Homilia do Papa na Solenidade de São Pedro e São Paulo

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HOMILIA
Solenidade dos santos apóstolos Pedro e Paulo
Basílica Vaticana
Domingo, 29 de junho de 2014

Na solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, patronos principais de Roma, é com alegria e gratidão que acolhemos a Delegação enviada pelo Patriarca Ecuménico, o venerado e amado irmão Bartolomeu, guiada pelo Metropolita Ioannis. Pedimos ao Senhor que possa, também esta visita, reforçar os nossos laços fraternos no caminho rumo à plena comunhão entre as duas Igrejas irmãs, por nós tão desejada.

«O Senhor enviou o seu anjo e me arrancou das mãos de Herodes» (Act 12, 11). Nos primeiros tempos do serviço de Pedro, na comunidade cristã de Jerusalém havia grande apreensão por causa das perseguições de Herodes contra alguns membros da Igreja. Ordenou a morte de Tiago e agora, para agradar ao povo, a prisão do próprio Pedro. Estava este guardado e acorrentado na prisão, quando ouve a voz do Anjo que lhe diz: «Ergue-te depressa! (…) Põe o cinto e calça as sandálias. (…) Cobre-te com a capa e segue-me» (Act 12, 7-8). Caiem-lhe as cadeias, e a porta da prisão abre-se sozinha. Pedro dá-se conta de que o Senhor o «arrancou das mãos de Herodes»; dá-se conta de que Deus o libertou do medo e das cadeias. Sim, o Senhor liberta-nos de todo o medo e de todas as cadeias, para podermos ser verdadeiramente livres. Este facto aparece bem expresso nas palavras do refrão do Salmo Responsorial da celebração litúrgica de hoje: «O Senhor libertou-me de toda a ansiedade».

Aqui está um problema que nos toca: o problema do medo e dos refúgios pastorais.

Pergunto-me: Nós, amados Irmãos Bispos, temos medo? De que é que temos medo? E, se o temos, que refúgios procuramos, na nossa vida pastoral, para nos pormos a seguro? Procuramos porventura o apoio daqueles que têm poder neste mundo? Ou deixamo-nos enganar pelo orgulho que procura compensações e agradecimentos, parecendo-nos estar seguros com isso? Amados Irmãos Bispos, onde pomos a nossa segurança?

O testemunho do apóstolo Pedro lembra-nos que o nosso verdadeiro refúgio é a confiança em Deus: esta afasta todo o medo e torna-nos livres de toda a escravidão e de qualquer tentação mundana. Hoje nós – o Bispo de Roma e os outros Bispos, especialmente os Metropolitas que receberam o Pálio – sentimos que o exemplo de São Pedro nos desafia a verificar a nossa confiança no Senhor.

Pedro reencontrou a confiança, quando Jesus lhe disse por três vezes: «Apascenta as minhas ovelhas» (Jo 21, 15.16.17). Ao mesmo tempo ele, Simão, confessou por três vezes o seu amor a Jesus, reparando assim a tríplice negação ocorrida durante a Paixão. Pedro ainda sente queimar dentro de si a ferida da desilusão que deu ao seu Senhor na noite da traição. Agora que Ele lhe pergunta «tu amas-Me?», Pedro não se fia de si mesmo nem das próprias forças, mas entrega-se a Jesus e à sua misericórdia: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo!» (Jo 21, 17). E aqui desaparece o medo, a insegurança, a covardia.

Pedro experimentou que a fidelidade de Deus é maior do que as nossas infidelidades, e mais forte do que as nossas negações. Dá-se conta de que a fidelidade do Senhor afasta os nossos medos e ultrapassa toda a imaginação humana. Hoje, Jesus faz a mesma pergunta também a nós: «Tu amas-Me?». Fá-lo precisamente porque conhece os nossos medos e as nossas fadigas. E Pedro indica-nos o caminho: fiarmo-nos d’Ele, que «sabe tudo» de nós, confiando, não na nossa capacidade de Lhe ser fiel, mas na sua inabalável fidelidade. Jesus nunca nos abandona, porque não pode negar-Se a Si mesmo (cf. 2 Tm 2, 13). È fiel. A fidelidade que Deus, sem cessar, nos confirma também a nós, Pastores, independentemente dos nossos méritos, é a fonte de nossa confiança e da nossa paz. A fidelidade do Senhor para connosco mantém sempre aceso em nós o desejo de O servir e de servir os irmãos na caridade.

