Palavras do Papa antes do Angelus – 29/09/2013

ANGELUS
Praça São Pedro
Domingo, 29 de setembro de 2013

Queridos irmãos e irmãs,

Antes de concluir esta celebração, gostaria de saudar todos vocês e agradecer pela vossa participação, especialmente os catequistas vindos de tantas partes do mundo.

Uma saudação particular dirijo ao meu Irmão Sua Beatitude Youhanna X, Patriarca greco-ortodoxo de Antioquia e de todo o Oriente. A sua presença nos convida a rezar uma vez mais pela paz na Síria e no Oriente Médio.

Saúdo os peregrinos vindos de Assis a cavalo; bem como o Clube Alpino Italiano, no 150º de sua fundação.

Saúdo com afeto os peregrinos de Nicarágua, recordando que os pastores e fiéis desta querida nação celebram com alegria o centenário da fundação canônica da província eclesiástica.

Com alegria recordamos que ontem, na Croácia, foi proclamado Beato Miroslav Bulešić, sacerdote diocesano, morto mártir em 1947. Louvemos ao Senhor, que dá aos desarmados a força do extremo testemunho.

Dirijamo-nos agora a Maria, com a oração do Angelus.

 

Homilia do Papa na Missa pela Jornada dos Catequistas 29/09/2013

HOMILIA
Santa Missa pela Jornada dos Catequistas em ocasião do Ano da Fé
Praça São Pedro
Domingo, 29 de setembro de 2013

1. Ai daqueles que vivem comodamente em Sião e daqueles que vivem tranquilos, … deitados em leitos de marfim (Am 6, 1.4), comem, bebem, cantam, divertem-se e não se preocupam com os problemas dos outros.

Palavras duras estas do profeta Amós, mas que nos advertem para o perigo que todos corremos. O que denuncia este mensageiro de Deus, o que coloca diante dos olhos de seus contemporâneos e também diante dos nossos olhos hoje? O risco de acomodar-se, da comodidade, da mundanidade na vida e no coração, de ter como centro o nosso bem-estar. É a mesma experiência do rico do Evangelho, que vestia roupas de luxo e todo dia dava banquetes abundantes; isto era importante para ele. E o pobre que estava à sua porta e não tinha de que se alimentar? Não era tarefa sua, não o olhava. Se as coisas, o dinheiro, a mundanidade transformam-se o centro da vida, apoderam-nos, nos possuem e nós perdemos a nossa própria identidade de homens: vejam bem, o rico do Evangelho não tem nome, é simplesmente “um rico”. As coisas, aquilo que possui são a sua face, não há outro.

Mas podemos nos perguntar: como isto acontece? Como os homens, talvez também nós, caímos no perigo de fechar-nos, de colocar a nossa segurança nas coisas, que no fim roubam-nos a face, a nossa face humana? Isto acontece quando perdemos a memória de Deus. “Ai daqueles que vivem comodamente em Sião”, dizia o profeta. Se falta a memória de Deus, tudo se nivela, tudo se nivela ao “eu”, sobre o meu bem-estar. A vida, o mundo, os outros, perdem a consistência, não contam mais nada, tudo se reduz a uma só dimensão: o ter. Se perdemos a memória de Deus, também nós perdemos a consistência, também nós nos esvaziamos, perdemos a nossa face como o rico do Evangelho! Quem corre atrás do nada se torna ele mesmo nulidade – diz um outro grande profeta, Jeremias (cfr Jer 2, 5). Nós somos feitos à imagem e semelhança de Deus, não à imagem e semelhança das coisas, dos ídolos!

2. Então, olhando-vos, pergunto-me: quem é o catequista? É aquele que protege e alimenta a memória de Deus; protege-a em si mesmo e a desperta nos outros. É bonito isto: fazer memória de Deus, como a Virgem Maria que, diante da ação maravilhosa de Deus em sua vida, não pensa na honra, no prestígio, nas riquezas, não se fecha em si mesma. Pelo contrário, depois de ter acolhido o anúncio do Anjo e ter concebido o Filho de Deus, o que faz? Parte, vai até a anciã parente Isabel, também esta grávida, para ajudá-la; e no encontro com ela  seu primeiro ato é a memória do agir de Deus, da fidelidade de Deus na sua vida, na história do seu povo, na nossa história: “A minha alma glorifica o Senhor…porque olhou para a humildade da sua serva…de geração em geração a sua misericórdia” (Lc 1, 46. 48. 50). Maria tem memória de Deus.

Neste cântico de Maria há também a memória da sua história pessoal, a história de Deus com ela, a sua própria experiência de fé. E é assim para cada um de nós, para cada cristão: a fé contém propriamente a memória da história de Deus conosco, a memória do encontro com Deus que se move primeiro, que cria e salva, que nos transforma; a fé é memória da sua Palavra que aquece o coração, das suas ações de salvação com a qual nos doa a vida, nos purifica, nos cura, nos alimenta. O catequista é propriamente um cristão que coloca esta memória a serviço do anúncio; não para fazer-se ver, não para falar de si, mas para falar de Deus, do seu amor, da sua fidelidade. Falar e transmitir tudo aquilo que Deus revelou, isso é a doutrina em sua totalidade, sem cortar ou acrescentar.

São Paulo recomenda ao seu discípulo e colaborador Timóteo sobretudo uma coisa: Lembre-se, lembre-se de Jesus Cristo, ressuscitado dos mortos, que eu anuncio e pelo qual sofro (cfr 2 Tm 2, 8-9). Mas o Apóstolo pode dizer isto porque ele primeiro lembrou-se de Cristo, que o chamou quando era perseguidor dos cristãos, tocou-o e transformou-o com a sua graça.

