Homilia do Papa na Jornada dos Idosos no Vaticano – 28/09/14

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HOMILIA
Jornada dos Idosos – “A benção da vida longa”
Basílica Vaticana
Domingo, 28 de setembro de 2014

O Evangelho que acabamos de ouvir é acolhido hoje por nós como o Evangelho do encontro entre os jovens e os idosos: um encontro cheio de alegria, cheio de fé e cheio de esperança.

Maria é jovem, muito jovem. Isabel é idosa, mas manifestou-se nela a misericórdia de Deus e há seis meses que ela e o marido Zacarias estão à espera de um filho.

Maria, também nesta circunstância, nos indica o caminho: ir encontrar a parente Isabel, estar com ela naturalmente para a ajudar mas também e sobretudo para aprender dela, que é idosa, a sabedoria da vida.

A primeira Leitura faz ecoar, através de várias expressões, o quarto mandamento: «Honra o teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias sobre a terra que o Senhor, teu Deus, te dá» (Ex 20, 12). Não há futuro para um povo sem este encontro entre as gerações, sem os filhos receberem, com gratidão, das mãos dos pais o testemunho da vida. E, dentro desta gratidão a quem te transmitiu a vida, entra também a gratidão ao Pai que está nos céus.

Às vezes há gerações de jovens que, por complexas razões históricas e culturais, vivem de forma mais intensa a necessidade de se tornar autónomos dos pais, a necessidade quase de «libertar-se» do legado da geração anterior. Parece um momento de adolescência rebelde. Mas, se depois não se recupera o encontro, se não se volta a encontrar um equilíbrio novo, fecundo entre as gerações, o resultado é um grave empobrecimento para o povo, e a liberdade que prevalece na sociedade é uma liberdade falsa, que se transforma quase sempre em autoritarismo.

Chega-nos esta mesma mensagem da exortação que o apóstolo Paulo dirige a Timóteo e, através dele, à comunidade cristã. Jesus não aboliu a lei da família e da passagem entre gerações, mas levou-a à perfeição. O Senhor formou uma nova família, na qual prevalece, sobre os laços de sangue, a relação com Ele e o cumprimento da vontade de Deus Pai. Mas o amor por Jesus e pelo Pai leva à perfeição o amor pelos pais, pelos irmãos, pelos avós, renova as relações familiares com a seiva do Evangelho e do Espírito Santo. E, assim, São Paulo recomenda a Timóteo – que é Pastor e, consequentemente, pai da comunidade – que tenha respeito pelos idosos e os familiares e exorta a fazê-lo com atitude filial: o idoso «como se fosse teu pai», «as mulheres idosas como se fossem mães» (cf. 1 Tim 5, 1). O chefe da comunidade não está dispensado desta vontade de Deus; antes, a caridade de Cristo impele a fazê-lo com um amor maior. Como fez a Virgem Maria, que, apesar de Se ter tornado a Mãe do Messias, sente-Se impelida pelo amor de Deus, que n’Ela Se está fazendo carne, a ir sem demora ter com a sua parente idosa.

E, deste modo, voltamos a este «ícone» cheio de alegria e de esperança, cheio de fé, cheio de caridade. Podemos pensar que a Virgem Maria, quando Se encontrava em casa de Isabel, terá ouvido esta e o marido Zacarias rezarem com as palavras do Salmo Responsorial de hoje: «Tu és a minha esperança, ó Senhor Deus, e a minha confiança desde a juventude. (…) Não me rejeites no tempo da velhice, não me abandones, quando já não tiver forças. (…) Agora, na velhice e de cabelos brancos, não me abandones, ó Deus, para que anuncie a esta geração o teu poder, e às gerações futuras, a tua força» (Sal 71/70, 5.9.18). A jovem Maria ouvia e guardava tudo no seu coração. A sabedoria de Isabel e Zacarias enriqueceu o seu espírito jovem; não eram especialistas de maternidade e paternidade, porque para eles também era a primeira gravidez, mas eram especialistas da fé, especialistas de Deus, especialistas da esperança que vem d’Ele: é disto que o mundo tem necessidade, em todo o tempo. Maria soube ouvir aqueles pais idosos e cheios de enlevo, aprendeu com a sabedoria deles, e esta revelou-se preciosa para Ela, no seu caminho de mulher, de esposa, de mãe.