E Pedro deve contentar-se com o amor de Jesus. Não deve ceder à tentação da curiosidade, da inveja, como quando perguntou a Jesus, ao ver ali perto João: «Senhor, e que vai ser deste?» (Jo 21, 21). Mas Jesus, perante estas tentações, responde-lhe: «Que tens tu com isso? Tu segue-Me!» (Jo 21, 22). Esta experiência de Pedro encerra uma mensagem importante também para nós, amados irmãos Arcebispos. Hoje, o Senhor repete a mim, a vós e a todos os Pastores: Segue-Me! Não percas tempo em questões ou conversas inúteis; não te detenhas nas coisas secundárias, mas fixa-te no essencial e segue-Me. Segue-Me, não obstante as dificuldades. Segue-me na pregação do Evangelho. Segue-Me no testemunho duma vida que corresponda ao dom de graça do Baptismo e da Ordenação. Segue-Me quando falas de Mim às pessoas com quem vives dia-a-dia, na fadiga do trabalho, do diálogo e da amizade. Segue-Me no anúncio do Evangelho a todos, especialmente aos últimos, para que a ninguém falte a Palavra de vida, que liberta de todo o medo e dá a confiança na fidelidade de Deus. Tu segue-Me”!

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Angelus com o Papa na solenidade de São Pedro e São Paulo

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ANGELUS
Praça São Pedro – Vaticano
Domingo, 29 de junho de 2014

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Desde os tempos antigos, a Igreja de Roma celebra os apóstolos Pedro e Paulo em uma única festa no mesmo dia, 29 de junho. A fé em Jesus Cristo tornou-os irmãos e o martírio os fez se tornarem uma só coisa. São Pedro e São Paulo, tão diferentes entre eles no plano humano, foram escolhidos pessoalmente pelo Senhor Jesus e responderam ao chamado oferecendo toda as suas vidas. Em ambos a graça de Cristo realizou grandes coisas, transformou-os. E como os transformou! Simão havia renegado Jesus no momento dramático da paixão; Saulo havia perseguido duramente os cristãos. Mas ambos acolheram o amor de Deus e se deixaram transformar pela sua misericórdia; assim se tornaram amigos e apóstolos de Cristo. Por isso esses continuam a falar à Igreja e ainda hoje nos indicam o caminho da salvação. Também nós, hoje, se por acaso caíssemos nos pecados mais graves e na noite mais escura, Deus é sempre capaz de nos transformar, como transformou Pedro e Paulo; transformar o nosso coração e perdoar tudo, transformando assim a nossa escuridão do pecado em uma aurora de luz. Deus é assim: transforma-nos, perdoa-nos sempre, como fez com Pedro e como fez com Paulo.

O livro dos Atos dos Apóstolos mostra muitos traços de seus testemunhos. Pedro, por exemplo, ensina-nos a olhar para os pobres com olhar de fé e a doar a eles aquilo que temos de mais precioso: o poder do nome de Jesus. Fez isto com aquele paralítico: deu-lhe tudo aquilo que tinha, isso é, Jesus (cfr At 3, 4-6).

De Paulo, é contado por três vezes o episódio do chamado no caminho de Damasco, que marca a reviravolta de sua vida, marcando nitidamente um antes e um depois. Antes, Paulo era um férreo inimigo da Igreja. Depois, coloca toda a sua existência a serviço do Evangelho. Também para nós o encontro com a Palavra de Cristo é capaz de transformar completamente a nossa vida. Não é possível ouvir esta Palavra e continuar parado no mesmo lugar, ficar bloqueado nos próprios hábitos. Esta impulsiona-nos a vencer o egoísmo que temos no coração para seguir decididamente aquele Mestre que deu a sua vida por seus amigos. Mas é Ele que com a sua palavra muda-nos; é Ele que nos transforma; é Ele que nos perdoa tudo, se nós abrimos o coração e pedimos o perdão.

