força e a sua beleza justamente a este fato: que geram um laço sem tirar a liberdade. O amor é livre, a promessa da família é livre e essa é a beleza. Sem liberdade não há amizade, sem liberdade não há amor, sem liberdade não há matrimônio.

Portanto, liberdade e fidelidade não se opõem uma a outra, antes, se apoiam proximamente, seja nas relações interpessoais, seja naquelas sociais. De fato, pensemos nos danos que produzem, na civilização da comunicação global, a inflação de promessas não mantidas, em vários campos, e a indulgência pela infidelidade à palavra dada e aos compromissos firmados!

Sim, queridos irmãos e irmãs, a fidelidade é uma promessa de compromisso que se auto-realiza, crescendo na livre obediência à palavra dada. A fidelidade é uma confiança que “quer” ser realmente partilhada e uma esperança que “quer” ser cultivada junto. E falando de fidelidade, me vem em mente aquilo que os nossos idosos, os nossos avós nos contam: “Naquele tempo, quando se fazia um acordo, um aperto de mão bastava, porque havia a fidelidade às promessas”. E também isso, que é um fato social, tem origem na família, no aperto de mão do homem e da mulher para seguir adiante juntos, toda a vida.

A fidelidade às promessas é uma verdadeira obra-prima de humanidade! Se olhamos para a sua beleza corajosa, nós nos apaixonamos, mas se desprezamos a sua corajosa perseverança, estamos perdidos. Nenhuma relação de amor – nenhuma amizade, nenhuma forma de querer bem, nenhuma felicidade do bem comum – chega ao nível do nosso desejo e da nossa esperança se não chega a habitar esse milagre da alma. E digo “milagre” porque a força e a persuasão da fidelidade, apesar de tudo, não para de nos encantar e de nos maravilhar. A honra à palavra dada, a fidelidade à promessa não podem ser compradas ou vendidas. Não podem ser constrangidas com a força, mas nem protegidas sem sacrifício.

Nenhuma outra escola pode ensinar a verdade do amor se a família não o faz. Nenhuma lei pode impor a beleza e a herança deste tesouro da dignidade humana se o laço pessoal entre amor e geração não a escreve na nossa carne.

Irmãos e irmãs, é necessário restituir honra social à fidelidade do amor: restituir honra social à fidelidade do amor! É necessário tirar da clandestinidade o cotidiano milagre de milhões de homens e mulheres que regeneram o seu fundamento familiar, do qual toda sociedade vive, sem ser capaz de garanti-lo de nenhum outro modo. Não por acaso, esse princípio da fidelidade à promessa do amor e da geração está escrito na criação de Deus como uma benção perene, à qual foi confiado o mundo.

Se São Paulo pode afirmar que no laço familiar é misteriosamente revelada uma verdade decisiva também pelo laço do Senhor e da Igreja, quer dizer que a própria Igreja encontra aqui uma benção para proteger e com a qual sempre aprender, antes mesmo de ensiná-la e discipliná-la. A nossa fidelidade à promessa é sempre mais confiada à graça e à misericórdia de Deus. O amor pela família humana, em tempos bons ou ruins, é um ponto da honra para a Igreja! Deus nos conceda estarmos à altura dessa promessa. E rezemos pelos padres do Sínodo: que o Senhor abençoe o trabalho deles, desenvolvido com fidelidade criativa, na confiança que Ele, em primeiro lugar, o Senhor – Ele em primeiro lugar – é fiel às suas promessas. Obrigado.