Assim, a Virgem Maria indica-nos o caminho: o caminho do encontro entre os jovens e os idosos. O futuro de um povo supõe necessariamente este encontro: os jovens dão a força para fazer caminhar o povo e os idosos revigoram esta força com a memória e a sabedoria popular.

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Angelus com o Papa Francisco – 28/09/14

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ANGELUS
Praça São Pedro – Vaticano
Domingo, 28 de setembro de 2014

Antes de concluir esta celebração, desejo saudar todos os peregrinos, especialmente vocês idosos, vindos de tantos países. Obrigado de coração!

Dirijo uma cordial saudação aos participantes do congresso-peregrinação “Cantar a fé”, promovida em ocasião do trigésimo aniversário do coro das dioceses de Roma. Obrigado pela vossa presença e obrigado por terem animado com o canto esta celebração. Continuem a desenvolver com alegria e generosidade o serviço litúrgico nas vossas comunidades!

Ontem, em Madri, foi proclamado beato o Bispo Álvaro del Portillo; o seu exemplar testemunho cristão e sacerdotal possa suscitar em muitos o desejo de aderir sempre mais a Cristo e ao Evangelho.

No próximo domingo terá início a Assembleia Sinodal sobre o tema da família. Está aqui presente o responsável principal, o Cardeal Baldisseri: rezem por ele. Convido todos, indivíduos e comunidades, a rezar por este importante evento e confio esta intenção à intercessão de Maria Salus Populi Romani.

Agora rezemos juntos o Angelus. Com esta oração, invoquemos a proteção de Maria para os idosos do mundo inteiro, de modo particular por aqueles que vivem situações de maior dificuldade.

Catequese com o Papa Francisco sobre sua viagem à Albânia

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CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Queridos irmãos e irmãs, bom dia,

Hoje gostaria de falar da viagem apostólica que realizei à Albânia domingo passado. Faço isso antes de tudo como ato de agradecimento a Deus, que me concedeu realizar esta visita para demonstrar, também fisicamente e de modo tangível, a proximidade minha e de toda a Igreja a este povo. Desejo, depois, renovar o meu reconhecimento fraterno ao episcopado albanês, aos sacerdotes e aos religiosos e religiosas que trabalham com tanto empenho. O meu grato pensamento vai também às autoridades que me acolheram com tanta cortesia, bem como a quantos cooperaram para a realização da visita.

Esta visita nasceu do desejo de ir a um país que, depois de ter sido oprimido por longo tempo por um regime ateu e desumano, está vivendo uma experiência de pacífica convivência entre as suas diversas componentes religiosas. Parecia-me importante encorajá-lo neste caminho, para que o prossiga com tenacidade e aprofundem todos os aspectos em vantagem do bem comum. Por isto, no centro da viagem, esteve um encontro inter-religioso onde pude constatar, com viva satisfação, que a pacífica e frutífera convivência entre pessoas e comunidades pertencentes a religiões diversas não só é desejável, mas concretamente possível e praticável. Eles a praticam! Trata-se de um diálogo autêntico e frutuoso que evita o relativismo e leva em conta as identidades de cada um. Aquilo que as várias expressões religiosas têm em comum, de fato, é o caminho da vida, a boa vontade de fazer o bem ao próximo, não renegando ou diminuindo as respectivas identidades.

O encontro com os sacerdotes, as pessoas consagradas, os seminaristas e os movimentos leigos foi a ocasião para fazer grata memória, com momentos de particular comoção, dos numerosos mártires da fé. Graças à presença de alguns idosos, que viveram em sua carne as terríveis perseguições, ecoou a fé de tantos testemunhos heroicos do passado, os quais seguiram Cristo até extremas consequências. Foi justamente da união íntima com Jesus, do relacionamento de amor com Ele que surgiu para estes mártires – como para cada mártir – a força para enfrentar os acontecimentos dolorosos que os conduziram ao martírio. Também hoje, como ontem, a força da Igreja não é dada tanto pela capacidade de organização ou das estruturas, que são necessárias, mas a Igreja não encontra sua força ali. A nossa força é o amor de Cristo! Uma força que nos apoia nos momentos de dificuldade e que inspira a atual ação apostólica para oferecer a todos bondade e perdão, testemunhando assim a misericórdia de Deus.