Queridos irmãos e irmãs, esta festa suscita em nós uma grande alegria, porque nos coloca diante da obra da misericórdia de Deus no coração de dois homens. É a obra da misericórdia de Deus nestes dois homens, que eram grandes pecadores. E Deus quer encher também nós com esta graça, como fez com Pedro e com Paulo. A Virgem Maria nos ajude a acolhê-la como eles com coração aberto, a não recebê-la em vão! E nos ajude no momento da provação, para dar testemunho de Jesus Cristo e do seu Evangelho. Peçamos isso em particular pelos arcebispos metropolitanos nomeados no último ano, que esta manhã celebraram comigo a Eucarística em São Pedro. Saudemos-lhes com afeto junto com os seus fiéis e familiares, e rezemos por eles!

Homilia do Papa lida pelo Cardeal Scola no Hospital Gemelli

Brasão do Papa

HOMILIA
Visita à Policlínica Gemelli – Roma
Sexta-feira, 27 de junho de 2014
Boletim da Santa Sé

O Senhor se uniu a vós e vos escolheu (Dt 7, 7).
Deus se uniu a nós, escolheu-nos e esta ligação é para sempre, não tanto porque nós somos fiéis, mas porque o Senhor é fiel e suporta as nossas infidelidades, as nossas lentidões, as nossas quedas.

Deus não tem medo de ligar-se. Isso pode nos parecer estranho: nós às vezes chamamos Deus “o Absoluto”, que significa literalmente “solto, independente, ilimitado”; mas na realidade, o nosso Pai é “absoluto” sempre e somente no amor: por amor firma aliança com Abraão, com Isaac, com Jacó e assim vai. Ama os laços, cria os laços; laços que libertam, não obrigam.

Com o Salmo, repetimos: “O amor do Senhor é para sempre” (cfr Sal 103). Em vez disso, de nós homens e mulheres um outro Salmo afirma: “Desapareceu a lealdade entre os filhos do homem” (cfr Sal 12, 2).

Hoje, em particular, a lealdade é um valor em crise porque somos induzidos a procurar sempre a mudança, uma novidade presumida, negociando as raízes da nossa existência, da nossa fé. Sem lealdade às suas raízes, porém, uma sociedade não segue adiante: pode fazer grandes progressos técnicos, mas não um progresso integral, de todo o homem e de todos os homens.

O amor fiel de Deus pelo seu povo manifestou-se e realizou-se plenamente em Jesus Cristo, o qual, para honrar a ligação de Deus com o seu povo, fez-se nosso escravo, despojou-se da sua glória e assumiu a forma de servo.

No seu amor, não desistiu frente à nossa ingratidão e nem diante da recusa. Recorda São Paulo: “Se nós somos infiéis, ele – Jesus – permanece fiel, porque não pode renegar a si mesmo” (2 Tm 2, 13). Jesus permanece fiel, não trai nunca: mesmo quando erramos, Ele nos espera sempre para nos perdoar: é a face do Pai misericordioso.

Este amor, esta fidelidade do Senhor manifesta a humildade do seu coração: Jesus não veio para conquistar os homens como os reis e os poderosos deste mundo, mas veio para oferecer amor com mansidão e humildade. Assim se definiu Ele mesmo: “Aprendam de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).

E o sentido da festa do Sagrado Coração de Jesus, que celebramos hoje, é aquele de descobrir sempre mais e de fazer-nos envolver pela fidelidade humilde e pela mansidão do amor de Cristo, revelação da misericórdia do Pai. Nós podemos experimentar e saborear a ternura deste amor em cada temporada da vida: no tempo da alegria e naquele de tristeza, no tempo da saúde e naquele da enfermidade e da doença.

A fidelidade de Deus nos ensina a acolher a vida como acontecimento do seu amor e nos permite testemunhar este amor aos irmãos em um serviço humilde e manso. É quanto são chamados a fazer especialmente os médicos e o pessoal paramédico desta Policlínica, que pertence à Universidade Católica do Sagrado Coração. Aqui, cada um de vós leva aos doentes um pouco do amor do Coração de Cristo, e o faz com competência e profissionalismo.

Isso significa permanecer fiéis aos valores fundadores que padre Gemelli colocou na base da educação dos católicos italianos, para combinar a pesquisa científica iluminada pela fé e a preparação de qualificados profissionais cristãos.

Queridos irmãos, em Cristo, nós contemplamos a fidelidade de Deus. Cada gesto, cada palavra de Jesus deixa transparecer o amor misericordioso e fiel do Pai.