O catequista então é um cristão que leva em si a memória de Deus, deixa-se guiar pela memória de Deus em toda a sua vida, e sabe despertá-la no coração dos outros. É um desafio isto! Desafia toda a vida! O próprio Catecismo o que é senão a memória de Deus, memória da sua ação na história, do ser fazer-se próximo a nós em Cristo, presente na sua Palavra, nos Sacramentos, na sua Igreja, no seu amor? Queridos catequistas, pergunto a vocês: somos nós a memória de Deus? Somos verdadeiramente como sentinelas que despertam nos outros a memória de Deus, que aquece o coração?

3. “Ai daqueles que vivem comodamente em Sião”, diz o profeta. Qual caminho percorrer para não ser pessoas “despreocupadas”, que colocam a sua segurança em si mesmo e nas coisas, mas homens e mulheres da memória de Deus? Na Segunda Leitura, São Paulo, escrevendo sempre a Timóteo, dá algumas indicações que podem sinalizar também o caminho do catequista, o nosso caminho: tender à justiça, à piedade, à fé, à caridade, à paciência, à brandura (cfr 1 Tm 6, 11).

O catequista é homem da memória de Deus se tem uma constante, vital relação com Ele e com o próximo; se é homem de fé, que confia verdadeiramente em Deus e coloca Nele a sua segurança; se é homem de caridade, de amor, que vê todos como irmãos; se é homem de “hypomoné“, de paciência, de perseverança, que sabe enfrentar as dificuldades, as provações, os insucessos, com serenidade e esperança no Senhor; se é homem brando, capaz de compreensão e misericórdia.

Rezemos ao Senhor para que sejamos todos homens e mulheres que protegem e alimentam a memória de Deus na própria vida e sabem despertá-la no coração dos outros. Amém.

Discurso do Papa Francisco aos catequistas – 27/09/2013

Discurso do Papa na Jornada dos Catequistas, por ocasião do Ano da Fé
Sala Paulo XVI, no Vaticano
Sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Queridos catequistas,

Estou feliz que no Ano da Fé haja este encontro para vocês: a catequese é um pilar para a educação da fé, e precisamos de bons catequistas! Obrigada por este serviço à Igreja e na Igreja. Mesmo se às vezes possa ser difícil, trabalha-se tanto, empenha-se e não se veem os resultados desejados, educar na fé é belo! Ajudar as crianças, os rapazes, os jovens, os adultos a conhecer e a amar sempre mais o Senhor é uma das aventuras educativas mais belas, constrói-se a Igreja! “Ser” catequistas! Vejam bem, não disse “fazer” os catequistas, mas “sê-lo”, porque envolve a vida. Conduz-se ao encontro com Jesus com as palavras e com a vida, com o testemunho. E “ser” catequistas requer amor, amor sempre mais forte por Cristo, amor pelo seu povo santo. E este amor, necessariamente, parte de Cristo.

O que significa este partir de Cristo para um catequista, para vocês, também para mim, porque também eu sou um catequista?

1. Primeiro de tudo, partir de Cristo significa ter familiaridade com Ele. Jesus o recomenda com insistência ao discípulos na Última Ceia, quando estava prestes a viver o dom mais alto do amor, o sacrifício da Cruz. Jesus utiliza a imagem da videira e dos ramos e diz: permaneçam no meu amor, permaneçam ligados a mim, como o ramo está ligado à videira. Se somos unidos a Ele, podemos dar frutos, e esta é a familiaridade com Cristo.

A primeira coisa, para um discípulo, é estar com o Mestre, escutá-lo, aprender com Ele. E isto vale sempre, é um caminho que dura toda a vida! Para mim, por exemplo, é muito importante permanecer diante do Tabernáculo; é um estar na presença do Senhor, deixar-se olhar por Ele. E isto aquece o coração, mantém aceso o fogo da amizade, te faz sentir que Ele verdadeiramente te olha, está próximo a você e te quer bem. Entendo que para vocês não é assim simples: especialmente para quem é casado e tem filhos, é difícil encontrar um tempo longo de calma. Mas, graças a Deus, não é necessário fazer tudo do mesmo modo; na Igreja há variedade de vocações e variedade de formas espirituais; o importante é encontrar o modo adequado para estar com o Senhor; e isto se pode, é possível em toda etapa da vida. Neste momento, cada um pode se perguntar: como vivo este “estar” com Jesus? Tenho aqueles momentos em que permaneço na sua presença, em silêncio, deixo-me guiar por Ele? Deixo que o seu fogo aqueça o meu coração? Se no nosso coração não há o calor de Deus, do seu amor, da sua ternura, como podemos nós, pobres pecadores, aquecer os corações dos outros?

2. O segundo elemento é este: partir de Cristo significa imitá-Lo no sair de si e ir ao encontro do outro. Esta é uma experiência bela, e um pouco paradoxal. Por que? Porque quem coloca no centro da própria vida Cristo sai do centro! Mais se une a Jesus e Ele se torna o centro da tua vida, mais Ele te faz sair de ti mesmo, te descentraliza e te abre aos outros. Este é o verdadeiro dinamismo do amor, este é o movimento do próprio Deus! Deus é o centro, mas é sempre doação de si, relação, vida que se comunica… Assim nos tornamos também nós se permanecemos unidos a Cristo, Ele nos faz entrar neste dinamismo do amor. Onde há verdadeira vida em Cristo, há abertura ao outro, há saída de si para ir ao encontro do outro em nome de Cristo.

