Catequese do Papa – Como falar de Deus no mundo hoje – 28/11/2012


CATEQUESE
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Caros irmãos e irmãs,

A pergunta central que hoje nos fazemos é a seguinte: como falar de Deus no nosso tempo? Como comunicar o Evangelho, para abrir estradas na sua verdade salvífica nos corações sempre fechado dos nossos contemporâneos e na mente deles tantas vezes distraídas por tantos estímulos da sociedade? O próprio Jesus, dizem-nos os Evangelistas, no anunciar do Reino de Deus se perguntou sobre isto: “A que podemos comparar o reino de Deus e com que parábola podemos descrevê-lo?” (Mc 4,30). Como falar de Deus hoje? A primeira resposta é que nós podemos falar de Deus, porque Ele falou conosco. A primeira condição para falar de Deus é também a escuta de quanto disse o próprio Deus. Deus falou conosco! Deus não é uma hipótese distante sobre a origem do mundo; não é uma inteligência matemática muito distante de nós. Deus se interessa por nós, nos ama, entrou pessoalmente na realidade da nossa história, se auto-comunicou até encarnar-se. Então, Deus é uma realidade da nossa vida, é tão grande que tem também tempo para nós, ocupa-se de nós. Em Jesus de Nazaré nós encontramos a face de Deus, que desceu do seu Céu para imergir-se no mundo dos homens, no nosso mundo, e ensinar a “arte de viver”, o caminho da felicidade; para libertar-nos do pecado e tornar-nos filhos de Deus (cfr Ef 1,5; Rm 8,14). Jesus veio para salvar-nos e mostrar-nos a vida boa do Evangelho.

Falar de Deus quer dizer antes de tudo ter bem claro isso que devemos levar aos homens e às mulheres do nosso tempo: não um Deus abstrato, uma hipótese, mas um Deus concreto, um Deus que existe, que entrou na história e está presente na história; o Deus de Jesus Cristo como resposta à pergunta fundamental do porquê e do como viver. Por isto, falar de Deus requer uma familiaridade com Jesus e o seu Evangelho, pressupõe uma nossa pessoal e real consciência de Deus e uma forte paixão pelo seu projeto de salvação, sem ceder à tentação do sucesso, mas seguindo o método do próprio Deus. O método de Deus é aquele da humildade – Deus se faz um de nós – é o método realizado na Encarnação na simples casa de Nazaré e na gruta de Belém, aquela da parábola do grão de mostarda. Não devemos temer a humildade dos pequenos passos e confiar no fermento que penetra na massa e lentamente a faz crescer (cfr Mt 13,33). No falar de Deus, na obra de evangelização, sob a orientação do Espírito Santo, é necessária uma recuperação da simplicidade, um retornar ao essencial do anúncio: a Boa Notícia de um Deus que é real e concreto, um Deus que se interessa por nós, um Deus-Amor que se faz próximo de nós em Jesus Cristo até a Cruz e que na Ressurreição nos doa a esperança e nos abre a uma vida que não tem fim, a vida eterna, a vida verdadeira. Aquele excepcional comunicador que foi o apóstolo Paulo nos oferece uma lição que vai direto ao centro da fé do problema “como falar de Deus” com grande simplicidade. Na Primeira Carta aos Coríntios escreve: “Quando cheguei no meio de vós, não me apresentei para anunciar o mistério de Deus com excelência da palavra ou de sabedoria. Decidi, na verdade, não dever saber coisa alguma no meio de vós senão Jesus Cristo, e Cristo crucificado” (2,1-2). Então a primeira realidade é que Paulo não fala de uma filosofia que ele desenvolveu, não fala de ideais que encontrou em qualquer lugar ou inventou, mas fala de uma realidade da sua vida, fala do Deus que entrou na sua vida, fala de um Deus real que vive, falou com ele e falará conosco, fala de Cristo crucificado e ressuscitado. A segunda realidade é que Paulo não busca a si mesmo, não quer criar um time de admiradores, não quer entrar na história como chefe de uma escola de grande conhecimento, não busca a si próprio, mas São Paulo anuncia Cristo e quer ganhar as pessoas para o Deus verdadeiro e real. Paulo fala somente com o desejo de querer pregar aquilo que entrou na sua vida e que é a verdadeira vida, que o conquistou no caminho para Damasco. Então, falar de Deus quer dizer dar espaço Àquele que se faz conhecer, que nos revela a sua face de amor, quer dizer expropriar o próprio eu oferecendo-o a Cristo, na consciência de que não somos nós a poder ganhar os outros para Deus, mas devemos conhecê-los pelo próprio Deus, para invocá-lo. O falar de Deus nasce também da escuta, do nosso conhecimento de Deus que se realiza na familiaridade com Ele, na vida da oração e segundo os Mandamentos.

Comunicar a fé, para São Paulo, não significa trazer a si mesmo, mas dizer abertamente e publicamente aquilo que viu e sentiu no encontro com Cristo, quanto experimentou na sua existência ora transformada pelo encontro: é trazer aquele Jesus que sente presente em si mesmo e tornou-se o verdadeiro sentido da sua vida, para fazer entender a todos que Ele é necessário para o mundo e é decisivo para a liberdade de cada homem. O Apóstolo não se contenta de proclamar as palavras, mas envolve toda a própria existência na grande obra da fé. Para falar de Deus, é preciso dar-lhe espaço, na confiança de que é Ele que age na nossa fraqueza: dar-lhe espaço sem medo, com simplicidade e alegria, na convicção profunda de que quanto mais colocamos no centro Ele e não nós, mais a nossa comunicação será frutífera. E isto vale também para a comunidade cristã: esses são chamados a mostrar a ação transformadora da graça de Deus, superando individualismos, fechamento, egoísmos, indiferença e vivendo na relação cotidiana o amor de Deus. Perguntemo-nos se são realmente assim as nossas comunidades. Devemos colocar-nos de modo a tornar-nos sempre e realmente assim, anunciadores de Cristo e não de nós mesmos.

Neste ponto, devemos perguntar-nos como comunicava o próprio Jesus. Jesus na sua singularidade fala de seu Pai – Abbá – e do Reino de Deus, com o olhar repleto de compaixão pelos inconvenientes e dificuldades da existência humana. Fala com grande realismo e, direi, o essencial do anúncio de Jesus é que torna transparente o mundo e a nossa vida vale para Deus. Jesus mostra que no mundo e na criação aparece a face de Deus e nos mostra como nas histórias cotidianas da nossa vida Deus está presente. Seja nas parábolas da natureza, o grão de mostarda, o campo com diversas sementes, ou na nossa vida, pensamos na parábola do filho pródigo, de Lázaro e em outras parábolas de Jesus. Dos Evangelhos vemos como Jesus se interessa por cada situação humana que encontra, se emerge na realidade dos homens e das mulheres do seu tempo, com uma confiança plena na ajuda do Pai. E que realmente nesta história, secretamente, Deus está presente e se estamos atentos podemos encontrá-Lo. E os discípulos, que vivem com Jesus, as multidões que O encontram, veem a sua reação aos problemas mais absurdos, veem como fala, como se comporta; veem Nele a ação do Espírito Santo, a ação de Deus. Nele anúncio e vida se entrelaçam: Jesus age e ensina, partindo sempre de um íntimo relacionamento com Deus Pai. Este estilo torna-se um indício essencial para nós cristãos: o nosso modo de viver na fé e na caridade torna-se um falar com de Deus no hoje, porque mostra com uma existência vivida em Cristo a credibilidade, o realismo, daquilo que dizemos com as palavras, que não são somente palavras, mas mostram a realidade, a verdadeira realidade. E nisso devemos estar atentos para entender os sinais dos tempos na nossa época, isto é, para identificar os potenciais, os desejos, os obstáculos que se encontram na cultura atual, em particular o desejo de autenticidade, o anseio de transcendência, a sensibilidade para a salvaguarda da criação, e comunicar sem temor a resposta que oferece a fé em Deus. O Ano da Fé é ocasião para descobrir, com a fantasia animada pelo Espírito Santo, novos caminhos em nível pessoal e comunitário, a fim de que em cada lugar a força do Evangelho seja sabedoria de vida e orientação da existência.

Também no nosso tempo, um lugar privilegiado para falar de Deus é a família, a primeira escola para comunicar a fé às novas gerações. O Concílio Vaticano II fala dos pais como os primeiros mensageiros de Deus (cfr Cost. dogm. Lumen gentium, 11; Decr. Apostolicam actuositatem, 11), chamados a redescobrir esta sua missão, assumindo a responsabilidade no educar, no abrir a consciência dos pequenos ao amor de Deus como um serviço fundamental às suas vidas, no ser os primeiros catequistas e mestres da fé para seus filhos. E nesta tarefa é importante antes de tudo a vigilância, que significa saber entender as ocasiões favoráveis para introduzir na família o discurso de fé e para fazer amadurecer uma reflexão crítica a respeito dos numerosos condicionamentos aos quais são submetidos os filhos. Esta atenção dos pais é também sensibilidade em reconhecer as possíveis questões religiosas nas mentes dos filhos, às vezes evidentes, às vezes secretas. Depois, a alegria: a comunicação da fé deve sempre ter uma totalidade de alegria. É a alegria pascal, que não omite ou esconde a realidade da dor, do sofrimento, do cansaço, da dificuldade, da incompreensão e da própria morte, mas sabe oferecer os critérios para interpretar tudo na perspectiva da esperança cristã. A vida boa do Evangelho é mesmo este olhar novo, esta capacidade de ver com os próprios olhos de Deus cada situação. É importante ajudar todos os membros da família a compreender que a fé não é um peso, mas uma fonte de alegria profunda, é perceber a ação de Deus, reconhecer a presença do bem, que não faz barulho; e oferece orientações  preciosas para viver bem a própria existência. Enfim, a capacidade de escuta e de diálogo: a família deve ser um ambiente onde se aprende a estar junto, a conciliar os conflitos no diálogo recíproco, que é feito de escuta e de palavra, a compreender-se e a amar-se, para ser um sinal, um para o outro, do amor misericordioso de Deus.

Falar de Deus, então, quer dizer fazer compreender com a palavra e com a vida que Deus não é o concorrente da nossa existência, mas sim é o seu verdadeiro assegurador, a garantia da grandeza da pessoa humana. Assim, retornamos ao início: falar de Deus é comunicar, com força e simplicidade, com a palavra e com a vida, isso que é essencial: o Deus de Jesus Cristo, aquele Deus que nos mostrou um amor tão grande a ponto de encarnar-se, morrer e ressurgir para nós; aquele Deus que pede para segui-Lo e deixar-se transformar pelo seu imenso amor para renovar a nossa vida e as nossas relações; aquele Deus que nos doou a Igreja, para caminhar juntos e, através da Palavra e dos Sacramentos, renovar a inteira Cidade dos homens, a fim de que possa tornar-se Cidade de Deus.

Discurso do Papa aos novos Cardeais – 26/11/2012


DISCURSO
Audiência com os novos Cardeais, familiares e fiéis vindos para o Consistório
Sala Paulo VI – Vaticano
Segunda-feira, 26 de novembro de 2012

 

Senhores Cardeais,
Caros irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos amigos!