Mensagem do Papa para o Dia Mundial das Missões 2015

brasão do Papa Francisco

MENSAGEM
Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Missões 2015
Domingo, 24 de maio de 2015

Queridos irmãos e irmãs,

Neste ano de 2015, o Dia Mundial das Missões tem como pano de fundo o Ano da Vida Consagrada, que serve de estímulo para a sua oração e reflexão. Na verdade, entre a vida consagrada e a missão subsiste uma forte ligação, porque, se todo o baptizado é chamado a dar testemunho do Senhor Jesus, anunciando a fé que recebeu em dom, isto vale de modo particular para a pessoa consagrada. O seguimento de Jesus, que motivou a aparição da vida consagrada na Igreja, é reposta à chamada para se tomar a cruz e segui-Lo, imitar a sua dedicação ao Pai e os seus gestos de serviço e amor, perder a vida a fim de a reencontrar. E, dado que toda a vida de Cristo tem carácter missionário, os homens e mulheres que O seguem mais de perto assumem plenamente este mesmo carácter.

A dimensão missionária, que pertence à própria natureza da Igreja, é intrínseca também a cada forma de vida consagrada, e não pode ser transcurada sem deixar um vazio que desfigura o carisma. A missão não é proselitismo, nem mera estratégia; a missão faz parte da «gramática» da fé, é algo de imprescindível para quem se coloca à escuta da voz do Espírito, que sussurra «vem» e «vai». Quem segue Cristo não pode deixar de tornar-se missionário, e sabe que Jesus «caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 266).

A missão é uma paixão por Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, uma paixão pelas pessoas. Quando nos detemos em oração diante de Jesus crucificado, reconhecemos a grandeza do seu amor, que nos dignifica e sustenta e, simultaneamente, apercebemo-nos de que aquele amor, saído do seu coração trespassado, estende-se a todo o povo de Deus e à humanidade inteira; e, precisamente deste modo, sentimos também que Ele quer servir-Se de nós para chegar cada vez mais perto do seu povo amado (cf. Ibid., 268) e de todos aqueles que O procuram de coração sincero. Na ordem de Jesus – «Ide» –, estão contidos os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja. Nesta, todos são chamados a anunciar o Evangelho pelo testemunho da vida; e, de forma especial aos consagrados, é pedido para ouvirem a voz do Espírito que os chama a partir para as grandes periferias da missão, entre os povos onde ainda não chegou o Evangelho.

O cinquentenário do Decreto conciliar Ad gentes convida-nos a reler e meditar este documento que suscitou um forte impulso missionário nos Institutos de Vida Consagrada. Nas comunidades contemplativas, recobrou luz e eloquência a figura de Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira das missões, como inspiradora da íntima ligação que há entre a vida contemplativa e a missão. Para muitas congregações religiosas de vida activa, a ânsia missionária surgida do Concílio Vaticano II concretizou-se numa extraordinária abertura à missão ad gentes, muitas vezes acompanhada pelo acolhimento de irmãos e irmãs provenientes das terras e culturas encontradas na evangelização, de modo que hoje pode-se falar de uma generalizada interculturalidade na vida consagrada. Por isso mesmo, é urgente repropor o ideal da missão com o seu centro em Jesus Cristo e a sua exigência na doação total de si mesmo ao anúncio do Evangelho. Nisto não se pode transigir: quem acolhe, pela graça de Deus, a missão, é chamado a viver de missão. Para tais pessoas, o anúncio de Cristo, nas múltiplas periferias do mundo, torna-se o modo de viver o seguimento d’Ele e a recompensa de tantas canseiras e privações. Qualquer tendência a desviar desta vocação, mesmo se corroborada por nobres motivações relacionadas com tantas necessidades pastorais, eclesiais e humanitárias, não está de acordo com a chamada pessoal do Senhor ao serviço do Evangelho. Nos Institutos Missionários, os formadores são chamados tanto a apontar, clara e honestamente, esta perspectiva de vida e acção, como a discernir com autoridade autênticas vocações missionárias. Dirijo-me sobretudo aos jovens, que ainda são capazes de testemunhos corajosos e de empreendimentos generosos e às vezes contracorrente: não deixeis que vos roubem o sonho duma verdadeira missão, dum seguimento de Jesus que implique o dom total de si mesmo. No segredo da vossa consciência, interrogai-vos sobre a razão pela qual escolhestes a vida religiosa missionária e calculai a disponibilidade que tendes para a aceitar por aquilo que é: um dom de amor ao serviço do anúncio do Evangelho, nunca vos esquecendo de que o anúncio do Evangelho, antes de ser uma necessidade para quantos que não o conhecem, é uma carência para quem ama o Mestre.