O coração do catequista vive sempre esse movimento de “sístole – diástole”: união com Jesus, encontro com o outro. Sístole – diástole. Se falta um destes dois movimentos não bate mais, não vive. Recebe como dom o Kerigma, e por sua vez o oferece como dom. É esta a natureza do próprio Kerigma: é um dom que gera missão, que impulsiona sempre para fora de si mesmo. São Paulo dizia: “O amor de Cristo nos impulsiona”, mas este  “nos impulsiona”, pode se traduzir também em “nos possui”. É assim: o amor te atrai e te envia, te toma e te doa aos outros. Nesta tensão se move o coração do cristão, em particular o coração do catequista: união com Jesus e encontro com o outro? Se alimenta no relacionamento com Ele, mas para levá-Lo aos outros? Eu digo uma coisa para vocês: eu não entendo como um catequista pode permanecer parado, sem este movimento.

3. O terceiro elemento está sempre nessa linha: partir de Cristo significa não ter medo de ir com eles às periferias. Me vem à mente a história de Jonas, uma figura verdadeiramente interessante, especialmente nos nosso tempos de mudanças e incertezas. Jonas é um homem piedoso, com um a vida tranquila e organizada, isso o leva a ter os seus esquemas bem claros e a julgar tudo e todos com estes esquemas, de modo rígido. Por isso, quando o Senhor o chama e lhe diz para ir a Nínive, a grande cidade pagã, Jonas não quer ir. Nínive está fora de seus esquemas, é a periferia de seu mundo. E então, ele escapa, foge, embarca em um navio que vai para longe. Releiam o livro de Jonas! É breve, mas é uma palavra muito instrutiva, especialmente para nós que estamos na Igreja.

Que coisa nos ensina? Nos ensina a não ter medo de sair dos nosso esquemas para seguir a Deus, porque Deus vai sempre além, Deus não tem medo das periferias. Deus é sempre fiel e criativo, não é fechado e por isso nunca é rígido, nos acolhe, nos vem ao encontro, nos compreende. Para ser fiel, para ser criativo, é necessário saber mudar. Para permanecer com Deus necessita saber sair, não ter medo de sair. Se um catequista se deixa dominar pelo medo, é um covarde; se um catequista está tranquilo ele acaba sendo uma estátua de museu; se um catequista é rígido se torna encarquilhado  e estéril. Pergunto a vocês: alguém quer ser um covarde, estátua de museu ou estéril?

Mas atenção! Jesus não diz: ide, e se virem. Não! Jesus disse: Ide, eu estou convosco! Essa é a nossa beleza e a nossa força. Se nós partimos, se saímos para levar o seu  Evangelho com amor, com verdadeiro espírito apostólico, com parresia, Ele caminha conosco, nos precede, é o primeiro sempre. Vocês aprenderam o sentido dessa palavra. E isso é fundamental para nós: Deus sempre nos precede! Quando pensamos estar longe, em uma  extrema periferia, e talvez temos um pouco de temor, na verdade Ele já está lá. Jesus nos espera no coração daquele irmão, em sua carne ferida, em sua vida oprimida, em sua alma sem fé. Jesus está ali, naquele irmão. Ele sempre nos precede.

Caros catequistas, digo a vocês obrigado por aquilo que fazem, mas, sobretudo, porque vocês estão na Igreja, no Povo de Deus em caminho. Permaneçamos com Cristo, procuremos ser sempre uma  só coisa com Ele; O sigamos imitando-O em seu movimento de amor, no seu ir ao encontro do homem; e saiamos, abramos as portas, tenhamos a audácia de trilhar novas estradas para o anúncio do Evangelho!

Catequese com o Papa Francisco – 25/09/2013

Catequese com o Papa Francisco - 25/09/2013
CATEQUESE
Praça São Pedro – Vaticano
Quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal

Queridos irmãos e irmãs, bom dia,

No “Credo” nós dizemos “Creio na Igreja, una”, professamos, isso é, que a Igreja é única e esta Igreja é em si mesma unidade. Mas se olhamos para a Igreja Católica no mundo descobrimos que essa compreende quase 3000 dioceses espalhadas em todos os Continentes: tantas línguas, tantas culturas! Aqui há tantos bispos de tantas culturas diferentes, de tantos países. Há o bispo de Sri Lanka, o bispo do Sul da África, um bispo da Índia, há tantos aqui… Bispos da América Latina. A Igreja está espalhada em todo o mundo! No entanto, as milhares de comunidades católicas formam uma unidade. Como pode acontecer isto?

1. Uma resposta sintética encontramos no Catecismo da Igreja Católica, que afirma: a Igreja Católica espalhada no mundo “tem uma só fé, uma só vida sacramental, uma única sucessão apostólica, uma comum esperança, a própria caridade” (n. 161). É uma bela definição, clara, orienta-nos bem. Unidade na fé, na esperança, na caridade, na unidade nos Sacramentos, no Ministério: são como pilastras que sustentam e têm juntos o único grande edifício da Igreja. Aonde quer que vamos, mesmo na menor paróquia, na esquina mais perdida desta terra, há a única Igreja; nós estamos em casa, estamos em família, estamos entre irmãos e irmãs. E este é um grande dom de Deus! A Igreja é uma só para todos. Não há uma Igreja para os europeus, uma para os africanos, uma para os americanos, uma para os asiáticos, uma para os que vivem na Oceania, não, é a mesma em qualquer lugar. É como em uma família: se pode estar distante, espalhado pelo mundo, mas as ligações profundas que unem todos os membros da família permanecem firmes qualquer que seja a distância. Penso, por exemplo, na experiência da Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro: naquela vasta multidão de jovens na praia de Copacabana, ouvia-se falar tantas línguas, viam-se traços da face muito diversificada deles, encontravam-se culturas diferentes, no entanto havia uma profunda unidade, se formava a única Igreja, estava-se unido e se sentia isso. Perguntemo-nos todos: eu, como católico, sinto esta unidade? Eu como católico vivo esta unidade da Igreja? Ou não me interessa, porque estou fechado no meu pequeno grupo ou em mim mesmo? Sou daqueles que “privatizam” a Igreja pelo próprio grupo, a própria nação, os próprios amigos? É triste encontrar uma Igreja “privatizada” pelo egoísmo e pela falta de fé. É triste! Quando ouço que tantos cristãos no mundo sofrem, sou indiferente ou é como se sofresse um da minha família? Quando penso ou ouço dizer que tantos cristãos são perseguidos e dão mesmo a própria vida pela própria fé, isto toca o meu coração ou não chega até mim? Sou aberto àquele irmão ou àquela irmã da minha família que está dando a vida por Jesus Cristo? Rezamos uns pelos outros? Faço uma pergunta a vocês, mas não respondam em voz alta, somente no coração: quantos de vocês rezam pelos cristãos que são perseguidos? Quantos? Cada um responda no coração. Eu rezo por aquele irmão, por aquela irmã que está em dificuldade, para confessar ou defender a sua fé? É importante olhar para fora do próprio recinto, sentir-se Igreja, única família de Deus!