E então diante Dele nos perguntamos: como é o meu amor pelo próximo? Sei ser fiel? Ou sou inconstante, sigo os meus humores e as minhas simpatias? Cada um de nós pode responder na própria consciência. Mas, sobretudo, podemos dizer ao Senhor: Senhor Jesus, torne o meu coração sempre mais similar ao teu, cheio de amor e de fidelidade.

Catequese do Papa: pertença do cristão à Igreja – 25/06/14

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CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Igreja – 2. A pertença ao povo de Deus

Queridos irmãos e irmãs, bom dia,

Hoje há um outro grupo de peregrinos conectados conosco na Sala Paulo VI, são os peregrinos doentes. Porque com este tempo, entre o calor e a possibilidade de chuva, era mais prudente que eles permanecessem lá. Mas eles estão conectados conosco por meio de um telão. E assim estamos unidos na mesma audiência. E todos nós hoje rezemos especialmente por eles, pelas suas doenças. Obrigado.

Na primeira catequese sobre Igreja, quarta-feira passada, partimos da iniciativa de Deus que quer formar um povo que leve a sua benção a todos os povos da terra. Começa com Abraão e depois, com tanta paciência – e Deus a tem, tem tanta! – prepara este povo na Antiga Aliança a fim de que, em Jesus Cristo, o constitua como sinal e instrumento da união dos homens com Deus e entre eles (cfr Conc. Ecum. Vat. II, Cost. Lumen gentium, 1). Hoje queremos nos concentrar sobre a importância, para o cristão, de pertencer a este povo. Falaremos sobre a pertença à Igreja.

1. Não somos isolados e não somos cristãos a título individual, cada um por conta própria, não, a nossa identidade cristã é pertença! Somos cristãos porque pertencemos à Igreja. É como um sobrenome: se o nome é “sou cristão”, o sobrenome é “pertenço à Igreja”. É muito belo notar como esta pertença é expressa também no nome que Deus atribui a si mesmo. Respondendo a Moisés, no episódio maravilhoso da “sarça ardente” (cfr Ex 3, 15), define-se, de fato, como o Deus dos pais. Não diz: Eu sou o Onipotente…, não: Eu sou o Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó. Deste modo, Ele se manifesta como o Deus que formou uma aliança com os nossos pais e permanece sempre fiel a ela, e nos chama para entrar nesta relação que nos precede. Esta relação de Deus com o seu povo precede a todos nós, vem daquele tempo.

2. Neste sentido, o pensamento vai, em primeiro lugar, com gratidão, àqueles que nos precederam e nos acolheram na Igreja. Ninguém se torna cristão por si mesmo! Está claro isso? Ninguém se torna cristão por si mesmo. Não se fazem cristãos em laboratório. O cristão é parte de um povo que vem de longe. O cristão pertence a um povo que se chama Igreja e esta Igreja o faz cristão, no dia do Batismo, e depois no percurso da catequese, e assim vai. Mas ninguém, ninguém se torna cristão por si mesmo. Se nós acreditamos, se sabemos rezar, se conhecemos o Senhor e podemos escutar a sua Palavra, se O sentimos próximo e O reconhecemos nos irmãos, é porque outros, antes de nós, viveram a fé e, depois, a transmitiram a nós. Recebemos a fé dos nossos pais, dos nossos antepassados, e eles a ensinaram a nós. Se pensamos bem, quem sabe quantos rostos queridos passam diante dos nossos olhos, neste momento: pode ser a face dos nossos pais que pediram para nós o Batismo; aquela dos nossos avós ou de qualquer familiar que nos ensinou a fazer o sinal da cruz e a recitar as primeiras orações. Eu recordo sempre a face da irmã que me ensinou o catecismo, sempre me vem à mente – ela está no Céu com certeza, porque é uma mulher santa – mas eu a recordo sempre e dou graças a Deus por esta irmã. Ou então o rosto do pároco, de um outro padre, ou de uma irmã, de um catequista, que nos transmitiu o conteúdo da fé e nos fez crescer como cristãos… Bem, essa é a Igreja: uma grande família, na qual se é acolhido e se aprende a viver como cristãos e como discípulos do Senhor Jesus.