Com alma grata ao senhor, queremos hoje prolongar os sentimentos e as emoções que vivemos ontem e anteontem, por ocasião da criação de seis novos Cardeais. Foram momentos de intensa oração e de profunda comunhão, vividos na consciência de um evento que diz respeito à Igreja universal, chamada a ser sinal de esperança para todos os povos. Portanto tenho o prazer de acolher-vos também no dia de hoje, neste encontro simples e familiar e de dirigir a minha cordial saudação aos novos purpurados, como também ao seus parentes, amigos e a quantos lhes acompanham nesta circunstância tão solene e importante.

Dirijo uma cordial saudação aos prelados de língua Inglesa a quem tive a alegria de elevar à dignidade de Cardeal no Consistório de sábado passado: o Cardeal James Michael Harvey, arcipreste da Basílica Papal de São Paulo Fora dos Muros, Cardeal Baselios Cleemis Thottunkal, arcebispo maior de Trivandrum dos Siro-Malankaras (Índia), Cardeal John Olorunfemi Onaiyekan, arcebispo de Abuja (Nigéria), e Cardeal Luis Antonio Tagle, arcebispo de Manila (Filipinas).

Eu também dou as boas vindas para os membros de suas famílias e amigos, e a todos os fiéis que os acompanham aqui hoje.

O Colégio de Cardeais, cuja origem está ligada ao clero antigo da Igreja Romana, tem a função de eleger o Sucessor de Pedro e aconselhá-lo em questões de maior importância. Seja nos escritórios da Cúria Romana ou em seus ministérios nas Igrejas locais em todo o mundo, os Cardeais são chamados a partilhar de modo especial na solicitude do Papa para com a Igreja universal. A cor viva de suas vestes tem sido tradicionalmente vista como um sinal de seu compromisso de defender o rebanho de Cristo até o derramamento de seu sangue. Como os novos Cardeais assumem o encargo de escritório, estou confiante de que eles serão apoiados pelas suas orações e assistência enquanto se esforçam com o Pontífice Romano para promover em todo o mundo a santidade, a comunhão e paz da Igreja.

Saudo cordialmente os peregrinos franceses e, sobretudo, os Libaneses, na alegre lembrança de minha recente visita apostólica ao seu país, motivada antes de tudo pela assinatura da Exortação Apostólica Pós Sinodal Ecclesia in Medio Oriente. Através do cardinatodo patriarca Boutros Raï,desejo encorajar particularmente a vida e a presença dos cristãos no Médio Oriente onde eles devem poder viver livremente sua fé, e lançar novamente o apelo apressando a paz na região. A Igreja encoraja todo esforço em vista da paz no mundo e no Medio Oriente, paz que só será efetiva se baseada no autêntico respeito do outro. Possa o tempo do Advento, que está à nossa porta, nos fazer descobrir a grandeza do Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, vindo ao mundo para salvar o homem e trazer a paz e a reconciliação! Boa peregrinação a todos!

Saúdo com vivo afeto o Cardeal Rubén Salazar Goméz, arcebispo metropolitano de Bogotá e presidente da Conferência Episcopal da Colômbia, e aos familiares, bispos, sacerdotes, religiosos e leigos que o acompanham e participam de sua alegria íntima e espiritual ao ser incorporado ao Colégio Cardinalício. Convido todos a elevar orações fervorosas pelo novo purpurado, para que esteja cada vez mais unido ao Sucessor de Pedro e colabore incansavelmente com a Sé Apostólica. Peçamos a Deus igualmente que o ajude com seus dons, para que siga sento testemunha da verdade do Evangelho da salvação, expondo justamente e com fidelidade seu conteúdo e levando a todos a força redentora de Cristo.  Que Maria Santíssima, que naquelas nobres terras se invoca com o doce nome de Nossa Senhora do Rosário de Chiquinquirá, o sustente sempre com seu amor de Mãe, assim como a todos os queridos filhos e filhas da Colômbia, a quem tenho muito presentes em meu coração e oração, para que avancem na paz e concórdia pelos caminhos da justiça, da reconciliação e da solidariedade.

Queridos e venerados Irmãos que começaram a fazer parte do Colégio cardinalício! O vosso ministério se reforça com um novo empenho no apoiar o Sucessor de Pedro, no seu serviço universal à Igreja. Portanto, enquanto renovo a cada um de vós meus votos mais cordiais, confio no apoio da vossa oração e na vossa preciosa ajuda. Prossigam confiantes e fortes na vossa missão espiritual e apostólica, mantendo fixo o olhar sobre Cristo e fortalecendo o vosso amor pela sua Igreja. Este amor o podemos aprender também com os Santos, que são a realização mais plena da Igreja: esses a amaram e, deixando-se moldar por Cristo, gastaram totalmente as suas vidas para que todos os homens sejam iluminados pela luz de Cristo que resplandece na face da Igreja (Conc. Ecum. Vat. II, Cost. dogm. Lumen gentium, 1). Invoco sobre vós e sobre os presentes a materna proteção da Virgem Maria, Mãe da Igreja, e de coração concedo a vós e a todos os presentes uma especial Benção Apostólica.

Homilia do Papa na Solenidade de Cristo Rei – 25/11/2012

HOMILIA
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo
Basílica Vaticana
Domingo, 25 de novembro de 2012

Senhores Cardeais,
Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Amados irmãos e irmãs!

A solenidade de Jesus Cristo Rei do universo, que hoje coroa o Ano Litúrgico, vê-se enriquecida com a recepção no Colégio Cardinalício de seis novos membros, que convidei, como é tradição, para concelebrar comigo a Eucaristia nesta manhã. A cada um deles dirijo a minha saudação mais cordial, agradecendo ao Cardeal James Michael Harvey as amáveis palavras que em nome de todos me dirigiu. Saúdo os outros Purpurados e todos os Prelados presentes, bem como as ilustres Autoridades, os Senhores Embaixadores, os sacerdotes, os religiosos e todos os fiéis, especialmente quantos vieram das dioceses que estão confiadas ao cuidado pastoral dos novos Cardeais.

Neste último domingo do Ano Litúrgico, a Igreja convida-nos a celebrar Jesus Cristo como Rei do universo; chama-nos a dirigir o olhar em direção ao futuro, ou melhor em profundidade, para a meta última da história, que será o reino definitivo e eterno de Cristo. Estava com o Pai no início, quando o mundo foi criado, e manifestará plenamente o seu domínio no fim dos tempos, quando julgar todos os homens. As três leituras de hoje falam-nos desse reino. No texto evangélico que ouvimos, tirado do Evangelho de São João, Jesus encontra-Se numa situação humilhante – a de acusado – diante do poder romano. Foi preso, insultado, escarnecido, e agora os seus inimigos esperam obter a sua condenação ao suplício da cruz. Apresentaram-No a Pilatos como alguém que aspira ao poder político, como o pretenso rei dos judeus. O procurador romano faz a própria investigação e interroga Jesus: “Tu és rei dos judeus?” (Jo 18, 33). Na resposta a esta pergunta, Jesus esclarece a natureza do seu reino e da própria messianidade, que não é poder terreno, mas amor que serve; afirma que o seu reino de modo algum se confunde com qualquer reino político: “A minha realeza não é deste mundo (…) o meu reino não é de cá” (v. 36).

É claro que Jesus não tem nenhuma ambição política. Depois da multiplicação dos pães, o povo, entusiasmado com o milagre, queria pegar n’Ele e fazê-Lo rei, para derrubar o poder romano e assim estabelecer um novo reino político, que seria considerado como o reino de Deus tão esperado. Mas Jesus sabe que o reino de Deus é de gênero totalmente diverso; não se baseia sobre as armas e a violência. E é justamente a multiplicação dos pães que se torna, por um lado, sinal da sua messianidade, mas, por outro, assinala uma viragem decisiva na sua atividade: a partir daquele momento aparece cada vez mais claro o caminho para a Cruz; nesta, no supremo ato de amor, resplandecerá o reino prometido, o reino de Deus. Mas a multidão não entende, fica decepcionada, e Jesus retira-Se para o monte sozinho para rezar, para falar com o Pai (cf. Jo 6, 1-15). Na narração da Paixão, vemos como os próprios discípulos, apesar de terem partilhado a vida com Jesus e ouvido as suas palavras, pensavam em um reino político, instaurado mesmo com o uso da força. No Getsêmani, Pedro desembainhara a sua espada e começou a combater, mas Jesus deteve-o (cf. Jo 18, 10-11); não quer ser defendido com as armas, mas deseja cumprir a vontade do Pai até ao fim e estabelecer o seu reino, não com as armas e a violência, mas com a aparente fragilidade do amor que dá a vida. O reino de Deus é um reino completamente diferente dos reinos terrenos.

Por isso, diante de um homem indefeso, frágil, humilhado como se apresenta Jesus, um homem de poder como Pilatos fica surpreendido – surpreendido, porque ouve falar de um reino, de servidores – e faz uma pergunta, a seu ver paradoxal: “Logo, Tu és rei!”. Que tipo de rei pode ser um homem naquelas condições!? Mas Jesus responde afirmativamente: “É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz” (18, 37). Jesus fala de rei, de reino, referindo-Se não ao domínio mas à verdade. Pilatos não entende: poderá haver um poder que não se obtenha com meios humanos? Um poder que não corresponda à lógica do domínio e da força? Jesus veio para revelar e trazer uma nova realeza: a realeza de Deus. Veio para dar testemunho da verdade de um Deus que é amor (cf. 1 Jo 4, 8.16) e que deseja estabelecer um reino de justiça, de amor e de paz (cf. Prefácio). Quem está aberto ao amor, escuta este testemunho e acolhe-o com fé, para entrar no reino de Deus.

Encontramos esta perspectiva na primeira leitura que ouvimos. O profeta Daniel prediz o poder de um personagem misterioso colocado entre o céu e a terra: “Vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser semelhante a um filho de homem. Avançou até ao Ancião, diante do qual o conduziram. Foram-lhe dadas as soberanias, a glória e a realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de todas as línguas o serviram. O seu império é um império eterno que não passará jamais, e o seu reino nunca será destruído” (7, 13-14). São palavras que prevêem um rei que domina de mar a mar até aos confins da terra, com um poder absoluto, que nunca será destruído. Esta visão do profeta, uma visão messiânica, é esclarecida e realiza-se em Cristo: o poder do verdadeiro Messias – poder que não mais desaparece e nunca será destruído – não é o poder dos reinos da terra que surgem e caem, mas o poder da verdade e do amor. Assim entendemos como a realeza, anunciada por Jesus nas parábolas e revelada aberta e explicitamente diante do Procurador romano, é a realeza da verdade, a única que dá a todas as coisas a sua luz e grandeza.

Na segunda leitura, o autor do Apocalipse afirma que também nós participamos na realeza de Cristo. Na aclamação dirigida “Àquele que nos ama e nos purificou dos nossos pecados com o seu sangue”, declara que Ele “fez de nós um reino, sacerdotes para Deus e seu Pai” (1, 5-6). Aqui está claro também que se trata de um reino fundado na relação com Deus, com a verdade, e não de um reino político. Com o seu sacrifício, Jesus abriu-nos a estrada para uma relação profunda com Deus: n’Ele tornamo-nos verdadeiros filhos adotivos, participando assim da sua realeza sobre o mundo. Portanto, ser discípulos de Jesus significa não se deixar fascinar pela lógica mundana do poder, mas levar ao mundo a luz da verdade e do amor de Deus. Depois o autor do Apocalipse estende o olhar até à segunda vinda de Jesus – quando Ele voltar para julgar os homens e estabelecer para sempre o reino divino – e recorda-nos que a conversão, como resposta à graça divina, é a condição para a instauração desse reino (cf. 1, 7). É um vigoroso convite dirigido a todos e cada um: converter-se sem cessar ao reino de Deus, ao domínio de Deus, da Verdade, na nossa vida. Pedimo-lo diariamente na oração do “Pai nosso” com as palavras “Venha a nós o vosso reino”, que equivale a dizer a Jesus: Senhor, fazei que sejamos vossos, vivei em nós, reuni a humanidade dispersa e atribulada, para que em Vós tudo se submeta ao Pai da misericórdia e do amor.