2. Demos um outro passo e perguntemo-nos: há feridas a esta unidade? Podemos ferir esta unidade? Infelizmente, nós vemos que no caminho da história, mesmo agora, nem sempre vivemos a unidade. Às vezes surgem incompreensões, conflitos, tensões, divisões, que a ferem, e então a Igreja não tem a face que queremos, não manifesta a caridade, aquilo que Deus quer. Somos nós que criamos lacerações! E se olhamos para as divisões que ainda existem entre os cristãos, católicos, ortodoxos, protestantes… sentimos o esforço de tornar plenamente visível esta unidade. Deus nos doa a unidade, mas nós mesmos façamos esforço para vivê-la. É preciso procurar, construir a comunhão, educar-nos à comunhão, a superar incompreensões e divisões, começando pela família, pela realidade eclesial, no diálogo ecumênico também. O nosso mundo precisa de unidade, está em uma época na qual todos temos necessidade de unidade, precisamos de reconciliação, de comunhão e a Igreja é Casa de comunhão. São Paulo dizia aos cristãos de Éfeso: “Exorto-vos, pois – prisioneiro que sou pela causa do Senhor – que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (4, 1-3). Humildade, doçura, magnanimidade, amor para conservar a unidade! Estes, estes são os caminhos, os verdadeiros caminhos da Igreja. Ouçamos uma vez mais. Humildade contra a vaidade, contra a soberba, humildade, doçura, magnanimidade, amor para conservar a unidade. E continuava Paulo: um só corpo, aquele de Cristo que recebemos na Eucaristia; um só Espírito, o Espírito Santo que anima e continuamente recria a Igreja; uma só esperança, a vida eterna; uma só fé, um só Batismo, um só Deus, Pai de todos (cfr vv. 4-6). A riqueza daquilo que nos une! E esta é uma verdadeira riqueza: aquilo que nos une, não aquilo que nos divide. Esta é a riqueza da Igreja! Cada um se pergunte: faço crescer a unidade em família, na paróquia, na comunidade, ou sou um fofoqueiro, uma fofoqueira. Sou motivo de divisão, de desconforto? Mas vocês não sabem o mal que fazem à Igreja, às paróquias, às comunidades, as fofocas! Fazem mal! As fofocas ferem. Um cristão antes de fofocar deve morder a língua! Sim ou não? Morder a língua: isto nos fará bem, para que a língua inche e não possa falar e não possa fofocar.  Tenho a humildade de reconstruir com paciência, com sacrifício, as feridas da comunhão?

3. Enfim, o último passo mais em profundidade. E esta é uma bela pergunta: quem é o motor desta unidade da Igreja? É o Espírito Santo que todos nós recebemos no Batismo e também no Sacramento da Crisma. É o Espírito Santo. A nossa unidade não é primeiramente fruto do nosso consenso, ou da democracia dentro da Igreja, ou do nosso esforço de concordar, mas vem Dele que faz a unidade na diversidade, porque o Espírito Santo é harmonia, sempre faz a harmonia na Igreja. É uma unidade harmônica em tanta diversidade de culturas, de línguas e de pensamentos. É o Espírito Santo o motor. Por isto é importante a oração, que é a alma do nosso compromisso de homens e mulheres de comunhão, de unidade. A oração ao Espírito Santo, para que venha e faça a unidade na Igreja.

Peçamos ao Senhor: Senhor, dai-nos sermos sempre mais unidos, não sermos nunca instrumentos de divisão; faz com que nos empenhemos, como diz uma bela oração franciscana, a levar o amor onde há o ódio, a levar o perdão onde há ofensa, a levar a união onde há a discórdia. Assim seja.

Discurso do Papa aos novos bispos – 19/09/2013

Discurso do Papa aos novos bispos - 19/09/2013

DISCURSO
Discurso do Papa Francisco aos participantes de uma reunião para os novos bispos promovido pela Congregação para os Novos Bispos e pela Congregação para as Igrejas Orientais
Sala Clementina do Palácio Apostólico
Quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal e Liliane Borges

O Salmo nos diz: “Eis quanto é bom e quanto é suave que os irmãos vivam juntos” (Sal 132,1).

Penso que vocês tenham experimentado a verdade destas palavras nos dias passados aqui em Roma vivendo uma experiência de fraternidade; fraternidade que é favorecida pela amizade, pelo conhecer-se, pelo estar junto, mas que foi dada sobretudo pelos vínculos sacramentais da comunhão no Colégio episcopal e com o Bispo de Roma. Este formar um “único corpo” orienta-vos no vosso trabalho cotidiano e vos inspira a perguntar-se: como viver o espírito de colegialidade e a colaboração no Episcopado? Como ser construtores de comunhão e de unidade na Igreja que o Senhor me confiou? O bispo é homem de comunhão, é homem de unidade, “visível princípio e fundamento de unidade”! (Vat. II, Lumen gentium, 23).