Hoje, a missão enfrenta o desafio de respeitar a necessidade que todos os povos têm de recomeçar das próprias raízes e salvaguardar os valores das respectivas culturas. Trata-se de conhecer e respeitar outras tradições e sistemas filosóficos e reconhecer a cada povo e cultura o direito de fazer-se ajudar pela própria tradição na compreensão do mistério de Deus e no acolhimento do Evangelho de Jesus, que é luz para as culturas e força transformadora das mesmas.

Dentro desta dinâmica complexa, ponhamo-nos a questão: «Quem são os destinatários privilegiados do anúncio evangélico?» A resposta é clara; encontramo-la no próprio Evangelho: os pobres, os humildes e os doentes, aqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não te podem retribuir (cf. Lc 14, 13-14). Uma evangelização dirigida preferencialmente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer: «existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos!» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 48). Isto deve ser claro especialmente para as pessoas que abraçam a vida consagrada missionária: com o voto de pobreza, escolhem seguir Cristo nesta sua preferência, não ideologicamente, mas identificando-se como Ele com os pobres, vivendo como eles na precariedade da vida diária e na renúncia ao exercício de qualquer poder para se tornar irmãos e irmãs dos últimos, levando-lhes o testemunho da alegria do Evangelho e a expressão da caridade de Deus.

Para viver o testemunho cristão e os sinais do amor do Pai entre os humildes e os pobres, os consagrados são chamados a promover, no serviço da missão, a presença dos fiéis leigos. Como já afirmava o Concílio Ecuménico Vaticano II, «os leigos colaboram na obra de evangelização da Igreja e participam da sua missão salvífica, ao mesmo tempo como testemunhas e como instrumentos vivos» (Ad gentes, 41). É necessário que os consagrados missionários se abram, cada vez mais corajosamente, àqueles que estão dispostos a cooperar com eles, mesmo durante um tempo limitado numa experiência ao vivo. São irmãos e irmãs que desejam partilhar a vocação missionária inscrita no Baptismo. As casas e as estruturas das missões são lugares naturais para o seu acolhimento e apoio humano, espiritual e apostólico.

As Instituições e as Obras Missionárias da Igreja estão postas totalmente ao serviço daqueles que não conhecem o Evangelho de Jesus. Para realizar eficazmente este objectivo, aquelas precisam dos carismas e do compromisso missionário dos consagrados, mas também os consagrados precisam duma estrutura de serviço, expressão da solicitude do Bispo de Roma para garantir de tal modo a koinonia que a colaboração e a sinergia façam parte integrante do testemunho missionário. Jesus colocou a unidade dos discípulos como condição para que o mundo creia (cf. Jo 17, 21). A referida convergência não equivale a uma submissão jurídico-organizativa a organismos institucionais, nem a uma mortificação da fantasia do Espírito que suscita a diversidade, mas significa conferir maior eficácia à mensagem evangélica e promover aquela unidade de intentos que é fruto também do Espírito.

A Obra Missionária do Sucessor de Pedro tem um horizonte apostólico universal. Por isso, tem necessidade também dos inúmeros carismas da vida consagrada, para dirigir-se ao vasto horizonte da evangelização e ser capaz de assegurar uma presença adequada nas fronteiras e nos territórios alcançados.