A vós, amados e venerados Irmãos Cardeais – penso de modo particular àqueles que foram criados ontem –, se confia esta responsabilidade impelente: dar testemunho do reino de Deus, da verdade. Isso significa fazer sobressair sempre a prioridade de Deus e da sua vontade face aos interesses do mundo e dos seus poderes. Fazei-vos imitadores de Jesus, que diante de Pilatos, na situação humilhante descrita pelo Evangelho, manifestou a sua glória: a glória de amar até ao fim, dando a própria vida pelas pessoas amadas. Esta é a revelação do reino de Jesus. E por isso, com um só coração e uma só alma, rezemos: “Adveniat regnum tuum”. Amen.

Catequese de Bento XVI – Racionalidade da fé em Deus – 21/11/2012


CATEQUESE
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Queridos irmãos e irmãs,

Avançamos neste Ano da Fé, trazendo em nosso coração a esperança de redescobrir quanta alegria tem no crer e de reencontrar o entusiasmo de comunicar a todos a verdade da fé. Estas verdades não são uma simples mensagem sobre Deus, uma particular informação sobre Ele. Expressam, ao invés disso, o evento do encontro de Deus com os homens, encontro salvífico e libertador, que realiza as aspirações mais profundas do homem, e seus desejos de paz, de fraternidade, de amor. A fé leva a descobrir que o encontro com Deus valoriza, aperfeiçoa e eleva quanto de verdade, de bom e de belo tem no homem. Acontece que, enquanto Deus se revela e se deixa conhecer, o homem vem a saber quem é Deus e, conhecendo-O, descobre a si mesmo, a própria origem, o próprio destino, a grandeza e a dignidade da vida humana.

A fé permite um saber autêntico sobre Deus que envolve toda a pessoa humana: é um “saber”, isto é, um conhecer que doa sabor à vida, um gosto novo de existir, um modo alegre de estar no mundo. A fé se exprime no doar a si mesmo para os outros, na fraternidade que faz solidariedade, capaz de amar, vencendo a solidão que deixa triste. Este conhecimento de Deus através da fé não é por isso somente intelectual, mas vital. É o conhecimento de Deus-Amor, graças ao seu próprio amor. O amor de Deus, então, faz ver, abre os olhos, permite conhecer toda a realidade, além das perspectivas estreitas do individualismo e do subjetivismo que desorientam a consciência. O conhecimento de Deus é, portanto, experiência de fé e implica, ao mesmo tempo, um caminho intelectual e moral: tocados profundamente pela presença do Espírito Santo de Jesus em nós, superamos os horizontes dos nossos egoísmos e nos abrimos aos verdadeiros valores da existência.

Hoje nesta catequese gostaria de me concentrar sobre a racionalidade da fé em Deus. A tradição católica desde o início rejeitou o assim chamado fideísmo, que é a vontade de crer contra a razão. Creio quia absurdum (creio porque é absurdo) não é fórmula que interpreta a fé católica. Deus, na verdade, não é absurdo, mas sim é mistério. O mistério, por sua vez, não é irracional, mas uma superabundância de sentido, de significado, de verdade. Se, olhando para o mistério, a razão vê escuridão, não é porque no mistério não tenha a luz, mas porque existe muita (luz). Assim como quando os olhos do homem se dirigem diretamente ao sol para olhá-lo, veem somente trevas; mas quem diria que o sol não é luminoso, antes a fonte da luz? A fé permite olhar o “sol”, Deus, porque é acolhida da sua revelação na história e, por assim dizer, recebe verdadeiramente toda a luminosidade do mistério de Deus, reconhecendo o grande milagre: Deus se aproximou do homem, ofereceu-se ao seu conhecimento, consentindo ao limite criador da sua razão (cfr Conc. Ec. Vat. II, Cost. Dogm. Dei Verbum, 13). Ao mesmo tempo, Deus, com a sua graça, ilumina a razão, abre-lhe horizontes novos, imensuráveis e infinitos. Por isto, a fé constitui um estímulo a buscar sempre, a não parar nunca e nunca aquietar-se na descoberta inesgotável da verdade e da realidade.  É falso o pré-juízo de certos pensadores modernos, segundo os quais a razão humana seria como que bloqueada pelos dogmas da fé. É verdade exatamente o contrário, como os grandes mestres da tradição católica demonstraram. Santo Agostinho, antes de sua conversão, busca com tanta inquietação a verdade, através de todas aas filosofias disponíveis, encontrando todas insatisfatórias. A sua cansativa investigação racional é para ele uma significativa pedagogia para o encontro com a Verdade de Cristo. Quando diz: “compreendas para crer e creias para compreender” (Discurso 43, 9:PL 38, 258), é como se contasse a própria experiência de vida. Intelecto e fé, antes da divina Revelação, não são estranhas ou antagonistas, mas são ambas duas condições para compreender o sentido, para transpor a autêntica mensagem, se aproximando-se do limite do mistério. Santo Agostinho, junto a tantos outros autores cristãos, é testemunha de uma fé que se exercita com a razão, que pensa e convida a pensar. Neste sentido, Santo Anselmo dirá em seu Proslogion que a fé católica é fides quaerens intellectum, onde o buscar a inteligência é ato interior ao crer. Será sobretudo São Tomás de Aquino – forte nesta tradição – a confrontar-se com a razão dos filósofos, mostrando quanta nova fecunda vitalidade racional vem ao pensamento humano do acoplamento dos princípios e da verdade da fé cristã.

A fé católica é, portanto, racional e nutre confiança também na razão humana. O Concílio Vaticano I, na Constituição dogmática Dei Filius, afirmou que a razão é capaz de conhecer com certeza a existência de Deus através da via da criação, enquanto somente à fé pertence a possibilidade de conhecer “facilmente, com absoluta certeza e sem erro” (DS 3005) as verdades sobre Deus, à luz da graça. O conhecimento da fé, também, não é contra a razão direta. O Beato Papa João Paulo II, de fato, na Encíclica Fides et ratio, sintetiza assim: “A razão do homem não se anula nem se degrada dando assentimento aos conteúdos de fé; estes são em cada caso alcançados com escolhas livres e conscientes” (n. 43). No irresistível desejo de verdade, só um harmonioso relacionamento entre fé e razão é a estrada certa que conduz a Deus e à plena realização de si.

Esta doutrina é facilmente reconhecida em todo o Novo Testamento. São Paulo, escrevendo aos cristãos de Corinto, argumenta, como ouvimos: “Enquanto os Judeus pedem sinais e os Gregos procuram sabedoria, nós, em vez disso, anunciamos Cristo crucificado: escândalos para os Judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1,22-23). Deus, de fato, salvou o mundo não com um ato de poder, mas mediante a humilhação de seu Filho unigênito: segundo os parâmetros humanos, o modo inusitado implementado por Deus confronta com as exigências da sabedoria grega. E ainda, a Cruz de Cristo tem sua própria razão, que São Paulo chama: ho lògos tou staurou, “a palavra da cruz” (1 Cor 1, 18). Aqui, o termo lògos indica tanto a palavra quanto a razão e, se alude à palavra, é porque exprime verbalmente isso que a razão elabora. Portanto, Paulo vê na Cruz não um acontecimento irracional, mas um fato salvífico que possui uma racionalidade própria reconhecida à luz da fé. Ao mesmo tempo, ele tem tanta confiança na razão humana, ao ponto de admirar-se com o fato de que muitos, ao ver a beleza das obras realizadas por Deus, persistem em não acreditar Nele. Diz na Carta aos Romanos:“De fato as…perfeições invisíveis [de Deus], ou seja, o seu eterno poder e divindade, vem contemplados e incluidos na criação do mundo através das suas obras” (1, 20). Assim, também São Pedro exorta os cristãos da diáspora a adorar  “o Senhor, Cristo, nos vossos corações, prontos sempre a responder a qualquer um que vos pedir a razão da esperança que está em vós” (1 Ped 3, 15). Em um clima de perseguição e de forte exigência de testemunhar a fé, aos cristãos é pedido justificar com motivações fundadas  a sua adesão à palavra do Evangelho; de dar as razões da nossa esperança.

Sobre essas premissas acerca da ligação fecunda entre compreender e crer, funda-se também o relacionamento virtuoso entre a ciência e a fé. A pesquisa científica leva ao conhecimento da verdade sempre novas sobre o homem e sobre o cosmos, o vejamos. O verdadeiro bem da humanidade, acessível na fé, abre o horizonte no qual se deve mover o seu caminho de descoberta. Deve, portanto, ser encorajada, por exemplo, as pesquisas colocadas à serviço da vida e que visam erradicar as doenças. Importantes são também as investigações para descobrir os segredos do nosso planeta e do universo, na consciência de que o homem está no vertical da criação não para explorá-la sem sentido, mas para protegê-la e torná-la habitável. Assim, a fé, vivida realmente, não entra em conflito com a ciência, mas coopera com essa, oferecendo critérios basilares para que promova o bem de todos, pedindo-lhe para renunciar somente àquelas tentativas que – opondo-se ao projeto originário de Deus – possam produzir efeitos que se voltam contra o próprio homem. Também por isso é racional crer: se a ciência é uma preciosa aliada da fé para a compreensão do desígnio de Deus no universo, a fé permite ao progresso científico realizar-se sempre para o bem e para a verdade do homem, permanecendo fiel a este mesmo desígnio.

Por isso é decisivo para o homem abrir-se à fé e conhecer Deus e o seu projeto de salvação em Jesus Cristo. No Evangelho vem inaugurado um novo humanismo, uma autêntica “gramática” do homem e de toda a realidade. Afirma o Catecismo da Igreja Católica: “A verdade de Deus é a sua sabedoria que rege a ordem da criação e do governo do mundo. Deus que, sozinho, ‘fez o céu e a terra’ (Sal 115,15), pode doar, Ele só, o verdadeiro conhecimento de cada coisa criada na relação com ele” (n. 216).

Confiemos, então, que o nosso empenho na evangelização ajude a dar nova centralidade ao Evangelho na vida de tantos homens e mulheres do nosso tempo. E rezemos para que todos redescubram em Cristo o sentido da existência e o fundamento da verdadeira liberdade: sem Deus, de fato, o homem perde a si mesmo. Os testemunhos de quantos nos antecederam e dedicaram a sua vida ao Evangelho o confirmam para sempre. É racional crer, está em jogo a nossa existência. Vale a pena se gastar por Cristo, somente Ele satisfaz os desejos de verdade e de bem enraizados na alma de cada homem: ora, no tempo que passa, e no dia sem fim da Eternidade bem aventurada.