Queridos amigos no Episcopado, saúdo-vos um a um, bispos latinos e orientais: vocês mostram a grande riqueza e variedade da Igreja! Agradeço ao Cardeal Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos, pela saudação que me dirigiu também em vosso nome e por ter organizado estes dias, no qual vocês são peregrinos junto ao Túmulo de Pedro para reforçar a comunhão e para rezar e refletir sobre o vosso ministério. Com ele saúdo o Cardeal Leonardo Sandri, Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, e o Cardeal Luís Antônio Tagle, arcebispo de Manila, e Dom Lorenzo Baldisseri, incansável trabalhador por estas coisas.

“Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende cuidado dele, não constrangidos, mas espontaneamente; não por amor de interesse sórdido, mas com dedicação; não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos do vosso rebanho” (1 Ped 5, 2). Estas palavras de São Pedro sejam esculpidas no coração! Somos chamados e constituídos Pastores, não Pastores de nós mesmos, mas do Senhor e não para servir nós mesmos, mas o rebanho que nos foi confiado, servi-lo até dar a vida como Cristo, o Bom Pastor (cfr Gv 10,11).

O que significa apascentar, ter “habitual e cotidiano cuidado com o rebanho” (Conc. Ecum Vat. II, Lumen gentium, 27)? Três breves pensamentos. Apascentar significa: acolher com magnanimidade, caminhar com o rebanho, permanecer com o rebanho. Acolher, caminhar, permanecer.

1. Acolher com magnanimidade. O vosso coração seja assim grande para saber acolher todos os homens e as mulheres que encontrarem ao longo dos vossos dias e que vão procurar quando se colocarem em caminho nas vossas paróquias e em cada comunidade. A partir de agora se perguntem: aqueles que baterem à porta da minha casa, como a encontrarão? Se a encontrarem aberta, através da vossa bondade, a vossa disponibilidade, experimentarão a paternidade de Deus e entenderão como a Igreja é boa mãe que sempre acolhe e ama.

2. Caminhar com rebanho. Acolher com magnanimidade, caminhar. Acolher todos para caminhar com todos. O Bipso está em caminho com e no seu rebanho. Isto quer dizer colocar-se a caminho com os próprios fiéis e com todos aqueles que se dirigirão a vocês, partilhar as alegrias e as esperanças, dificuldades e sofrimentos, como irmãos e maigod, mas ainda mais como pais, que sejam capazes de escutar, compreender, ajudar, orientar. O caminhar junto requer amor, e o nosso é um serviço de amor, amoris officium dizia Santo Agostinho. (In Io. Ev. tract. 123, 5: PL 35, 1967).

a.E no caminhar gostaria de recordar o afeto para com os vossos sacerdotes. Os vossos sacerdotes são o primeiro próximo; o sacerdote é o primeiro próximo do Bispo – amem o próximo, mas o primeiro próximo è ele – indispensáveis colaboradores nos quais buscar conselho e auxílio, de quem tomar conta como pai, irmãos e amigos. Entre os primeiros deveres que vocês têm é o acompanhamento espiritual do presbítero, mas não se esqueçam das necessidades humanas de cada sacerdote, sobretudo, nos momentos mais delicados e importantes do ministério e da vida deles. Nunca é tempo perdido aquele passado com os sacerdotes ! Recebê-los quando pedem; não deixar sem resposta uma telefonema. Eu ouvi – não sei se é verdade, mas ouvi tantas vezes em minha vida- dos padres, quando dava exercícios a padres: “Mas! Eu liguei para o bispo e o secretário me disse que ele não tinha tempo para me receber”. E assim era por meses e meses. Não sei se é verdade. Mas se um padre liga para o Bispo, no mesmo dia, ou pelo menos, no dia seguinte, deve telefonar: “Estou ouvindo, o que deseja? Agora não posso recebê-lo, mas vamos encontrar uma data juntos”. Que ele sinta que o pai responde, por favor. Ao contrário, o padre pode pensar: “Mas para ele não importa; este não é pai, mas um chefe de escritório!”. Pensem bem nisso. Seria um belo propósito isso: diante de um telefonema de um padre, se naõ posso no dia, pelo menos no dia seguinte, responder. E depois ver quando é possível encontrá-lo. Estar em contínua proximidade, em contato contínuo com eles.

b. Depois a presença na diocese. Na homlía da Missa do Crisma deste ano eu dizia que os Pastores devem ter o “cheiro das ovelhas”. Sejam pastores com o cheiro das ovelhas, presentes em meio ao vosso povo como Jesus, o Bom Pastor. A vossa presença não é secundária, é indispensável. A presença ! O próprio povo a pede, deseja ver o próprio Bispo caminhar com ele, ser próximo a ele. Disso há necessidade para viver e respirar! Não se fechem ! Desçam em meio aos vossos irmãos, também nas periferias de vossas dioceses e em todas aquelas “periferias existenciais”, onde sofrimento, solidão, degradação humana. Presença pastoral significa caminhar com o Povo de Deus: caminhar na frente, indicando o caminho, indiacando a via; caminhar em meio, para reforçar a unidade; caminhar atrás, para que ninguém fique para trás, mas sobretudo, para seguir a intuição que possui o Povo de Deus para encontrar novas estradas. Um Bispo que vive em meio aos seus fiéis, tem os ouvidos abertos para escutar “aquilo que o Espírito diz a Igreja” (ap 2,7) e a “voz das ovelhas”, também através daqueles organismos diocesanos: conselho presbiteral, os consultores, conselho pastoral, conselho dos negócios econômicos. Isso significa esta com o povo. Esta presença pastoral vos consentirá conhecer a fundo também a cultura, os hábitos, os costumes do território, a riqueza da santidade ali presente. Estar emerso no próprio rebanho !