Queridos irmãos e irmãs, a paixão do missionário é o Evangelho. São Paulo podia afirmar: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1 Cor 9, 16). O Evangelho é fonte de alegria, liberdade e salvação para cada homem. Ciente deste dom, a Igreja não se cansa de anunciar, incessantemente, a todos «O que existia desde o princípio, O que ouvimos, O que vimos com os nossos olhos» (1 Jo 1, 1). A missão dos servidores da Palavra – bispos, sacerdotes, religiosos e leigos – é colocar a todos, sem excluir ninguém, em relação pessoal com Cristo. No campo imenso da actividade missionária da Igreja, cada baptizado é chamado a viver o melhor possível o seu compromisso, segundo a sua situação pessoal. Uma resposta generosa a esta vocação universal pode ser oferecida pelos consagrados e consagradas através duma vida intensa de oração e união com o Senhor e com o seu sacrifício redentor.

Ao mesmo tempo que confio a Maria, Mãe da Igreja e modelo de missionariedade, todos aqueles que, ad gentes ou no próprio território, em todos os estados de vida, cooperam no anúncio do Evangelho, de coração concedo a cada um a Bênção Apostólica.

Vaticano, 24 de Maio – Solenidade de Pentecostes – de 2015.

FRANCISCUS

Catequese do Papa Francisco sobre as crianças – 14/10/15

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje como as previsões do tempo estavam um pouco inseguras e se previa a chuva, esta audiência se faz ao mesmo tempo em dois lugares: nós aqui na praça e 700 doentes na Sala Paulo VI que seguem a audiência por telão. Todos estamos unidos e os saudamos com um aplauso.

A palavra de Jesus é forte hoje: “Ai do mundo por causa dos escândalos!”. Jesus é realista e diz: “É inevitável que escândalos aconteçam, mas ai do homem pelo qual o escândalo vem”. Gostaria de, antes de começar a catequese, em nome da Igreja, pedir perdão pelos escândalos que foram cometidos nos últimos tempos, seja em Roma ou no Vaticano, peço perdão.

Hoje vamos refletir sobre um tema muito importante: as promessas que fazemos às crianças. Não falo tanto das promessas que fazemos aqui e ali, durante o dia, para fazê-los felizes ou para estarem bem (talvez com qualquer truque inocente: te dou uma bala e promessas similares…) para levá-los a empenhar-se na escola ou para dissuadi-los a qualquer capricho. Falo de outras promessas, das promessas mais importantes, decisivas para suas expectativas nos confrontos da vida, para sua confiança nos confrontos dos seres humanos, para sua capacidade de conceber o nome de Deus como uma benção. São promessas que nós fazemos para eles.

Nós adultos estamos prontos a falar das crianças como de uma promessa da vida. Todos dizemos: as crianças são uma promessa da vida. E também somos fáceis de nos comovermos dizendo aos jovens que são o nosso futuro, é verdade. Mas me pergunto, às vezes, se somos tão sérios com o seu futuro, com o futuro das crianças e com o futuro dos jovens! Uma pergunta que devemos nos fazer muitas vezes é essa: quanto somos leais com as promessas que fazemos às crianças, fazendo-as vir ao nosso mundo? Nós fazemos com que elas venham ao mundo e essa é uma promessa, o que prometemos a elas?

Acolhimento e cuidado, proximidade e atenção, confiança e esperança, são promessas de base que se podem resumir em uma só: amor. Nós prometemos amor, isso é, amor que se exprime no acolhimento, no cuidado, na proximidade, na atenção, na confiança e na esperança, mas a grande promessa é o amor. Esse é o modo mais justo de acolher um ser humano que vem ao mundo e todos nós aprendemos isso, antes mesmo de sermos conscientes. Eu gosto tanto quando vejo os pais e as mães, quando passo entre vocês, trazendo a mim um menino, uma menina pequeninos e pergunto: “Quanto tempo tem? – “Três semanas, quatro semanas…peço a benção do Senhor”. Também isso se chama amor. O amor é a promessa que o homem e a mulher fazem a cada filho: desde quando foi concebido no pensamento. As crianças vêm ao mundo e se espera de ter confirmada essa promessa: espertam-no de modo total, confiante, indefeso. Basta olhar para elas: em todas as etnias, em todas as culturas, em todas as condições de vida! Quando acontece o contrário, as crianças são feridas por um “escândalo”, por um escândalo insuportável, tão mais grave, pois não têm os meios para decifrá-lo. Não podem entender o que acontece. Deus vigia sobre essa promessa, desde o primeiro instante. Lembram o que disse Jesus? Os Anjos das crianças refletem o olhar de Deus e Deus não perde nunca de vista as crianças (cfr Mt 18, 10). Ai daqueles que traem a sua confiança, ai! O seu confiante abandono à nossa promessa que nos empenha desde o primeiro instante, nos julga.