Catequese de Bento XVI – Caminhos para conhecer Deus – 14/11/2012

CATEQUESE
Sala Paulo VI
Quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Caros irmãos e irmãs,

Quarta-feira passada refletimos sobre o desejo de Deus que o ser humano traz consigo no profundo de si mesmo. Hoje gostaria de continuar a aprofundar este aspecto meditando brevemente com vocês sobre algumas vias para chegar à consciência de Deus. Gostaria de recordar, no entanto, que a iniciativa de Deus antecede sempre cada iniciativa do homem e, também no caminho para Ele, é Ele primeiro que nos ilumina, nos orienta e nos guia, respeitando sempre a nossa liberdade. E é sempre Ele que nos faz entrar na sua intimidade, revelando-se e doando-nos a graça para poder acolher esta revelação na fé. Não esqueçamos nunca a experiência de Santo Agostinho: não somos nós a possuir a Verdade depois de tê-la procurado, mas é a Verdade que nos procura e nos possui.

Todavia há algumas vias que podem abrir o coração do homem ao conhecimento de Deus, há sinais que conduzem para Deus. Certo, muitas vezes corremos o risco de sermos ofuscados pelo brilho do mundanismo, que nos tornam menos capazes de percorrer tais caminhos ou de ler tais sinais. Deus, porém, não se cansa de procurar-nos, porque nos ama. Esta é uma verdade que deve nos acompanhar cada dia, também se certas mentalidades propagadas tornam mais difícil à Igreja e ao cristão comunicar a alegria do Evangelho a cada criatura e conduzir todos ao encontro com Jesus, único Salvador do mundo. Esta, porém, é a nossa missão, é a missão da Igreja e cada crente deve vivê-la alegremente, sentindo-a como própria, através de uma existência animada verdadeiramente pela fé, marcada pela caridade, pelo serviço a Deus e aos outros, e capaz de irradiar esperança. Esta missão brilha, sobretudo, na santidade à qual todos somos chamados.

Hoje, o sabemos, não faltam dificuldades e provações para a fé, muitas vezes mal compreendida, contestada, rejeitada. São Pedro dizia aos seus cristãos: “Estejam sempre prontos a responder, mas com doçura e respeito, a quem lhe pede a esperança que está em vossos corações”. No passado, no Ocidente, em uma sociedade considerada cristã, a fé era o ambiente em que tudo acontecia; a referência e a adesão a Deus eram, para a maioria das pessoas, parte da vida cotidiana. Pelo contrário, aquele que não acreditava precisava justificar a própria descrença. No nosso mundo, a situação mudou e sempre mais aquele que crê precisa ser capaz de dar razão da sua fé. O Beato João Paulo II, na sua Encíclica Fides et ratio, ressaltava como a fé é colocada à prova também na época contemporânea, atravessada por formas sutis e insidiosas do ateísmo teórico e prático (cfr nn. 46-47). A partir do Iluminismo, a crítica à religião intensificou-se; a história foi marcada também pela presença de sistemas ateus, nos quais Deus era considerado uma mera projeção da alma humana, uma ilusão e o produto de uma sociedade já distorcida por tantas alienações. O século passado conheceu um forte processo de secularismo, em nome da autonomia absoluta do homem, considerado como medidor e artífice da realidade, mas empobrecido do seu ser criatura, “à imagem e semelhança de Deus”. Nos nossos tempos, verificou-se um fenômeno particularmente perigoso para a fé: existe, de fato, uma forma de ateísmo que definimos, precisamente, “prático”, no qual não se negam a verdade da fé ou os ritos religiosos, mas simplesmente são considerados irrelevantes para a existência cotidiana, destacados da vida, inúteis. Muitas vezes, então, acredita-se em Deus de modo superficial e se vive “como se Deus não existisse” (etsi Deus non daretur). No final, porém, este modo de viver resulta ainda mais destrutivo, porque leva à indiferença para com a fé e a questão de Deus.

Na realidade, o homem, separado de Deus, é reduzido a uma única dimensão, aquela horizontal, e este reducionismo é uma das causas fundamentais dos totalitarismos que tiveram consequências trágicas no século passado, bem como a crise de valores que vemos na realidade atual. Obscurecendo a referência a Deus, obscureceu-se também o horizonte ético, para deixar espaço ao relativismo e a uma concepção ambígua da liberdade, que em vez de fins libertadores, acaba por amarrar o homem aos ídolos. As tentações que Jesus enfrentou no deserto antes de sua missão pública, representam bem quais ídolos fascinam o homem, quando não vai além de si mesmo. Se Deus perde a centralidade, o homem perde o seu lugar certo, não encontra mais a sua colocação na criação, nas relações com os outros. Não diminui isso que a sabedoria antiga evoca com o mito de Prometeu: o homem acha que pode tornar-se a si mesmo “deus”, mestre da vida e da morte.

Diante deste quadro, a Igreja, fiel ao mandato de Cristo, não cessa nunca de afirmar a verdade sobre o homem e sobre o seu destino. O Concílio Vaticano II afirma sinteticamente: “A maior razão da dignidade do homem consiste em sua vocação à comunhão com Deus. Desde o nascimento, o homem é convidado ao diálogo com Deus: não existiria, na verdade, se não fosse criado pelo amor de Deus, por Ele sempre é conservado por amor, nem vive plenamente segundo a verdade se não O reconhece livremente e não se confia ao seu criador.” (Cost. Gaudium et spes, 19).

Que respostas, então, é chamada a dar a fé, com “doçura e respeito”, ao ateísmo, ao ceticismo, à indiferença para com a dimensão vertical, a fim de que o homem do nosso tempo possa continuar a interrogar-se sobre a existência de Deus e a percorrer os caminhos que conduzem a Ele? Gostaria de mencionar alguns caminhos, que derivam seja da reflexão natural, seja da própria força da fé. Gostaria de resumir para vocês muito sinteticamente em três palavras: o mundo, o homem, a fé.

A primeira: o mundo. Santo Agostinho, que na sua vida procurou longamente a Verdade e foi agarrado pela Verdade, tem uma belíssima e célebre obra, na qual afirma: “Interrogue a beleza da terra, do mar, do ar rarefeito e em toda parte expandida; interrogue a beleza do céu…, interrogue todas estas realidades. Todos te responderão: olhe para nós também e observe como somos belos. A beleza deles é como um hino de louvor. Ora, essas criaturas tão belas, mas mudando, quem as fez se não um que é a beleza de modo imutável?” (Sermo 241, 2: PL 38, 1134). Penso que devemos recuperar e fazer recuperar ao homem de hoje a capacidade de contemplar a criação, a sua beleza, a sua estrutura. O mundo não é um magma disforme, mas quanto mais o conhecemos,  mais descobrimos os surpreendentes mecansimos, mais vemos um projeto, vemos que tem uma inteligência criadora. Albert Einstein disse que nas leis da natureza “revela-se uma razão assim superior que toda a racionalidade do pensamento e das ordens humanas é comparativamente um reflexo absolutamente insignificante” (O Mundo como o vejo eu, Roma 2005). Uma primeira via, então, que conduz à descoberta de Deus é o contemplar com olhos atentos a criação.

A segunda palavra: o homem. Sempre Santo Agostinho, então, tem uma célebre frase na qual diz que Deus é mais íntimo a mim quanto o seja eu a mim mesmo (cfr Confessioni III, 6, 11). Daqui ele formula o convite: “Não ande fora de si, entre em si mesmo: no homem interior habita a verdade” (De vera religione, 39, 72). Este é um outro aspecto que nós corremos o risco de perder no mundo barulhento e distraído em que vivemos: a capacidade de parar e olhar em profundidade para nós mesmos e ler esta sede de infinito que trazemos dentro, que nos impele a andar além e refere-se a Alguém que possa preenchê-la. O Catecismo da Igreja Católica afirma: “Com a sua abertura à verdade e à beleza, com o seu senso de bem moral, com a sua liberdade e a voz do conhecimento, com a sua aspiração ao infinito e à felicidade, o homem se interroga sobre a existência de Deus” (n. 33).

A terceira palavra: a fé. Sobretudo na realidade do nosso tempo, não devemos esquecer que um caminho que conduz ao conhecimento e ao encontro com Deus é o caminho da fé. Quem crê está unido a Deus, está aberto à sua graça, à força da caridade. Assim a sua existência torna-se testemunha não de si mesmo, mas do Ressuscitado, e a sua fé não tem medo de mostrar-se na vida cotidiana, é aberta ao diálogo que exprime profunda amizade para o caminho de cada uma, e sabe abrir luzes de esperança à necessidade de redenção, de felicidade, de futuro. A fé, de fato, é encontro com Deus que fala e opera na história e que converte a nossa vida cotidiana, transformando em nós a mentalidade, juízos de valor, escolhas e ações concretas. Não é ilusão, fuga da realidade, refúgio confortável, sentimentalismo, mas é implicação de toda a vida e é anúncio do Evangelho, Boa Notícia capaz de libertar todos os homens. Um cristão, uma comunidade que seja diligente e fiel ao projeto de Deus que nos amou primeiro, constitui uma via privilegiada para aqueles que estão na indiferença ou na dúvida acerca da sua existência e da sua ação. Isto, porém, pede a cada um para tornar sempre mais transparente o próprio testemunho de fé, purificando a própria vida para que seja conforme Cristo. Hoje muitos têm compreensão limitada da fé cristã, porque a identificam como um mero sistema de crença e de valores e não tanto com a verdade de um Deus revelada na história, desejoso de comunicar com o homem face a face, em um relacionamento de amor com ele. Na realidade, o fundamento de cada doutrina ou valor tem o acontecimento do encontro entre o homem e Deus em Cristo Jesus. O Cristianismo, antes que uma moral ou uma ética, é caso de amor, é o acolher a pessoa de Jesus. Por isto, o cristão e a comunidade cristã devem antes de tudo olhar e fazer olhar para Cristo, verdadeiro caminho que conduz a Deus. Obrigado.

Catequese de Bento XVI – Desejo de Deus – 07/11/2012

CATEQUESE
Praça São Pedro
Quarta-feira, 7 de novembro de 2012 

 

Queridos irmãos e irmãs,

O caminho de reflexão que estamos fazendo juntos neste Ano da Fé nos leva a meditar hoje sobre um aspecto fascinante da experiência humana e cristã: o homem traz em si um desejo misterioso de Deus. De modo muito significativo, o Catecismo da Igreja Católica se abre com a seguinte consideração: “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair para si o homem e somente em Deus o homem encontrará a verdade e a felicidade que busca sem parar” (n. 27).

Uma afirmação tal que também hoje, em muitos contextos culturais, parece bastante aceitável, quase óbvia, poderia parecer um pouco um desafio no âmbito da cultura ocidental secularizada. Muitos dos nossos contemporâneos poderiam afirmar que não sentem por nada um desejo de Deus. Para grande parte da sociedade Ele não é mais o esperado, o desejado, mas sim uma realidade que passa despercebida, diante da qual não se deve nem sequer fazer o esforço de pronunciar-se. Na realidade, aquilo que definimos como “desejo de Deus” não está de tudo desaparecido e parece (si affaccia) ainda hoje, de muitos modos, o coração do homem. O desejo humano tende sempre a determinados bens concretos, frequentemente desejando tudo menos o lado espiritual, e ainda se encontra diante da interrogação sobre o que seja de fato “o” bem, e também a confrontar-se com alguma coisa que é diferente de si mesmo, que o homem não pode construir, mas é chamado a reconhecer. O que pode de fato satisfazer o desejo humano?