c.E aqui gostria de acrescentar: o estilo de serviço ao rebanho seja aquele da humildade, diria também, o da austeridade e do essencial. Por favor, nós Pastores não somos homens com a “psicologia dos príncipes” – por favor – homens ambiciosos, que são esposos dessa Igreja, na espera de uma outra mais bela e mais rica. Mas isso é um escândalo! Se surge um penitente e diz: “Eu sou casado, vivo com minha mulher, mas olho continuamente para aquela mulher mais bonita do que a minha, é pecado, padre?” O Evangelho diz: o adultério é pecado. Existe um “adultério espiritual?” Não sei, pensem vocês. Não estar a espera de uma outra mais bonota, mais importante, mais rica. Estejam bem atentos para não cair no espírito do carreirismo ! É um câncer isso! Não é somente com apalavra, mas também com o testemunho concreto de vida que somos mestres e educadores do nosso povo. O anúncio da fé exige conformar a vida com aquilo que se ensina. Missão e vida são inseparáveis (cfr João Paulo II, Pastores gregis, 31). Éum a pergunta para fazer a si mesmo todos os dias: aquilo que vivo corresponde ao que ensino?

3. Acolher, caminhar. E o terceiro e último elemento: permanecer com o rebanho. Me refiro aestabilidade, que há dois aspectos preciso: “permaccer” na diocese, e permanecer “nesta” diocese, como eu disse, sem buscar mudanças e promoções. Não se pode conhecer verdadeiramente como pastor o próprio rebanho, caminhar na frente, em meio e atrás, cuidar com o ensinamento, a administração dos Sacramentos e o testemunho de vida, se não se permanece na diocese. Nisto, Trento é atualíssimo: residência. O nosso é um tempo em que se pode viajar, mover-se de um ponto a outro com facilidade, um tempo no qual os relacionamentos são velozes, a época da Internet. Mas a antiga lei da residência não saiu da moda ! É necessária para o bom governo pastoral (DiretórioApostolorum Successores, 161).

Certo, há um a solicitude por outras Igrejas e pela Igreja Universal que possam exigir de ausentar-se da diocesi, mas seja pelo exato tempo necessário e não um hábito. Vejam, a residência não é um aexigência somente para uma boa organização, não é um elemento funcional; há uma raiz teológica! Sois esposos de vossa comunidade, ligados profundamente a ela! Vos peço, por favor, de permanecer em meio ao vosso povo. Permanecer, permanecer… Evitem o escândalo de serem “Bispos de aeroporto”! Sejam pastores acolhedores, em caminho com o vosso povo, com afeto, com misericórdia, com doçura no trato e firmeza paterna, com humildade e discrição, capazes de enxergar também os vossos limites e ter uma dose de bom humor. Esta é uma graça que nós Bispos devemos pedir. Todos nós devemos pedir essa graça:Senhor, dá-me o senso de humor. Encontrar a via para rir de si mesmo em primeiro lugar, e um pouco das coisas. E permaneçam com o vosso rebanho !

Caros irmãos no episcopado, retornando às vossas dioceses, levem a minha saudação a todos, em particular aos sacerdotes, aos consagrados e as consagradas, aos seminaristas, a todos os fiéis, e a aqueles que tem mais necessidade da presença do Senhor. A presença – como disse o Cardeal Oullet – de dois Bispos sírios, nos impulsiona, mais uma vez, a pedirmos juntos a Deus o dom da paz. Paz para a Síria, paz para o Oriente Médio, paz para o mundo! Por favor, lembrem-se de rezar por mim. Eu rezo por vós. A cada um e às vossas Comunidades, de coração dou a minha bênção. Obrigado !

Mensagem do Papa para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado 2014

Mensagem do Papa para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado 2014

MENSAGEM
Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado – 2014
Terça-feira, 24 de setembro de 2013

“Migrantes e refugiados: rumo a um mundo melhor”

Queridos irmãos e irmãs!

As nossas sociedades estão enfrentando, como nunca antes na história, processos de interdependência mútua e interação em um nível global, que, mesmo incluindo elementos problemáticos ou negativos, se destinam a melhorar as condições de vida da família humana, não só nos aspectos econômicos, mas também nos aspectos políticos e culturais. Cada pessoa, afinal, pertence à humanidade e partilha a esperança de um futuro melhor com toda a família dos povos. A partir dessa constatação, nasce o tema que escolhi para o Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados deste ano: “Os migrantes e refugiados: rumo a um mundo melhor”.

Entre os resultados das mudanças modernas, o fenômeno crescente da mobilidade humana emerge como um “sinal dos tempos”, como o definiu o Papa Bento XVI (cf. Mensagem para o Dia Mundial do migrante e do refugiado de 2006). Se por um lado, as migrações muitas vezes denunciam fragilidades e lacunas nos Estados e na Comunidade internacional, por outro, revelam a aspiração da humanidade de viver a unidade, no respeito às diferenças; de viver o acolhimento e a hospitalidade, que permitem a partilha equitativa dos bens da terra; de viver a proteção e a promoção da dignidade humana e da centralidade de cada ser humano.