E gostaria de acrescentar outra coisa, com muito respeito por todos, mas também com muita franqueza. A confiança delas (das crianças) em Deus nunca deveria ser ferida, sobretudo quando acontece por motivo de uma certa presunção (mais ou menos inconsciente) de substituir a Ele. A terna e misteriosa relação de Deus com a alma das crianças não deveria nunca ser violada. É uma relação real, que Deus a quer e Deus a protege. A criança está pronta desde o nascimento para sentir-se amada por Deus, está pronta para isso. Não apenas é capaz de sentir que é amada por si mesma, um filho sente também que há um Deus que ama as crianças.

As crianças, recém-nascidas, começam a receber de presente, junto com a alimentação e os cuidados, a confirmação das qualidades espirituais do amor. Os atos de amor passam através do dom do nome pessoal, a partilha da linguagem, as intenções dos olhares, as iluminações dos sorrisos. Aprendem, assim, que a beleza do laço entre os seres humanos aponta à nossa alma, procura a nossa liberdade, aceita a diversidade do outro, reconhe-o e o respeita como interlocutor. Um segundo milagre, uma segunda promessa: nós – pais e mães – nos doamos a ti para doar você a você mesmo! E este é amor, que traz uma faísca daquele de Deus! Mas vocês, pais e mães, têm essa faísca de Deus que dão aos seus filhos, vocês são instrumento do amor de Deus e isso é belo, belo, belo!

Somente se olhamos as crianças com os olhos de Jesus podemos realmente entender em que sentido, defendendo a família, protegemos a humanidade! O ponto de vista das crianças é o ponto de vista do Filho de Deus. A própria Igreja, no Batismo, faz grandes promessas às crianças, com as quais empenha os pais e a comunidade cristã. A santa Mãe de Jesus – por meio da qual o Filho de Deus chegou a nós, amado e gerado como uma criança – torne a Igreja capaz de seguir o caminho da sua maternidade e da sua fé. E São José – homem justo, que acolheu e protegeu, honrando corajosamente, a benção e a promessa de Deus – nos torne todos capazes e dignos de hospedar Jesus em cada criança que Deus manda sobre a terra.

Leia a íntegra do Angelus com o Papa Francisco – 11/10/2015

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Angelus
Praça São Pedro – Vaticano
11 de outubro de 2015

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho de hoje, extraído do capítulo 10 de Marcos, é articulado em três episódios, inspirados em três olhares de Jesus.

O primeiro episódio apresenta o encontro entre o Mestre e um tal que – de acordo com o trecho paralelo de Mateus – é identificado como “jovem”. Este corre em direção a Jesus, ajoelha-se e o chama de “Mestre bom”. Então, pergunta: “O que devo fazer para herdar a vida eterna?”.