Na minha primeira Encíclica, Deus caritas est, procurei analisar como tal dinamismo se realiza na experiência do amor humano, experiência que na nossa época é mais facilmente percebida como momento de êxtase, de saída de si, como lugar onde o homem sabe que é atravessado por um desejo que o supera. Através do amor, o homem e a mulher experimentam de modo novo, um com o outro, a grandeza e a beleza da vida e do real. Se isso que experimentam não é uma simples ilusão, se de fato quero o bem do outro como via também do meu bem, então devo estar disposto a descentralizar-me, a colocar-me ao seu serviço, até a renúncia a mim mesmo. A resposta à questão sobre o sentido da experiência do amor passa também por meio da purificação e da cura do querer, o que é necessário para o próprio bem que se quer ao outro. Precisamos praticar, treinar, também corrigir, para que aquele bem possa verdadeiramente ser desejado.

O êxtase inicial se traduz assim na peregrinação, “êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para sua libertação na doação de si, e assim para o reencontro de si, e de fato para a descoberta de Deus” (Enc. Deus caritas est, 6). Através de tal caminho poderá progressivamente aprofundar-se para o homem a consciência daquele amor que tinha inicialmente experimentado. E andará sempre mais tecendo o mistério que isso representa: nem sequer a pessoa amada, na verdade, é capaz de satisfazer o desejo que habita o coração humano, de fato, tanto mais autêntico é o amor pelo outro, tanto mais esse deixa em aberto a interrogação sobre sua origem e sobre seu destino, sobre a possibilidade de que isso há de durar para sempre. Assim, a experiência humana do amor tem em si um dinamismo que leva além de si mesma, é experiência de um bem que leva a sair de si e a encontrar-se diante de um mistério que envolve toda a existência.

Considerações semelhantes poderiam ser feitas também a propósito de outras experiências humanas, como a amizade, a experiência do belo, o amor pelo conhecimento: cada bem experimentado do homem vai em direção ao mistério que envolve o próprio homem; cada desejo que tem vista para o coração humano se faz eco de um desejo fundamental que não é nunca plenamente satisfeito. Sem dúvida de tal desejo profundo, que esconde também algo de enigmático, não se pode chegar diretamente à fé. O homem, afinal, conhece bem isso que não o satisfaz, mas não pode imaginar ou definir isso que o faria experimentar aquela felicidade que traz no coração a nostalgia. Não se pode conhecer Deus a partir somente do desejo do homem. Deste ponto de vista surge o mistério: o homem é buscador do Absoluto, um buscador a passos pequenos e incertos. E, todavia, já a experiência do desejo, do “coração inquieto” como o chamava Santo Agostinho, é muito significativa. Essa nos diz que o homem é, no fundo, um ser religioso (cfr Catechismo della Chiesa Cattolica, 28), um “mendigo de Deus”. Podemos dizer com as palavras de Pascal: “O homem supera infinitamente o homem” (Pensamentos, ed. Chevalier 438; ed. Brunschvicg 434). Os olhos reconhecem os objetos quando estes são iluminados pela luz. Daí o desejo de conhecer a mesma luz, que faz brilhar as coisas do mundo e com isso acende o sentido da beleza.

Precisamos, portanto, acreditar que seja possível também na nossa época, aparentemente tanto refratária à dimensão transcendente, abrir um caminho para o autêntico sentido religioso da vida, que mostra como o dom da fé não é absurdo, não é irracional. Seria de grande utilidade, para tal fim, promover uma espécie de pedagogia do desejo, seja pelo caminho de quem ainda não crê, seja por quem já recebeu o dom da fé. Uma pedagogia que compreende pelo menos dois aspectos. Em primeiro lugar, aprender ou re-aprender o sabor das alegrias autênticas da vida. Nem todas as satisfações produzem em nós o mesmo efeito: algumas deixam um traço positivo, são capazes de pacificar a alma, nos tornam mais ativos e generosos. Por outro lado, depois da luz inicial, parecem desiludir as expectativas que tinham suscitado e por vezes deixam dentro de si amargura, insatisfação ou uma sensação de vazio. Educar desde cedo para saborear as alegrias da verdade, em todos os âmbitos da existência – a família, a amizade, a solidariedade com quem sofre, a renúncia ao próprio eu para servir ao outro, o amor pelo conhecimento, pela arte, pela beleza da natureza – tudo isso significa exercitar o sabor interior e produz anticorpos eficazes contra a banalização e achatamento (l’appiattimento) hoje vigentes. Também os adultos têm necessidade de redescobrir estas alegrias, de desejar a realidade autêntica, purificando-se da medíocridade na qual possam encontrar-se enredados. Então se tornará mais fácil deixar cair ou rejeitar tudo isso que, embora aparentemente atrativo, revela-se sem sabor, fonte de vício e não de liberdade. E isso fará emergir aquele desejo de Deus do qual estamos falando.

Um segundo aspecto, que anda de mãos dadas com o anterior (che va di pari passo con il precedente), é o nunca se contentar com o quanto foi alcançado. As alegrias mais verdadeiras são capazes de liberar em nós aquela preocupação saudável que leva a ser mais exigentes – querer um bem mais alto, mais profundo – e junto a perceber com sempre mais clareza que nada de finito pode preencher o nosso coração. Aprenderemos, assim, a tender, desarmados, para aquele bem que não podemos construir ou adquirir com as nossa forças; a não nos deixar desencorajar pelo cansaço ou pelos obstáculos que vêm do nosso pecado.

Neste sentido, não devemos esquecer que o dinamismo do desejo está sempre aberto à redenção. Mesmo quando ele caminha em caminhos extraviados, quando segue paraísos artificiais e parece perder a capacidade de ansear pelo verdadeiro bem. Mesmo no abismo do pecado não se apaga no homem aquela faísca que lhe permite reconhecer o verdadeiro bem, de saboreá-lo, e de começar assim um percurso de subida, no qual Deus, com o dom da sua graça, não faz nunca faltar a sua ajuda. Tudo, aliás, precisamos percorrer um caminho de purificação e cura do desejo. Somos peregrinos para a pátria celeste, para aquele bem pleno, eterno, que nada nos poderá arrebatar (che nulla ci potrà più strappare). Não se trata, portanto, de sufocar o desejo que está no coração do homem, mas de libertá-lo, para que possa alcançar a sua verdadeira altura. Quando no desejo se abre a janela para Deus, isto já é sinal da presença da fé na alma, fé que é uma graça de Deus. Santo Agostinho sempre afirmava: “Com a expectativa, Deus fortalece a nossa vontade, com o desejo amplia a nossa alma e expandindo-o o torna mais capaz” (Comentário à Primeira Carta de João, 4,6: PL 35, 2009).

Nesta peregrinação, sejamos irmãos de todos os homens, companheiros de viagem mesmo daqueles que não creem, de quem está em busca, de quem se deixa interrogar com sinceridade pelo dinamismo do próprio desejo de verdade e de bem. Rezemos, neste Ano da Fé, para que Deus mostre a sua face a todos aqueles que o procuram com coração sincero. Obrigado.

Mensagem Final do Sínodo

A 13ª Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, realizada no Vaticano de 7 a 28 de outubro, teve como tema a “Nova Evangelização para a transmissão da Fé” . No final do Sínodo os padres sinodais elaboraram uma mensagem dirigida a Igreja e dividida em 14 pontos a baixo a íntegra da mensagem.Irmãos e irmãs,

“Graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (Romanos 1,7). Antes de voltar para as nossas Igrejas particulares, nós, Bispos vindos de todo o mundo que se reuniram à convite do Bispo de Roma, o papa Bento XVI para refletir sobre “a nova evangelização para a transmissão da fé cristã”, desejamos nos dirigir a todos vocês, a fim de sustentar e orientar a pregação e ensino do Evangelho nos diversos contextos em que a Igreja se encontra hoje para dar testemunho.

1. Como a mulher samaritana no poço

Vamos começar a luz de uma passagem do Evangelho: o encontro de Jesus com a mulher samaritana (cf. João 4:5-42). Não há homem ou mulher que, na vida, não iria encontrar-se como a mulher de Samaria, ao lado de um poço com um balde vazio, com a esperança de encontrar a realização do desejo mais profundo do coração, o que por si só poderia dar sentido pleno para a vida. Hoje, muitos poços oferecer-se para saciar a sede da humanidade, mas temos que discernir de modo a evitar águas poluídas. Devemos orientar a busca corretamente, de modo a não cair para a decepção, o que pode ser prejudicial.

Como Jesus junto ao poço de Sicar, a Igreja também se sente obrigada a sentar ao lado de homens e mulheres de hoje. Ela quer tornar o Senhor presente em suas vidas, para que possam encontrá-lo porque o seu Espírito é a única água que dá a vida verdadeira e eterna. Só Jesus pode ler as profundezas de nosso coração e revelar a verdade sobre nós mesmos: “Ele me disse tudo o que eu fiz”, confessa a mulher aos cidadãos seus companheiros. Esta palavra do anúncio está unida à pergunta que abre a fé: “ele poderia ser o Messias?” Isso mostra que quem recebe a vida nova do encontro com Jesus não pode deixar de proclamar a verdade e a esperança para outros. O pecador que foi convertido torna-se um mensageiro da salvação e leva toda a cidade para Jesus. As pessoas passam do acolher seu testemunho para experimentar pessoalmente o encontro: “Já não acreditamos por causa da sua palavra, para que nós mesmos temos ouvido e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo”.

2. A nova evangelização

Levar os homens e mulheres do nosso tempo à Jesus, para o encontro com ele é uma necessidade que toca todas as regiões do mundo, os da velha e os da recente evangelização. Em todos os lugares realmente sentimos a necessidade de reavivar uma fé que corre o risco de eclipse em contextos culturais que impedem seu enraizamento nas pessoas, e sua presença na sociedade, a clareza do seu conteúdo e da coerência de seus frutos.

Não é uma questão de começar de novo, mas de entrar no longo caminho do anuncio do Evangelho a coragem apostólica de Paulo, que iria tão longe a ponto de dizer: “Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!” (1 Coríntios 9,16). Ao longo da história, desde os primeiros séculos da era cristã até o presente, o Evangelho tem edificado comunidades de crentes em todas as partes do mundo. Sejam elas pequenas ou grandes, são o fruto da dedicação de gerações de testemunhas de Jesus – missionários e mártires – que recordamos com gratidão.

Os cenários social, cultural, econômico, civil e religiosos mudaram e nos chama para algo novo: a viver a nossa experiência comunitária de fé de uma forma renovada e anunciá-la através de uma evangelização que é “nova em seu ardor, em seus métodos, em sua expressões “(João Paulo II, Discurso à Assembléia do CELAM XIX, Port-au-Prince, 9 de março de 1983, n. 3) como disse João Paulo II. Bento XVI recordou que se trata de uma evangelização que se dirige “principalmente para aqueles que, embora batizados, se afastaram da Igreja e vivem sem referência à vida cristã … para ajudar essas pessoas a encontrar o Senhor, o único que preenche a nossa existência com significado profundo e paz, e para favorecer a redescoberta da fé, que a fonte da graça, que traz alegria e esperança para a vida pessoal, familiar e social “(Bento XVI, Homilia para a celebração eucarística para a inauguração solene da Assembleia XIII Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Roma, 7 de outubro de 2012).

3. O encontro pessoal com Jesus Cristo na Igreja

Antes de dizer qualquer coisa sobre as formas que esta nova evangelização deve assumir, sentimos a necessidade de dizer-lhes com convicção profunda que a fé determina tudo na relação que construímos com a pessoa de Jesus, que toma a iniciativa de encontrar-nos. A obra da nova evangelização consiste em apresentar mais uma vez a beleza e novidade perene do encontro com Cristo ao coração muitas vezes distraído e confuso e à mente dos homens e mulheres do nosso tempo, sobretudo para nós mesmos. Convidamos a todos a contemplar o rosto do Senhor Jesus Cristo, para entrar no mistério de sua vida entregue por nós na cruz, confirmado na sua ressurreição dentre os mortos, como dom do Pai, e dada a nós por meio do Espírito. Na pessoa de Jesus, o mistério do amor de Deus Pai para toda a família humana é revelado. Ele não quer que permanecemos em uma falsa autonomia. Ao contrário, ele nos reconciliou consigo mesmo em um pacto de amor renovado.