Percorrendo a avenida principal de Tirana, que do aeroporto leva à grande praça central, pude ver os retratos dos quarenta sacerdotes assassinados durante a ditadura comunista e para os quais foi iniciada a causa de beatificação. Estes se somam às centenas de religiosos cristãos e muçulmanos assassinados, torturados, presos e deportados só porque acreditavam em Deus. Foram anos sombrios, durante os quais foi pisoteada a liberdade religiosa e era proibido acreditar em Deus, milhares de igrejas e mesquitas foram destruídas, transformadas em lojas e cinemas que propagavam a ideologia marxista, os livros religiosos foram queimados e os pais eram proibidos de colocarem nos filhos nomes religiosos dos antepassados. A recordação destes acontecimentos dramáticos é essencial para o futuro de um povo. A memória dos mártires que resistiram na fé é garantia para o destino da Albânia; porque o seu sangue não foi derramado em vão, mas é uma semente que levará a frutos de paz e de colaboração fraterna. Hoje, de fato, a Albânia é um exemplo não somente de renascimento da Igreja, mas também de pacífica convivência entre as religiões. Portanto, os mártires não são uns derrotados, mas vencedores: em seu testemunho heroico reflete a onipotência de Deus que sempre consola o seu povo, abrindo novos caminhos e horizontes de esperança.

Esta mensagem de esperança, fundada na fé em Cristo e na memória do passado, confiei a toda a população albanesa que vi entusiasmada e alegre nos lugares dos encontros e das celebrações, bem como nas ruas de Tirana. Encorajei todos a tirar energias sempre novas do Senhor ressuscitado, para poder ser fermento evangélico na sociedade e se empenhar, como já acontece, em atividades caritativas e educativas.

Agradeço mais uma vez ao Senhor porque, com esta viagem, deu-me a oportunidade de encontrar um povo corajoso e forte, que não se deixou dominar pela dor. Aos irmãos e irmãs da Albânia, renovo o convite à coragem do bem, para construir o presente e o amanhã do seu país e da Europa. Confio os frutos da minha visita à Nossa Senhora do Bom Conselho, venerada no homônimo Santuário de Scutari, a fim de que ela continue a guiar o caminho deste povo-mártir. A dura experiência do passado o enraize sempre mais na abertura para os irmãos, especialmente os mais frágeis, e o torne protagonista daquele dinamismo da caridade tão necessário no atual contexto sócio-cultural. Eu gostaria que todos nós hoje fizéssemos uma saudação a este povo corajoso, trabalhador e que em paz procura a unidade.

Homilia do Papa Francisco em Missa celebrada na Albânia

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Viagem Apostólica à Albânia
Santa Missa na Praça Madre Teresa
Domingo, 21 de setembro de 2014

Hoje, o Evangelho diz-nos que, além dos Doze Apóstolos, Jesus chama outros setenta e dois discípulos e manda-os pelas aldeias e cidades a anunciar o Reino de Deus (cf. Lc 10, 1-9.17-20). Ele veio trazer ao mundo o amor de Deus e quer irradiá-lo através da comunhão e da fraternidade. Por isso, forma imediatamente uma comunidade de discípulos, uma comunidade missionária, e treina-os para a missão, para «ir» em missão. O método missionário é claro e simples: os discípulos entram nas casas, e o seu anúncio começa com uma saudação cheia de significado: «A paz esteja nesta casa!» (v. 5). Não se trata apenas duma saudação, mas é também um dom: a paz. Encontrando-me hoje no vosso meio, queridos irmãos e irmãs da Albânia, nesta praça dedicada a uma filha humilde e grande desta terra, a Beata Madre Teresa de Calcutá, desejo repetir-vos esta saudação: paz nas vossas casas, paz nos vossos corações, paz na vossa nação!

