Catequese do Papa Francisco – 30/10/2013

Catequese do Papa Francisco - 30/10/2013

CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje gostaria de falar de uma realidade muito bela da nossa fé, ou seja, da “comunhão dos santos”. O Catecismo da Igreja Católica nos recorda que com esta expressão se entendem duas realidades: a comunhão nas coisas santas e a comunhão entre as pessoas santas (n. 948). Concentro-me no segundo significado: trata-se de uma verdade entre as mais consoladoras da nossa fé, pois nos recorda que não estamos sozinhos, mas existe uma comunhão de vida entre todos aqueles que pertencem a Cristo. Uma comunhão que nasce da fé; de fato, o termo “santos” refere-se àqueles que acreditam no Senhor Jesus e estão incorporados a Ele na Igreja mediante o Batismo. Por isto, os primeiros cristãos eram chamados também “os santos” (cfr At 9,13.32.41; Rm 8,27; 1 Cor 6,1).

1. O Evangelho de João mostra que, antes da sua Paixão, Jesus rezou ao Pai pela comunhão entre os discípulos, com estas palavras: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (17, 21). A Igreja, em sua verdade mais profunda, é comunhão com Deus, familiaridade com Deus, comunhão de amor com Cristo e com o Pai no Espírito Santo, que se prolonga em uma comunhão fraterna. Esta relação entre Jesus e o Pai é a “matriz” do vínculo entre nós cristãos: se estamos intimamente inseridos nesta “matriz”, nesta fornalha ardente de amor que é a Trindade, então podemos nos tornar verdadeiramente um só coração e uma só alma entre nós, porque o amor de Deus queima os nossos egoísmos, os nossos preconceitos, as nossas divisões interiores e exteriores. O amor de Deus queima também os nossos pecados

2. Se há este enraizamento na fonte do Amor, que é Deus, então se verifica também o movimento recíproco: dos irmãos a Deus; a experiência da comunhão fraterna me conduz à comunhão com Deus.  Estar unidos entre nós nos leva a estar unidos com Deus, leva-nos a esta ligação com Deus que é o nosso Pai. Este é o segundo aspecto da comunhão dos santos que gostaria de destacar: a nossa fé precisa do apoio dos outros, especialmente nos momentos difíceis. Se nós estamos unidos a fé se torna forte. Quanto é belo apoiar-nos uns aos outros na aventura maravilhosa da fé! Digo isto porque a tendência a se fechar no privado influenciou também o âmbito religioso, de forma que muitas vezes é difícil pedir a ajuda espiritual de quantos partilham conosco a experiência cristã. Quem de todos nós não experimentou inseguranças, perdas e ainda dúvidas no caminho da fé? Todos experimentamos isto, também eu: faz parte do caminho da fé, faz parte da nossa vida. Tudo isso não deve nos surpreender, porque somos seres humanos, marcados por fragilidades e limites; todos somos frágeis, todos temos limites. Todavia, nestes momentos de dificuldade é necessário confiar na ajuda de Deus, mediante a oração filial e, ao mesmo tempo, é importante encontrar a coragem e a humildade de abrir-se aos outros, para pedir ajuda, para pedir para nos darem uma mão. Quantas vezes fizemos isto e então saímos do problema e encontramos Deus uma outra vez! Nesta comunhão – comunhão quer dizer comum-união – somos uma grande família, onde todos os componentes se ajudam e se apoiam entre eles.

3. E chegamos a outro aspecto: a comunhão dos santos vai além da vida terrena, vai além da morte e dura para sempre. Esta união entre nós vai além e continua na outra vida; é uma união espiritual que nasce do Batismo e não vem separada da morte, mas, graças a Cristo ressuscitado, é destinada a encontrar a sua plenitude na vida eterna. Há um vínculo profundo e indissolúvel entre quantos são ainda peregrinos neste mundo – entre nós – e aqueles que atravessaram o limiar da morte para entrar na eternidade. Todos os batizados aqui na terra, as almas do Purgatório e todos os beatos que estão já no Paraíso formam uma só grande família. Esta comunhão entre terra e céu se realiza especialmente na oração de intercessão.