A Igreja é o espaço oferecido por Cristo na história, onde podemos encontrá-lo, porque ele lhe confiou a sua Palavra, o Batismo, que nos faz filhos de Deus, o seu Corpo e o seu Sangue, a graça do perdão dos pecados, sobretudo no sacramento da Reconciliação, a experiência de comunhão, que reflete o próprio mistério da Santíssima Trindade e da força do Espírito que gera caridade para com todos.

Devemos formar comunidades acolhedoras em que todos os irmãos encontram uma casa, experiências concretas de comunhão, que atraem o olhar desencantado da humanidade contemporânea com a força ardente do amor – “Vede como eles se amam!” (Tertuliano, Apologia, 39, 7). A beleza da fé deve brilhar em particular nas ações da sagrada Liturgia, sobretudo na Eucaristia dominical. É precisamente nas celebrações litúrgicas que a Igreja, revela-se como obra de Deus e faz com que o significado do Evangelho visível na palavra e gesto.

Cabe a nós hoje tornar as experiências da Igreja concretamente acessíveis, multiplicar os poços onde os homens sedentos e mulheres são convidados a encontrar Jesus, oferecer oásis nos desertos da vida. As comunidades cristãs e, nelas, cada discípulo do Senhor, são responsáveis ​​por isso: um testemunho insubstituível tem sido confiado a cada um, para que o Evangelho possa entrar na vida de todos. Isso exige de nós a santidade de vida.

4. As ocasiões de encontro com Jesus e ouvir as Escrituras

Alguém vai perguntar como fazer tudo isso. Não precisamos inventar novas estratégias, como se o Evangelho fosse um produto a ser colocado no mercado das religiões. Precisamos redescobrir as formas em que Jesus se aproximou de pessoas e chamou-os, a fim de colocar em prática essas abordagens nas circunstâncias atuais.

Recordamos, por exemplo, como Jesus envolveu Pedro, André, Tiago e João no contexto do seu trabalho, como Zaqueu era capaz de passar da simples curiosidade para o calor de compartilhar uma refeição com o Mestre, como o centurião romano pediu-lhe para curar uma pessoa querida para ele, como o cego de nascença invocou como libertador de sua própria marginalização, como Marta e Maria viu a hospitalidade de sua casa e do seu coração recompensado pela sua presença. Ao passar pelas páginas dos Evangelhos, bem como pelas experiências missionárias dos apóstolos na Igreja primitiva, podemos descobrir as várias formas e circunstâncias em que as vidas pessoas se abriram à presença de Cristo.

A leitura frequente das Sagradas Escrituras – iluminadas pela Tradição da Igreja, que nos as entrega e é a sua interpretação autêntica – não só é necessária para conhecer o conteúdo do Evangelho, que é a pessoa de Jesus no contexto de história da salvação. Ler as Escrituras também nos ajuda a descobrir oportunidades de encontrar Jesus, abordagens verdadeiramente evangélicas enraizadas nas dimensões fundamentais da vida humana: a família, o trabalho, a amizade, a várias formas de pobreza e as provações da vida, etc.

5. Evangelizar nós mesmos e abrindo-nos à conversão

Nós, no entanto, nunca devemos pensar que a nova evangelização não nos diga respeito da nossa pessoa. Nestes dias as vozes entre os bispos foram levantadas para lembrar que a Igreja deve, antes de tudo dar atenção à palavra antes de que ela poder evangelizar o mundo. O convite para evangelizar torna-se um apelo à conversão.

Acreditamos firmemente que devemos converter-nos primeiro para o poder de Cristo, o único que pode fazer novas todas as coisas, acima de toda a nossa existência pobre. Com humildade, devemos reconhecer que a pobreza e as fraquezas dos discípulos de Jesus, especialmente de seus ministros, pesam sobre a credibilidade da missão. Estamos certamente conscientes – nós, Bispos, em primeiro lugar – que nunca correspondemos ao chamado do Senhor e ao mandato de anunciar o seu Evangelho para as nações. Sabemos que temos que reconhecer humildemente nossa vulnerabilidade, às feridas da história e não hesitar em reconhecer os nossos pecados pessoais. Estamos, no entanto, também convencido de que o Espírito do Senhor é capaz de renovar sua Igreja e tornando-a resplandecente se o deixarmos moldar-nos. Isto é demonstrado pelas vidas dos Santos, a lembrança e a narração dois quais um meio privilegiado da nova evangelização.

Se esta renovação dependesse de nós, haveria sérias razões para duvidar. Mas a conversão na Igreja, assim como a evangelização, não ocorre principalmente por meio de nós, pobres mortais, mas sim através do Espírito do Senhor. Aqui encontramos a nossa força e nossa certeza de que o mal nunca tem a última palavra seja na Igreja ou na história: “Não deixem que seus corações ser agitados ou com medo” (João 14,27), disse Jesus aos seus discípulos.

A obra da nova evangelização repousa sobre esta certeza serena. Estamos confiantes na inspiração e na força do Espírito, que nos ensinará o que devemos dizer e o que estamos a fazer, mesmo nos momentos mais difíceis. É nosso dever, portanto, vencer o medo pela fé, o desânimo pela esperança, a indiferença através do amor.

6. Aproveitando as novas oportunidades para a evangelização no mundo de hoje

Esta coragem serena também afeta a forma como olhamos para o mundo de hoje. Não somos intimidados pelas circunstâncias dos tempos em que vivemos. Nosso mundo está cheio de contradições e desafios, mas continua a ser a criação de Deus. O mundo está ferido pelo mal, mas Deus amá-lo ainda. É o campo em que a semeadura da Palavra pode ser renovado para que ele dê frutos mais uma vez.

Não há espaço para pessimismo nas mentes e corações daqueles que sabem que o seu Senhor venceu a morte e que o seu Espírito trabalha com força na história. Abordamos este mundo com humildade, mas também com determinação. Isto vem da certeza de que no final a verdade triunfará. Nós queremos ouvir no mundo o chamado de Cristo ressuscitado para testemunhar a seu nome. Nossa Igreja está viva e enfrenta os desafios que a história traz consigo com a coragem da fé e do testemunho de muitos seus filhos e filhas.

Sabemos que temos de enfrentar neste mundo uma batalha contra os “principados” e “potestades”, “os maus espíritos” (Efésios 6,12). Nós não ignorar os problemas que tais desafios trazer, mas eles não nos assustam. Isto é verdade sobretudo para os fenômenos da globalização que deve ser para nós a oportunidade de ampliar a presença do Evangelho. Apesar dos sofrimentos intensos dos imigrantes que acolhemos como irmãos e irmãs, as migrações foram e continuam a ser ocasiões para espalhar a fé e construir a comunhão em suas várias formas. Secularização -, bem como a crise que trouxe a dominação da política e do Estado – exige que a Igreja repense sua presença na sociedade, sem no entanto renunciar a se mesma. As muitas e sempre novas formas da pobreza abrem novas oportunidades para o serviço de caridade: o anúncio do Evangelho compromete a Igreja a estar com os pobres para assumir os seus sofrimentos, como Jesus. Mesmo nas formas mais amargas do ateísmo e do agnosticismo, podemos reconhecer – embora em formas contraditórias – não um vazio, mas um desejo, uma expectativa que aguarda uma resposta adequada.

Em face às questões que as culturas predominantes representam para a fé e para a Igreja, renovamos a nossa confiança no Senhor, certos de que, mesmo nestes contextos, o Evangelho é portador de luz e capaz de curar toda a fraqueza humana. Não somos nós que estamos realizando a obra de evangelização, mas Deus, como o Papa nos lembrou: “A primeira palavra, a verdadeira iniciativa, a atividade verdadeira vem de Deus e apenas colocando-nos na iniciativa divina, apenas por implorando esta iniciativa divina, nós também seremos capazes de se tornar – com ele e nele – evangelizadores “(Bento XVI, Meditação durante a primeira Congregação geral da Assembleia Geral XIII Ordinária do Sínodo dos Bispos, Roma, 8 de outubro de 2012).

7. Evangelização, a vida da família e consagrados

Desde a primeira evangelização, a transmissão da fé de uma geração para a seguinte encontraram um lar natural na família onde as mulheres desempenham um papel muito especial, sem diminuir a figura e a responsabilidade do pai. No contexto dos cuidados que cada família prevê o crescimento de seus pequeninos, os bebês e as crianças são introduzidas para os sinais da fé, a comunicação das verdades primeiras, a educação na oração e no testemunho dos frutos do amor. Apesar da diversidade de suas situações geográficas, culturais e sociais, todos os Bispos do Sínodo reconfirmaram este papel essencial da família na transmissão da fé. A nova evangelização é impensável sem reconhecer a responsabilidade específica de anunciar o Evangelho para as famílias e para sustentá-los na sua tarefa de educação.

Nós não ignoramos o fato de que hoje a família, fundada no casamento de um homem e de uma mulher que os torna “uma só carne” (Mateus 19,6) aberta à vida, é assaltada por crises em todos os lugares. É cercada por modelos de vida que penalizam-na e é negligenciada pela política da sociedade de que é também a célula fundamental. Nem sempre é respeitada em seus ritmos e sustentada nas suas tarefas pelas comunidades eclesiais. É precisamente isso, no entanto, que nos impulsiona a dizer que temos de cuidar especialmente da família e de sua missão na sociedade e na Igreja, e desenvolver de caminhos específicos de acompanhamento antes e depois do matrimônio. Nós também queremos expressar a nossa gratidão aos muitos casais e famílias cristãs que, através do seu testemunho, mostram ao mundo uma experiência de comunhão e de serviço que é a semente de uma sociedade mais amorosa e pacífica.

Nossos pensamentos também foram para as muitas famílias e casais que vivendo juntos, não refletem a imagem de unidade e de amor ao longo da vida que o Senhor nos confiou. Há casais que vivem juntos sem o vínculo sacramental do matrimônio. Mais e mais famílias em situação irregular são estabelecidas após o fracasso de casamentos anteriores. Estas são situações dolorosas que afetam a educação dos filhos e filhas na fé. A todos eles queremos dizer que o amor de Deus não abandona ninguém, que a Igreja os ama, também, que a Igreja é uma casa que acolhe a todos, que eles permaneçam membros da Igreja, mesmo que eles não podem receber a absolvição sacramental e Eucaristia. Que nas nossas comunidades católicas sejam bem acolhidos todos os que vivem em tais situações e acolhidos aqueles que estão no caminho de conversão e reconciliação.

A vida em família é o primeiro lugar em que o Evangelho encontra a vida comum e demonstra sua capacidade de transformar as condições fundamentais da existência no horizonte do amor. Mas não menos importante para o testemunho da Igreja é mostrar como esta existência temporal tem um cumprimento que vai além da história humana e alcança a comunhão eterna com Deus. Jesus não se apresentar à mulher samaritana simplesmente como aquele que dá a vida, mas como aquele que dá “vida eterna” (João 4,14). Dom de Deus, que a fé torna presente, não é simplesmente a promessa de melhores condições neste mundo. É o anúncio de que o significado último da nossa vida está além deste mundo, em que a plena comunhão com Deus, que esperamos no final dos tempos.