“Vida eterna não é somente a vida do outro lado, mas é a vida plena, realizada, sem limites. O que devemos fazer para alcança-la? A resposta de Jesus reassume os mandamentos que se referem ao amor ao próximo. Sobre isso, aquele jovem não há nenhuma pendência; mas, evidentemente, observar os preceitos não basta, não satisfaz seu desejo de plenitude. E Jesus intui este desejo que o jovem traz no coração; por isso, a sua resposta se traduz em um olhar intenso repleto de ternura e afeto: “Fitando-o, Jesus o amou”. Mas Jesus entende também qual é o ponto fraco do seu interlocutor, e lhe faz uma proposta concreta: dar todos os seus bens aos pobres e segui-lo. Aquele jovem, entretanto, tem o coração dividido entre dois patrões: Deus e o dinheiro, e vai embora triste. Isso demonstra que a fé e o apego às riquezas não podem conviver. Assim, ao final, o ímpeto inicial do jovem se apaga na infelicidade de um seguimento que não advém.

No segundo episódio o evangelista enquadra os olhos de Jesus e, desta vez, trata-se de um olhar pensativo, de aviso: “Então, Jesus, olhando em torno, disse a seus discípulos: “Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus!”. Diante do estupor dos discípulos, que se perguntam: “Então, quem pode ser salvo?”, Jesus responde com um olhar de encorajamento – é o terceiro olhar – e diz: a salvação é, sim, “impossível aos homens, mas não a Deus”. Se confiamos no Senhor, podemos superar todos os obstáculos que nos impedem de segui-lo no caminho da fé.

E, assim, chegamos ao terceiro episódio, aquele da solene declaração de Jesus: “Em verdade vos digo: “que deixa tudo para me seguir terá a vida eterna no futuro e o cêntuplo já no presente”. Este “cêntuplo” é feito das coisas antes possuídas e depois abandonadas, mas que são multiplicadas ao infinito. Priva-se dos bens e recebe-se em troca a satisfação do verdadeiro bem; libera-se da escravidão das coisas e recebe-se a liberdade do serviço por amor; renuncia-se à posse e ganha-se a alegria do dom.

O jovem não se deixou conquistar pelo olhar de amor de Jesus e, assim, não pôde mudar. Somente acolhendo com humilde gratidão o amor do Senhor nos liberamos das seduções dos ídolos e da cegueira das nossas ilusões. O dinheiro, o prazer, o sucesso, deslumbram, mas depois desiludem: prometem vida, mas trazem morte. O Senhor nos pede para nos desapegarmos destas falsas riquezas para entrar na vida verdadeira, na vida plena, autêntica, iluminada.

E eu pergunto a vocês, jovens, meninos e meninas, que estão agora na praça: Vocês sentiram o olhar de Jesus sobre vocês? O que vocês responderão a Ele? Preferem deixar esta praça com a alegria que Jesus nos dá ou com a tristeza no coração que a mundanidade nos oferece?

Que Nossa Senhora nos ajude a abrir o nosso coração ao amor de Jesus, somente Ele pode satisfazer nossa sede de felicidade.

Catequese do Papa Francisco sobre o espírito familiar

brasão do Papa Francisco

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Há poucos dias começou o Sínodo dos Bispos sobre o tema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. A família que caminha na via só Senhor é fundamental no testemunho do amor de Deus e merece, por isso, toda a dedicação de que a Igreja é capaz. O Sínodo é chamado a interpretar, para os dias de hoje, esta solicitude e este cuidado da Igreja. Acompanhemos todo esse percurso sinodal antes de tudo com a nossa oração e a nossa atenção. E neste período as catequeses serão reflexões inspiradas por alguns aspectos da relação – que podemos bem dizer indissolúvel! – entre a Igreja e a família, com o horizonte aberto ao bem de toda a comunidade humana.

Um olhar atento à vida cotidiana dos homens e das mulheres de hoje mostra imediatamente a necessidade que está em toda parte de uma robusta injeção de espírito familiar. De fato, o estilo das relações – civis, econômicas, jurídicas, profissionais, de cidadania – parece muito racional, formal, organizado, mas também muito “desidratado”, árido, anônimo. Torna-se às vezes insuportável. Mesmo querendo ser inclusivo nas suas formas, na verdade abandona à solidão e ao descarte um número sempre maior de pessoas.