Queridos amigos, temos esta beleza! É uma realidade nossa, de todos, que nos faz irmãos, que nos acompanha no caminho da vida e nos faz encontrar-nos de novo no céu. Sigamos por este caminho com confiança, com alegria. Um cristão deve ser alegre, com a alegria de ter tantos irmãos batizados que caminham com ele; apoiado pela ajuda dos irmãos e das irmãs que fazem esta estrada para ir para o céu; e também com a ajuda dos irmãos e das irmãs que estão no céu e rezam a Jesus por nós. Avante por este caminho com alegria!

Discurso do Papa aos dirigentes do CTV – 28/10/2013

Discurso do Papa aos dirigentes do CTV - 28/10/2013

DISCURSO
Audiência com os dirigentes e colaboradores do Centro Televisivo Vaticano
Sala Clementina do Palácio Apostólico
Segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Queridos amigos,

O Centro Televisivo Vaticano, desejado pelo beato João Paulo II, nasce em 22 de outubro de 1983. Pela estrada trilhada nestas três décadas de atividade, agradeçamos ao Senhor! Agora se abrem importantes desafios tecnológicos, como tive a oportunidade de dizer-vos na mensagem em ocasião do vosso recente Congresso. São desafios dos quais não devemos nos esquivar, para manter firmemente “a perspectiva evangélica nesta espécie de estrada global da comunicação” (Mensagem ao CTV, 18 de outubro de 2013). Obrigado!

Antes de tudo, quero agradecer-vos, não somente pelo profissionalismo hoje reconhecido em todo o mundo, mas, sobretudo, pela disponibilidade e pela discrição com as quais todos os dias me testemunham e com as quais me acompanham.

Quero exprimir também um agradecimento especial, nesta ocasião de festa, às vossas famílias, porque, como recordou o diretor, Monsenhor Viganò, vivem a agenda semanal dos compromissos do Papa! É um sacrifício não pequeno, imagino, e por isto não somente sou grato a vocês, mas asseguro uma oração para todos vocês, em particular para suas crianças. O Papa não quer atrapalhar a vida de família! Mas agradece vocês pela paciência.

Gostaria de confiar-vos brevemente alguns pensamentos.

Joguem como time. A eficácia da pastoral da comunicação é possível criando vínculos, fazendo convergir em torno de projetos compartilhados uma série de assuntos; uma “união de intenções e de forças” (Decr. Inter mirifica, 21). Sabemos que isto não é fácil, mas se vocês se ajudarem como um time tudo se torna mais rápido e, sobretudo, também o estilo do vosso trabalho será um testemunho de comunhão.

Vocês são profissionais a serviço da Igreja. O vosso trabalho é de grande qualidade, e assim deve ser pela tarefa que lhes foi atribuída. Mas o profissionalismo para vocês seja sempre o serviço à Igreja, em tudo: nas filmagens, nas direções, nas escolhas editoriais, na administração… Tudo pode ser feito com um estilo, uma perspectiva que é aquela eclesial, aquela da Santa Sé. É necessário que a comunicação do CTV saiba difundir nos espectadores, nos fiéis e nos “distantes” o perfume e a esperança do Evangelho.

Concluo agradecendo todos os membros do Conselho de Administração que ajudam sabiamente a orientar e guiar o CTV em seu trabalho.  Um pensamento especial vai também aos amigos que se envolvem em várias funções na grande família do CTV. Sozinhos não podemos fazer muito, mas juntos podemos estar a serviço de todo o mundo, difundindo a verdade e a beleza do Evangelho até os confins da terra. Muito Obrigado!