Deste horizonte sobrenatural do sentido da existência humana, há testemunhas particulares na Igreja e no mundo nos que o Senhor chamou para a vida consagrada. Precisamente porque é totalmente consagrada a ele no exercício de pobreza, castidade e obediência, a vida consagrada é o sinal de um mundo futuro que relativiza tudo o que é bom neste mundo. Que a gratidão da Assembleia do Sínodo dos Bispos chegue a estes nossos irmãos e irmãs por sua fidelidade ao chamado do Senhor e pela contribuição que eles deram e dão para a missão da Igreja. Nós os exortamos a esperar em situações que são difíceis até mesmo para eles, nestes tempos de mudança. Convidamo-los a estabelecer-se como testemunhas e promotores da nova evangelização nos diversos campos em que o carisma de cada um de seus institutos os coloca.

8. A comunidade eclesial e muitos agentes de evangelização

Nenhuma pessoa ou grupo na Igreja tem direito exclusivo sobre a obra de evangelização. É o trabalho das comunidades eclesiais como tal, onde se tem acesso a todos os meios para encontrar Jesus: a Palavra, os sacramentos, a comunhão fraterna, serviço da caridade, da missão.

Nesta perspectiva, o papel da paróquia surge acima de tudo como a presença da Igreja, onde homens e mulheres vivem “a fonte da aldeia”, como João XXIII gostava de chamá-lo, a partir do qual todos podem beber, encontrando nela o frescor da o Evangelho. Ela não pode ser abandonada, mesmo que as mudanças podem exigir que seja feita de pequenas comunidades cristãs ou para criar vínculos de colaboração dentro de contextos maiores pastorais.

Exortamos nossas paróquias para se juntar às novas formas de missão exigidas pela nova evangelização para o cuidado pastoral tradicional do povo de Deus. Estes também devem permear as várias expressões importantes da piedade popular.

Na paróquia, o ministério do sacerdote – pai e pastor de seu povo – continua a ser crucial. Para todos os sacerdotes, os bispos desta Assembléia sinodal expressas agradecimentos e proximidade fraterna para sua difícil tarefa. Convidamo-los a fortalecer os laços do presbitério diocesano, para aprofundar a sua vida espiritual, e para uma formação contínua que lhes permite enfrentar as mudanças.

Ao lado dos sacerdotes, a presença de diáconos é de ser mantida, assim como a ação pastoral dos catequistas e de muitos outros ministros e animadores nos campos da proclamação, da catequese, da vida litúrgica, e do serviço de caridade. Devem ser promovidas também as diversas formas de participação e co-responsabilidade dos fiéis. Nós não podemos agradecer o suficiente nossos homens e mulheres leigos, pela sua dedicação nos diversos serviços nas suas comunidades. Pedimos a todos eles, também, para colocar a sua presença e seu serviço na Igreja, na perspectiva da nova evangelização, tendo o cuidado de sua formação humana e cristã, a sua compreensão da fé e da sua sensibilidade a fenômenos culturais contemporâneos.

Com relação aos leigos, uma palavra especial vai para as várias formas de associações de antigos e novos, em conjunto com os movimentos eclesiais e as novas comunidades: Todos são uma expressão da riqueza dos dons que o Espírito concede à Igreja. Agradecemos também a essas formas de vida e de compromisso na Igreja, exortando-os a serem fiéis ao seu carisma próprio e de sincera comunhão eclesial, especialmente no contexto concreto das Igrejas particulares.

Testemunhar o Evangelho não é privilégio de um ou de poucos. Nós reconhecemos com alegria a presença de muitos homens e mulheres que com suas vidas se tornam um sinal do Evangelho no meio do mundo. Nós também reconhecê-los em muitos de nossos irmãos e irmãs cristãos com quem, infelizmente, a unidade ainda não está completa, mas são, no entanto, marcados pelo Batismo do Senhor e pela sua palavra. Nestes dias, foi uma experiência emocionante para nós ouvir as vozes de muitas autoridades das Igrejas e comunidades eclesiais que deram testemunho de sua sede de Cristo e sua dedicação ao anúncio do Evangelho. Eles, também, estão convencidos de que o mundo precisa de uma nova evangelização. Somos gratos ao Senhor por esta unidade na necessidade da missão.

9. Que os jovens podem encontrar Cristo

Os jovens são particularmente querido para nós, porque eles, que são uma parte significativa da humanidade e da Igreja de hoje, são também o seu futuro. Com relação a eles, os bispos estão longe de ser pessimistas. Questionadores sim, mas não pessimistas. Estamos preocupados porque os ataques mais agressivos do nosso tempo acontecer a convergem precisamente sobre eles. Não somos, no entanto, pessimistas, acima de tudo, porque o que se move nas profundezas da história é o amor de Cristo, mas também porque sentimos nos jovens aspirações profundas de autenticidade, de verdade, de liberdade, de generosidade, e porque estamos convencidos de que a resposta adequada é Cristo.

Queremos apoiá-los em sua busca e nós encorajamos nossas comunidades para ouvir, dialogar e responder com audácia e sem reservas para a difícil situação da juventude. Queremos aproveitar de nossas comunidades, não para reprimir o poder de seu entusiasmo, mas para lutar por eles contra as falácias e empreendimentos egoístas dos poderes do mundo que, para sua própria vantagem, procuram dissipar as energias e perder a paixão do jovem, tirando-lhes a grata memória do passado e toda a visão profunda do futuro.

O mundo dos jovens é um campo exigente, mas também particularmente promissor da Nova Evangelização.

Isto é demonstrado por muitas experiências, daquelas que atraem muitos deles como as Jornadas Mundiais da Juventude, como as mais escondidas – mas no entanto poderosas – como as diferentes experiências de serviço, espiritualidade e missão. Tem que ser reconhecido o papel activo dos jovens em primeiro lugar na evangelização do seu proprio mundo.

10. O Evangelho em diálogo com a cultura e experiência humana e com as religiões

A nova evangelização é centrada em Cristo e no cuidado para com a pessoa humana, a fim de dar vida a um encontro real com ele. No entanto, os seus horizontes são tão amplos quanto o mundo e além de qualquer experiência humana. Isso significa que ele cultiva cuidadosamente o diálogo com as culturas, confiante de que ele pode encontrar em cada uma delas as “sementes do Verbo” das quais os antigos Padres falaram. Em particular, a nova evangelização precisa de uma renovada aliança entre fé e razão. Estamos mais que convencidos que a fé tem a capacidade de acolher os frutos de um pensamento aberto à transcendência e a força para curar os limites e as contradições em que a razão pode cair. A fé não é fechar os olhos, nem mesmo diante das perguntas dolorosas resultantes da presença do mal na vida e na história, a fim de invocar a luz da esperança do mistério pascal de Cristo.

O encontro entre a fé e a razão também nutre o compromisso da comunidade cristã no campo da educação e da cultura. As instituições de formação e de pesquisa – escolas e universidades – ocupam um lugar especial no presente. Onde quer que a inteligência humana é desenvolvida e educada, a Igreja tem o prazer de trazer sua experiência e contribuição para a formação integral da pessoa. Neste contexto particular atenção deve ser reservada para as escolas católicas e para as universidades católicas, em que a abertura à transcendência que pertence a cada percurso autêntica cultural e educacional, deve ser cumprida em caminhos de encontro com o evento de Jesus Cristo e da sua Igreja. Que a gratidão dos Bispos chegue a todos os que, em condições difíceis, às vezes, estão envolvidos neste processo.

Evangelização exige que prestemos muita atenção ao mundo da comunicação social, especialmente os novos meios de comunicação, nos quais muitas vidas, dúvidas e expectativas convergem. É o lugar onde as consciências são formadas, em que as pessoas gastam seu tempo e vivem suas vidas. É uma nova oportunidade para tocar o coração humano.

Um campo particular do encontro entre fé e razão, hoje, é o diálogo com o conhecimento científico. Isso não é completamente longe da fé, uma vez que se manifesta o princípio espiritual que Deus colocou em suas criaturas. Ele nos permite ver as estruturas racionais em que se funda a criação. Quando a ciência e a tecnologia não presumem encarcerar humanidade e o mundo em um materialismo estéril, tornam-se um precioso aliado para tornar a vida mais humana. Nossos agradecimentos vão também para aqueles que estão envolvidos neste campo de conhecimento sensível.

Também queremos agradecer a homens e mulheres envolvidos em mais uma expressão do gênio humano, a arte em suas várias formas, desde as mais antigas as mais recentes. Reconhecemos as obras de arte como um modo particularmente significativo de expressar a espiritualidade na medida em que eles se esforçam para incorporar atração da humanidade de beleza. Somos gratos quando os artistas através de suas belas criações realçar a beleza do rosto de Deus e de suas criaturas. O caminho da beleza é um caminho particularmente eficaz da nova evangelização.

Além de obras de arte, toda a atividade humana chama a nossa atenção como uma oportunidade em que podemos cooperar na criação divina através do trabalho. Queremos lembrar ao mundo da economia e do trabalho de algumas questões decorrentes do Evangelho: para redimir o trabalho a partir das condições que muitas vezes tornam um fardo insuportável e um futuro incerto ameaçando pelo desemprego de jovens, de colocar a pessoa humana no centro de desenvolvimento econômico, de pensar esse desenvolvimento como uma ocasião para a humanidade a crescer em justiça e unidade. A humanidade transforma o mundo através do trabalho. No entanto, somos chamados a proteger a integridade da criação de um senso de responsabilidade para com as gerações futuras.

O Evangelho também ilumina o sofrimento causado pela doença. Os cristãos devem ajudar os que se sentir mal que a Igreja está perto de pessoas com a doença ou com deficiência. Os cristãos devem agradecer a todos que cuidar deles profissionalmente e humanamente.

Um campo em que a luz do Evangelho pode e deve brilhar para iluminar os passos da humanidade é a política. Política requer um compromisso de cuidado altruísta e sincero para o bem comum, respeitando plenamente a dignidade da pessoa humana desde a concepção até a morte natural, honrando a família fundada pelo casamento de um homem e uma mulher, e proteger a liberdade acadêmica; removendo as causas da injustiça, a desigualdade, a discriminação, a violência, o racismo, a fome e a guerra. Os cristãos são convidados a dar um testemunho claro do preceito da caridade no exercício da política.

Finalmente, a Igreja considera os seguidores de religiões como seus parceiros naturais no diálogo. Um é evangelizado, porque um está convencido da verdade de Cristo, não porque é um contra o outro. O Evangelho de Jesus é paz e alegria, e os seus discípulos são felizes em reconhecer o que é verdadeiro e bom que o espírito religioso da humanidade foi capaz de vislumbrar no mundo criado por Deus e que se expressou em várias religiões.

O diálogo entre os crentes das diversas religiões pretende ser uma contribuição para a paz. Ele rejeita qualquer fundamentalismo e denuncia toda a violência que tem vindo sobre crentes como graves violações dos direitos humanos. As Igrejas de todo o mundo estão unidas na oração e na fraternidade com os irmãos e irmãs que sofrem e questionam os responsáveis ​​pelos destinos dos povos para salvaguardar o direito de todos à liberdade de escolher, professar e testemunhar a própria fé.