3. Podemos viver esse caminho não somente graças às outras pessoas, mas junto a outras pessoas. Na Igreja, não existe o ‘agir por si’, não existem jogadores na função de ‘líbero’. Quantas vezes, o Papa Bento descreveu a Igreja como um “nós” eclesial! Às vezes se ouve alguém dizer: “Eu acredito em Deus, acredito em Jesus, mas a Igreja não me interessa…”. Quantas vezes ouvimos isso? E isso não é certo. Há quem acredite poder ter uma relação pessoal, direta, imediata com Jesus Cristo fora da comunhão e da mediação da Igreja. São tentações perigosas e prejudiciais. São, como dizia o grande Paulo VI, dicotomias absurdas. É verdade que caminhar junto é trabalhoso e às vezes pode ser cansativo: pode acontecer que algum irmão ou alguma irmã nos dê problema, ou nos cause escândalo… Mas o Senhor confiou a sua mensagem de salvação a pessoas humanas, a todos nós, às testemunhas; e é nos nossos irmãos e nas nossas irmãs, com os seus dons e os seus limites, que vem ao nosso encontro e se faz reconhecer. E isto significa pertencer à Igreja. Lembrem-se bem: ser cristão significa pertencer à Igreja. O nome é “cristão”, o sobrenome é “pertença à Igreja”.

Queridos amigos, peçamos ao Senhor, por intercessão da Virgem Maria, Mãe da Igreja, a graça de não cair nunca na tentação de pensar poder desfazer das pessoas, desfazer da Igreja, de podermos nos salvar sozinhos, de ser cristão de laboratório. Pelo contrário, não se pode amar Deus sem amar os irmãos, não se pode amar Deus fora da Igreja; não se pode estar em comunhão com Deus sem fazê-lo na Igreja e não podemos ser bons cristãos se não junto a todos aqueles que procuram seguir o Senhor Jesus, como um único povo, um único corpo, e isto é a Igreja. Obrigado.

Homilia do Papa na Solenidade de Corpus Christi

Brasão do Papa

HOMILIA
Solenidade de 
Corpus Christi
Basílica São João de Latrão

Quinta-feira, 19 de junho de 2014

“O Senhor, vosso Deus, vos nutriu com o maná, que vós não conhecíeis” (Dt 8,2)

Estas palavras de Moisés referem-se a história de Israel, que Deus tirou do Egito, da condição de escravidão, e por quarenta anos guiou no deserto em direção à  terra prometida. Uma vez estabelecido na terra, o povo eleito chega a uma certa autonomia, um certo bem-estar, e corre o risco de esquecer os tristes acontecimentos do passado, superados pela intervenção de Deus e Sua infinita bondade. Por isso,  as Escrituras os exortam a recordar, fazer memória de todo o caminho feito no deserto, no tempo de fome e desconforto. O convite de Moisés é o do retorno ao essencial, à experiência da total dependência de Deus, quando a sobrevivência foi confiada em suas mãos, para que o homem compreendesse que “ele não vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca do Senhor “(Dt 8, 3).

Além da fome física que homem traz dentro de si, há uma outra fome, uma fome que não pode ser satisfeita com alimentação normal. É a fome de vida, fome de amor, fome de eternidade. E o sinal do maná – como toda a experiência do Êxodo – continha em si também esta dimensão: era a figura de um alimento que satisfaz esta fome profunda que há no homem. Jesus nos dá esse alimento, mais do que isso, é Ele mesmo o pão vivo que dá vida ao mundo (cf. Jo 6,51). Seu corpo é verdadeira comida sob as espécies do pão; o Seu sangue é verdadeiramente bebida sob as espécies do vinho. Não se trata apenas de um alimento com o qual saciar os nossos corpos, como o maná; o Corpo de Cristo é o pão dos últimos tempos, capaz de dar vida, e vida eterna, porque a substância deste pão é o Amor.

Na Eucaristia se comunica o amor de Deus por nós: um amor tão grande que nos alimenta com o Seu próprio ser; amor gratuito, sempre disponível a cada pessoa com fome e necessitada de revigorar suas forças. Viver a experiência da fé significa deixar-se nutrir pelo Senhor e construir a própria existência não sobre bens materiais, mas sobre a realidade que não perece: os dons de Deus, a Sua Palavra e Seu Corpo.