Assis: Discurso do Papa às crianças e doentes

Assis: Discurso do Papa às crianças e doentes

DISCURSO
Visita pastoral a Assis
Encontro com crianças portadoras de deficiência e doentes do Instituto Seráfico de Assis
Sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Nós estamos entre as chagas de Jesus, disse a senhora. Disse também que estas chagas precisam ser ouvidas, ser reconhecidas. E me vem em mente quando o Senhor caminhava com aqueles dois discípulos tristes. O Senhor Jesus, no fim, fez ver as suas chagas e eles O reconheceram. Depois o pão, onde Ele estava ali. O meu irmão Domenico me dizia que aqui se faz a Adoração. Também aquele pão tem necessidade de ser ouvido, porque Jesus está presente e escondido dentro da simplicidade e da suavidade de um pão. E aqui Jesus está escondido estes rapazes, nestas crianças, nestas pessoas. No altar adoramos a Carne de Jesus; neles encontramos as chagas de Jesus. Jesus escondido na Eucaristia e Jesus escondido nestas chagas. Precisam ser escutados! Talvez não tanto nos jornais, como notícias; isso é uma escuta que dura um, dois, três dias, depois vem um outro, um outro… Devem ser ouvidos por aqueles que se dizem cristãos. O cristão adora Jesus, o cristão procura Jesus, o cristão sabe reconhecer as chagas de Jesus. E hoje, todos nós, aqui, temos a necessidade de dizer: “estas chagas precisam ser ouvidas!”. Mas há uma outra coisa que nos dá esperança. Jesus está presente na Eucaristia, aqui é a Carne de Jesus; Jesus está presente entre vocês, é a Carne de Jesus: são as chagas de Jesus nestas pessoas.

Mas é interessante: Jesus, quando ressuscitou estava belíssimo. Não tinha em seu corpo as contusões, as feridas…nada! Era mais belo! Somente quis conservar as chagas e as levou ao Céu. As chagas de Jesus estão aqui e estão no Céu diante do Pai. Nós cuidamos das chagas de Jesus aqui e Ele, do Céu, nos mostra as suas chagas e diz a todos nós: ‘estou te esperando’. Assim seja.

O Senhor abençõe todos vocês. Que o seu amor desça sobre nós, caminhe conosco; que Jesus nos diga que estas chagas são Dele e nos ajude a dar voz a elas, para que nós cristãos as escutemos.

Papa orienta famílias a viverem a alegria da fé

Encontro do Papa Francisco com as famílias

Crianças, pais e mães, avôs e avós, lotaram a Praça São Pedro, no Vaticano, neste sábado, 26, para um encontro especial com o Papa Francisco. A audiência se deu por ocasião da Peregrinação Internacional das Famílias ao Túmulo de São Pedro que acontece neste final de semana, no âmbito do Ano da Fé.

O Papa Francisco chegou à Praça São Pedro vindo do interior da Basílica Vaticana. Ainda no interior do templo, abraçou algumas crianças e, em seguida, apresentou-se aos milhares de fiéis peregrinos presentes na praça vaticana, rodeado de meninos e meninas.

Uma criança italiana saudou o Papa Francisco apresentando-lhe um desenho de seus familiares. “Oi, Papa Francisco! Chamo-me Federica. Gosto muito da minha avó porque ela me ensinou muitas coisas. Ensinou-me a fazer orações nas refeições e quando passa a ambulância, e o sinal da cruz. Gostou muito do senhor”, disse a menina.

Respondendo-lhe, o Santo Padre disse: “Oi, Federica! Também sei fazer o sinal da cruz. Será que as crianças aqui também sabem fazer? Vamos fazer juntos? Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, iniciou o Papa.

Em seu discurso, questionou: “como é possível viver a alegria da fé em família?” Como resposta o Pontífice apresentou um trecho do Evangelho de Mateus onde Jesus diz “Vinde mim todos vós que estais cansados e lhes darei alívio”.

A vida tem muitas fadigas, disse o Papa. No entanto, o que mais pesa na vida é a falta de amor, ressaltou. “Pesa não receber um sorriso, não ser acolhido, pesa um certo silêncio… Mas, sem amor a fadiga torna-se mais pesada, intolerável”.

“Queridas famílias, o Senhor conhece as nossas canseiras. Conhece o nosso profundo desejo de encontrar a alegria. Jesus quer que a nossa alegria seja completa. Disse aos apóstolos e diz hoje a nós”, acentuou o Papa.

Francisco também destacou as palavras dos noivos durante o Sacramento do Matrimônio: “prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias de nossas vidas”.

Untitled-6Os noivos não sabem o que vai acontecer dali a diante, disse o Papa. “Eis o que significa o Matrimônio: partir e caminhar juntos, de mãos dadas, entregando tudo nas mãos do senhor e não se entregando a essa cultura do provisório”.

“Os esposos cristãos não são ingênuos. Conhecem os problemas e os perigos da vida, mas não tem medo de assumir a própria responsabilidade sem fugir e renunciar à missão de formar uma família”, completou.