Eis porque a família abre para toda a sociedade uma perspectiva bem mais humana: abre os olhos dos filhos sobre vida – e não somente o olhar, mas também todos os outros sentidos – representando uma visão da relação humana edificada na livre aliança do amor. A família introduz à necessidade dos laços de fidelidade, sinceridade, confiança, cooperação, respeito; encoraja a projetar um mundo habitável e a acreditar nas relações de confiança, também em condições difíceis; ensina a honrar a palavra dada, o respeito às pessoas, a partilha dos limites pessoais e dos outros. E todos somos conscientes da insubstituibilidade da atenção familiar pelos membros menores, mais vulneráveis, mais feridos e até mesmo mais desastrados na condução de suas vidas. Na sociedade, quem pratica estas atitudes, assimilou-as do espírito familiar, certamente não da competição e do desejo de autorrealização.

Bem, mesmo sabendo de tudo isso, não se dá à família o devido peso – e reconhecimento e apoio – na organização política e econômica da sociedade contemporânea. Gostaria de dizer mais: a família não somente não tem reconhecimento adequado, mas não gera mais aprendizado! Às vezes pode-se dizer que, com toda a sua ciência, a sua técnica, a sociedade moderna ainda não é capaz de traduzir estes conhecimentos em formas melhores de convivência civil. Não somente a organização da vida comum fica presa sempre mais em uma burocracia de tudo estranha aos laços humanos fundamentais, mas, até mesmo, o costume social e político mostra muitas vezes sinais de degradação – agressividade, vulgaridade, desprezo… – que estão bem abaixo do limite de uma educação familiar mínima. Em tal conjuntura, os extremos opostos deste embrutecimento – isso é, a obtusidade tecnocrática e o familismo amoral – se conjugam e se alimentam proximamente. Isso é um paradoxo.

A Igreja vê hoje, neste ponto exato, o sentido histórico da sua missão a respeito da família e do autêntico espírito familiar: começando por uma atenta revisão de vida, que diz respeito a si mesma. Poderia-se dizer que o “espírito familiar” é uma carta constitucional para a Igreja: assim o cristianismo deve aparecer, assim deve ser. Está escrito em letras claras: “Vós que há um tempo estáveis distantes – diz São Paulo – […] não sois mais estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos dos santos e familiares de Deus” (Ef 2, 19). A Igreja é e deve ser a família de Deus.

Jesus, quando chamou Pedro para segui-Lo, disse-lhe que o faria “pescador de homens”; e para isso é preciso um novo tipo de redes. Podemos dizer que hoje as famílias são uma das redes mais importantes para a missão de Pedro e da Igreja. Não é uma rede que faz prisioneiros, esta! Ao contrário, liberta das águas más do abandono e da indiferença, que afogam muitos seres humanos no mar da solidão e da indiferença. As famílias sabem bem que coisa é a dignidade de sentir-se filhos e não escravos, ou estrangeiros ou somente um número de carteira de identidade.

Daqui, da família, Jesus recomeça a sua passagem entre os seres humanos para convencê-los de que Deus não os esqueceu. Daqui Pedro toma vigor pelo seu ministério. Daqui a Igreja, obedecendo à palavra do Mestre, sai para pescar longe, certa de que, se isso acontece, a pesca será milagrosa. Possa o entusiasmo dos padres sinodais, animados pelo Espírito Santo, fomentar a dinâmica de uma Igreja que abandona as velhas redes e se coloca a pescar confiando na palavra do seu Senhor. Rezemos intensamente por isso! Cristo, de resto, prometeu e nos anima: se até mesmo os maus pais não rejeitam o pão aos filhos famintos, quanto mais Deus dará o Espírito àqueles que – mesmo imperfeitos como são – pedem-No com apaixonada insistência (cfr Lc 11, 9-13)!