Na missão dos setenta e dois discípulos, revê-se a experiência missionária da comunidade cristã de todos os tempos: o Senhor ressuscitado e vivo envia não só os Doze, mas a Igreja inteira, envia cada batizado a anunciar o Evangelho a todos os povos. Ao longo dos séculos, nem sempre o anúncio da paz, trazido pelos mensageiros de Jesus, era acolhido; às vezes, as portas fecharam-se. Num passado recente, também a porta do vosso país se fechou, cerrada com o cadeado das proibições e prescrições dum sistema que negava Deus e impedia a liberdade religiosa. Aqueles que tinham medo da verdade e da liberdade tudo fizeram para banir Deus do coração do homem e excluir Cristo e a Igreja da história do vosso país, embora este tenha sido um dos primeiros a receber a luz do Evangelho. De fato, na segunda Leitura, ouvimos a referência à Ilíria, que, na época do apóstolo Paulo, incluía também o território da Albânia atual.

Repensando naqueles decênios de sofrimentos atrozes e duríssimas perseguições contra católicos, ortodoxos e muçulmanos, podemos dizer que a Albânia foi uma terra de mártires: muitos bispos, sacerdotes, religiosos e fiéis leigos pagaram com a vida a sua fidelidade. Não faltaram testemunhos de grande coragem e coerência na profissão da fé. Muitos cristãos não cederam perante as ameaças, mas continuaram sem hesitação pelo caminho abraçado. Em espírito, dirijo-me até junto daquele muro do cemitério de Escutári, lugar-símbolo do martírio dos católicos onde se efetuavam as fuzilações, e, comovido, deponho a flor da oração e de grata e indelével lembrança. O Senhor esteve junto de vós, irmãos e irmãs muito amados, para vos sustentar; guiou-vos e consolou-vos e, por fim, ergueu-vos sobre asas de águia como um dia fez com o antigo povo de Israel (cf. primeira Leitura). Que a águia, representada na bandeira do vosso país, vos recorde o sentido da esperança, repondo a vossa confiança sempre em Deus: Ele não desilude mas está sempre ao nosso lado, especialmente nos momentos difíceis.

Hoje, abriram-se de novo as portas da Albânia e está amadurecendo uma estação de novo protagonismo missionário para todos os membros do Povo de Deus: cada batizado tem um lugar e um dever a desempenhar na Igreja e na sociedade. Que cada um se sinta chamado a comprometer-se generosamente no anúncio do Evangelho e no testemunho da caridade, a reforçar os laços da solidariedade a fim de promover condições de vida mais justas e fraternas para todos. Vim hoje aqui para vos encorajar a fazer crescer a esperança dentro de vós mesmos e ao vosso redor; a envolver as novas gerações; a alimentar-vos assiduamente da Palavra de Deus, abrindo os vossos corações a Cristo: o seu Evangelho indica-vos o caminho! A vossa fé seja jubilosa e radiante; mostre que o encontro com Cristo dá sentido à vida dos homens, de cada homem.

Em espírito de comunhão entre bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos, encorajo-vos a dar impulso à ação pastoral e a continuar na busca de novas formas de presença da Igreja no seio da sociedade. Em particular, digo aos jovens: Não tenhais medo de responder com generosidade a Cristo, que vos convida a segui-Lo. Na vocação sacerdotal ou religiosa, encontrareis a riqueza e a alegria da doação de vós próprios para servir a Deus e aos vossos irmãos. Muitos homens e mulheres esperam a luz do Evangelho e a graça dos Sacramentos!

Igreja que vives nesta terra da Albânia, obrigado pelo teu exemplo de fidelidade ao Evangelho! Muitos dos teus filhos e filhas sofreram por Cristo até ao sacrifício da vida. O seu testemunho sustente os vossos passos de hoje e do futuro no caminho do amor, da liberdade, da justiça e da paz. Amém.

Catequese com o Papa Francisco – 17/09/14

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CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Queridos irmãos e irmãs, bom dia,

Nesta semana continuamos a falar sobre a Igreja. Quando professamos a nossa fé, nós afirmamos que a Igreja é “católica” e “apostólica”. Mas qual é efetivamente o significado destas duas palavras, dessas duas notáveis características da Igreja? E que valor têm para as comunidades cristãs e para cada um de nós?

1. Católica significa universal. Uma definição completa e clara nos é oferecida por um dos Padres da Igreja dos primeiros séculos, São Cirilo de Jerusalém, quando afirma: “A Igreja sem dúvida é dita católica, isso é, universal, pelo fato de que é difusa de um a outro nos confins da terra; e porque universalmente e sem deserção ensina todas as verdades que devem alcançar a consciência dos homens, seja a respeito das coisas celestes, seja terrestres” (Catequese XVIII, 23).