Do ponto de vista cristão, como em outras realidades humanas também nos fenômenos migratórios se observa a tensão entre a beleza da criação, marcada pela Graça e pela Redenção, e o mistério do pecado. A solidariedade e o acolhimento, os gestos fraternos e de compreensão, veem-se contrapostos à rejeição, discriminação, aos tráficos de exploração, de dor e de morte. Um motivo de preocupação são, principalmente, as situações em que a migração não só é forçada, mas também realizada através de várias modalidades de tráfico humano e de escravidão. O “trabalho escravo” é hoje uma moeda corrente! No entanto, apesar dos problemas, dos riscos e das dificuldades que devem ser enfrentados, aquilo que anima muitos migrantes e refugiados é o binômio confiança e esperança: eles trazem em seus corações o desejo de um futuro melhor não só para si mesmos, mas também para as suas famílias e para os entes queridos.

O que significa a criação de um “mundo melhor”? Esta expressão não se refere ingenuamente a conceitos abstratos ou a realidades inatingíveis, mas se dirige à busca de um desenvolvimento autêntico e integral, para poder agir de tal modo que haja condições de vida digna para todos, para que se encontrem respostas justas às necessidades dos indivíduos e das famílias, para que seja respeitada, preservada e cultivada a criação que Deus nos deu. O Venerável Papa Paulo VI descrevia com estas palavras as aspirações dos homens de hoje: «ser liberado da pobreza, ter garantido de um modo seguro o próprio sustento, a saúde, o emprego estável, ter uma maior participação nas responsabilidades, fora de qualquer opressão e ao protegido de condições que ofendem a dignidade humana; poder desfrutar de uma educação melhor; em uma palavra, fazer conhecer e ter mais, para ser mais “(Encíclica Populorum Progressio, 26 de março de 1967, n. 6).

O nosso coração quer um “mais” que não seja simplesmente conhecer mais ou ter mais, mas que seja essencialmente um ser mais. Não se pode reduzir o desenvolvimento a um mero crescimento econômico, alcançado, muitas vezes, sem tem em conta os mais fracos e indefesos. O mundo só pode melhorar se a atenção é dirigida, em primeiro lugar, à pessoa; se a promoção da pessoa é integral, em todas as suas dimensões, inclusive a espiritual; se não se deixa ninguém de lado, incluindo os pobres, os doentes, os encarcerados, os necessitados, os estrangeiros (cf. Mt 25, 31-46); caso se passe de uma cultura do descartável para uma cultura do encontro e do acolhimento.

Os migrantes e refugiados não são peões no tabuleiro de xadrez da humanidade. Trata-se de crianças, mulheres e homens que deixam ou são forçados a abandonar suas casas por vários motivos, que compartilham o mesmo desejo legítimo de conhecer, de ter, mas, acima de tudo, de ser mais. É impressionante o número de pessoas que migram de um continente para outro, bem como aqueles que se deslocam dentro de seus próprios países e áreas geográficas. Os fluxos migratórios contemporâneos são o maior movimento de pessoas, se não de povos, de todos os tempos. No caminho, ao lado dos migrantes e refugiados, a Igreja se esforça para compreender as causas que estão na origem das migrações, mas também se esforça no trabalho para superar os efeitos negativos e aumentar os impactos positivos nas comunidades de origem, de trânsito e de destino dos fluxos migratórios.

Infelizmente, enquanto incentivamos o desenvolvimento em vista de um mundo melhor, não podemos silenciar o escândalo da pobreza nas suas várias dimensões. Violência, exploração, discriminação, marginalização, abordagens restritivas às liberdades fundamentais, tanto para o indivíduo quanto para grupos, são alguns dos principais elementos da pobreza que devem ser superados. Muitas vezes, são justamente esses aspectos que caracterizam os movimentos migratórios, ligando migração e pobreza. Fugindo de situações de miséria ou de perseguição em vista de melhores perspectivas ou para salvar a sua vida, milhões de pessoas embarcam no caminho da migração e, enquanto esperam encontrar a satisfação das expectativas, muitas vezes o que encontram é suspeita, fechamento e exclusão; quando não são golpeados por outros infortúnios, muitas vezes, mais graves e que ferem a sua dignidade humana.

A realidade das migrações, com as dimensões que assume na nossa época de globalização, precisa ser tratada e gerida de uma maneira nova, justa e eficaz, o que exige, acima de tudo, uma cooperação internacional e um espírito de profunda solidariedade e compaixão. É importante a colaboração em vários níveis, com a adoção unânime de instrumentos de regulamentação para proteger e promover a pessoa humana. O Papa Bento XVI nos traçou as coordenadas, afirmando que «esta política há de ser desenvolvida a partir de uma estreita colaboração entre os países donde partem os emigrantes e os países de chegada; há de ser acompanhada por adequadas normativas internacionais capazes de harmonizar os diversos sistemas legislativos, na perspectiva de salvaguardar as exigências e os direitos das pessoas e das famílias emigradas e, ao mesmo tempo, os das sociedades de chegada dos próprios emigrantes» (Carta Encíclica Caritas in veritate, 19 de Junho de 2009, 62). Trabalhar juntos por um mundo melhor requer a ajuda mútua entre os países, com abertura e confiança, sem levantar barreiras intransponíveis. Uma boa sinergia pode ser um incentivo para os governantes enfrentarem os desequilíbrios socioeconômicos e uma globalização sem regras, que se encontram entre as causas das migrações em que as pessoas são mais vítimas do que protagonistas. Nenhum país pode enfrentar sozinho as dificuldades associadas a esse fenômeno que, sendo tão amplo, já afeta todos os Continentes com o seu duplo movimento de imigração e emigração.