Se olharmos à nossa volta, percebemos que há tantas ofertas de alimentos que não são do Senhor e que, aparentemente, satisfazem mais. Alguns são nutridos pelo dinheiro, outros com sucesso e a vaidade, outros com poder e orgulho. Mas a comida que nos alimenta e que realmente nos satisfaz é apenas aquela que o Senhor nos dá! O alimento que o Senhor nos oferece é diferente dos outros, e talvez ele não pareça tão saboroso como os alimentos que nos oferece o mundo. Por isso, sonhamos com outras refeições, como os judeus no deserto, que lamentavam pela  carne e as cebolas que comiam no Egito, mas eles esqueceram que as refeições eram feitas na mesa da escravidão. Eles, nos momentos de tentação,  tinham memória, mas uma memória doente, uma memória seletiva.

Cada um de nós, hoje em dia, pode perguntar-se: e eu? Onde gostaria de comer? Em qual mesa eu quero me alimentar? Na  mesa do Senhor? Ou sonho em comer alimentos saborosos, mas na escravidão? Qual é a minha memória? Aquela que o Senhor me salva, ou aquela do o alho e das cebolas da escravidão? Com qual  memória  sacio a minha alma?

O Pai nos diz: “Eu te alimentei com o maná que você não conhecia”.  Recuperamos a memória e aprendamos a reconhecer o pão falso que ilude e corrompe, porque é fruto do egoísmo, da autossuficiência e do pecado.

Daqui a pouco, na procissão, nós seguiremos Jesus realmente presente na Eucaristia. A  Hóstia é o nosso maná, mediante a qual o Senhor no dá a Si mesmo. A Ele nos dirijamos com confiança: Jesus, defenda-nos das tentações do alimento mundano que nos torna escravos; purifica a nossa memória, para que não permaneça prisioneira na seletividade egoísta e mundana, mas seja memória viva de tua presença na história de seu povo, memória que se faz “memorial” do teu gesto de amor redentor. Amém.

 

 

Catequese com o Papa Francisco – 18/06/14

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Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 18 de junho de 2014

Queridos irmãos e irmãs, bom dia. E parabéns a vocês porque vocês são bravos, com este tempo que não se sabe se vem água, se não vem… Bravos! Esperamos terminar a catequese sem água, que o Senhor tenha piedade de nós.

Hoje começo um ciclo de catequese sobre a Igreja. É um pouco como um filho que fala da própria mãe, da própria família. Falar da Igreja é falar da nossa mãe, da nossa família. A Igreja, na verdade, não é uma instituição com fim em si mesma ou uma associação privada, uma ONG, nem tão pouco se deve restringir o olhar ao clero e ao Vaticano… “A Igreja pensa…”. Mas a Igreja somos todos! “De quem você fala?”. “Não, dos padres…” Ah, os padres são parte da Igreja, mas a Igreja somos todos! Não restringi-la aos sacerdotes, aos bispos, ao Vaticano… Estes são partes da Igreja, mas a Igreja somos todos, todos família, todos da mãe. E a Igreja é uma realidade muito mais ampla, que se abre a toda a humanidade e que não nasce em um laboratório, a Igreja não nasceu em laboratório, não nasceu de improviso. Foi fundada por Jesus, mas é um povo com uma história longa e uma preparação que tem início muito antes do próprio Cristo.

1. Esta história, ou “pre-história”, da Igreja se encontra já nas páginas do Antigo Testamento. Ouvimos o Livro do Gênesis: Deus escolheu Abraão, nosso pai na fé, e lhe pede para partir, para deixar a sua pátria terrena e seguir rumo a uma outra terra, que Ele indicaria (cfr Gen 12, 1-9). E nesta vocação Deus não chama Abraão sozinho, como indivíduo, mas envolve desde o início a sua família, os seus parentes e todos aqueles que estão a serviço da sua casa. Uma vez em caminho, – sim, assim a Igreja começa a caminhar- , depois, Deus ainda ampliará o horizonte e transbordará Abraão da sua benção, prometendo-lhe uma descendência numerosa como as estrelas do céu e como a areia da praia. O primeiro dado importante é justamente esse: começando de Abraão, Deus forma um povo para que leve a sua benção a todas as famílias da terra. E dentro desse povo nasce Jesus. É Deus que faz esse povo, esta história, a Igreja em caminho, e ali nasce Jesus, neste povo.