O Papa reconheceu os desafios desta missão, mas ressaltou a necessidade de contarmos com a graça de Deus. “É preciso a graça! Olhem a graça dos sacramentos. O matrimônio não é uma bela festa. A graça não é para decorar a vida, mas para dar-nos coragem de irmos à diante”.

“Os cristãos se casam sacramentalmente porque estão cientes de precisarem do sacramento para cumprirem sua missão de pais. No seu casamento eles rezam juntos e com a comunidade. Mas por quê? Por que se usa fazer assim? Não! Porque precisam da ajuda de Jesus para caminharem juntos com confiança”.

Finalizando o discurso, Francisco convidou às famílias para o exercício do perdão. “É preciso ter a coragem de pedir desculpa quando, na família, nós erramos”, disse. Por fim, agradeceu a todos as famílias pela presença calorosa na tarde deste sábado, junto à Praça São Pedro.

A festa da família em Roma teve início ainda pela manhã deste sábado, 26, e ofereceu aos presentes atrações músicas, teatro, oração e reflexão em torno do tema “Família, viva a Alegria da fé”. Famílias dos cinco continentes, de 70 países estiveram em Roma para o encontro promovido pelo Pontifício Conselho para as Famílias.

Oração do Papa à Sagrada Família – 27/10/2013

Oração do Papa à Sagrada Família
Jornada das Famílias no Vaticano
Domingo, 27 de outubro de 2013

Jesus, Maria e José
a vós, Sagrada Família de Nazaré,
hoje, dirigimos o olhar
com admiração e confiança;
em vós contemplamos
a beleza da comunhão no amor verdadeiro;
a vós confiamos todas as nossas famílias;
para que se renovem nessas maravilhas da graça.

Sagrada Família de Nazaré,
escola atraente do santo Evangelho:
ensina-nos a imitar as tuas virtudes
com uma sábia disciplina espiritual,
doa-nos o olhar claro
que sabe reconhecer a obra da providência
nas realidades cotidianas da vida.

Sagrada Família de Nazaré,
guardiã fiel do mistério da salvação:
faz renascer em nós a estima pelo silêncio,
torna as nossas famílias cenáculo de oração
e transforma-as em pequenas Igrejas domésticas,
renova o desejo de santidade,
sustenta o nobre cansaço do trabalho, da educação,
da escuta, da recíproca compreensão e do perdão.

Sagrada Família de Nazaré,
desperta na nossa sociedade a consciência
do caráter sagrado e inviolável da família,
bem inestimável e insubstituível.
Cada família seja morada acolhedora de bondade e de paz
para as crianças e para os idosos,
para quem está doente e sozinho,
para quem é pobre e necessitado.

Jesus, Maria e José
a vós com confiança rezamos, a vós com alegria nos confiamos.

Homilia do Papa na Jornada das Famílias – 27/10/2013

Homilia do Papa na Jornada das Famílias - 27/10/2013

HOMILIA
Santa Missa pela Jornada das Famílias em ocasião do Ano da Fé
Praça São Pedro – Vaticano
Domingo, 27 de outubro de 2013

As leituras deste domingo nos convidam a meditar sobre algumas características fundamentais da família cristã.

1. A primeira: a família que reza. O trecho do Evangelho coloca em evidência dois modos de rezar, um falso – aquele do fariseu – e outro autêntico – aquele do publicano. O fariseu encarna uma atitude que não exprime a gratidão a Deus pelos seus benefícios e a sua misericórdia, mas sim satisfação de si. O fariseu se sente justo, se sente no lugar, se apoia nisso e julga os outros do alto de seu pedestal. O publicano, ao contrário, não multiplica as palavras. A sua oração é humilde, sóbria, permeada pela consciência de sua própria indignidade, das próprias misérias: este é um homem que realmente se reconhece necessitado do perdão de Deus, da misericórdia de Deus. A oração do publicano é a oração do pobre, é a oração que agrada a Deus, que, como diz a primeira Leitura “chega às nuvens” (Eclo 35, 20), enquanto a do fariseu é sobrecarregada pelo peso da vaidade.