Sinal evidente da catolicidade da Igreja é que essa fala todas as línguas. E isto não é outra coisa que não o efeito de Pentecostes (cfr At 2, 1-13): é o Espírito Santo, de fato, que tornou os apóstolos e toda a Igreja capazes de fazer ressoar a todos, até os confins da terra, a Bela Notícia da salvação e do amor de Deus. Assim a Igreja nasceu católica, isso é, “sinfônica” desde as origens, e não pode ser nada a não ser católica, projetada à evangelização e ao encontro com todos. A Palavra de Deus hoje é lida em todas as línguas, todos têm o Evangelho na própria língua, para lê-lo. E volto ao mesmo conceito: é sempre bom termos conosco um Evangelho pequeno, para levá-lo no bolso, na bolsa e durante o dia ler um trecho. Isto nos faz bem. O Evangelho é difundido em todas as línguas porque a Igreja, o anúncio de Jesus Cristo Redentor, está em todo o mundo. E por isto se diz que a Igreja é católica, porque é universal.

2. Se a Igreja nasceu católica, quer dizer que nasceu “em saída”, que nasceu missionária. Se os apóstolos tivessem permanecido ali no cenáculo, sem sair para levar o Evangelho, a Igreja seria somente a Igreja daquele povo, daquela cidade, daquele cenáculo. Mas todos saíram para o mundo, do momento do nascimento da Igreja, do momento que desceu sobre eles o Espírito Santo. E por isso a Igreja nasceu “em saída”, isso é , missionária. É aquilo que exprimimos qualificando-a como apostólica, porque o apóstolo é aquele que leva a boa notícia da Ressurreição de Jesus. Este termo nos recorda que a Igreja, no fundamento dos Apóstolos e em continuidade com eles, são os apóstolos que foram e fundaram novas igrejas, constituíram novos bispos e assim em todo o mundo, em continuidade. Hoje todos nós estamos em continuidade com aquele grupo de apóstolos que recebeu o Espírito Santo e depois foi “em saída”, para pregar, enviados a levar a todos os homens este anúncio do Evangelho, acompanhando-o com os sinais da ternura e do poder de Deus. Também isto deriva do evento de Pentecostes: é o Espírito Santo, de fato, a superar cada resistência, a vencer a tentação de fechar-se em si mesmo, entre poucos eleitos, e de se considerar os únicos destinatários da benção de Deus. Se por exemplo alguns cristãos fazem isso e dizem: “Nós somos os eleitos, somente nós”, no fim morrem. Morrem antes na alma, depois morrem no corpo, porque não têm vida, não são capazes de gerar vida, outras pessoas, outros povos: não são apóstolos. E é justamente o Espírito a nos conduzir ao encontro aos irmãos, também àqueles mais distantes em todo sentido, para que possam partilhar conosco o amor, a paz, a alegria que o Senhor Ressuscitado deixou de presente.

3. O que significa, para as nossas comunidades e para cada um de nós, fazer parte de uma Igreja que é católica e apostólica? Antes de tudo, significa levar no coração a salvação de toda a humanidade, não se sentir indiferente ou estranho diante da sorte de tantos irmãos nossos, mas abertos e solidários para com eles. Significa, além disso, ter o sentido da plenitude, da completude, da harmonia da vida cristã, repelindo sempre as posições parciais, unilaterais, que nos fecham em nós mesmos.

Fazer parte da Igreja apostólica quer dizer ser consciente de que a nossa fé é ancorada no anúncio e no testemunho dos próprios apóstolos de Jesus – é ancorada lá, é uma longa cadeia que vem de lá – e por isso sentir-se sempre enviado, sentir-se mandado, em comunhão com os sucessores dos apóstolos, a anunciar, com o coração cheio de alegria, Cristo e o seu amor a toda a humanidade. E aqui gostaria de recordar a vida heroica de tantos, tantos missionários e missionárias que deixaram sua pátria para ir e anunciar o Evangelho em outros países, em outros continentes. Dizia-me um cardeal brasileiro que trabalhava muito na Amazônia que quando ele vai a um lugar, a um país ou a uma cidade da Amazônia, vai sempre ao cemitério e ali vê os túmulos destes missionários, sacerdotes, irmãos, irmãs que foram pregar o Evangelho: apóstolos. E ele pensa: todos estes podem ser canonizados agora, deixaram tudo para anunciar Jesus Cristo. Demos graças ao Senhor porque a nossa Igreja tem tantos missionários, teve tantos missionários e precisa deles ainda mais agora! Agradeçamos ao Senhor por isto. Talvez entre tantos jovens, rapazes e moças que estão aqui, alguém tem a vontade de se tornar missionário: siga adiante! É belo isto, levar o Evangelho de Jesus. Que seja corajoso e corajosa!