É também importante ressaltar como essa colaboração já começa com o esforço que cada país deveria fazer para criar melhores condições econômicas e sociais no seu próprio território, para que a emigração não seja a única opção para aqueles que buscam a paz, a justiça, a segurança e o pleno respeito da dignidade humana. Criar oportunidades de emprego nas economias locais impediria, para além do mais, a separação das famílias e garantiria condições de estabilidade e de serenidade para os indivíduos e comunidades.

Finalmente, olhando para a realidade dos migrantes e refugiados, há um terceiro elemento que eu gostaria de destacar neste caminho de construção de um mundo melhor: a superação de preconceitos e de pré-compreensões, ao considerar a migração. De fato, não é raro que a chegada de migrantes, prófugos, requerentes de asilo e refugiados desperte desconfiança e hostilidade nas populações locais. Surge o medo que se produzam perturbações na segurança social, que se corra o risco de perder a identidade e a cultura, que se alimente a concorrência no mercado de trabalho ou, ainda, que se introduzam novos fatores de criminalidade. Os meios de comunicação social, neste campo, têm um papel de grande responsabilidade: cabe a eles, de fato, desmascarar estereótipos e fornecer informações corretas, o que significará denunciar o erro de alguns, mas também descrever a honestidade, a retidão e a magnanimidade da maioria. Para isso, é preciso que todos mudem a atitude em relação aos migrantes e refugiados; é necessário passar de uma atitude de defesa e de medo, de desinteresse ou de marginalização – que, no final, corresponde precisamente à “cultura do descartável” – para uma atitude que tem por base a “cultura do encontro”, a única capaz de construir um mundo mais justo e fraterno, um mundo melhor. Os meios de comunicação também são chamados a entrar nesta “conversão de atitudes” e a incentivar esta mudança de comportamento em relação aos imigrantes e refugiados.

Penso como também a Sagrada Família de Nazaré teve que viver a experiência de rejeição no início do seu caminho: Maria «deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura, porque não havia lugar na hospedaria» (Lc 2,7). Além disso, Jesus, Maria e José experimentaram o que significa deixar sua terra natal e ser migrantes: ameaçados pela sede de poder de Herodes, foram forçados a fugir e buscar refúgio no Egito (cf. Mt 2,13-14). Mas o coração materno de Maria e o coração zeloso de José, Protetor da Sagrada Família, sempre mantiveram a confiança de que Deus nunca abandona. Pela intercessão deles possa ser sempre firme no coração do migrante e do refugiado esta mesma certeza.

A Igreja, respondendo ao mandato de Cristo: «Ide e fazei discípulos entre todos as nações», é chamada a ser o Povo de Deus que abraça todos os povos, e leva a todos os povos o anúncio do Evangelho, pois no rosto de cada pessoa está estampado o rosto de Cristo! Eis a raiz mais profunda da dignidade do ser humano que deve ser sempre respeitada e protegida. Não são os critérios de eficiência, produtividade, de classe social, de pertença étnica ou religiosa que fundamentam a dignidade da pessoa, mas sim o fato de ser criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-27), e, ainda mais, o fato de ser filhos de Deus; todo ser humano é um filho de Deus! Nele está impressa a imagem de Cristo! Trata-se, então, de o vermos, nós, em primeiro lugar, e de ajudar os outros a verem no migrante e no refugiado não só um problema para lidar, mas um irmão e uma irmã a serem acolhidos, respeitados e amados; trata-se de uma oportunidade que a Providência nos oferece para contribuir na construção de uma sociedade mais justa, de uma democracia mais completa, de um país mais inclusivo, de um mundo mais fraterno e de uma comunidade cristã mais aberta, de acordo com o Evangelho. As migrações podem criar possibilidades para a nova evangelização; abrir espaços para o crescimento de uma nova humanidade, preanunciada no mistério pascal: uma humanidade em que toda terra estrangeira é uma pátria, e em que toda pátria é uma terra estrangeira.

Queridos migrantes e refugiados! Não percais a esperança de que também a vós está reservado um futuro mais seguro; Que possais encontrar em vossos caminhos uma mão estendida; que vos seja permitido experimentar a solidariedade fraterna e o calor da amizade! Para todos vós e para aqueles que dedicam suas vidas e suas energias ao vosso lado eu prometo a minha oração e concedo de coração a minha Bênção Apostólica.

Cidade do Vaticano, 05 de agosto de 2013

FRANCISCO

Angelus com o Papa em Cagliari – 22/09/2013

Angelus com o Papa em Cagliari - 22/09/2013

Visita Pastoral a Cagliari – Itália
Angelus
Praça em frente ao Santuário de Nossa Senhora da Candelária
Domingo, 22 de setembro de 2013

Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal

Queridos irmãos e irmãs,

Antes de concluir esta celebração, saúdo-vos com afeto, em particular os meus irmãos bispos da Sardenha, a quem agradeço. Aqui, aos pés de Nossa Senhora, gostaria de agradecer todos e cada um de vocês, queridos fiéis, os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, as autoridades e de modo especial todos os que colaboraram para organizar esta visita. Sobretudo quero confiar-vos à Maria, Nossa Senhora da Candelária. Mas neste momento penso em todos os numerosos santuários marianos da Sardenha: a vossa terra tem uma ligação forte com Maria, uma ligação que vocês exprimem na vossa devoção e na vossa cultura. Sejam sempre verdadeiros filhos de Maria e da Igreja, e o demonstrem com a vossa vida, seguindo o exemplo dos santos!

A este propósito, recordamos que ontem, em Bergamo, foi proclamado Beato Tommaso Acerbis da Olera, frade Capuchinho, que viveu entre os séculos XVI e XVII. Demos graças por este testemunho de humildade e da caridade de Cristo!

Agora recitamos juntos a oração do Angelus.

Palavras finais

Desejo-vos um bom domingo e um bom almoço!