À luz desta Palavra, gostaria de perguntar a vocês, queridas famílias: rezam alguma vez em família? Alguns sim, eu sei. Mas tantos me dizem: como se faz? Mas, se faz como o publicano, é claro: humildemente, diante de Deus. Cada um com humildade se deixa olhar pelo Senhor e pede a sua bondade, que venha a nós. Mas, em família, como se faz? Porque parece que a oração seja algo pessoal e então não há nunca um momento adequado, tranquilo, em família… Sim, é verdade, mas é também questão de humildade, de reconhecer que temos necessidade de Deus, como o publicano! E todas as famílias têm necessidade de Deus: todos, todos! Necessidade da sua ajuda, da sua força, da sua benção, da sua misericórdia, do seu perdão. E é necessário simplicidade: para rezar em família, é necessário simplicidade! Rezar junto o “Pai Nosso”, em torno da mesa, não é algo extraordinário: é algo fácil. E rezar junto o Rosário, em família, é muito bonito, dá tanta força! E também rezar um pelo outro: o marido pela esposa, a esposa pelo marido, ambos pelos filhos, os filhos pelos pais, pelos avós… Rezar um pelo outro. Isto é rezar em família, e isto torna forte a família: a oração.

2. A Segunda Leitura nos sugere um outro ponto: a família conserva a fé.O apóstolo Paulo, no fim de sua vida, faz um balanço fundamental e diz: “Conservei a fé” (2 Tm 4, 7). Mas como a conservou? Não em um cofre! Não a escondeu sob a terra, como aquele servo um pouco preguiçoso. São Paulo compara a sua vida a uma batalha e a uma corrida. Conservou a fé porque não se limitou a defendê-la, mas a anunciou, irradiou-a, levou-a longe. Colocou-se do lado oposto a quem queria conservar, “embalsamar” a mensagem de Cristo nos confins da Palestina. Por isto fez escolhas corajosas, foi a territórios hostis, deixou-se provocar pelos distantes, por culturas diversas, falou francamente sem medo. São Paulo conservou a fé porque, como a havia recebido, doou-a, indo às periferias sem se apegar a posições defensivas.

Também aqui, podemos perguntar: de que modo nós, em família, conservamos a nossa fé? Nós a temos para nós, na nossa família, como um bem privado, como uma conta no banco, ou sabemos partilhá-la com o testemunho, com o acolhimento, com a abertura aos outros? Todos sabemos que as famílias, especialmente as mais jovens, muitas vezes são “apressadas”, muito ocupadas: mas alguma vez já pensaram que esta “corrida” pode ser também a corrida da fé? As famílias cristãs são famílias missionárias. Mas, ontem ouvimos, aqui na Praça, o testemunho de famílias missionárias. São missionárias também na vida de todos os dias, fazendo as coisas de todos os dias, colocando em tudo o sal e o fermento da fé! Conservar a fé na família e colocar o sal e o fermento da fé nas coisas do cotidiano.

3. Um último aspecto recebemos da Palavra de Deus: a família que vive a alegria. No Salmo responsorial encontra-se esta expressão: “os pobres escutem e se alegrem” (33/34, 3). Todo este Salmo é um hino ao Senhor, origem de alegria e de paz. E qual é o motivo deste alegrar-se? É este: o Senhor está próximo, escuta o grito dos humildes e os livra do mal. Escrevia ainda São Paulo: “Alegrai-vos sempre…o Senhor está próximo” (Fil 4, 4-5). É…eu gostaria de fazer uma pergunta hoje. Mas, cada um leve-a ao seu coração, a sua casa, como uma tarefa a fazer, certo? E se responda sozinho. Como está a alegria na sua casa? Como está a alegria na sua família? E dêem vocês a resposta.

Queridas famílias, vocês sabem bem: a verdadeira alegria que se desfruta na família não é algo superficial, não vem das coisas, das circunstâncias favoráveis…A alegria verdadeira vem da harmonia profunda entre as pessoas, que todos sentem no coração, e que nos faz sentir a beleza de estar junto, de apoiar-nos uns aos outros no caminho da vida. Mas na base deste sentimento de alegria profunda está a presença de Deus, a presença de Deus na família, está o seu amor acolhedor, misericordioso, respeitoso para com todos. E, sobretudo, um amor paciente: a paciência é uma virtude de Deus e nos ensina, em família, a ter este amor paciente, um com o outro. Ter paciência entre nós. Amor paciente. Somente Deus sabe criar a harmonia das diferenças. Se falta o amor de Deus, também a família perde a harmonia, prevalecem os individualismos e se extingue a alegria. Em vez disso, a família que vive a alegria da fé a comunica espontaneamente, é sal da terra e luz do mundo, é fermento para toda a sociedade.