2. Um segundo elemento: não é Abraão a constituir em torno de si um povo, mas é Deus a dar a vida a este povo. Geralmente era o homem que se dirigia à divindade, procurando preencher a lacuna e invocando apoio e proteção. O povo rezava aos deuses, às divindades. Nesse caso, em vez disso, se assiste a algo sem precedentes: é o próprio Deus a tomar a iniciativa. Escutemos isso: é o próprio Deus que bate à porta de Abraão e lhe diz: segue adiante, distante da sua terra, comece a caminhar e eu farei de ti um grande povo. E este é o início da Igreja e neste povo nasce Jesus. Deus toma a iniciativa e dirige a sua palavra ao homem, criando um vínculo e uma relação nova com ele. “Mas, padre, como é isto? Deus nos fala?”. “Sim”. “E nós podemos falar com Deus?”. “Sim”. “Mas nós podemos ter uma conversa com Deus?”. “Sim”. Isto se chama oração, mas é Deus que fez isso desde o início. Assim, Deus forma um povo com todos aqueles que escutam a sua Palavra e que se colocam em caminho, confiando Nele. Esta é a única condição: confiar em Deus. Se você confia em Deus, escuta-O e se coloca em caminho, isto é fazer Igreja. O amor de Deus precede tudo. Deus sempre é primeiro, chega antes de nós, Ele nos precede. O profeta Isaías, ou Jeremias, não me lembro bem, dizia que Deus é como a flor da amendoeira, porque é a primeira árvore que floresce na primavera. Para dizer que Deus sempre floresce antes de nós. Quando nós chegamos, Ele nos espera, Ele nos chama, Ele nos faz caminhar. Sempre está antecipado em relação a nós. E isto se chama amor, porque Deus nos espera sempre. “Mas, padre, eu não acredito nisto, porque se o senhor soubesse, padre, a minha vida tem sido tão ruim, como posso pensar que Deus me espera?”. “Deus te espera. E se você foi um grande pecador, te espera mais ainda e te espera com tanto amor, porque Ele é o primeiro. Esta é a beleza da Igreja, que nos leva a este Deus que nos espera!”. Precede Abraão, precede também Adão.

3. Abraão e os seus escutam o chamado de Deus e se colocam em caminho, não obstante não saibam bem quem seja este Deus e onde quer conduzi-los. É verdade, porque Abraão se coloca em caminho confiando neste Deus que lhes falou, mas não tinha um livro de teologia para estudar o que era este Deus. Confia, confia no amor. Deus lhe faz sentir o amor e ele confia. Isto, porém, não significa que este povo esteja sempre convencido e fiel. Antes, desde o início há resistências, o olhar para si mesmo e para seus próprios interesses e a tentação de negociar com Deus e resolver as coisas do próprio modo. E estas são as traições e os pecados que marcam o caminho do povo ao longo de toda a história da salvação, que é a história da fidelidade de Deus e da infidelidade do povo. Deus, porém, não se cansa, Deus tem paciência, tem tanta paciência, e no tempo continua a educar e a formar o seu povo, como um pai com o próprio filho. Deus caminha conosco. Diz o profeta Oseias: “Eu caminhei contigo e te ensinei a caminhar como um pai ensina o seu filho a caminhar”. Bela esta imagem de Deus! E assim é conosco: ensina-nos a caminhar. E é a mesma atitude que mantém em relação à Igreja. Também nós, de fato, mesmo no nosso propósito de seguir o Senhor Jesus, fazemos a experiência a cada dia do egoísmo e da dureza do nosso coração. Quando, porém, nos reconhecemos pecadores, Deus nos enche da sua misericórdia e do seu amor. E nos perdoa, nos perdoa sempre. E é justamente isso que nos faz crescer como povo de Deus, como Igreja: não é a nossa bravura, não são os nossos méritos – não somos pouca coisa, não é isso – mas é a experiência cotidiana de quanto o Senhor nos quer bem e cuida de nós. É isto que nos faz sentir realmente seus, nas suas mãos, e nos faz crescer na comunhão com Ele e entre nós. Ser Igreja é sentir-se nas mãos de Deus, que é Pai e nos ama, nos acaricia, nos espera, nos faz sentir a sua ternura. E isto é muito belo!