11. Lembrando-se do Concílio Vaticano II e referindo-se ao Catecismo da Igreja Católica no Ano da Fé

No caminho aberto pela Nova Evangelização, que também pode sentir como se estivéssemos em um deserto, no meio de perigos e falta de pontos de referência. O Santo Padre Bento XVI, na homilia da Missa de abertura do Ano da Fé, falou de uma “desertificação “espiritual” que tem avançado nas últimas décadas. Mas ele também encorajou-nos ao afirmar que “justamente a partir da experiência do deserto, a partir desse vazio, nós podemos descobrir de novo a alegria de crer, a sua importância vital para nós, homens e mulheres. É no deserto que se redescobre o valor do que é essencial para a vida “(Homilia para a celebração eucarística de abertura do Ano da Fé, em Roma, 11 de outubro de 2012). No deserto, como a Samaritana, buscamos a água e um poço do qual a beber: bem-aventurado é aquele que encontra Cristo lá. Agradecemos ao Santo Padre para o dom do Ano da Fé, um presente precioso para o caminho da nova evangelização. Agradecemos também por ter ligado este ano para a lembrança grata da abertura do Concílio Vaticano II, 50 anos atrás. Seu magistério fundamental para o nosso tempo brilha no Catecismo da Igreja Católica, que é proposta, uma vez mais, como uma referência segura da fé vinte anos depois de sua publicação. Estes são aniversários importantes, que nos permitem reafirmar nossa adesão aos ensinamentos do Concílio e nosso firme compromisso de continuar a sua implementação.

12. Contemplando o mistério e estar ao lado dos pobres

Nessa perspectiva queremos indicar a todos os fiéis duas expressões da vida de fé que parecem particularmente importante para nós, para testemunhar em Nova Evangelização.

O primeiro é constituído pelo dom e experiência de contemplação. Um testemunho de que o mundo consideraria credível só pode surgir a partir de um olhar de adoração diante do mistério de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, somente a partir do silêncio profundo que recebe a única Palavra que salva, como um útero. Só este silêncio orante pode impedir que a palavra de salvação seja perdIrmãos e irmãs,
“Graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (Romanos 1,7). Antes de voltar para as nossas Igrejas particulares, nós, Bispos vindos de todo o mundo que se reuniram à convite do Bispo de Roma, o papa Bento XVI para refletir sobre “a nova evangelização para a transmissão da fé cristã”, desejamos nos dirigir a todos vocês, a fim de sustentar e orientar a pregação e ensino do Evangelho nos diversos contextos em que a Igreja se encontra hoje para dar testemunho.

Nós agora dirigir uma palavra de gratidão a todos os homens e mulheres que dedicam suas vidas à oração e à contemplação nos mosteiros e ermidas. Momentos de contemplação devem entrelaçar com a vida das pessoas comuns: espaços espirituais, mas também físicos, que nos lembram de Deus; santuários interiores e templos de pedra que, como na encruzilhada, nos impedem de nos perdermos em uma inundação de experiências; oportunidades em que todos pudessem sentir-se aceitos, mesmo aqueles que mal sabem o que e quem procurar.

O outro símbolo de autenticidade da nova evangelização tem o rosto dos pobres. Colocando-nos lado a lado com aqueles que estão feridos pela vida não é apenas um exercício social, mas acima de tudo um ato espiritual, porque é o rosto de Cristo que resplandece no rosto dos pobres: “O que você fez para um destes irmãos meus, você fez por mim” (Mateus 25,40).

Temos que reconhecer o lugar privilegiado dos pobres em nossas comunidades, um lugar que não exclui ninguém, mas também refletir como Jesus se uniu a eles. A presença dos pobres em nossas comunidades é misteriosamente poderosa: ela muda as pessoas mais do que um discurso faz, ela ensina a fidelidade, faz-nos compreender a fragilidade da vida, ela pede oração: em suma, traz-nos a Cristo.

O gesto de caridade, por outro lado, também deve ser acompanhada de compromisso com a justiça, com um apelo que diz respeito a todos, pobres e ricos. Portanto, a doutrina social da Igreja é parte integrante dos caminhos da nova evangelização, bem como a formação dos cristãos para se dedicar a servir a comunidade humana na vida social e política.

13. Para as Igrejas nas diversas regiões do mundo

A visão dos Bispos reunidos na assembléia sinodal abraça todas as comunidades eclesiais espalhadas pelo mundo. Sua visão procura ser abrangente, porque o chamado a encontrar Cristo é um, reconhecendo a diversidade.

Os Bispos reunidos no Sínodo deram atenção especial, cheia de afeto fraterno e gratidão, a vocês, cristãos das Igrejas católicas orientais, aqueles que são herdeiros da primeira onda de evangelização – uma experiência preservada com amor e fidelidade – e as pessoas presentes no Leste Europa. Hoje, o Evangelho vem a você de novo em uma nova evangelização através da vida litúrgica, a catequese, a oração familiar diária, jejum, a solidariedade entre as famílias, a participação dos leigos na vida das comunidades e no diálogo com a sociedade. Em muitos lugares, as suas igrejas estão em meio a provações e tribulações através do qual testemunham a sua participação nos sofrimentos de Cristo. Alguns fiéis são obrigados a emigrar. Mantendo viva a sua unidade com sua comunidade de origem, eles podem contribuir para o cuidado pastoral e para o trabalho de evangelização nos países que os acolheram. Que o Senhor continue a abençoar sua fidelidade. Que o seu futuro, ser marcada pela confissão serena e prática de sua fé em paz e liberdade religiosa.

Esperamos que vocês, cristãos, homens e mulheres, que vivem nos países da África e expressamos nossa gratidão pelo seu testemunho do Evangelho, muitas vezes em circunstâncias difíceis. Nós vos exortamos a reavivar a evangelização que você recebeu nos últimos tempos, para a construção da Igreja como família de Deus, para fortalecer a identidade da família, para sustentar o compromisso de sacerdotes e catequistas, especialmente nas pequenas comunidades cristãs. Afirmamos a necessidade de desenvolver o encontro entre o Evangelho e as culturas antigas e novas. Grande expectativa e um forte apelo são dirigidos ao mundo da política e os governos de vários países da África, para que, em colaboração com todas as pessoas de boa vontade, podem ser promovidos os direitos humanos básicos e livrar o continente da violência e dos conflitos que ainda o afligem.

Os Bispos da Assembleia sinodal convidá-lo, os cristãos da América do Norte, para responder com alegria ao chamado para uma nova evangelização, enquanto eles olham com gratidão a forma como as suas jovens comunidades cristãs têm dado frutos generosos de fé, caridade e missão. É preciso reconhecer as muitas expressões da cultura presente nos países de seu mundo que são hoje muito longe do Evangelho. A conversão é necessária, a partir dum compromisso que não lhe traz fora de suas culturas, mas deixa-os no meio deles para oferecer a todos a luz da fé e do poder da vida. Como você bem-vindos em suas terras generosas novas populações de imigrantes e refugiados, que você esteja disposto a abrir as portas de suas casas para a fé. Fiel aos compromissos assumidos na Assembleia sinodal para a América, estar unidos com a América Latina na evangelização contínua do continente que você compartilham.

A assembleia sinodal abordou o mesmo sentimento de gratidão para com a Igreja na América Latina e no Caribe. Particularmente notável ao longo dos tempos é o desenvolvimento em seus países de formas de religiosidade popular ainda fixadas nos corações de muitas pessoas, do serviço caritativo e do diálogo com as culturas. Agora, em face dos muitos desafios atuais, em primeiro lugar da pobreza e da violência, a Igreja na América Latina e no Caribe é encorajada a viver em um estado permanente de missão, anunciar o Evangelho com esperança e alegria, formando comunidades de verdadeiros missionários discípulos de Jesus Cristo, mostrando-se no compromisso de seus filhos e filhas como o Evangelho pode ser a fonte de uma nova sociedade, justa e fraterna. O pluralismo religioso também testa suas Igrejas e exige um renovado anúncio do Evangelho.

A você, cristãos da Ásia, oferecemos também uma palavra de encorajamento e de exortação. Como uma pequena minoria no continente que abriga quase dois terços da população do mundo, a sua presença é uma semente fecunda em confiar na força do Espírito, que cresce em diálogo com as diversas culturas, com as antigas religiões e com os pobres incontáveis. Embora muitas vezes marginalizada pela sociedade e em muitos lugares também perseguida, a Igreja da Ásia, com a sua fé firme, é uma presença valiosa do Evangelho de Cristo que anuncia a vida, justiça e harmonia. Cristãos da Ásia, sentindo a proximidade fraterna de cristãos de outros países do mundo, não se pode esquecer que em seu continente – na Terra Santa – Jesus nasceu, viveu, morreu e ressuscitou dos mortos.

Os Bispos dirigem uma palavra de gratidão e de esperança para as Igrejas do continente europeu, em parte, marcada hoje por um forte – às vezes até agressiva – secularização, e em parte ainda ferido por muitas décadas de regimes com ideologias hostis a Deus e à humanidade. Nós olhamos com gratidão para com o passado, mas também para o presente, em que o Evangelho criou em Europa expressões e experiências particulares de fé – muitas vezes ricas de santidade – que tem sido decisivas para a evangelização de Irmãos e irmãs,

“Graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (Romanos 1,7). Antes de voltar para as nossas Igrejas particulares, nós, Bispos vindos de todo o mundo que se reuniram à convite do Bispo de Roma, o papa Bento XVI para refletir sobre “a nova evangelização para a transmissão da fé cristã”, desejamos nos dirigir a todos vocês, a fim de sustentar e orientar a pregação e ensino do Evangelho nos diversos contextos em que a Igreja se encontra hoje para dar testemunho.

 14. A estrela de Maria ilumina o deserto

Chegando ao fim desta experiência de comunhão entre os Bispos de todo o mundo e de colaboração com o ministério do Sucessor de Pedro, ouvimos ecoar em nós o comando real de Jesus aos seus apóstolos: “Ide e fazei discípulos de todas as nações [ …] e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos “(Mt 28:19,20). A missão da Igreja não é dirigida a uma área geográfica única, mas vai para as profundezas muito ocultas dos corações de nossos contemporâneos para atraí-los de volta para um encontro com Jesus, o Vivente que se faz presente em nossas comunidades.

Esta presença enche nossos corações de alegria. Grato pelos dons recebidos dele nestes dias, nós levantamos a ele o hino de louvor: “Minha alma proclama a grandeza do Senhor […] O Poderoso fez em mim grandes coisas” (Lc 1,46. 49). Nós fazemos as palavras de Maria nossa: o Senhor realmente fez grandes coisas para a sua Igreja ao longo dos séculos, em várias partes do mundo e nós queremos engrandecer ele, certo de que ele não vai deixar de olhar para a nossa pobreza, a fim de mostrar a força de sua braço em nossos dias e para nos sustentar no caminho da nova evangelização.

A figura de Maria nos guia no nosso caminho. Nossa jornada, como o Papa Bento XVI nos disse, pode parecer um caminho através do deserto, sabemos que devemos levá-lo, trazendo-nos o que é essencial: o dom da companhia Jesus, a verdade de sua palavra, a pão eucarístico que nos alimenta, a comunhão da comunhão eclesial, o impulso da caridade. É a água do poço, que faz com que o deserto florescer. Como estrelas brilham mais intensamente durante a noite no deserto, para que a luz de Maria, a Estrela da nova evangelização, brilhantemente brilha no céu em nosso caminho. Nela confiantemente nós confiamos.Nela confiantemente nós confiamos.( tradução não oficial)