Queridas famílias, vivam sempre com fé e simplicidade, como a Sagrada Família de Nazaré. A alegria e a paz do Senhor estejam sempre com vocês!

 

Discurso do Papa aos participantes da Plenária sobre as famílias

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DISCURSO

Audiência aos participantes da Plenária sobre as famílias 

Sala Clementina do Palácio Apostólico
Sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Senhores Cardeais,
caros Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
caros irmãos e irmãs,

Eu vos dou as boas vindas em ocasião da XXI Assembleia Plenária e agradeço o presidente Dom Vincenzo Paglia pelas palavras com as quais introduziu o nosso encontro. Obrigado!

1. O primeiro ponto que gostaria de enfatizar é este: a família é uma comunidade de vida que tem  sua própria consistência autônoma. Nas palavras do Beato João Paulo II na Exortação ApostólicaFamiliaris Consortio, a família não é a soma das pessoas que a constituem, mas uma “comunidade doe pessoas” (cf. nn. 17-18). E a comunidade é mais do que a soma dos indivíduos. É o lugar onde se  aprende a amar, o centro natural da vida humana. É composta de rostos, de pessoas que amam, ou dialogam, se sacrificam umas pelas outras e defender a vida, especialmente os mais frágeis, mais fracas. Pode-se dizer, sem exagero, que a família é o motor do mundo e da história. Cada um de nós constrói a sua própria personalidade na família, crescendo com a mãe e o pai, irmãos e irmãs, respirando o calor da casa. A família é o lugar onde nós recebemos o nome, é o lugar dos afetos, o espaço de intimidade, onde se aprende a arte do diálogo e da comunicação interpessoal. Na família, a pessoa torna-se consciente de sua própria dignidade e, especialmente, se a educação é cristã, reconhece a dignidade de cada pessoa humana, especialmente dos doentes, dos fracos e marginalizados.

Tudo isso é a comunidade-família, que pede  para ser reconhecida como tal, especialmente hoje, quando prevalece a proteção dos direitos individuais. E nós temos que defender o direito desta comunidade: a família. Por isso, vocês fizeram bem em dar uma atenção especial  à Carta dos Direitos da Família, apresentada há anos, no dia 22 de outubro de 1983.

2. Chegamos ao segundo ponto – se diz que os jesuítas sempre falam em três: três pontos: um, dois, três. Segundo ponto: a família fundada sobre o matrimônio. Através de um ato de amor livre e fiel os esposos cristãos testemunham que o matrimônio, enquanto sacramento, é a base sobre a qual a se funda família e faz com que  seja mais sólida a união dos cônjuges e sua mútua doação. O casamento é como se fosse um primeiro sacramento do  humano, no qual a pessoa descobre a si mesma, se auto-compreende em relação aos outros e em relação ao amor que é capaz de dar e receber. O amor esponsal e familiar também revela claramente a vocação da pessoa em amar de modo único e para sempre, e que as provas, os sacrifícios e a crise do casal, bem como da  família, representam oportunidades  para crescer na bondade, verdade e beleza. No matrimônio, a pessoa se doa   completamente sem cálculo ou reservas, compartilhando tudo, dons e sacrifícios, confiando na Providência de Deus. É essa a experiência que os jovens podem aprender com os seus pais e avós. É uma experiência de fé em Deus e confiança, de profunda liberdade, da santidade, porque a santidade supõe a doar-se com fidelidade e sacrifício todos os dias da vida!

Mas existem problemas no matrimônio.  Sempre diferentes pontos de vista, ciúmes, brigas. Mas é necessário dizer aos jovens casais que nunca terminem o dia sem fazer a pazes entre eles. O sacramento do matrimônio é renovada neste ato de paz,  depois de uma discussão, um mal-entendido, um ciúme escondido, até mesmo um pecado. Fazer a paz que dá unidade à família; e digo isso para os jovens casais,  que não é fácil ir por este caminho, mas esse caminho é tão bonito. Isso deve ser dito!