Peçamos então ao Senhor para renovar em nós o dom do seu Espírito, para que cada comunidade cristã e cada batizado seja expressão da santa mãe Igreja católica e apostólica.

Homilia do Papa em sufrágio dos cardeais e bispos falecidos

Homilia do Papa em sufrágio dos cardeais e bispos falecidos

HOMILIA
Santa Missa em sufrágio dos cardeais e bispos falecidos ao longo do ano
Basílica Vaticana
Segunda-feira, 4 de novembro de 2013

No clima espiritual do mês de novembro, marcado pela recordação dos fiéis falecidos, recordamos os irmãos Cardeais e Bispos de todo o mundo que retornaram à casa do Pai durante este último ano. Enquanto oferecemos para cada um desses esta santa Eucaristia, peçamos ao Senhor para conceder a eles o prêmio celestial prometido aos servos bons e fiéis.

Escutamos as palavras de São Paulo: “Pois estou persuadido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem as alturas, nem os abismos, nem outra qualquer criatura nos poderá apartar do amor que Deus nos testemunha em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8, 38-39).

O apóstolo apresenta o amor de Deus como o motivo mais profundo, invencível da confiança e da esperança cristãs. Ele elenca as forças contrárias e misteriosas que podem ameaçar o caminho da fé. Mas logo afirma com segurança que se mesmo toda a nossa existência é cercada de ameaças, nada poderá nunca nos separar do amor que o próprio Cristo mereceu por nós, doando-se totalmente. Mesmo se os poderes demoníacos, hostis ao homem, ficam impotentes diante da íntima união do amor entre Jesus e quem o acolhe com fé. Esta realidade do amor fiel que Deus tem por cada um de nós ajuda a enfrentar com serenidade e força o caminho de cada dia, que às vezes é enviado, às vezes é lento e cansativo.

Somente o pecado do homem pode interromper este vínculo; mas mesmo neste caso Deus o buscará sempre, perseguirá para restabelecer com ele uma união que dura mesmo após a morte, antes, uma união que no encontro final com o Pai alcança o seu ponto alto. Esta certeza confere um sentido novo e pleno à vida terrena e nos abre à esperança para a vida além da morte.

De fato, toda vez que nos encontramos diante da morte de uma pessoa querida ou que conhecemos bem, surge em nós a pergunta: “O que será da sua vida, do seu trabalho, do seu serviço à Igreja?”. O Livro da Sabedoria nos respondeu: esses estão nas mãos de Deus! A mão é sinal de acolhimento e de proteção, é sinal de uma relação pessoal de respeito e de fidelidade: dar a mão, estender a mão. É isto, estes pastores zelosos que dedicaram a sua vida ao serviço de Deus e dos irmãos, estão nas mãos de Deus. Tudo deles está bem protegido e não será corroído pela morte. Estão nas mãos de Deus todos e os seus dias entrelaçados de alegrias e de sofrimentos, de esperanças e de cansaços, de fidelidade ao Evangelho e de paixão pela salvação espiritual e material do rebanho a eles confiado.

Mesmo os pecados, os nossos pecados estão nas mãos de Deus, aquelas mãos são misericordiosas, mãos “chagadas” de amor. Não por acaso Jesus quis conservar as chagas em suas mãos para fazer-nos sentir a sua misericórdia. E esta é a nossa força, a nossa esperança.

Esta realidade, plena de esperança, é a perspectiva da ressurreição final, da vida eterna, à qual são destinados “os justos”, aqueles que acolhem a Palavra de Deus e são dóceis ao seu Espírito.