Queridos amigos, este é o projeto de Deus; quando chamou Abraão, Deus pensava isto: formar um povo abençoado pelo seu amor e que leve a sua benção a todos os povos da terra. Este projeto não muda, está sempre em ação. Em Cristo teve o seu cumprimento e ainda hoje Deus continua a realizá-lo na Igreja. Peçamos, então, a graça de permanecer fiéis ao seguimento do Senhor Jesus e na escuta da sua Palavra, prontos a partir a cada dia, como Abraão, rumo à terra de Deus e do homem, a nossa verdadeira pátria e assim nos tornarmos benção, sinal do amor de Deus para todos os seus filhos. Eu gosto de pensar que um sinônimo, um outro nome que nós cristãos podemos ter seria este: somos homens e mulheres, somos povo que bendiz. O cristão, com a sua vida, deve bendizer sempre, bendizer Deus e bendizer todos. Nós cristãos somos povo que bendiz, que sabe bendizer. Esta é uma bela vocação!

Angelus com o Papa Francisco – 15/06/14

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ANGELUS
Praça São Pedro – Vaticano
Domingo, 15 de junho de 2014

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje celebramos a solenidade da Santíssima Trindade, que apresenta à nossa contemplação e adoração a vida divina do Pai, do Filho e do Espírito Santo: uma vida de comunhão e de amor perfeito, origem e meta de todo o universo e de cada criatura, Deus. Na Trindade, reconhecemos também o modelo da Igreja, na qual somos chamados a nos amar como Jesus nos amou. É o amor o sinal concreto que manifesta a fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo. É o amor o emblema do cristão, como nos disse Jesus: “Nisto todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35). É uma contradição pensar em cristãos que se odeiam. É uma contradição! E o diabo procura sempre isto: fazer-nos odiar, porque ele semeia sempre o ódio; ele não conhece o amor, o amor é de Deus!

Todos somos chamados a testemunhar e anunciar a mensagem de que “Deus é amor”, que Deus não está distante ou insensível aos acontecimentos humanos. Ele está próximo, está sempre ao nosso lado, caminha conosco para partilhar as nossas alegrias e as nossas dores, as nossas esperanças e os nossos cansaços. Ama-nos tanto a ponto que se fez homem, veio ao mundo não para julgá-lo, mas para que o mundo seja salvo por meio de Jesus (cfr Jo 3, 16-17). E este é o amor de Deus em Jesus, este amor que é tão difícil de entender, mas que nós sentimos quando nos aproximamos de Jesus. E Ele nos perdoa sempre, Ele nos espera sempre, Ele nos ama tanto. E o amor de Jesus que nós sentimos é o amor de Deus.

O Espírito Santo, dom de Jesus Ressuscitado, nos comunica a vida divina e assim nos faz entrar no dinamismo da Trindade, que é um dinamismo de amor, de comunhão, de serviço recíproco, de partilha. Uma pessoa que ama os outros pela própria alegria de amar é reflexo da Trindade. Uma família em que se ama e se ajuda os outros é um reflexo da Trindade. Uma paróquia em que se quer o bem e se partilham os bens espirituais e materiais é um reflexo da Trindade.

O amor verdadeiro é sem limites, mas sabe se limitar para ir ao encontro do outro, para respeitar a liberdade do outro. Todos os domingos vamos à Missa, celebramos a Eucaristia juntos e a Eucaristia é como a “sarça ardente” na qual humildemente mora e se comunica a Trindade; por isto a Igreja colocou a festa do Corpus Domini depois daquela da Trindade. Na próxima quinta-feira, segundo a tradição romana, celebraremos a Santa Missa em São João Latrão e depois faremos a procissão com o Santíssimo Sacramento. Convido os romanos e os peregrinos a participar para exprimir o nosso desejo de ser um povo “reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (São Cipriano). Espero por todos vocês na próxima quinta-feira, às 19h, para a Missa e a procissão de Corpus Christi.

A Virgem Maria, criatura perfeita da Trindade, nos ajude a fazer de toda a nossa vida, nos pequenos gestos e nas escolhas mais importantes, um hino de louvor a Deus, que é Amor.