3. Gostaria agora de fazer pelo menos uma breve reflexão  sobre  dois estágios de vida familiar: a infância e a velhice. Crianças e idosos são os dois polos da vida e também os mais vulneráveis, muitas vezes o mais esquecidos. Quando eu confesso um homem ou uma mulher casada, jovens , e na confissão se fala do filho ou da filha, eu pergunto, mas quantos filhos você tem? E me dizem,  talvez esperando outra pergunta depois desta. Mas eu sempre faço essa segunda pergunta: diga-me, senhor ou senhora, você  brinca com seus filhos? – Como Padre? – Você perde tempo com seus filhos? Você brinca com seus filhos? – Mas não, o senhor sabe, quando eu saio de  casa pela manhã – me diz o homem – eles ainda estão dormindo e quando volto eles estão na cama. Também  a gratuidade, aquela gratuidade da mãe e do pai com seus filhos,  é tão importante: “perder tempo” com os filhos, brincar com seus filhos. Uma sociedade que abandona as crianças e que  marginaliza os idosos,  corta suas raízes e obscurece o seu futuro.

E vocês façam a avaliação do que faz esta nossa cultura de hoje, não? Com isto, sempre que uma criança é abandonada e um idoso é marginalizado, não se faz apenas um ato de injustiça, mas também se configura o fracasso dessa sociedade. Cuidar das crianças e dos idosos é uma escolha da civilização. E é também o futuro, porque os pequeninos, as crianças, os jovens levarão adiante a sociedade com a sua força, a sua juventude e os idosos vão levá-la com a sua sabedoria, a sua memória, que devem dar a todos nós.

E isso me alegra,  que o Pontifício Conselho para as Famílias tenha idealizado este novo ícone da família, que retoma a cena da Apresentação de Jesus no templo, com Maria e José, que levam o menino  para cumprir a Lei, e os dois anciãos Simeão e  Ana, que movidos pelo Espírito, o recebem  como Salvador. É significativo o título dessa imagem: “De geração em geração se estende sua misericórdia”.  A Igreja que cuida de crianças e idosos torna-se a mãe das gerações de crentes, e, ao mesmo tempo, serve a sociedade humana para que  um espírito de amor, de familiaridade e  solidariedade ajude a todos a redescobrir a paternidade e a maternidade de Deus.

E eu gosto,  quando leio esta passagem do Evangelho, de  pensar que os jovens, Maria e José, e também o Menino fazem tudo o que a Lei diz. Quatro vezes São Lucas diz: para cumprir a Lei. Eles são obedientes à lei, os jovens! E os dois anciãos, fazem barulho! Simeão inventa naquele momento uma liturgia própria em louvor, e louva a Deus. E  a velhinha vai e começa a comentar, prega com essa conversa: “Olhem para ele.” Como eles são livres! E três vezes Lucas fala que estes idosos são  guiados pelo Espírito Santo. Os jovens da lei, eles do Espírito Santo. Olhe para as anciãos que trazem este espírito dentro de si, os escutem !

A “boa notícia” da família é uma parte muito importante da evangelização, que os cristãos podem  comunicar  a todos,  com o testemunho de vida;  e já o fazem, e isso é evidente nas sociedades secularizadas: as famílias verdadeiramente cristãs são reconhecidas pela fidelidade, a paciência, a abertura à vida, o respeito pelos idosos… O segredo de tudo isso é a presença de Jesus na família. Propomos, portanto, a todos, com respeito e coragem, a beleza do matrimônio e da família iluminada pelo Evangelho!

E por isso nos aproximemos com atenção e afeto para com as famílias em dificuldade,  aquelas que são forçadas a deixar suas terras, que estão despedaçadas, que não têm casa ou trabalho, ou estão sofrendo por muitas razões; cônjuges em crise e aqueles já separados. De todos queremos estar próximos  com o anúncio deste Evangelho da família, desta beleza da família.

Caros amigos, os trabalhos da vossa Plenária possam ser um precioso contributo em vista do próximo Sínodo Extraordinário dos Bispos, que será dedicado às famílias. Também por isso eu  agradeço.  Confio vocês à Santa Família de Nazaré e de coração dou a minha Bênção.