Queremos recordar assim os nossos irmãos cardeais e bispos falecidos. Homens dedicados às suas vocações e ao serviço à Igreja, que amaram como se ama uma esposa. Na oração lhes confiamos à misericórdia do Senhor, pela intercessão de Nossa Senhora e de São José, para que os acolha no seu reino de luz e de paz, lá onde vivem eternamente os justos e aqueles que foram fiéis testemunhas do Evangelho. Também nesta oração, rezemos por nós, que o Senhor nos prepare para este encontro. Não sabemos a data, mas o encontro acontecerá.

Homilia: Missa de sufrágio pelos mortos de todas as guerras

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HOMILIA
 Missa de sufrágio pelos mortos de todas as guerras
Cemitério Militar de Redipuglia
Sábado, 13 de setembro de 2014

Depois de ter contemplado a beleza da paisagem desta região inteira, onde homens e mulheres trabalham cuidando da sua família, onde as crianças brincam e os anciãos sonham… ao encontrar-me aqui, neste lugar, só me apetece dizer: a guerra é uma loucura.
Enquanto Deus cuida da sua criação e nós, os homens, somos chamados a colaborar na sua obra, a guerra destrói; destrói até mesmo o que Deus criou de mais belo: o ser humano. A guerra tudo transtorna, incluindo a ligação entre irmãos. A guerra é louca, propõe a destruição como plano de desenvolvimento: querer desenvolver-se através da destruição!

A ganância, a intolerância, a ambição do poder… são motivos que impelem à opção bélica. E tais motivos são muitas vezes justificados por uma ideologia; mas, antes desta, existe a paixão, o impulso desordenado. A ideologia é uma justificação e, mesmo quando não há uma ideologia, pensa-se: «A mim, que me importa?» Tal foi a resposta de Caim: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» (Gn 4, 9). A guerra não respeita ninguém: nem idosos, nem crianças, nem mães, nem pais… «A mim, que me importa?»

Por cima da entrada deste cemitério, campeia irônico o lema da guerra: «A mim, que me importa?» Todas as pessoas, cujos restos repousam aqui, tinham seus projetos, seus sonhos, mas as suas vidas foram ceifadas. A humanidade disse: «A mim, que me importa?» E mesmo hoje, depois do segundo falimento de outra guerra mundial, talvez se possa falar de uma terceira guerra combatida «por pedaços» com crimes, massacres, destruições…

Para ser honestos, os jornais deveriam ter como título da primeira página: «A mim, que me importa?» Caim diria: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?»

Esta atitude é, exatamente, o contrário daquilo que Jesus nos pede no Evangelho que ouvimos: Ele está no mais pequeno dos irmãos; Ele, o Rei, o Juiz do mundo, é o faminto, o sedento, o estrangeiro, o doente, o encarcerado… Quem cuida do irmão, entra na alegria do Senhor; quem, pelo contrário, não o faz, quem diz, com as suas omissões, «a mim, que me importa?», fica fora.

Há aqui muitas vítimas. Hoje recordamo-las: há o pranto, há a tristeza. E daqui recordamos todas as vítimas de todas as guerras. Também hoje as vítimas são tantas… Como é possível isto? É possível, porque ainda hoje, nos bastidores, existem interesses, planos geopolíticos, avidez de dinheiro e poder; e há a indústria das armas, que parece ser tão importante!

E estes planificadores do terror, estes organizadores do conflito, bem como os fabricantes das armas escreveram no coração: «A mim, que me importa?» É próprio dos sábios reconhecer os erros, provar tristeza por eles, arrepender-se, pedir perdão e chorar.

Com esta disposição «a mim, que me importa?» que têm no coração, os negociantes da guerra talvez ganhem muito, mas o seu coração corrupto perdeu a capacidade de chorar. Aquele «a mim, que me importa?» impede de chorar. Caim não chorou. Hoje a sombra de Caim estende-se sobre nós aqui, neste cemitério. Vê-se aqui! Vê-se na história que vem de 1914 até aos dias de hoje; e vê-se também em nossos dias.

Com coração de filho, de irmão, de pai, peço a vós todos e para todos nós a conversão do coração: passar daquele «a mim, que me importa?» para o pranto. Por todos os mortos daquele «inútil massacre», por todas as vítimas da loucura da guerra de todos os tempos, a humanidade precisa de chorar; e esta é a hora do pranto.